Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Sobre os Black Blocs

Já faz umas semanas, pouco mais de um mês, que eu quero escrever algo sobre os Block Blocs aqui no meu blog. O texto do PSTU, equivocado, acirrou o debate. Penso que chegou o momento. Para começar, digamos que me irrita profundamente os termos do debate em que os Black Blocs se tornaram algo sagrado: quem os crítica é acusado estar do lado da Globo, portanto, ser de direita. A primeira crítica que os Black Blocs merecem não é exatamente a eles, mas ao seu entorno: a aureola que a esquerda, em particular anarquista, construiu sobre eles.

Uma questão teórica sobre teoria

Os anarquistas e os trotkistas se parecem mais do que o que creem. Os trotskistas olham para a teoria (em particular, o Programa de Transição) como a receita, uma receita de bolo, para mudar o mundo. Ora, a teoria é o domínio consciente de prática. Isto é, a teoria é o conjunto de pressupostos que nos fazem optar por este ou aquele método de luta. Sem colocar o pressupostos em debate, sem se propor a duvidar do Programa de Transição, os trotskistas só podem aparecer como “certificadores de boas práticas” de luta de massas. Enfim, só a tática decorrente de uma teoria pré-estabelecida é considerada correta.

Ora, os anarquistas estão, apenas aparentemente, do outro lado. Suas organizações se definem pela sua prática; os Black Blocs são apenas o caso extremo. O desprezo pelo debate teórico sobre a prática é tão antigo quanto o anarquismo – ao ponto de não darem conta que partilham, com o liberalismo, a mesma noção de indivíduo. Neste sentido, entre trotskistas e anarquistas não há qualquer maleabilidade tática.

Esboço de uma análise da violência

É mais ou menos partilhada por toda a esquerda a seguinte questão: 1) ninguém defende a violência, é contra ela; 2) mas todos sabem que sem violência as manifestações não atingem o impacto mediático que podem ter. No Brasil isto ainda é mais unânime. Os Black Blocs na Europa fazem da destruição do património burguês sua tática. Os Black Blocs do Rio de Janeiro se propõem como um grupo que não ataca; apenas defende os manifestantes. Este texto foi partilhado na página dos Black Blocs RJ e foi dado destaque ao ponto “Violência policial e autodefesa”. No entanto, isto é compatível com atitudes claramente provocatórias como aquela usada na manifestação de 11 de julho, em que se colocaram entre a CUT e a polícia.

É certo que a violência funciona em dois sentidos. Sem a violência de 13 e 15 de junho, da polícia sobre os manifestantes, as grandes manifestações de 20 de junho nunca teriam ocorrido. Mas é também a violência, sobretudo aquela do dia 20, que faz com que hoje muitos fiquem em casa. Ainda assim, a violência dos das semanas anteriores (a destruição da griffe Toulon) é que transformaram o Rio no epicentro da luta no país. É a violência que tem garantido que manifestações de mil ou dois mil manifestantes tenham um impacto maior do que o que têm tido até aqui.

Não admira pois esta ambiguidade: todos querem a violência desde que possam responsabilizar os outros por ela.

O maior entrave ao debate teórico

A violência parece algo totalmente prático. E, não obstante, livros famosos foram escritos sobre ela – em particular, sobre a guerra. Este, em particular, teve uma influência grande sobre o leninismo. O problema está sempre em colocar a ação em seu contexto; em lembrar que um vestido vermelho numa igreja não é a mesma coisa se se trata de um casamento ou um funeral. Os Black Blocs e os anarquistas em geral sempre tiveram dificuldade em fazer isso. Vou dar um exemplo.

