Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

A “Aula Magna” e a conjuntura

Há dias escrevi que existe na esquerda um certo descuido com a conjuntura. Que esse descuido se nota na ausência de qualquer análise que desça do nível das classes às frações de classe. Que tinha como consequência o facto de que o materialismo dialético só servir para justificar a prática política da esquerda, e não para “desenhá-la”. E que a causa seria essa mesma: a indisponibilidade da esquerda em debater teoricamente a sua ação!

Mas, com honestidade, a análise marxista de conjuntura enfrenta duas grandes dificuldades. 1) Nem sempre temos informações suficientes para fazer a ponte entre uma decisão concreta – conjuntural – e a sua base material. 2) Em segundo lugar, é necessário levar a dialética a sério. O sentido de uma ação depende sempre do seu contexto. Um vestido vermelho numa igreja não significa a mesma coisa conforme esteja a ocorrer um casamento ou um funeral. Afinal, a política tende a ser adversa a estas mudanças de sentido que a dialética analisa: provoca-as mas não as assume.

Isto pode ser aplicado ao que aconteceu na Aula Magna. Em particular para dar conta de dois pontos de vista, à esquerda, sobre o acontecimento. Aqueles que vêm nos acontecimentos uma encenação para ajudar o PS a fingir que é de esquerda, e criticam os partidos à esquerda do PS por terem participado nessa encenação. E os que dizem que não há que temer alianças, se se quer deitar este governo abaixo.

1) O PS, como já afirmei aqui, é um partido contraditório. Oriundo da classe média (da “aristocracia operária”, para usar um termo leninista), buscou a ajuda da banca – e ajudar a banca – para combater a influência do PCP na sociedade portuguesa. Hoje tem de responder a esses dois interesses díspares e por isso se tornou um partido, como dizem, ‘de esquerda na oposição, de centro em eleições e de direita no governo’. Aliás, isto também mostra o quanto a classe média perde todas as batalhas internas no PS quando as decisões do PS são para valer.

2) Por outro lado, é claro – e se houverem dúvidas basta recordar o acordo proposto por Cavaco Silva em julho – interessa à burguesia levar o governo de Passos Coelho até ao término da negociação do segundo resgate. Já se sabe que o PS não vai assinar. Mas adivinha-se que irá executá-lo em nome dos compromissos assumidos pelo país. É esse o jogo: para que Seguro possa colocar as culpas das suas opções em Passos Coelho, assim como este colocou em Sócrates.

Daí que uma aliança com o PS para deitar este governo abaixo é um pau de dois bicos. Será uma vitória da esquerda se o governo cair antes de junho e Seguro for obrigado a assumir inteira responsabilidade pelo seu governo. Será uma derrota ser a esquerda celebrar, com o PS, depois de junho, a demissão de Passos. Nesse caso, a esquerda terá realmente dado a mão há burguesia. Terá travestido de esquerda uma parte da estratégia política da burguesia. Como um vestido vermelho altera o seu sentido de acordo com o contexto, também o que se passou na Aula Magna. Mas contexto do encontro do passado dia 22 está em aberto até junho de 2014, assim como o seu significado!

Nota final: Raquel Varela não tem razão quando afirma que os trabalhadores necessitam de um programa próprio. Na atual correlação de forças, cujas causas já expus aqui (vale a pena ler também a minha resposta ao Francisco), as organizações de trabalhadores já fariam muito se soubessem aproveitar-se das contradições do programa político burguês para crescer.

Vivemos num tempo mais para Mussolinis do que para Lénines.

