Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Actualização da conjuntura (as “massas”)

A minha última sistematização da conjuntura política em Portugal partilhei-a aqui há mais de um ano. Lá afirmei que, dada a complexidade do capitalismo atual, a análise de classes não é mais suficiente; é preciso passar à análise de frações de classe. E que a classe burguesa se divide entre banca e amigos, de um lado, e o resto no outro, sob liderança dos supermercados. Duas atualizações da minha leitura da realidade foram feitas aqui e aqui. A primeira é sobre as relações entre frações e o papel do PS; a segunda é sobre a lógica do governo de Passos Coelho. O resultado é que a elite está literalmente acantonada, coesa a despeito de profundas divergências internas.

Já a classe trabalhadora, as “massas”, se divide em duas frações principais: os funcionários públicos e os trabalhadores do setor privado. A estas junta-se uma terceira fração constituída pelos jovens com curso universitário e no desemprego, ou em empregos precários. Esta questão tem de ser bem esclarecida, de modo a não “substancializar” as frações de classe. As classes e frações de classe não têm uma existência concreta a não ser enquanto resultado da polarização da sociedade em torno das suas contradições. Assim o que temos são duas contradições que polarizam os trabalhadores. Em primeiro lugar, o grau desigual de sindicalização, que é maior na função pública onde houve menos ataques dos patrões aos sindicatos. Como se vê nas greves gerais, é sobretudo entre motoristas de transportes públicos, trabalhadores da recolha do lixo e professores que os sindicatos encontram apoios. Aos mesmo tempo, os trabalhadores do setor privado olham para os ordenado dos funcionários públicos como o olham para o recibo de IRS e, por isso, desdenham as greves que eles fazem e “seus” sindicatos. Daí a primeira oposição!

Há depois uma segunda oposição sobretudo geracional. De um lado, os pais que já conseguiram emprego; do outro, os filhos que não o encontram. A elite bem tem tentado voltar uns contra os outros. Duas razões fazem-no fracassar: em primeiro lugar, porque os “pais” se associam à luta dos filhos, e a manifestação de 12 de março de 2011 foi uma das mais plurais dos últimos 30 anos. Em segundo lugar, porque os porta-vozes destes jovens conseguiram, talvez por causa disso, afastar esse discurso. Assim, a elite não tem conseguido explorar esta oposição, apesar de explorar bem demais a primeira – ao ponto de irritar até Pacheco Pereira.

Este “preâmbulo” vem a propósito da minha irritação com a esquerda portuguesa e do debate em curso à esquerda. A CGTP deve aumentar a intensidade da luta (“radicalizar”, se quiserem) em função das medidas radicais do atual governo? Ou deve ir no passo permitido pelas contradições internas da classe operária? (Aliás, este texto é uma resposta a este que exige a primeira opção). Esta é uma opção entre o impossível e o insuficiente! Uns recusam-se, disfarçadamente, de entrar na luta; os outros entram nela a espera da derrota – embora não o admitam. A análise de frações de classe é a única via que permite sair deste impasse.

Deste ponto de vista, temos

a) uma fração de classe capaz de se mobilizar endogenamente (a partir das suas organizações – a CGTP), mas incapaz de arrastar consigo toda a classe trabalhadora: os funcionários públicos;

b) uma fração de classe que não se mobiliza sozinha, mas depende dos conflitos internos da classe burguesa para entrar em atividade. É precisamente ela que consegue trazer todas as demais frações por arrasto; e

c) uma fração de classe desorganizada, que nunca se mobilizará a si mesma pese a ser determinante: é constituída pela maioria dos trabalhadores.

As greves gerais de março e novembro de 2012 provam isto. Em março a classe burguesa estava coesa e os “indignados” (chamemos-lhe assim), por isso mesmo, inativos. Logo, os funcionários públicos foram para a greve isolados, isolando-se! O resultado foi um fracasso; esse isolamento desmobilizou até parte dos funcionários públicos. A greve geral de novembro veio a reboque de 15S; e este foi ativado pela crise da TSU. Por isso conseguiu penetrar no setor privado de forma poucas vezes vista nos últimos 30 anos em Portugal.