Também na manifestação de dia 11 de junho, os Black Blocs tiveram a sua primeira escaramuça com a polícia logo à saída da manifestação. Não sei quem começou. Sei que estava toda a gente bem alheada do que se passava entre eles quando estouraram as três primeiras bombas da gás lacrimogéneo. O comando de greve deu, imediatamente, início à manifestação convocou os manifestantes para começar a andar. O trio elétrico saiu até em passo apressado para tirar os manifestantes dali, da Candelária, então cheia de gás pimenta. Entretanto, vejo um pequeno grupo de Black Blocs vir na direção do comando do ato a gritar: “A opressão está ali!” – indicando a polícia de choque.

Ora, o que surpreende nesta história é o modo como os Black Blocs – e, devo dizer mais uma vez, os anarquistas – são incapazes de ver que a opressão não está ali. Não estamos numa disputa militar ou proto-militar com a polícia; mas numa disputa pelo espaço publico e pelo senso comum contra o arsenal de propaganda da burguesia. E é precisamente aí que os Black Blocs estão à frente de toda a gente: a sua violência é estética, não militar. Ela disputa o espaço público. (Esta reportagem da Globo News tem o interesse de pontuar precisamente esse ponto quando afirma que os Black Blocs é um movimento estético, e não político. Só se equivocam ao desconhecer o óbvio: como mostrou a Escola de Frankfurt, a estética é política).

Comentários finais

A violência, até agora, tem sido mais favorável aos manifestantes que ao Estado. Num contexto em que já ninguém apoia Cabral, a violência assegura a visibilidade dos protestos mesmo quando o número de manifestantes é exíguo. Em outro contexto poderá funcionar ao contrário: isolar os manifestantes do apoio popular e legitimar uma intervenção mais dura pela parte do Estado. É por isso que devemos debater teoricamente a nossa prática. Só com teoria tomaremos as melhores opções práticas.

Mas para isso não pode ser permitido isentar os Black Blocs de toda a crítica.

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2 de Agosto de 2013 - Posted by | Brasil, Ideologia, Sociedade Brasileira | , ,

4 comentários

  1. O que mais impressiona é a incapacidade do autor de fazer o que ele mesmo prega: apresentar teoria sobre a violência de massas. Não apresentou qualquer elemento teórico que seja (e dizer que a violência “depende do contexto”, como quem descobre a pólvora, não pode ser sério…). É o erro dialético clássico: não apresenta teoria porque não quer entender sinceramente a realidade (pesquisar) e não entende a realidade porque não quer de fato elaborar teoria (estudar). Daí fica repetindo os repórteres da Globo News, se baseando em declarações táticas como se fosse verdades escritas em pedra; delirando sobre relações, que não faz a mínima ideia de como realmente se dão, sobre Black Bloc e anarquismo; repete os preconceitos marxistas/stalinistas sobre a teoria anarquista; e até sobre os trotskistas fala bobagens (sua “análise” não dá conta do porque pelo menos três grupos trotskistas do PSOL, por exemplo, estão defendendo a ação direta). Apresenta como um “entrave ao debate teórico” uma limitação subjetiva do próprio autor, que é a questão do caráter prático da violência. Isso nunca foi de fato um entrave no debate teórico nem para os marxistas nem para os anarquistas, é só estudar um pouco pra saber! Ao mesmo tempo a massa nunca esperou um “diploma de doutorado em teoria da violência revolucionária” para agir! O autor confunde sistematicamente a ação de vanguarda com a ação de massas (e a diferença entre “ação de vanguarda” e “ação de massas” é qualitativa e não quantitativa, como parece querer fazer parecer o texto do PSTU ao qual este acima responde, porém sem questionar esses conceitos fundamentais). Assume como realidade os preconceitos que o mesmo compartilha com a Rede Globo ao afirmar que foi a violência que “afastou” as pessoas das ruas depois do dia 20/06 (desconsidera que na plenária do IFCS imediatamente posterior houve o maior número de presentes registrado, com grande presença de movimentos de moradores de periferias, e que foi justamente a plenária mais manobrada e burocratizada pelos oportunistas, o que explicaria muito melhor a dispersão das pessoas!). No fim das contas surge a “conclusão” pós moderna: a luta não é “militar” é sim “pelo senso comum”(?!). Ora, convenhamos, que papinho diletante barato esse… Explica para os moradores da Maré que a luta pelo espaço público (e mesmo pelo privado no caso destes), não é uma luta militar, se o controle do espaço por seus inimigos é fundamentalmente militar? A forma pratica de dominação política é a militar! A teoria da violência revolucionária já demonstrou que a dominação do opressor se basei é na violência! É a violência que garante o domínio do estado e da burguesia, essa violência precisa de muito pouco para deixar sua máscara cair. Quando se ocupa as ruas e se é reprimido com bombas e balas de borracha há sim um conflito militar! A conquista do espaço público não será garantida pela conquista do “senso comum” e sim pela força! Se não, acreditamos que a polícia se sensibilizará pelo clamor da “opinião pública” e, o que é pior, “que a população não apoia a violência”! A questão é que quem se assusta com a verdadeira face da dominação burguesa fica clamando para que ela reponha novamente sua máscara! Mas a hora é de cobrir o rosto para fazer a máscara do estado cair e aí encarar de frente!

