Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Sobre as manifestações no Brasil

As análises que tenho lido acerca das manifestações ocorridas recentemente no Brasil não dão conta do seu aspeto mais importante: a pluralidade das demandas. Ninguém deixa de afirmar essa pluralidade; pouca gente a analisa de fato. Perdoem-me o “excesso” de teoria: eu proponho que comecemos a ver os atos como um campo, no sentido de Pierre Bourdieu (figura abaixo).

CaptureOs manifestantes existem entre dois extremos: os que acordaram agora e os que nunca dormiram. Não é uma divisão precisa, assim como não podemos saber com que idade alguém deixa de ser novo e passa a ser velho. É um contínuo que podemos representar pelo quadrado maior da figura ou pela oposição entre A e B. Entre os que sempre estiveram há uma tensão secundária (C-D): entre aqueles que querem fazer dos atos um meio para construir um ator legitimo para a negociação política (o que implica algum grau de verticalização do movimento – a eleição de representantes – e inclui o risco de aparelhamento político do protesto) e aqueles que querem fazer de cada ato um fato político. Para estes, um ato sem tensionamento com a polícia não dá em nada.

Mas o mais importante, nestas manifestações recentes, foi que o número de manifestantes, só no Rio de Janeiro, passou de mil a 300 mil em três semanas. Isto é, o quadro pequeno determinado pela tensão C-D foi “engolido” pelo quadro maior, determinado pela tensão A-B. Quais foram as causas? E quais as suas consequências?

Causas: A meu ver, a inflação está na origem dos protestos. Assim como esteve nos protestos dos últimos dois anos: primeiro, da polícia e dos bombeiros; depois, dos servidores federais. 20 centavos objetivaram o aumento geral dos preços, dos alimentos ao aluguer de casas, nos últimos tempos. Por isso os protestos cresceram para além daqueles que vão a todas e, quando a polícia tentou acabar com os protestos pela repressão (13/6  em São Paulo e 16/6 no Rio), as manifestações cresceram ainda mais. Cresceram ao ponto da mídia ser obrigada a mudar a sua narrativa sobre elas: não eram mais uns esquerdistas vivendo no século passado. Essa virada do discurso mediático justifica as grandes manifestações de 20 de junho em todo o país.

Consequências: Muitos dos que aderiram às manifestações fizeram-no por uma espécie de adesão estética (B) que se opõe à adesão militante (A). O cartaz “Desculpe o transtorno, estamos a mudar o Brasil” e a frase “O gigante acordou” representam bem o que quero dizer com adesão estética. Algo de novo estava acontecendo, uma revolta (ainda que sem sentido) contra o estado de coisas, explodiu e todos os brasileiros quiseram participar nela. Daí a crítica da corrupção em termos generalizados que demonstram apenas uma insatisfação generalizada com o Estado, mas não o seu conhecimento. Daí um espaço vazio que a mídia tratou de preencher: Arnaldo Jabor propôs a luta contra a PEC 37, que virou uma das demandas dos manifestantes.

Mas, em oposição a isso está o programa tradicional da esquerda (fim da privatização via PPPs; mais financiamento para saúde e educação; desmilitarização da polícia e regulação dos meio de comunicação). Apesar de ser minoria, consegue se impor porque a esquerda é quem tem o poder de convocatória das manifestações. Aliás, a convocação para amanhã de uma manifestação para as imediações do Maracanã e terça-feira para as imediações do Complexo da Maré mostra essa capacidade da esquerda determinar o programa político do protesto decidindo o trajeto dele.

Não compreender esta disputa (e que o grande trunfo da esquerda é o poder de convocatória) é deixar que o sentido das manifestações seja guiado pela estética e pela mídia.

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29 de Junho de 2013 - Posted by | Ideologia, Sociedade Brasileira | , , ,

1 Comentário

  1. Muito interessante a abordagem! Aprendi! Obrigado!

    Será que no subconsciente não estaria/está subjacente uma mudança de paradigma?

    Demasiado Marx/Keynes/Friedman…

    e pouco Peter Palchinsky/Schumpeter/Elinor Ostrom…?

    Afinal o desenvolvimento está assente em PME… qualquer ser humano pode ter uma PME…

    Comentar por kiitossakidila | 29 de Junho de 2013


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