Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Capitalismo e indústria bélica

Li, finalmente, o texto de Arjun Appadurai sobre a vida social das coisas. De tudo o que li, o que mais me fascinou foi a recuperação de um tese de Werner Sombart, que eu não conhecia. Este sociólogo e economista alemão elaborou uma tese acerca da emergência do capitalismo que se opõe tanto à de Karl Marx quanto à de Marx Weber. Os três olham o capitalismo como um sistema económico assente no crescimento exponencial da mercadoria. Mas enquanto Marx e Weber atribuem isso às vicissitudes da produção – respetivamente, à concorrência e luta de classe e à “ideologia” (ou, mais exatamente, ética) protestante – , Sombart afirma que tal transformação se funda no aparecimento da moda.

Appadurai reconhece que a argumentação de Sombart deixa a desejar; mas indica de seguida que a historiadora Chandra Mukerji refaz, de forma bem fundamentada, as as críticas a Marx e, especialmente, a Weber. Sombart, Appadurai e Mukerji concordam com Marx e Weber que o capitalismo se distingue pelo crescimento geométrico das mercadorias; mas vêm o motor desse dinamismo no consumo. Da seguinte forma:

Em todas as sociedades existem mercadorias restritas à sua elite. Apaddurai dá o exemplo do kula, na Malinésia, estudado por Bronislaw Malinowski. Mas essa restrição é moral ou legal. O advento do capitalismo resulta, por um lado, do afrouxamento das regras que restringem o acesso a mercadorias distintivas e, por outro, da busca de distinção por meio do consumo sumptuoso que apenas as elites se podem dar ao luxo de fazer. É assim que nasce, no ocidente, a moda: a demanda voraz de bens de luxo (têxteis de seda e algodão) que permite, ao Ocidente, desenvolver a tecnologia que associamos à Revolução industrial. E, claro, numa espécie de trickle-down theory modificada, os autores argumentam que foi o desenvolvimento tecnológico associado à produção de bens de luxo que permitiu – uma vez aplicada essa tecnologia aos bens de uso comum – criar a produção em massa e o consumo de massa que define o capitalismo.

Já muito foi dito sobre a oposição entre Weber e Marx – eles se complementam mais do que se opõe. Entre Marx e Sombart (ou, mais exatamente, Appadurai) a relação é do mesmo tipo. Se os quiséssemos opor, Marx sairia ganhando. Nas crises do capitalismo há um desajuste entre a oferta e a demanda porque a primeira ultrapassa a segunda, e não porque lhe fica aquém. Parece portanto indiscutível que o motor do capitalismo está do lado da produção. Mas, ao mesmo tempo, Sombart/Appadurai “perde” o embate com Marx porque “desliga” o consumo da produção – que, para Marx, são inseparáveis. É, por este caminho que Sombart pode ser usado para aprofundar a teoria marxista.

Para Marx, o consumo está duplamente ligado à produção. Em primeiro lugar, a mercadoria se define como tal porque é consumida. Nas palavras de Engels, “o prova da existência do pudim está em que o comemos”. Ou, segundo Marx, o consumo é a última etapa da produção. Em segundo lugar, não há consumo em geral. Falar do consumo das elites é falar do consumo de um conjunto de indivíduos que se encontra em um lugar determinado da divisão social do trabalho, isto é, produção. (Vale recordar que Marx tinha uma noção de economia bem mais ampla que a que hoje conhecemos. Foi nos primeiros anos do século XX que a “economia” foi definida de modo restrito, excluindo dela, por exemplo, a política. Economia, para Marx, é a divisão social do trabalho).

Juntando Marx a Sombart, partimos do princípio que o capitalismo se define pelo crescimento geométrico da produção de mercadorias. Que o motor desse fenómeno são a concorrência e a luta de classes. E que o capitalismo busca, em primeiro lugar produzir bens de luxo; somente de forma secundária produz bens de uso comum.

Isto permite reelaborar um tese de István Mészáros, segundo a qual a proliferação das industria bélica indica uma crise profunda do capitalismo. Não podendo mais expandir a produção de utensílios de uso quotidiano, o capitalismo investiu em armas cuja demanda é, aparentemente infinita. Afinal, um Estado o não compra uma bomba nuclear apenas quando usou as que já tinha como o indivíduo compra uma escova de dentes quando a sua já está gasta. Basta que surja uma bomba nuclear mais moderna para que os governos, em concorrência, sejam obrigados a se atualizar. Visto pelo prisma de Sombart, o movimento é ao contrário. A indústria bélica é o “consumo de luxo” do séc. XX – aquele consumo que dá prestígio e poder a uma elite. E na produção de armas se forja a tecnologia que é, depois, usada na produção de utensílios comuns. A história do séc. XX parece confirmar isto. A tecnologia que hoje utilizamos foi, antes de tudo, usada para fazer armas. Foi para fazer armas que se inventaram os fertilizantes, os motores (de automóveis), a informática, etc. Assim sendo, torna-se difícil aceitar que a importância atual da indústria bélica para o capitalismo seja indicador de um profunda crise do capitalismo; é antes revelador da forma atual do capitalismo.

É certo que existe atualmente uma crise do capitalismo. E que a indústria bélica está de alguma maneira a salvo dessa crise. Mas porque é um “bem de luxo” e não uma “rampa de fuga” para a atual crise do capital.

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13 de Agosto de 2013 - Posted by | Mundo | , , ,

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