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28 de Novembro de 2013 - Posted by | Partidos, Sociedade portuguesa | , ,

10 comentários

  1. Vivemos num tempo mais para Mussolinis do que para Lénines.??? Isso em Portugal só acontecerá se a Esquerda for muita incompetente. Noutros países Europeus já não digo o mesmo.
    Só encontro uma justificação para ir a combate com esse moto derrotista e capitulacionista à cabeça, justificar todos os possíveis erros e pés na poça da Esquerda…
    Já agora, deves achar que a CGTP dia 26 foi aventureirista…

    Comentar por Francisco | 28 de Novembro de 2013

  2. Olha o Arménio e o Bruno a armarem-se em Lénines… que aventureiristas! que não se apercebe, da conjuntura, atão os homens não se apercebe que o tempo está é para Mussolinis???
    http://sicnoticias.sapo.pt/economia/2013/11/29/policia-chamada-a-intervir-nos-ctt-de-cabo-ruivo

    Comentar por Francisco | 29 de Novembro de 2013

  3. (correcção)
    Olha o Arménio e o Bruno a armarem-se em Lénines… que aventureiristas! atão os homens não se apercebem que o tempo está é para Mussolinis???
    http://sicnoticias.sapo.pt/economia/2013/11/29/policia-chamada-a-intervir-nos-ctt-de-cabo-ruivo

    Comentar por Francisco | 29 de Novembro de 2013

    • Olá

      Bom vê-lo por aqui estimado Francisco.
      Essa frase já vem deste post e a sua explicação está aqui.

      Volte sempre
      Zé.

      Comentar por Jose Ferreira | 29 de Novembro de 2013

  4. Ó José. Eu estou me nas tintas para o que a Raquel Varela diz, mas acho que esta moda do tiro ao meco com a Raquel Varela está a ir longe demais, não por ela dizer que hoje é Sábado que passa a ser Domingo – por muito que ela escreva livros caluniosos sobre o PCP. Um programa próprio dos trabalhadores é o pilar fundacional de qualquer Partido Comunista, não há Partido Comunista sem o objectivo de chegar ao socialismo-comunismo pela via revolucionária, a revolução socialista, e este objectivo não pode ser considerado sério e real sem um programa que detalhe o caminho estratégico e as ferramentas tácticas para lá chegar.
    Para além de programa revolucionário é claro que é imprescindível que esse programa seja “próprio”, porque não existe partido comunista, verdadeiro partido da classe trabalhadora sem independência de classe e isto implica um programa, um caminho não só independente dos objectivos da burguesia como antagónicos com a burguesia. Um partido comunista só existe enquanto expressão independente dos interesses da classe trabalhadora.

    Sem programa próprio dos trabalhadores, o nosso PCP ou outro partido comunista qualquer de facto não existe enquanto tal.

    Comentar por Rocha | 29 de Novembro de 2013

    • Rocha,

      Neste ponto, eu tenho uma leitura de Lénine (e Gramsci) muito particular. Nenhuma classe tem um programa próprio, realmente sério, senão nas vésperas de tornar-se classe dominante. Quando a Revolução socialista não está no horizonte, ficamos entre duas hipóteses.

      a) Ou o programa da classe operária assume que a classe burguesa seguirá sendo dominante e, portanto, não é propriamente operário, isto é, não propõe enseja esforços que realizem os homens e mulheres enquanto membros da classe operária, mas a sua melhor acomodação à realidade

      b) Ou então propõe, mas – dado a que é inviável – não é sério.

      A “Democracia avançada”, inspirada na “Frente única” de Dimitrov, pretende-se entre os dois. Ser sério sem deixar de dar passos em relação ao socialismo! Há aqui duas questões. A primeira é até que ponto existe um meio termo. O dono de uma loja de sapatos é menos capitalista que Belmiro de Azevedo. Nem por isso ele deixa de ser capitalista. Pela mesma razão, o programa do PCP é o mais socialista de todos os programas dos partidos com assento na Assembleia da República. Nem por isso ele deixa de ser capitalista na medida em que guarda o fundamento de todo o capitalismo: o respeito (embora sob condições) da propriedade privada.

      Agora, contra os trotskistas como Raquel Varela. Poderíamos construir um programa genuinamente proletário? Um programa que vise quebrar a propriedade burguesa e o aparato administrativo burguês? Podemos! Em teoria podemos – e está aí: basta lei o Manifesto comunista e o Estado e a revolução. Mas vamos mais longe. Podemos criar um programa, não teórico mas prático, verdadeiramente operário em Portugal? Podemos, mas não seria sério!