    Comentar por Peão | 6 de Agosto de 2013

    • Olá

      Obrigado pelo comentário. Gosto de saber que os meus textos são lidos; e nunca deixo de responder.

      Assim, devo dizer algumas coisas.

      1. Eu não disse que o obstáculo é o caráter prático da violência. Aliás, linkei um livro sobre ela. Eu disse o maior entrave ao debate era colocar a violência em seu contexto.

      Mas equivoquei-me. O maior obstáculo é o comportamento de certa esquerda. Criticar os Black Blocs é como quebrar santas de barro em Copacabana: há logo quem se ofenda e termine a discussão por aí. O seu comentário é um exemplo.

      2. Vc pede o que eu não quis colocar. Mas cá vai: o suposto teórico.

      A violência tem um efeito polarizador em sistemas de conflito e aliança. Ela transforma as relações entre desafiantes e autoridades, que passam de um jogo confuso e multifacetado de aliados, inimigos e espetadores casuais para um jogo bipolar em que as pessoas são forçadas a escolher lados, os aliados desertam e o aparato repressivo entra em ação. A violência é um grande poder nos movimentos, mas torna-se uma desvantagem quando aliados potenciais ficam com medo (…).

      S. Tarrow, O poder em movimento. Editora Vozes, 2009. p. 127

      Espero que tenha ficado contente.

      3. Eu recebi uma chamada no dia da manifestação no Largo do Machado: “Oi. Você vai no ato? Eu quero ir e tenho medo de ir sozinha”. Nunca disse que a violência do dia 20 foi o que afastou as pessoas; disse que foi um dos fatores. (Aliás, escrito à pressa, esqueci de acrescentar que essa era a violência policial. A polícia usou propositadamente a violência para afastar as pessoas. Só assim se explica que a polícia tenha esperado pelo jornal das 8 para bater em todas as cidades… E o requinte de crueldade que usou ao apagar as luzes da Presidente Vargas e ao jogar bombas na Lapa).

      Além disto, conheço muita gente que não vai às manifestações precisamente por causa da violência. Aliás, basta ter amigos que não são militantes para saber disto.

      4. Há um ponto demasiado ridículo no seu comentário para merecer resposta. Mas cá vai.

      “Explica para os moradores da Maré que a luta pelo espaço público (e mesmo pelo privado no caso destes), não é uma luta militar, se o controle do espaço por seus inimigos é fundamentalmente militar?”

      Daqui depreendo apenas uma coisa: que, segundo vc, devíamos estar a fazer uma campanha de recolha de fundos para comprar armas para os Black Blocs.

      A violência dos polícias não é estética – foi somente no dia 20, e para meter medo. (Já que gosta de teoria, estou entendo “estético” no sentido de Lukács). Mas a dos Back Blocs funciona porque é; porque mantém as manifestações na televisão, não porque mata policiais.