Se eu tiver razão, a classe trabalhadora está praticamente condenada à derrota. (Considero que o que está em jogo é derrubar o governo… antes de ele negociar o segundo memorando. Se Passos conseguir deixar um memorando assinado ao PS como herança, um memorando a quem botar as culpas para governar à direita, esta política terá mais quatro anos garantidos de vida). As iniciativas de luta encabeçadas pelos sindicatos e funcionários públicos tendem a isolar-se e a ter pequenos resultados. (O impacto político da greve da função pública da semana passada prova-o). E os jovens tampouco conseguirão iniciar um protesto bem sucedido com esta estabilidade política.

A única janela de oportunidade que vejo vem da minha análise do caso da manifestação na ponte 25 de Abril. Na discussão sobre a legalidade da manifestação, a CGTP conseguiu introduzir instabilidade numa elite apática com medo da instabilidade. E isto apesar da CGTP continuar a contar apenas com a sua base, com três setores: transportes públicos, recolha do lixo e professores. Talvez a CGTP, se tivesse levado a manifestação até ao fim, tivesse produzido a instabilidade política imprescindível ao sucesso das manifestações convocadas (não organizadas) pelo Que Se Lixe a Troika. Talvez então o QSLT pudesse trazer toda a classe trabalhadora para a rua. E talvez assim se tivesse dado mais um rombo a um governo que parece (mas não está) coeso desde a saída de Gaspar.

Porque é que a CGTP quase conseguiu em outubro passado o que raramente consegue? Em parte, pelo simbolismo da manifestação: foi uma manifestação na ponte que ditou a queda do governo de Cavaco Silva. Em parte pela novidade! Parece que só a novidade faz tem audiência televisiva. Em parte pela legalidade discutível da manifestação… Isso fez correr rios de tinta nos jornais e preocupou o governo.

Talvez assim se perceba porque discordo deste post do Francisco e da radicalização setorial da luta. Ela tenderá sempre a separar esses setores do resto da sociedade e a assegurar a vitória do governo. A greve dos estivadores, que ninguém se lembra mais, é um exemplo disso.

Anúncios

18 de Novembro de 2013 - Posted by | Portugal, Sociedade portuguesa | , , , ,

2 comentários

  1. O que ainda não percebi, é em que é que discordas do que escrevi no meu post. Dos vários pontos que lá estão em que é que discordas…. Não deve haver democracia de base? Unidade? Fundos de Greve? Combate a fura greves? Greves indefinidas? Sendo que como escrevi tudo isso deverá estar dependente não apenas da vontade, mas dos factores objectivos. A questão é que sem vontade nada feito. Quanto ao caso dos Estivadores, correu de forma diferente que o dos varredores de Madrid, é verdade. Tal como escrevi, uma greve mesmo combativa e com solidariedade de outros sectores pode ser derrotada (o que dizer dos Mineiros ingleses em 1984?), mas se não se lutar para vencer aí haverá derrota de certeza.
    É que no meu post não advogo uma “radicalização” incondicional. Advogo que existe uma série de tácticas de luta que podem e devem ser adoptadas quando possível, criando previamente as condições para que isso ocorra. Por exemplo, em Madrid só aconteceu o que aconteceu porque de um universo de 6000 trabalhadores, 1134 iam para a rua e os restantes iam levar um corte de 40% no salário. Ao mesmo tempo era um sector minimamente organizado e coeso. Logo, não estou à espera que isso se possa replicar do pé para a mão.
    O que espero é que a luta seja travada procurando alcançar a vitória. O que espero é que parte dos elementos que listei no post sejam mais empregues.
    Sobre a actuação da CGTP, não me parece que esta deva “radicalizar” por radicalizar, isso deve ser o mais possível decisão dos trabalhadores nos seus locais de trabalho. E o que é que se entende por radicalizar? Por exemplo, para mim decretar uma greve geral não é radicalizar a luta, até acho que a greve de Março de 2012 foi um erro. Quanto à última também tenho algumas dúvidas. A radicalização não se faz por decreto, nem é sinónimo de multiplicar os protestos, o que muitas vezes leva ao seu esvaziamento. O problema é qualitativo, não é quantitativo per se.
    A questão aqui de fundo é que dizes discordar comigo, quando estás a discordar com uma extrapolação que fazes do meu texto, não com aquilo que lá escrevi. Vejamos no concreto, concordo plenamente com o que dizes acerca da ponte. Aliás isso é um óptimo exemplo de como a CGTP podia ter simultâneamente radicalizado, alargado a base de apoio da contestação e dado confiança aos sectores mais combativos. Nenhuma dessas coisas tem de ser contraditórias, aliás e isso foi uma das coisas que escrevi no meu texto, muitas vezes até são elementos que necessitam uns dos outros.