      Abraço

      Post Script: Faltou a segunda questão. No programa do PCP, “passos para o socialismo” são vistos como a expansão dos direitos sociais e o início da coletivização da economia. Eu acho que, para sermos seriamente leninistas, teríamos de dar prioridade às questões de unificação da classe operária e de elevação da sua consciência. Em suma, a tarefa de um partido Revolucionário, acredito, não é transformar a sociedade; é combater aquilo que, dentro da classe, a impede de transformar essa sociedade. E essas questões abordei-as aqui.

      PS2: Trotsky tinha razão acerca de Dimitrov. Dimitrov tinha razão acerca da realidade.

      Comentar por Jose Ferreira | 29 de Novembro de 2013

      • Francamente José, eu não acho que tu e eu estamos assim tão diferentes porque eu revejo-me nas propostas que fazes no plano prático, mas bastou que eu falasse em revolução socialista para que o teu discurso me pareça sinuoso, confuso e escorregadio. Falar em revolução não é crime, não é tabu, haja ou não haja condições para fazê-la já. Esta teima em criticar um objectivo concentrado baterias na impossibilidade do “já” é absurda e demencial.

        Quando eu falo em revolução socialista, falo de um objectivo final estou a falar da toma do poder pela classe trabalhadora e do socialismo e comunismo como um todo, como a derradeira etapa da nossa luta, a construção do poder proletário. Ora se há coisa que distinguiu Lenine de Kautsky e Bernstein na cisão operária que foi o nascimento dos partidos comunistas, é que o objectivo final não pode ser perdido de vista EM NENHUMA CIRCUNSTÂNCIA e que o movimento (quaisquer passos positivos e vitórias parciais) desligado do objectivo final não tem validade nenhuma.

        Isto quer dizer que independentemente do caminho programático, seja ele a Democracia Avançada, a Frente Única, a Revolução Democrática e Nacional ou o assumir da Revolução Socialista como objectivo imediato o objectivo final da revolução socialista tem de estar lá sempre enquanto um partido se assumir marxista-leninista.

        Eu estou de acordo com a prioridade que propões de unir a classe proletária e até com os métodos para o fazer que propões em posts anteriores, só que é totalmente inviável de fazer isso negando o objectivo final ou de algum modo engatando-o. Por muito longo que seja o caminho, sem o objectivo final o único caminho que se faz é o da auto-destruição do partido comunista.

        E Dimitrov não tinha razão nenhuma em relação à realidade. A viragem eurocomunista e destruição dos maiores partidos comunistas da Europa (Itália, França e Espanha mas muitos outros também) é da sua responsabilidade.

        Comentar por Rocha | 29 de Novembro de 2013

    • Olá

      Por partes. Em boa medida, este texto foi construído a pensar no debate entre a CGTP e o PCP, de um lado, e a sua oposição de “esquerda” (com aspas), por outro. Neste último caso, penso numa série de grupos, do MAS ao Passa a Palavra, passando pelo PCTP/MRPP que acusam aqueles de ter esquecido o objetivo final: a ditadura do proletariado.

      Existem dois conjuntos de questões aqui. O primeiro ligado à relação deste debate com a conjuntura; o segundo tem que ver com a própria história (“idealista” – se quiseres) desse debate.

      1. O primeiro conjunto de questões tem que ver com o facto de que a esquerda perdeu terreno em muitos setores. As greves gerais indicam-nos isto. Ela se concentra nos motoristas dos transportes públicos, nos professores e nos funcionários públicos em geral. O meu pai, operário dos cimentos, é comunista; mas a participação de sua empresa na greve geral mostra que o meu pai é mais uma exceção do que a regra. E olha que estou a pensar “esquerda” como todos aqueles que fazem alguma coisa prática contra esta direita que nos (des)governa – o que inclui até certos setores do PS.

