Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

A crise (ou como eu a vejo)

Já ando há algum tempo para escrever este texto. Mas não é fácil. São muitos aspetos e bem diversos. Para entender a crise há que discutir dois grandes temas. O que é o capitalismo? E qual é a forma atual do capitalismo? Aqui apenas indicarei os resultados gerais do que eu fui lendo.

Do capitalismo

Os marxistas chamam-me “consumeirista”. Trata-se de uma definição de capitalismo que deve ser atribuída a Rosa do Luxemburgo (e que eu tomo de Harvey) e não a Marx. Uma abordagem que se distingue do keynesianismo não no diagnóstico do problema, mas na solução. Enquanto o keynesianismo acredita que a ação do Estado pode resolver as causas fundamentais da crise; os “consumeiristas” acreditam que só o fim da propriedade privada poderá resolver as crises do capitalismo.

Há dois aspetos que definem o capitalismo. Primeiro, o representante (a moeda) ganhou vida própria e impôs uma dinâmica especial ao representado (à mercadoria).  O padeiro produz não para matar a fome do seu cliente, mas para fazer dinheiro. Isto tem uma vantagem: pudemos ter economias de escala sem que fosse necessário ter mecanismos de coordenação à mesma escala. O “lucro” funciona como um sinal que garante ao vendedor que tudo o que produziu serviu a alguém.

Segundo, o representado (a mercadoria) nem sempre pode acompanhar o passo que lhe é imposto pelo representante (a moeda). As crises devem-se a isso. Prova-se (ver este trabalho de Kalecki) que o salário de um trabalhador é o consumo de outro e, logo, que o lucro de um empresário é o investimento de outro. Portanto, para haver lucro é necessário que haja investimento – por outras palavras, é necessário que a economia cresça. Mas não só. Como o que conta é a taxa de lucro (a massa de lucro dividida pelo investimento acumulado) é necessário que a economia cresça exponencialmente. Repare-se que a variação do PIB (cresceu x%), o mais importante indicador económico, cujo cálculo é sempre relativo ao ano anterior, é a medida de uma progressão exponencial.

Logo, nem sempre é possível encontrar onde investir a uma progressão geométrica ou exponencial. Neste caso, o problema não é só dos investidores, mas também dos empresários já instalados que ficam sem lucro, mas também dos seus trabalhadores que ficam sem emprego.

Da forma do capitalismo

Mas não basta conhecer a essência do capitalismo. É necessário conhecer a sua aparência. E ele, a meu ver, já mudou de aparência três vezes. 1) Começou por ser a  concorrência anárquica entre pequenas empresas descrita por Mendeville e terminou sem dominado por grandes empresas. Para entender a forma atual é necessário ter uma ideia das suas mudanças de forma. E, obviamente, essas mudanças de forma estão ligadas a grandes crises do capitalismo. Nesses momentos, para continuar a crescer, não é necessário apenas encontrar novas oportunidades de investimento. Elas não aparecerão se a própria forma do capitalismo não for profundamente alterada. Penso que hoje estamos num momento assim

2) 1872. Foi a primeira grande mudança de forma do capitalismo. Até aí, o capitalismo estava limitado a umas grandes cidades: Viena, Paris, Liverpool, etc. Por isso, a sua capacidade de crescer se esgotou e criou uma grande crise. A saída dessa crise só foi possível com uma transformação no cerne do próprio capitalismo. A concorrência deixou de dar-se entre empresas, e passou a dar-se entre trusts: conjunto de empresas articuladas por um ou mais bancos. Esta dimensão de negócio permitiu que o investimento se alargasse da Inglaterra para a Índia e Portugal, da França para Espanha e Itália, e da Alemanha para a Rússia.

3) Obviamente, repartido o mundo por estas três potências, veio uma nova crise. A I Guerra Mundial foi o início traumático dessa crise. 1929 o seu auge. E apenas em 1935 se começou a desenhar uma solução. Entramos então na terceira forma que o capitalismo conheceu. Primeiro, o Estado passou a ter um papel de condutor da economia e isso tornou as economias bastante nacionais. Segundo, o Estado cobrava de toda a sociedade, via inflação (a inflação é um imposto que o credor paga ao devedor), para dar aos mais pobre. Isto era: o Estado confiscava a “poupança” dos ricos para garantir o “consumo” dos pobres. O saldo é que os ricos tinha onde investir porque tinham clientes garantidos por esta transferência de riqueza do Estado. Ficou provado na prática que é o consumidor e não o empresário que faz girar a economia e cria emprego.

Mas, em meados da década de 1970, esse modelo se esgotou. E se esgotou porque as desigualdades entre cidadão do mesmo país eram, na época (entretanto reverteu), menos significativas que as desigualdades entre países. E a transferência de riqueza operada pelo Estado (ao oferecer sobretudo serviços gratuitos) deixou de garantir o crescimento económico necessário para manter o bom funcionamento da economia.