    Abraço,

    Comentar por Francisco | 18 de Novembro de 2013

    • Olá

      De um ponto de vista marxiano (nem tanto marxista), as nossas opiniões levam em conta a realidade objetiva. E não se trata aqui de uma exigência (“devem levar”), mas de uma inevitabilidade (“levam”, de facto). A questão é se o fazem de forma consciente ou não. Eis o que separa a verdade da ideologia – e eis porque não existe ideologia comunista para Marx. Onde é que eu quero chegar com isto? É que eu só posso olhar para o debate à esquerda a partir das suas condições objetivos, isto é, daquela divisão da classe trabalhadora em três frações – assumindo que eu tenho razão nessa divisão.

      Ora, a verdade é que o debate à esquerda em Portugal reproduz a contradição principal da classe trabalhadora, entre público e privado, entre (a) e (c). Não diretamente, é claro! Afinal, toda a esquerda está em cima da fração (a) e estende-se para (b). Mas precisamente porque as organizações de esquerda, em particular a CGTP, querem se apresentar como representantes de toda a classe trabalhadora, elas só podem fazer isso atrasando o passo em relação àqueles que verdadeiramente representam: trabalhadores dos transportes públicos, pessoal da recolha do lixo e professores. Em particular, dos primeiros. Assim, esta oposição se traveste de uma oposição entre base e direção. Divide assim entre os que batem na tecla da falta de vontade da direção, e os que batem na tecla das “condições subjetivas”. Entre os que querem dar o merecido troco à austeridade imposta pela burguesia; e os que não se arriscam a colocar em causa as armas da classe trabalhadora, as suas organizações, nem mesmo por isso.

      Não é difícil ver que o seu texto cai no primeiro lado da disputa. Sim, não se deve radicalizar de qualquer maneira! Mas o problema é que se essa “maneira” não vai direto àquela oposição estrutural, termina sendo vítimas dela! É por esse processo que o seu texto cai desse lado. (Neste sentido, vale acrescentar que a convocação democrática da luta, para pegar no seu exemplo, é necessária mas insuficiente. Conheço casos, sobretudo entre professores, onde democraticamente as greves foram travadas por militantes do PS que eram também trabalhadores… e eram a maioria dos trabalhadores. O Mário Nogueira, da FENPROF, conta inúmeros casos em que isto ocorreu; eu passei por um enquanto estudante).

      Enfim, o grande “beco sem saída” da esquerda não é nem uma nem outra posição, mas a incapacidade que temos tido para escapar desta posição. E eu creio que isso apenas será possível apontado diretamente à sua causa estrutural: as contradições internas da classe operária e a sua manipulação consciente pelos governos da burguesia.

      Abraço

      Comentar por Jose Ferreira | 20 de Novembro de 2013


Sorry, the comment form is closed at this time.

%d bloggers like this: