Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Cavaco vs Soares

É curioso como a cena política destes dias foi dominada por uma geração que parecia ter deixado a política. Cavaco quase não falou; Soares reclamou um pouco mais. Mas o que disseram Passos, Seguro e Portas foi muito menos importante.

Cavaco passa a vida calado; mas quando fala cai o Carmo e a Trindade. Santana Lopes e José Sócrates que o digam. Passos Coelho também não deve andar feliz. No entanto, como disse alguém, ele não fala para os cidadãos comuns; é necessário que venham os “cavacólogos” às televisões explicar o que Cavaco quer. E quem melhor esclareceu o que Cavaco quis foi Joaquim Aguiar: Cavaco queria os votos favoráveis do PS para o OE de 2014. Assim, conseguindo dois terços dos votos, o Orçamento de Estado ultrapassa a Constituição da República Portuguesa. (A própria Constituição prevê que uma lei anti-constitucional possa entrar em vigor se alcançar tantos votos quantos aqueles necessários para alterar a Constituição. [Adendo: Uma vez declarada a inconstitucionalidade, a lei, ou o OE, poderá entrar em vigor se confirmada – votada novamente – por 2/3 dos deputados presentes na sessão – CRP Art. 279 § 2]). Em troca do apoio do PS, o governo aceitava fazer as malas um ano mais cedo.

Do ponto de vista do curto prazo, isto é, para garantir a estabilidade do compromisso com a troika até ao final do programa, Cavaco encontrou a saída mais inteligente. O Tribunal Constitucional deixaria de ter voto na matéria. O risco seria o de levar, a médio prazo, à PASOKização (isto é, a uma fragmentação do PS como aconteceu com o PASOK) do PS (ver aqui também). E Soares sabe muito bem que é  o PS que impede o crescimento do PCP. Assinar o acordo com o governo seria entregar a liderança da oposição a Jerónimo de Sousa – algo que van Zeller já tinha dito, na noite eleitoral de 2011, ser demasiado perigoso.

E claro, o PCP mostrou-se capaz, com a ajuda dos Verdes, de liderar essa oposição. Primeiro, os Verdes tiraram a moção de censura da cartola. Depois, o PCP pediu um conjunto de reuniões que opondo-se aquelas apadrinhadas por Cavaco, tinham tudo para redefinir a divisão comumente aceite entre direita e esquerda. O PCP tomou tanto a dianteira na oposição ao governo de salvação nacional que obrigou o BE a meter duas vezes os pés pelas mãos. Primeiro, pedindo uma reunião com o PS (ver aqui também) e depois escrevendo um vários de textos sectários contra o “sectarismo” do PCP.

Soares venceu Cavaco – fracassou o acordo de “salvação nacional”. A elite portuguesa continua com problemas de curto prazo para resolver. Vem aí, talvez, mais um Orçamento de Estado inconstitucional. Mas Soares e Cavaco vão dormir ambos tranquilos: a alterne do sistema político em Portugal foi preservado.

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20 de Julho de 2013 - Posted by | Partidos, Portugal | , , , ,

1 Comentário

  1. Brilhantes!

    Apresentaste perspectivas para as quais não estava sensibilizado!

    Partilho o que escrevi à pouco no facebook:

    “Aspectos básicos:

    0) Ninguém obrigou Portugal a:
    ::: Aderir à UE
    ::: Assinar o memorandum com a Troika

    1) Portugal não pode pagar a dívida que tem nas condições (do país) e nos termos actuais da dívida.

    2) A macro estrutura de Portugal assenta na Europa (UE).

    Possíveis consequências:

    Portanto, qualquer alteração para ser estrutural tem que implicar a saída da Europa (UE).

    Nas alturas de MAIOR crise regressa a fantasia do quinto império (de Luís Camões, de António Vieira e de Fernando Pessoa…).

    Não me admirava que os militares directa ou indirectamente tomassem o poder e se começasse a saída da Europa (UE) atrás da fantasia…

    Tal iria ser feito com cuidado (e co-gerido pela UE) para que não existam mais países [(?) Grécia] com essas vontades de fazer ressurgir nacionalismos…

    Como cenário arrojado poderá pensar-se que o tratado de ligação da UE aos EUA poderá fazer com que o USD passe a circular na Europa e o Eixo London-Washington substitua a polaridade Brussels-Washington. Assim existiriam duas máquinas de QE em funcionamento por exemplo…

    Tudo isto levanta questões interessantes: (1) de como a Rússia Keynesiana (na parte militar) e (2) a China Colbertiana (na parte mercantilista) irão reagir…

    E o “primeiro” disparo poderá ser Portugal a fazer…

    Que maravilha sermos dos últimos Homo Sapiens Sapiens no seculo XXI.

    Somos possivelmente a antepenúltima geração antes da singularity… e a emergência do Homo Singularity

    Nota 1: Como se percebe eu não percebo destes assuntos!
    Nota 2: Tenho dúvidas!
    Nota 3: Engano-me!

    https://en.wikipedia.org/wiki/Technological_singularity

    Comentar por kiitossakidila | 21 de Julho de 2013


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