Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Ainda sobre o livro de Raquel Varela

O texto que escrevi aqui alongou um debate que ocorreu no blog 5dias depois deste texto do Renato. Publiquei-o antes de ler o texto do Renato – devo confessar – reagindo a este texto. No entanto, foi quando o João já tinha posto água na fervura que Raquel Varela deu conta e respondeu ao meu texto. Seu marido veio em sua defesa. E o Tiago Mota Saraiva deu duas achas para a fogueira (aqui e aqui), de certa maneira, em meu socorro.

Não sendo meu interesse alongar o debate, tampouco posso deixar sem resposta. António Paço tentou desmontar o meu argumento; Raquel Varela apenas o meu direito de argumentar. Mas a tentativa de António Paço falha ao não tocar no núcleo central do argumento bem capturado por um tal de NL que não conheço. Passo a citar (um comentário a este post):

(…) De resto, o essencial da crítica de José Ferreira fica por refutar: 1) a inadmissão, por parte de Raquel Varela, da hipótese do PCP estar convicto da possibilidade de uma guerra civil com correlação de forças desfavorável (sem precisar de entrar na cabeça dos protagonistas, pois, como bem diz António Paço, e José Ferreira aflora, há factos e documentos que tal sugerem…); 2) a ‘substancialização’ da classe operária em torno de «organismos de duplo poder», porventura minoritários.

(A História faz-se menos de patos e mais de ornitorrincos…)

Posto isto, tenho mais duas coisas a acrescentar.

1) A não admissão da hipótese do PCP estar convicto na possibilidade de uma guerra civil anda a par com a afirmação de que “o PCP tinha como estratégia manter o equilíbrio de Yalta e Postdam” (daqui). Infelizmente, o meu exemplar do livro em causa está em casa de meus pais, a 8 mil quilómetros de distância de onde vivo. Não posso citar! Mas bem me lembro que a adesão do PCP ao equilíbrio de Ialta e Potsdam aparece logo na introdução (ou no primeiro capítulo) do livro; isto é, no lugar de uma hipótese orientadora da pesquisa. Logo, a historiadora está a lidar com o que se passa na cabeça de pessoas como Álvaro Cunhal. Isso é possível de fazer? É! Quem leu E. P. Thompson sabe que isso não é só possível como é necessário.

2) “Substancialização” é um termo estranho para quem não é da área das ciências sociais ou da filosofia. Como sei que me lê gente sem essa formação, vejo-me obrigado a detalhar o meu argumento aqui. No livro da Raquel Varela a classe operária aparece sempre em oposição pela esquerda ao PCP. Parece que ela crê que a “classe” estava unida em torno de uma maior radicalização do processo revolucionário. Este facto é visível em dois momentos: a) na importância que dá a um acontecimento: a greve dos CTT-Lisboa; e b) no modo como despacha a consolidação da CGTP.

Quero deter-me neste último ponto. Ele parece-me o trecho mais fraco do livro não tanto pela falta de conhecimento dos factos, mas pela força do erro de “substancialização” da classe operária. Isto é, por não levar em conta que a classe, não sendo no fundo mais do que muitas pessoas, pode estar dividida em dar a prioridade às Comissões de Trabalhadores nas fábricas (como RV chega a afirmar no livro) ou dar prioridade à criação de uma confederação sindical. A oposição CTs vs. CGTP aparece, páginas tantas, como a proposta da classe trabalhadora vs. a proposta do PCP. Ora, isto é somar litros com quilos (daí que o erro seja na análise e não nos factos). A classe não tem uma vontade, uma volição; “constrói-a” (muitas aspas aqui) por meio das suas organizações. Logo, a oposição entre CTs e CGTP deve ser vista como a oposição entre os partidos à esquerda do PCP e sua base vs. o PCP e sua base.

Esta “classe” operária transformada em coisa e oposta ao PCP nota-se sobretudo quando é explicado o sucesso do PCP na construção da CGTP. O PCP confundiu os operários e propôs a unicidade aproveitando-se tendência à unidade da classe operária. Ora, existem aqui dois argumentos políticos transvestidos de argumentos científicos. 1) Que a classe operária tende à unidade. O Marx do Manifesto acreditava que sim; o d‘O Capital tem dúvidas. Lénine leva isso pouco a sério. E bons sociólogos não marxistas arrasaram essa ideia como científica. 2) Que a unidade e unicidade são coisas distintas. De facto são! Mas esta afirmação é tão científica quanto dizer que aumentos salariais causam desemprego. São afirmações que tendem a servir para tomar partido na luta política ao invés de compreendê-la. Portanto, onde a dimensão científica da sentença está subordinada à dimensão política. (A existência de uma diferença entre unidade e unicidade é, portanto, uma “falsa questão” no sentido de Žižek).

Se insisto neste ponto fraco do livro de Raquel Varela, a desastrosa explicação que dá para o sucesso do PCP em consolidar a CGTP, é porque ele leva ao estremo um erro metodológico que atravessa todo o livro: tratar classe como coisa; “substancializar” a classe operária.

Nota final: Para os interessados, existem dois textos novos sobre o assunto no 5dias. Um de Raquel Varela; outro de António Paço.

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15 de Novembro de 2013 - Posted by | Ideologia, Metodologia | , ,

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