      O que está em causa é que a CGTP, para poder falar em nome de todos os trabalhadores, tem de manter aqueles com que realmente pode contar (e que realmente representa) num compasso aceitável para os demais; um compasso mais lento que esses (motoristas, professores e funcionários públicos) gostariam de ir. Ora, como o mundo dos esquerdistas é do tamanho do seu umbigo, quando eles sentem a CGTP a atrasá-los, afirmam que a CGTP atrasa toda a classe operária.

      2. O segundo conjunto de questões tem que ver como esta posição da CGTP e do PCP se compatibilizou com o leninismo. Ora, a crítica de Lénine à influência dos setores mais atrasados sobre os mais avançados permanece em toda a sua obra – à exceção do Esquerdismo…. O grande combate de Lénine, desde 1900 a 1919 é contra o “oportunismo”, a ideologia de uma certa camada de operários – a “aristocracia operária” – que buscava compatibilizar a luta pelo socialismo com a manutenção da estrutura existente, necessariamente capitalista, que lhes oferecia alguns privilégios sobre os demais operários. Ora, nada mais atrasava a Revolução socialista que estes discursos que falavam de Revolução para conservar pequenos privilégios.

      Ora, foi Dimitrov quem compatibilizou o discurso leninista com uma posição típica da CGTP. Como? O título do livro de Álvaro Cunhal Radicalismo pequeno-burguês… demonstra bem a operação dimitroviana. Ver, no esquerdismo não o oposto do oportunismo, mas um novo tipo de oportunismo; não o resultado do entusiasmo excessivo de operários pouco experimentados, mas a necessidade de parecer revolucionário de certos pequeno-burgueses.

      Por outras palavras, se Lénin lutou em nome de uma rutura com uma certa “classe média” operária, a aristocracia operária; Dimitrov e Cunhal pautaram-se pela unidade com ela. A teoria da Frente Única, o MUD, etc.

      3. Daí a minha provocação ao dizer que Trotsky tem razão sobre Dimitrov, mas Dimitrov tinha razão sobre a realidade! Podia dizer que o, com o mesmo sentido provocatório, que o João Valente Aguiar tem razão sobre o PCP, mas o PCP tem razão sobre a realidade. O que quero dizer com isto é que, de facto, há em Dimitrov e no PCP um abandono do programa leninista. Mas, ao mesmo tempo, que esse abandono só foi bem sucedido porque acompanhou uma mudança na realidade.

      Eu diria que desde 1935, apesar do capitalismo continuar a ser monopolista e ter traços imperialistas, ele não é mais Imperialista no sentido de Rosa do Luxemburgo e Lénin. Só para dar três exemplos. No início do séc. XX, o capitalismo evitava as crises no centro exportando capital para a periferia. Hoje evita fazendo exatamente o inverso. Essa exportação criava no centro um grupo de trabalhadores privilegiados, que constituíam a base material do oportunismo. Hoje vemos que são os trabalhadores com mais privilégios que sustêm os sindicatos.

      4. É a partir daqui que vejo a falta de ligação entre a conjuntura e a Revolução socialista. Para os esquerdistas, uma nova Revolução proletária seguirá, passo a passo, a russa. Entre o MAS e o PCTP/MRPP só há discordância em termos de quais são esses passos. Para o PCP, a questão está ligada à criação, já no capitalismo, de direitos (saúde, educação, etc.) e formas de gestão económica típicas do capitalismo.

      Ora, os esquerdistas estão mais certos que os comunistas. É certo que a questão é tanto de transformações nas relações de forças entre classes (alianças, tomadas de consciência, rompimentos também, etc.) quanto de resultados e de conquistas. Não há um sem o outro. Mas é o primeiro que tem prioridade sobre o segundo e não o inverso.

      Por outro lado, os comunistas têm mais razão que os esquerdistas. Em uma nova conjuntura do capitalismo, precisamos de inovar nas alianças, nas táticas e até mesmo nas estratégias. O PCP e a CGTP, focados em resultados, estiveram quase sempre mais corretos nas alianças que fizeram e ruturas que levaram a cabo. Mas nunca pensaram estas alianças em função da luta pelo socialismo, em função de criar condições objetivas para (uma correlação de forças que permita a) construção do socialismo.

