Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

António Borges

Morreu, aos 63 anos, António Borges: economista neoliberal que mereceu a confiança de Strauss-Kahn e se tornou, depois, o ideólogo do atual governo português. Do seu trabalho, conheço apenas o último período. Um economista brilhante sem jeito para a política? Talvez. Mas sobretudo um homem que, nestes últimos dois anos, prestou um mau serviço ao país.

Há três pessoas que são responsáveis pela política que foi colocada em marcha em meados de 2011: Passos Coelho, António Borges e José Gomes Ferreira. O executor, o ideólogo e o “publicitário”. Uma política define-se em três aspetos: as suas intenções abstratas; as suas intenções concretas; e, como de boas intenções está o inferno cheio, os seus resultados.

Do ponto de vista abstrato, estes três homens defenderam o neoliberalismo em Portugal como nunca tinha sido defendido. Passos Coelho defendeu ainda em 2009 a privatização da saúde e da educação. Mas o seu grande adversário – e aqui passamos às suas intenções concretas – era a banca. De todos os lobbys, o mais importante em Portugal é o setor bancário que, sobretudo através da especulação imobiliária e PPPs, se tornou um sorvedouro de dinheiros públicos e privados. (Segundo Vítor Bento, citado pelo Agostinho Lopes, este setor retira 15% dos lucros aos outros devido ao conluio com o Estado). Ou seja, a intenção concreta desta troika era acabar com um modelo económico, que Soares começou a construir e Cavaco terminou, onde os bancos e a especulação imobiliária são o motor da economia portuguesa… E o Estado existe para cuidar desse motor.

A banca era o seu alvo principal, mas não o único. Passos Coelho, Borges e Gomes Ferreira são liberais em toda a linha. Portanto atacaram igualmente os direitos dos trabalhadores e os serviços públicos. E contra adversários mais fracos conseguiram resultados importantes. A única reforma “estrutural” conseguida por Passos Coelho foi a liberalização dos despedimentos. O ministro Nuno Crato, cheio de planos para melhorar a educação, foi obrigado a fazer apenas um plano de corte nas despesas. E por aí vai. Todos, à exceção da banca, que reclamavam a intervenção do Estado sobre a sociedade, foram jogados porta fora.

Dentro do governo ficou apenas a banca – o inimigo declarado de Passos e Borges, ao qual tiveram que se torcer. Eis o resultado real no “neoliberalismo” de ambos. (Nota: Como comentador político, José Gomes Ferreira pode continuar a protestar contra a banca. Ricardo Salgado e Faria de Oliveira permitem. São palavras destituídas de consequências práticas).

Enfim, António Borges deixou-nos o contrário do que pretendia; morre num momento em que a política que defendeu em 2011 foi claramente derrotada.

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26 de Agosto de 2013 - Posted by | Economia, Portugal | , ,

2 comentários

  1. Mais um artigo brilhante.

    Apenas sugiro que revejas esta frase, por favor, “Mas sobretudo um homem que prestou um mau serviço ao país.”

    Quanto ao resto só alguém inteligente como tu consegue captar a substância MUITO para além da forma!

    Parabéns!

    Comentar por kiitossakidila | 26 de Agosto de 2013

    • Olá

      Desta vez, eu não gostei do meu artigo. (Não só desta!). Fui contraditório porque incapaz de descrever uma realidade em si contraditória. O “neoliberalismo”, já o escrevi aqui, é contraditório. (Daí também a sua força. Ao produzir o contrário do que deseja, não só lava as mãos do que produz como também se apresenta como solução para os problemas que cria). Ele acaba produzindo o contrário do que deseja porque parte de pressupostos equivocados: que a economia funciona bem quando o Estado desampara a loja. Mas a experiência mostra que o Estado só pode desamparar a loja dos fracos; desamparar a loja dos fortes seria o caos económico. Portanto, o “neoliberalismo” retira o apoio do Estado aos mais fracos, mas cala-se ante os mais fortes. Basta ver o que acontece com o setor bancário português hoje! Mas o pior de tudo isto é que o “neoliberalismo” transforma o Estado: ele deixa de ser um lugar de disputa de interesses, de fracos e fortes, para ser um instrumento apenas ao serviço de alguns, os mais fortes, geralmente a banca.

      Abraço

      Comentar por Jose Ferreira | 26 de Agosto de 2013


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