Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Os 70 e a democracia

Quando ouvi falar do manifesto dos 70 nem me apercebi do que se trataria. O Renato Teixeira enviou, para mim, uma crítica que fez aos signatários. Pensei: mais um manifesto do Daniel Oliveira que o Renato adora criticar! Mas não. Os subscritores deste manifesto vão da esquerda à direita, de Carvalho da Silva e Francisco Louçã a Manuela Ferreira Leite e Bagão Felix, de políticos a empresários como Antonio Saraiva e João Vieira Lopes.

Curiosamente, parece ter havido um pequeno estrondo. De tal modo que ontem toda a gente fala nisso; a começar pelo Primeiro-Ministro. E o que diz não é novidade; estava implícito no prefácio do livro de Cavaco Silva publicado segunda-feira:

Pressupondo um crescimento anual do produto nominal de 4 por cento e uma taxa de juro implícita da dívida pública de 4 por cento, para atingir, em 2035, o valor de referência de 60 por cento para o rácio da dívida, seria necessário que o Orçamento registasse, em média, um excedente primário anual de cerca de 3 por cento do PIB. Em 2014, prevê-se que o excedente primário atinja 0,3 por cento do PIB (fonte; ver também aqui).

Daí que não seja de surpreender que pessoas próximas de Cavaco Silva, incluindo Manuela Ferreira Leite, apareçam como subscritoras do manifesto.

O que me espanta em tudo isto é que o modo como o manifesto foi recebido é um verdadeiro atentado à democracia. O argumento de que o manifesto é dispensável porque 1) diz o óbvio na 2) na pior altura, afirmado aqui por José Gomes Ferreira, é verdadeiramente anti-democrático. Em nome dos “mercados” aconselha-se os portugueses a “emigrarem para o interior”, como os alemães faziam no tempo do nazismo. (“Emigrar para o interior” foi a expressão usada por alguns alemães depois de 1945 para afirmar que o seu empenho “exterior”com as maiores atrocidades do nazismo coabitava, e encobria, um profundo desagrado “interior” com as atividades que eles próprios executavam. E assim até líderes judaicos colaboraram com esse assassinato em escala industrial. [Antes de conhecer a expressão, fiz este texto sobre os efeitos corrosivos dessa atitude cínica sobre a democracia]).

Certamente, o que está em jogo não é um assassinato em massa, mas é suficientemente grave para que só possa ser posto em marcha com recursos a traços de uma “cultura totalitarista” (no sentido em que foi analisado por Hannah Arendt). Existe uma máquina – o Estado – que funciona em nome de um valor mais alto – dar segurança aos mercados – e que obriga tudo e todos a guardar a sua opinião para si. Quando se recomenda às pessoas que guardem para si, que coloquem fora do debate público, o óbvio sobre as decisões do governo, é porque está em curso o divórcio entre capitalismo e democracia!

Adendo: Escrevi este post na madrugada. Há medida que o dia decorre, multiplicam-se aqueles que falam da falta de oportunidade do manifesto. Teodora Cardoso; os partidos do governo; o próprio Primeiro-ministro e, indiretamente, o Presidente da República. O que quer dizer que a minha insinuação da proximidade de Cavaco aos “manifestantes” estava equivocada.

Adendo 2: Agora, à noite, José Gomes Ferreira repete o seu argumento em uma carta à geração errada. E termina com um sintomático: “Deixem os mais novos trabalhar”.

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12 de Março de 2014 - Posted by | Ideologia, Sociedade portuguesa | , , ,

2 comentários

  1. Parabéns pela reflexão… de excelência mais uma vez estimado José!

    Jean-Claude Juncker (Político do Luxemburgo) “Todos sabemos o que temos que fazer. O que não sabemos é ser reeleitos depois de o ter feito”
    Jean-Claude Juncker (Politician of Luxemburg) “We all know what we have to do. What is not known is to be re-elected after having it done”

    Possivelmente o senhor da Ucrânia “emigrou” para a Rússia quando apareceu a conta das dívidas a pagar às entidades internacionais que seria paga via venda de activos (privatizações direccionadas(?)) ou via o que sabemos…

    A célula base do capitalismo é a empresa. A empresa NÃO é democrática!

    Por outro lado será que a democracia é o caminho?

    Comentar por kiitossakidila | 12 de Março de 2014

  2. A voz de Teodora Cardoso tem muito peso, diria que mais do que a de todos os outros juntos…

    Comentar por Lurdes | 12 de Março de 2014


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