      5. É entre os dois que eu acho que está o caminho certo. Mas, para isso, é preciso fazer como Lénin: retirar a forma de luta adequada da análise da forma atual do capitalismo. E se essa forma não é mais Imperialista (pese às caraterísticas monopolísticas e os traços imperialistas do capitalismo atual) então necessitamos tanto de superar esta dicotomia na teoria quanto na prática.

      Abraço

      Comentar por Jose Ferreira | 29 de Novembro de 2013

      • Acho esse o teu último parágrafo algo enigmático e incompreensível. Até aí eu até estava de acordo porque objectivamente é entre o PCP e o que está à sua esquerda que eu vejo as posições mais correctas.

        Mas já não é imperialista a época em que vivemos? Olhamos para as guerras para redesenhar o Médio Oriente (o recente ódio gerado em torno das linhas xiita e sunita do Islão) e no Norte e Oeste africanos, a partição do Sudão, os conflitos no Mar da China. Acho que sobre imperialismo militar estamos conversados (se bem que eu podia continuar a falar mais e mais). Sobre imperialismo económico e financeiro, o que está a acontecer na zona Euro, as recentes tensões UE-Ucrânia-Rússia, os juros no Brasil que continuam a ser religiosamente pagos, a dimensão económica (levantamento das sanções e muito mais) do recente acordo nuclear Irão-EUA, etc.

        Já não vivemos na época Imperialista? Pois para mim parece-me uma época cada vez mais Imperialista. Mesmo que eu nunca tivesse lido uma única palavra escrita por Lenine e por Marx, baseando-me unicamente em conhecimentos históricos das linha de continuidade entre os Impérios europeus passados – romano, bizantino, sagrado império romano, francês de Napoleão, Austro-hungaro, Alemão da primeira guerra, Hitleriano nazi, britânico, holandês, belga, etc – e a situação actual eu chegaria às mesmíssimas conclusões que Lenine chegou ao afirmar que estamos na época Imperialista, a derradeira época do Capitalismo, pois nada é mais lógico e mais evidente que o capitalismo atinge os seus limites máximos (a todos os níveis económico-sociais, políticos, militares, humanos até ecológicos) como sistema dominante mundial numa forma Imperialista.

        Abraço,
        Rocha

        Comentar por Rocha | 30 de Novembro de 2013

    • Rocha

      Um texto sobre Lénin, de Lukács, chamou-me a atenção para um aspeto da teoria leninista que eu acho que o torna mais marxista que Marx. É que a sua análise vai a um tal grau de detalhe que as conclusões da sua investigação teórica são imediatamente práticas. Isto acontece por duas razões: pelo foco na conjuntura; e pela decomposição até ao nível das frações de classe.

      Podemos ver isto na batalha teórica entre Hilferding, Rosa do Luxemburgo e Lénin. O primeiro afirmou que com o surgimento dos monopólios, a lei da queda tendencial da taxa de lucro deixava de estar correta. Na medida em que as empresas se agruparam em trusts, na medida em que superavam a “anarquia da produção” de que Marx falou, elas podiam planear a sua produção de modo a evitar as crises. Rosa do Luxemburgo mostrou que não era bem assim; não bastava planear. Sem crescimento geométrico da produção e do exponencial não era possível manter o lucro das empresas já instaladas. (Três quartos do século mais tarde, Kalecki vai afirmar que o lucro de um empresário é o investimento de outro). No entanto, depois de 1872, o crescimento capitalista só se pode manter saindo do limite estreito das cidades onde foi inventado, isto é, expandindo-se da Inglaterra para a Índia (e Portugal), da França para Itália e Espanha, e da Alemanha para a Rússia. Mas isto era apenas uma mudança de forma do capitalismo; não da sua essência.