      5. Isto é apenas um apontamento. Quando escrever suficientes apontamentos, eu faço uma análise teórica. Não uma análise dos dados a partir da teoria; mas uma teoria localizada a partir dos dados. (Por esta razão é que não citei logo Tarrow).

      Abraço e volte sempre

      P. D.: De fato, estou mais interessado em ganhar a opinião do garçom do bar da Lapa (o senso comum) que acredita que os policiais têm sempre razão, do que em mandar um policial para o hospital.

      P. D. 2: Não entendi onde confundi o papel da vanguarda com o papel das massas. Creio que não entendemos a mesma coisa por vanguarda. Felizmente nem usei a palavra vanguarda.

      P. D. 3: As minhas críticas aos anarquistas são precisas: as que fiz no texto. Só tenho uma geral: partilham a ideia de natureza e de indivíduo com os liberais. (Se tem dúvidas, leia este texto). Embora eu acredite que aqueles erros concretos derivam deste erro geral.

      Comentar por Jose Ferreira | 6 de Agosto de 2013

  2. Olá, José! acho que convergimos BASTANTE em linha de análise. posso te mostrar uns textos que tenho escrito sobre tudo o que está ocorrendo tbm. Creio que seria bem enriquecedor nos comunicarmos. Tem facebook? O meu é “Breno Pacheco” mesmo. Responda essa msg ou me adcione lá (caso vc tenha)!

    “Formação política, clareza dos objetivos e capacidade de análise de conjuntura serão dos fatores determinantes para o futuro da ação direta urbana no Brasil, seja ela violenta ou não violenta”. (última frase de matéria da CartaCapital sobre os Black Bloc)

    Parabéns pelos apontamentos! (ainda não teoria rsrsrs)
    Grande abraço!

    Comentar por Breno Pacheco | 6 de Agosto de 2013

    • Olá Breno

      Obrigado pelo comentário. Alguns pontos. Na verdade, dois:

      1. Eu acho que análise de conjuntura é algo que só podemos cobrar de nós mesmos. Eu defendo que a luta é mais eficaz quando uso a teoria para antecipar a prática. Mas é na prática, e não em teoria (através da argumentação), que eu devo provar isso. Neste sentido, sem teoria, os Black Blocs estão à frente na prática… E é exatamente por isso que estamos aqui a falar deles.

      2. É precisamente por essa razão que isto é um apontamento, e não uma teoria. Sou português vivendo no Rio. À distância, eu fui criando um método que chegou a me permitir antecipar viradas de conjuntura em um mês. Mas só consegui montar uma teoria depois de um ano de apontamentos. E um ano depois fui obrigado a corrigir essa teoria.

      Por apontamentos, estou entendendo os comentários que faço no blog. Por teoria, estou falando das análises da dinâmica entre classes e frações de classe que vc pode encontrar na aba “Estudos”. Sobre o Brasil tenho muito pouca coisa escrita ainda para fazer uma sistematização desse tipo.

      Ainda assim, lembro que uma teoria só se torna política quando a sua conclusão é eminentemente prática. Portanto, – e esta é a minha definição de vanguarda – só é vanguarda quem, antecipando a realidade com ajuda da teoria, pode fazer hoje o que se comprova necessário daqui a algumas semanas ou meses depois. Pois é com o exemplo, e não com palavras, que a vanguarda “educa” as massas. Com isso, vai ganhando o respeito e o apoio das massas. Ganho esse respeito e apoio, a massa começa a agir imitando essa minoria e, por isso, se prepara mais cedo para o embate com a burguesia. Pois, a única maneira de derrotar a burguesia hoje é jogar na antecipação.

      Utópico? Talvez! Mas, como diria um poeta comunista e português, “o sonho comanda a vida”.

      Abraço

      Comentar por Jose Ferreira | 8 de Agosto de 2013


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