Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

A caminho de um Estado sem esperança

Hoje, João Cesar das Neves, escreveu no DN um texto que intitulou A pobreza do discurso. O argumento é simples: os pobres não têm voz. Logo, quem fala de pobreza é a classe média, não é realmente pobre. Cito: “As despesas públicas são feitas para o benefício primordial da classe média (…). Como nas décadas de endividamento os benefícios seguiram esse princípio, dirigindo-se para os extractos intermédios, agora é aí que cai o corte nas despesas”.

Obviamente, o argumento peca, em grande medida, por omissão. Afinal, qual o benefício da “classe média” com PPPs e SWAPs? Foi só a “classe média” que beneficiou dos 25 anos em que Estado promoveu ativamente a construção civil – seja bonificando o crédito à habitação, seja pelas obras públicas, seja tolerando uma lei de ordenamento do território que favoreceu, de sobremaneira, a especulação imobiliária. (Como mostraram os sociólogos e filósofos franceses da década de 1970, não há ato mais ideológico que escolher sobre o que falar! Pois ele implica, implícita e, quase sempre, inconscientemente, escolher sobre o que não falar).

Mas mesmo pondo de lado o viés ideológico, o artigo de João Cesar das Neves é equivocado. A oposição que realmente existe, já o disse aqui, é entre funcionários públicos e trabalhadores do setor privado. Se é verdade que são os primeiros que estão nas ruas é porque os patrões privados destruíram os sindicatos. São, apesar de tudo, “manifestações de remediados” (as palavras são de JCN) que lutam pela permanência de um Estado social que permite que os remediados ainda não sejam pobres. Que importa que o façam pela defesa do seu emprego? E, sobretudo, que importa àqueles que afirmam que é a ganância do padeiro em ganhar dinheiro que te coloca o pão na mesa? Defender a existência de uma classe média é defender a possibilidade real dos pobres vierem a deixar de sê-lo. Defender os pobres a despeito da “classe média” é simplesmente brincar à caridadezinha.

Post Script: Não deixa de ser curioso outro não-dito de João César das Neves. Os pobrezinhos não falam, mas as suas ações são cheias de significado. Não ficaria bem a João César das Neves tentar uma interpretação desta notícia?

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4 de Novembro de 2013 - Posted by | Economia, Ideologia, Portugal | , ,

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