Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Impressões da manifestação

Pela primeira vez participei no Rio numa manifestação a sério. Nem uma passeata do Primeiro de Maio ou do Grito dos Excluídos; nem a célebre passeata da Cúpula dos Povos. Uma manifestação de protesto contra o aumento da passagem de ônibus. Fiquei nela até a primeira bomba de efeito “moral” – até descobrir que a moral abre nos olhos.

A impressão geral é a de um amadorismo tremendo. A manifestação refletia uma convocação por facebook sem nenhum outro trabalho de preparação: 500 estudantes, numa contagem por cima! À composição social dos manifestantes se junta outra característica típica dos protestos do Rio de Janeiro. Todos os temas aparecem. Para além do aumento da tarifa do ônibus falou-se da expulsão dos índios da Aldeia Maracanã, das remoções de casas causadas pela obra da Copa, etc. Ou seja, as manifestações são menos dos interessados nos motivos do protesto do que daqueles que vão a todas. Os que vão a todas são essenciais, sem dúvida, para trazer os interessados: sempre foram eles o esqueleto dos movimentos de protesto. Mas, no Rio, temos um esqueleto sem carne.

O trajeto original era descer a Rio Branco da Cinelândia até a Presidente Vargas e talvez ir até à Central. Creio que foi mesmo a polícia que conseguiu convencer os organizadores da manifestação – aqueles que dirigiam o carro de som do Sintuff – pela 1.º de Março. Mas logo à saída da Cinelândia ficou evidente que a coisa ia correr mal. Enquanto uns caminhavam a passo lento pela Almirante Barroso, outros queria ficar protestando de forma a cortar o trânsito na Rio Branco. Ora, é certo que “o negócio é fechar a avenida!“; mas não se fecha a Rio Branco com 500 pessoas. Alguns polícias chegaram à Cinelândia com cara de querer descarregar os cacetes que empunhavam. Tudo conspirava para que tivessem essa oportunidade. Na chegada à 1.º de Março, o carro do Sintuff foi “empurrado” para uma das laterais. Mas os manifestantes tudo fizeram para ocupar não apenas a lateral mas também uma das vias da avenida. Apenas uma das quatro! A polícia quis evitá-lo mas não foi a tempo. E se não ocupamos mais vias é porque aquelas 500 (talvez menos) pessoas mal chegavam para ocupar aquela além da lateral.

Foi ao chegar ao Tribunal de Justiça que tudo se estragou. A manifestação parou um pedaço em protesto… uma boa meia hora. Até que dois polícias se dirigiram ao carro e pediram-lhe que começasse a andar. O grupo se dividiu entre os que acompanhavam o carro e os que permaneciam protestando – já batendo nos vidros – frente ao tribunal. Obviamente, isolado o segundo grupo, a pancadaria começou. Dizem que o primeiro a bater foi um polícia – e acredito! Depois rebentou uma bomba de efeito “moral” e começou tudo a correr. A organização ainda gritou “não corram; não corram!” tentando reagrupar os manifestantes obrigando a polícia a se reagrupar também. Mas nada; ninguém parou. E a polícia fez rebentar mais quatro ou cinco bombas.

Li no facebook que uns foram para o IFCS. A maioria se reorganizou e passou a Presidente Vargas ficando a protestar na Central. Mas parece que também ali houve confrontos com a polícia e os manifestantes foram obrigados a correr para o Campo de Santana. No saldo dos dois confrontos 30 presos por vandalismo.

Durante a manifestação, ouvi gritar muita coisa bonita. O que mais me agradou foi “Oh motorista! Oh cobrador! Me diz aí se o seu salário aumentou”. Mas o que mais me marcou foi o “Vem. Vem. Vem…” que junto ao carro de som se gritava para fazer a manifestação avançar. E o “Vem. Vem. Vem…” que se repetia do outro lado exigindo que o carro recuasse.

P. D. Não quero naturalizar a violência da polícia que devia ter agido de outra forma. Mas também me recuso a naturalizar o comportamento naïfe dos manifestantes que deviam ter agido de outra forma também. Sinceramente, se todos tivessem seguido a convocação do carro de som a primeira bomba de efeito moral não tinha rebentado.

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11 de Junho de 2013 - Posted by | Brasil, Segurança Rio, Sociedade Brasileira | , , ,

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