4) A partir de 1980, o crescimento económico é garantido de uma forma perversa. O Estado vai reduzindo o financiamento do consumo dos mais pobres e passa a financiar o próprio lucro das empresas. Os novos investimentos, que garantem a viabilidade dos anteriores, fazem-se em áreas atribuídas até então ao Estado: construção de estadas, gestão de hospitais e escolas, gestão da recolha do lixo, etc.. E o Estado garante o lucro destas empresas pelo forma legal de PPPs. Ao mesmo tempo, a especulação bolsista e sobretudo imobiliária injetam dinheiro feito do ar na economia que também garante o lucro das empresas já estabelecidas. Mas esta manobra feita na década de 1980 foi pouco mais que um grande balão de oxigénio. Boa parte do lucro obtido nos últimos 30 anos aparece agora, de novo, sobre a forma de dívida. A nova forma só durou enquanto foi possível criar dívida e jogá-la para a frente.

Conclusão

Com calma. Não quero condenar apenas a perversidade da última fase do capitalismo. Creio que o José Paulo Netto (aqui uma versão mais longa, mas também mais interessante) tem razão quando afirma que o capitalismo é, desde 1970, incapaz de se reinventar a não ser com estes requintes de perversidade. De qualquer modo, o que está em jogo é isto:

a) ou se muda a aparência ou, mais exatamente, a forma do capitalismo;

b) ou se acaba com a necessidade de crescimento exponencial, colocando mecanismos de governança económica (políticos) ao mesmo nível ou superior dos processos económicos. Ou seja, se muda a essência do capitalismo – ainda que não se saiba para onde. Isto era ao que Marx chamava de socialismo.

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8 de Julho de 2013 - Posted by | Economia, Mundo |

3 comentários

  1. Estimado José,

    Parabéns pela capacidade de síntese e pela riqueza dos conceitos.

    Eis algumas reflexões para a tua superior consideração:

    1) “Portanto, para haver lucro é necessário que haja investimento – por outras palavras, é necessário que a economia cresça.”

    Nem de perto nem de longe. Não é necessário investimento para haver lucro. Não é necessário investimento para que a economia cresça.

    2) “O “lucro” funciona como um sinal que garante ao vendedor que tudo o que produziu serviu a alguém.”

    O lucro é mercúrio do termometro que indica se há ou não febre na entidade (empresa por exemplo). Há febre quando aquilo que a entidade entrega como output VALE menos do que aquilo que a entidade recebe como input. O lucro é apenas uma métrica.

    3) PIB é uma falácia.

    Exemplo 1:

    Na china quantos cortes de cabelo existem por ano?

    Quanto cortes de cabelos são facturados?

    Uma economia em que facture mais cortes de cabelos tem um PIB desajustado comparativamente com a China.

    Isto apesar de o PIB chinês aumentar por se facturar por exemplo TODOS os cortes de cabelo. Mas não mudou a economia. A economia continuou a cortar os mesmos cortes de cabelo no ano em que não os facturava e no ano que os passou a facturar.

    Agora aplique o racional a todo o trabalho das senhoras deste planeta para garantir que os homens tenham uma vida folgada…

    Exemplo 2:

    Como é que se tratam os preços transferências, o IPR (Intelectual Property Rights), os OffShore e o PIB? Logo o PIB é manipulado!

    Marx = Keynes = Friedman são todos bons rapazes mas sobretudos obedientes. São perspectivas diferentes com soluções indenticas para as elites. Caso não fossem poderiam ter morrido de acidente que é o que acontece quando se pensa diferente a elite não gosta!

    Comentar por kiitossakidila | 8 de Julho de 2013

    • Amigo Marco

      Não basta dizer que não é preciso crescer para ter lucro para ser verdade. Numa economia onde a evolução do PIB seja inferior a 2% ao ano não faltam falências.

      Mas bom. Recomendo o seguinte: dê um click onde diz Kalecki, Encontrará um trabalho onde confronta essa hipótese com as estatísticas oficiais dos EUA durante 20 anos. E usando uma potência de teste de entre 95 e 98% (muito alta para ciências humanas; mais comum às ciências exatas) confirma essa hipótese.

      Até que me mostrem que as contas de Kalecki estão erradas, vou continuar a acreditar que o lucro de uma empresa é o investimento de outra.

      Mas podia dar um exemplo. Imagine que todo o mundo é uma empresa. O que a empresa vende é pouco mais que o que paga de salários aos seus trabalhadores. Porquê? Porque os seus consumidores são os seus trabalhadores. De onde vem o lucro? Ora, dos novos trabalhadores que ainda não estão a produzir. Dos investimento acabados de fazer.

      Quanto ao resto estou de acordo.

      Abraço

      Comentar por Jose Ferreira | 8 de Julho de 2013

  2. Finalmente consegui fazer o download do documento que o José tinha sugerido anteriormente e eu não tinha sido capaz de fazer download.

    Irei ler.

    Obrigado.

    Apenas uma nota as empresas não têm lucro… o que é conseguido é o NÃO registo dos custos e despesas ou invenções de receitas/proveitos! Suspeito que as empresas teriam sempre prejuízo ou lucro muito baixo se TODOS os custos e despesas fossem registados.

    Comentar por kiitossakidila | 9 de Julho de 2013


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