Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Manifestações à portuguesa

Ando distraído dos acontecimentos políticos em Portugal. Por isso não acompanhei a manifestação de polícias de ontem. Nem os antecedentes; nem o ato. Vejo hoje pelas notícias: 15 mil polícias à porta do Parlamento; a comunicação social descredibilizando a manifestação fazendo os polícias passar por bêbados; grande tensão e temor que os polícias invadissem o Parlamento (aqui também); infiltrações fascistas entre manifestantes; etc.

Não vou aqui repetir o que tantas vezes já afirmei neste blog: que a classe trabalhadora portuguesa se divide, atualmente, em três frações. Fica apenas o resumo. Primeiro temos a base dos sindicatos. É uma fração capaz de mobilizar-se a si mesma e pela esquerda, mas com dificuldade em trazer atrás de si toda a classe. Depois estão os jovens desempregados que, apesar de tenderem tanto para o discurso conservador como para a esquerda, foi sempre esta que levou a melhor até agora. Eles demonstraram-se sempre capazes de trazer atrás de si toda a classe mas nunca mobilizar-se a si mesmos. Foram sempre mobilizados por disputas no seio da burguesia. E, finalmente, está a grande massa apática e tendencialmente conservadora. Para quem quiser mais detalhes, expus esse argumento aqui.

Mas, como também venho analisando neste blog, as divisões intra-burguesas que mantiveram os jovens desempregados ativos politicamente entre setembro de 2012 e março de 2013, foram temporariamente resolvidas. Portanto, a base dos sindicatos se tornou a única fração de classe ativa de há um ano para cá. Uma fração que, como eu disse acima, é incapaz de arrastar toda a classe trabalhadora e criar realmente problemas ao governo.

Houve uma exceção: a manifestação sobre a ponte 25 de Abril. A CGTP foi capaz de criar uma instabilidade política que talvez (sublinho: talvez) tivesse ativado os jovens desempregados e, com eles, mobilizado toda a classe. Pela primeira vez houve uma oportunidade de colocar toda a classe em luta sem necessitar da “ajuda” da burguesia. Mas essa oportunidade só existiu porque o sindicato soube criativamente ultrapassar o esperado; surpreender! Infelizmente, na hora agá acovardou-se e tornou inútil a convocatória do QSLT para uma manifestação no sábado seguinte.

É tendo em mente este contexto que eu olho a manifestação de ontem. Elas só são produtivas se criarem uma incerteza capaz de ativar as manifestações de jovens desempregados. Só são úteis se forem criativas e forem até ao fim. Infelizmente, ontem, até porque se dispuseram a uma aposta muito alta (invadir ou não o Parlamento), os líderes da manifestação acovardaram-se do mesmo modo que a CGTP há cinco meses atrás.

Por este caminho “celebraremos” a queda deste governo apenas nas eleições de 2015!!!

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7 de Março de 2014 - Posted by | Portugal, Sociedade portuguesa | , ,

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