Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Quando o liberalismo quase foi socialismo

Há dois momentos da história política recente que devem ser estudados ao detalhe. O momento em que Soares dos Santos foi o atabalhoado líder da oposição, em que a burguesia entrou numa guerra aberta entre frações e expôs as suas fraquezas; e os primeiros quatro meses do governo de Passos Coelho. Quando o neoliberalismo real, isto é, o enriquecimento dos bancos à custa dos impostos dos outros, foi substituído pelo neoliberalismo livresco; quando se quis tirar o lobby da banca e seus aliados (construção civil, empresas de energia e alguns mais) do Estado.

Já comentei aqui no que isso deu: quatro meses depois, Ricardo Salgado e Fernando Ulrich tinham vergado Passos e Gaspar. Mas o debate em torno da estratégia e da lei de recapitalização da banca deveria ser estudado ao detalhe. A ideia de Vítor Gaspar era a seguinte. O Estado não pode emprestar dinheiro aos bancos porque entra como dívida; para ser considerado capital do banco, o Estado deve comprar ações. Mas comprará ações especiais, que não dão direito ao Estado intervir no banco; funcionarão como um empréstimo, pois o governo compra-as a baixo do seu valor e vende-as, assim que o banco quiser, ao valor de mercado – esta diferença será uma espécie de taxa de juros. No entanto, se ao fim de três anos, o banco não conseguir recomprar as ações especiais elas são convertidas em ações normais. O gestor João Talone foi taxativo: em três anos a banca estará nacionalizada.

Como seria de esperar, Gaspar desistiu da sua ideia. Inventou uma fórmula legal em que uma coisa que não era bem um empréstimo comprava uma coisa que não era bem ações. Ou seja, ainda que os bancos não pagassem, o Estado jamais viria a ser seu dono. Ademais, a gestão tragicómica da dívida portuguesa garantiu lucro a esses mesmos bancos que puderam assim devolver o dinheiro que pediram de emprestado ao Estado. E vale recorda que não foi o PS, perdido com um Sócrates refugiado em Paris, que fez oposição ao governo; nem o PCP ou o BE, incapazes de desafiar o curto “estado de graça” de Passos Coelho. Foi a própria banca organizando seminários, conferências e reuniões.

Enfim, a única vez que um governo tentou enfrentar o maior “interesse instalado”, ou “direito mais bem adquirido” em Portugal, foi obrigado a dar um passo no sentido do socialismo. Isto quer dizer qualquer coisa.

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21 de Setembro de 2013 - Posted by | Economia, Portugal | , ,

2 comentários

  1. Oh! Zé. Este artigo baralha-me ! Creio que em tempos escreveste que o Governo era uma manta em que uns puxavam para a cabeça e outros para os pés, isto é, o lobby das exportadoras – cuja competitividade é baixa a nível internacional e não me parece que poderiam vingar sem o apoio da banca, mais interessada na usura e na especulação financeira, na sequência lógica do capitalismo tentar contrariar a baixa tendencial da taxa de juro – e o lobby das banca/empresas de construção civil e obras públicas. Nãaturalmente a banca tentou e conseguiu “reinar” em seu proeito.

    Mas não entendo como é que os liberais de pacotilha tutelados pelo PR defenderiam uma politica socialista sem comas)e se pretenderiam e com que objectivo “nacionalizar” a banca, num contexto em que a propriedade capitalista dos meios de produção não é posta em causa !

    Os vilões da fita seriam o PCP e o BE e os “heróis” a banca que pôs fim ao “estado de graça” de pedro e paulo e seus muchachos ? Não fosse a banca e apesar do PCP e do BE a “graça” continuaria, Mas pedro e paulo não sabiam ao que vinham ? E vinham pelo socialismo ? Mais uma narrativa ao jeito de sócrates ?i

    Comentar por Victor Nogueira | 24 de Setembro de 2013

    • Olá, Vitor.

      De facto, eu quis ressaltar a própria ironia da realidade. Quanto ao PCP e ao BE fui realista: não contaram para o totobola. Aliás, o PCP e o BE estiveram calados. Jerónimo de Sousa apenas afirmou que se a banca não quer o dinheiro, Passo deveria negociar com a troika a sua injeção direta na economia via Caixa Geral de Depósitos.

      Quanto ao resto, resume-se assim: este governo viu-se num beco sem saída: ou nacionalizava a banca; ou financiava a banca. De todos os modos não podia ser liberal a sério: ser liberal a sério era deixar a banca falir e levar o país para o caos económico. Então restavam duas opções: ser socialista ou ser pau mandado dos banqueiros. Passos Coelho e Vítor Gaspar decidiram-se pela segunda opção.

      Ou seja, Gaspar provou que a grande “reforma estrutural” que Portugal precisa é a nacionalização da banca. Sem querer abriu a caixa de pandora. Mas em quatro meses fechou-a de novo.

      Abraço

      Comentar por Jose Ferreira | 24 de Setembro de 2013


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