Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

A importância da conjuntura

Nos últimos dois ou três anos venho insistindo que a esquerda presta pouca, mas muito pouca, atenção às contradições internas da classe burguesa. Consequentemente é incapaz de antecipar o seu devir. Mas tenho ido mais longe: num momento em que a hegemonia da burguesia está mais ou menos estabilizada, as contradições internas da classe burguesa se tornam mais importantes que as contradições de classes.

Por todo lado tenho sido criticado. Pelos amigos de bar, e por pessoas bem autorizadas (Virgínia Fontes, por exemplo, num pequeno debate organizado há alguns meses atrás por alunos de ciência política na UniRio). A resposta é sempre a mesma: em última análise, o capital de quem investe no setor automóvel, na  construção ou na agricultura é do banqueiro. Não há, portanto, frações na classe burguesa. Não há contradições! Há, no máximo, atritos entre gestores – capitalistas de segunda linha.

Parece-me, no entanto, mais do que isso. Quando, como está a acontecer agora no Brasil (ou já aconteceu: estas informações são tornadas públicas com atraso), o capital se move do setor industrial para a especulação com a dívida europeia, nem todos se deslocam à mesma velocidade. Uns antecipam o movimento; outros procuram evitá-lo. São estas divergências conjunturais, por certo, mas divergências de facto que estão por detrás dos tropeços de quem quer mediar os conflitos internos da burguesia – Dilma Russef (o debate de há uns meses atrás sobre inflação foi muito condicionado por isto) ou, em Portugal, Passos Coelho.

Divergências conjunturais mas… não é no dia-a-dia, na conjuntura, que se faz política? Será possível formular uma estratégia verdadeiramente marxista se a análise materialista e dialética não chega a analisar essa estratégia? Se o tropeço do “inimigo” é relativizado em vez de antecipado e aproveitado? Não estaremos equivocados no uso do marxismo? Não estaremos a usá-lo apenas para justificar a nossa prática (fazer a análise de todas as injustiças do sistema capitalista) e não para elaborar a nossa tática? Será então a nossa prática, como queria Marx, verdadeiramente científica?

O outro lado da moeda é que também a classe operária não tem contradições. Ela está dividida porque os seus membros são “alienados” e os seus dirigentes são “sectários”. Portanto, construir a unidade da classe operária não é fazer apelos éticos… nem dizer mal dos outros!

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13 de Novembro de 2013 - Posted by | Ideologia, Partidos | , , ,

8 comentários

  1. Como entender o que se passa com a burguesia se não entendemos o que se passa nos trabalhadores (por obra da burguesia)?
    Falas em contradições entre a burguesia e contradições da classe operária, mas o que realmente decide a correlação de força tanto no Brasil como em Portugal são os empregados do sector dos serviços.
    Repara nos números oficiais na wikipédia sobre a distribuição da força de trabalho por sector.
    Brasil: indústria 14%, Agricultura 20%, Serviços 66%.
    Portugal: indústria 28%, Agricultura 11%, Serviços 59%.

    Comentar por Rocha | 14 de Novembro de 2013

    • Olá

      Obrigado pela leitura e pelo comentário. Três questões.

      1. Tenho algumas dúvidas de que só os trabalhadores da indústria sejam realmente operários. Certas leituras lukacsianas d’O Capital apontam para que outra leitura. Nenhum patrão explora diretamente o seu empregado; é a classe burguesa que explora a classe operária. Porquê? Ora, porque o produto só está acabado quando é consumido; o sapato só está acabado quando é calçado. Assim, a produção do sapato começa na fazenda que cria o boi e termina na mão do cliente que o compra no centro comercial. Logo, não é o dono da fábrica de sapatos que explora os seus trabalhadores. Para que os sapatos sejam produzidos é necessário que o dono da fábrica de sapatos se articule, a montante, com o criador de gado que dá o couro; a jusante, com o dono do centro comercial; e transversalmente com a banca. Esta coligação capitalista é que explora os trabalhadores que mobiliza: o peão rural, o operário da fábrica de sapatos, o funcionário do banco, o vendedor de sapatos, etc. Em última análise, é necessária toda a classe burguesa para explorar toda a classe operária.

      Essa diferenciação dos operários como proletários da industria é da II Internacional e posterior à morte de Marx.

      2. “Como entender o que se passa com a burguesia se não entendemos o que se passa nos trabalhadores (por obra da burguesia)?” Precisamente porque é pelo conhecimento da burguesia que se começa. As suas contradições tornam-se claras na medida em que vamos encontrando uma certa lógica nas decisões dos governos, na medida em que é essa classe que dirige o país.

      Antecipando um texto que estou escrevendo, direi que André Singer tem alguma razão quando divide o país entre “coligação rentista” e “coligação produtivista”. Dou-lhe razão nesta divisão e coloco, como ele, a burguesia financeira e o agronegócio de um lado e os industriais do outro. Ao contrário dele, não acredito que a classe operária lidera esta coligação produtivista à qual a burguesia industrial se associou; pelo contrário, a coligação produtivista resulta da cooptação da burocracia sindical pela burguesia industrial.

      O governo de Lula da Silva se tornou viável à medida em que a) as exportações industriais para a América Latina foram retirando o peso dos comodities agrícolas na balança de exportação; b) a burguesia financeira, por isso mesmo, passa a um lugar neutro, apoiando tanto a industria quanto o agronegócio; c) a burocracia sindical se deixa cooptar pela burguesia sindical. As transformações para o governo Dilma devem-se a) uma quebra no valor das exportações industriais (devido à queda do dólar) e à valorização das comodities agrícolas; e b) à estratégia do PT em deixar de ser o representante da coligação produtivista para passar a ser o fiel da balança do braço de ferro entre as duas.