      Logo aqui, como marxistas, temos de compreender a especificidade do imperialismo capitalista. Essa ideia que há imperialismo desde a Antiguidade clássica é verdade, mas é uma verdade idealista! É uma descrição superficial das coisas. Esta questão nota-se bastante bem quando vemos o modo muito particular em que Lénin se colocou no debate.

      Se, por um lado, ele era partidário da posição de Rosa do Luxemburgo, por outro, deu uma grande atenção às novidades de forma do capitalismo. Daí que, em Imperialismo…, cite mais Hilferding do que Rosa. Evidentemente, Lénin concorda com Rosa do Luxemburgo ao afirmar que quando o mundo acabasse e não houvesse mais para onde exportar capital, então o capitalismo entraria em crise. E, mais, vê na I Guerra Mundial, de 1914, o estourar desta crise.

      Nesta posição ele é obrigado a colocar-se uma pergunta. Se o capitalismo está em crise, porque é que os operários ingleses, franceses e alemães estão com tão pouca vontade de fazer o socialismo? Chegam mesmo a produzir líderes que tentam ajustar a teoria marxista à preservação do capitalismo (Bernstein, Hilferding e, mais tarde, Kautsky). A resposta a esta questão é extremamente teórica, mas tem consequências práticas. Ao exportar capital, os burgueses exportaram igualmente a crise. Logo, os operários de Inglaterra, França e Alemanha foram deixando de sentir a necessidade de lutar contra a burguesia. E os outros, sobretudo na Rússia, estavam acostumados a esperar o exemplo dado pelos operários Alemães. Em resumo: O imperialismo distinguiu operários entre os do centro e os da periferia (os termos são meus). Os do centro se acomodaram e inventaram teorias oportunistas para justificar a sua acomodação. Os da periferia esperam instruções do centro.

      A conclusão prática é imediata: A Revolução socialista tem de começar já, em resposta à Guerra de 1914. E tem de começar da periferia para o centro, numa queda em dominó. Pois, como diz Lénin em O esquerdismo, é mais fácil fazer o Socialismo na Rússia que mantê-lo, enquanto na Inglaterra e na Alemanha é o inverso. Portanto, o papel dos partidos revolucionários é combater a influência dos operários do centro, do “oportunismo”, sobre os operários da periferia… E esperar que a Revolução na periferia inviabilize a exportação de capital a partir dos países do centro levando estes também à crise e ao Socialismo.

      Sabe-se hoje que Lénin errou num ponto. Com o fascismo, os burgueses conseguiram travar o ascenso revolucionário e reorganizar o capitalismo. Em 1935 adotaram o keynesianismo que lher permitiu sair da crise que tinha começado no início do século (apesar de apenas em 1929 ter chegado ao coração do capitalismo). Aqui, o crescimento do consumo é “comido” pelo Estado.

      Não vou entrar em detalhes. Só quero pontuar que, do meu ponto de vista, o capitalismo já mudou de forma duas vezes depois de 1872. Em 1935 e em 1973. E é tarefa da esquerda repetir o feito de Lénin: desmontar analiticamente essa forma até encontrarmos teoricamente tarefas práticas. É a isso que me dedico neste blog.

      Abraço

      Post Script: É também por isto que eu afirmo que Trotsky estava certo sobre Dimitrov, Dimitrov estava certo sobre a realidade. Aparentemente, Dimitrov regressa à teoria da II Internacional (o PCP também) enquanto afirmação de que a Revolução socialista não está mais no horizonte imediato. Mas a verdade – e podemos confirmá-lo 80 anos depois – é que não estava. Dimitrov quis manter Lénin no altar e, por isso, contorceu-se para articular a sua prática não leninista com a sua teoria leninista. Mas teoria leninista é aqui – e esse é o erro comum a Trotsky e a Dimitrov, ao PCP e aos seus críticos – tomada pelas suas conclusões, e não pelo seu método.

      “Ortodoxia é metodologia” G. Lukács.

      Comentar por Jose Ferreira | 30 de Novembro de 2013


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