      Ora, esta opção da burocracia sindical teve dois efeitos sobre a classe trabalhadora no Brasil. Visíveis, pelo menos, no Rio. (Reconheço que pouco sei sobre o resto do país). A desorganização e fragmentação da classe… Ao que se somam os efeitos da reorganização pós-fordista do trabalho. Sobram os estudantes e adjacências (professores) que são um grupo irremediavelmente mobilizado. E claro, com adesões pontuais, mais estéticas que políticas, como foi a mobilização de 20 de junho.

      Sobre Portugal, tenho aqui uma análise mais detalhada.

      3. O meu argumento é este: quando vamos desmontando a realidade, da sociedade como um todo para as classes, das classes para as frações e sub-frações, etc. acabamos por nos encontrar a nós mesmos e conseguimos ver-nos a nós próprios a partir de fora… Criticamente! É assim que a teoria se torna prática. E que a política se torna científica, no sentido de Marx.

      Exemplo: A meu ver, a pulverização do discurso anti-capitalista no Brasil, deve-se, ao facto de que ele está alicerçado sobre os estudantes: para quem está na vida académica, uma vírgula é tudo! Assim terminamos a brigar por vírgulas. A unidade entre os partidos de esquerda jamais será possível enquanto a militância ativa destes continuar a passar sobretudo pelas universidades. Enquanto alguns apelam para uma coligação presidencial PSOL-PSTU-PCB-PCO, eu simplesmente digo que isso só vai acontecer quando os partidos saírem das universidades.

      Abraço

      Comentar por Jose Ferreira | 14 de Novembro de 2013

      • Obrigado pela resposta.

        Lamento mas não consigo aceitar essa indiferenciação entre o operário industrial e o empregado dos serviços. Operário é diferente de empregado. Não achas que a minha opinião é mais consensual nas direcções dos partidos de esquerda e em particular nos partidos comunistas?

        E apesar disso (ou talvez por isso), sinto à muito tempo da parte dos dirigentes comunistas uma falta de esforço na organização e luta no sector dos serviços em particular no enorme sub-sector do comércio. Ou a incapacidade de gerir a luta quando a precariedade laboral está totalmente generalizada e os sindicatos têm de lutar por trabalhadores que efectivamente não podem ou não têm condições para pagar cotas regularmente.

        De qualquer forma mesmo que eu aceitasse essa designação (de que são ambos operários, uns da indústria e outros dos serviços) a situação social, cultural e a psicologia das massas (a consciência de classe, o elemento subjectivo) dos trabalhadores nos serviços e nas fábricas é claramente diferente. Não é por acaso que os sucessos dos sindicatos é diferente nesses dois sectores e os próprios métodos da luta sindical se distinguem pelas diferentes abordagens nos dois sectores.

        Repara que a precariedade, desemprego e economia paralela e informal se distinguem particularmente nos serviços. Isto é algo que me faz pensar até se o sobredimensionamento que o capitalismo operou neste sector dos serviços (extraído aos camponeses através do êxodo rural) não terá sido parte de uma estratégia de criar uma grande massa de miseráveis urbanos acorrentados por mil teias a uma precária e passiva existência de quase mendigos.

        Não estará a chave para o avanço decisivo da aliança dos trabalhadores e do povo na luta de classes a interpretação correcta de quais os métodos que desbloqueiem a luta no sector dos serviços?

        Abraço
        Rocha

        Comentar por Rocha | 14 de Novembro de 2013

    • Rocha

      De facto, se apelo para a “indiferenciação” entre os trabalhadores do comércio e os operários de uma fábrica de sapatos é porque acredito que a diferença está em outro lado, e não na produção de valor. Todos produzem valor!

      Para mim, a diferença está na organização: desde o modo de organização da produção (tecnologia, gestão de recursos humanos, etc.), que é a causa da diferenciação interna dos trabalhadores e, consequentemente, da existência de frações de classe; ate à organização partidária.

      Por isso é que é tão difícil organizar trabalhadores de lojas de shopping como trabalhadores das pequenas empresas que, em Portugal, fazem os móveis que são vendidos em centros comerciais. A fragmentação das unidades de trabalho coloca dificuldades à constituição de sindicatos. Pelo lado contrário, o trabalho fica mais fácil nas grandes fábricas de automóveis ou de cimento (se um António Choia não atrapalhar) do que nesses lugares.

      Abraço

      Comentar por Jose Ferreira | 14 de Novembro de 2013

      • Estou a ler a tua análise sobre Portugal. Não estando eu de acordo com tudo é uma boa leitura. Quando dizes que é detalhada, é mesmo.

        Comentar por Rocha | 14 de Novembro de 2013

  2. Acho que este texto é precioso.
    Uma análise rigorosa impõe conhecer muito bem o adversário.E saber aproveitar todos os seus pontos fracos, todas as suas contradições.
    “A arte da Guerra foi lida por muita gente que não era nem de perto nem de longe marxista.
    Mas também foi lida por Vo Nguyen Giap
    Abraço
    De

    Comentar por De | 15 de Novembro de 2013

    • Obrigado pelo elogio.

      Mas eu ainda acho que a questão é mais profunda. Num argumento idealista, Lukács disse que a classe operária só poderá transformar a realidade conhecendo essa realidade; e que só poderá conhecer essa realidade, conhecendo-se a si mesmo. O meu argumento é o mesmo, só que de pernas para o ar: o proletariado só poderá transformar a realidade conhecendo-se a si mesmo; mas conhecer-se a si mesmo implica conhecer a realidade. Esse era o sentido do último paragrafo do texto e do ponto 3 da resposta ao Rocha.

      Abraço

      Comentar por Jose Ferreira | 15 de Novembro de 2013

      • É um prazer lê-lo.
        De

        Comentar por De | 15 de Novembro de 2013


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