Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

70 velhos?

Duas leituras me levaram a escrever este segundo texto sobre o manifesto dos 70 notáveis. A primeira foi a Carta a uma geração errada, de José Gomes Ferreira. Por um lado, insiste no discurso antidemocrático que já assinalei aqui. Por outro – e é o que quero tratar agora – coloca as coisas em termos geracionais. (Não deixa de ser sintomática que este porta-voz da “nova geração” termine a sua carta com uma frase tão velha como: “Deixem os mais novos trabalhar”). A segunda foi este texto, no 5dias, cuja utilidade está em ser o único a constatar acertadamente que o efeito prático deste manifesto terá sido apenas isolar Passos Coelho e Seguro. (Utilidade que se resume ao último parágrafo. Quem não está convencido do discurso genérico de esquerda, que perfaz quase todo o texto, não ficará convencido com a sua repetição Ad nauseam).

De qualquer modo, pergunta-se: estamos perante uma guerra de gerações? Vale lembrar – e é isso que motiva a chamada de atenção para a segunda leitura – que a melhor qualidade e o pior defeito do governo de Passos Coelho foi ser composto por uma nova geração. Portanto, a sentença de Frederico Aleixo apenas confirma o ponto de vista de Gomes Ferreira, se considerarmos que a direção atual do PS está, como o governo de Passos, nas mãos de uma nova geração. Não é, de qualquer modo, uma geração isenta de culpas, porque é nela que se deve colocar José Sócrates. Aliás, seria equivocado não considerar que os governos de Barroso a José Sócrates foram de transição.

Mas, se é assim, a nova geração não fica muito bem no retrato. Basta lembrar Medina Carreira, acusando Sócrates de ser um destes novos políticos de classe média baixa que não seriam ninguém fora da política. E que, por isso, são incapazes de agir sem pensar em eleições. Ou em Pacheco Pereira, que caracteriza Passos como um político formatado num a juventude partidária e movido pela mera ambição de poder (aqui; não encontro a fala de Carreira e, por isso, citei de memória).

Contudo, essa crítica é injusta. A política foi tomada por gente formada nas “jotas” porque todos os outros não quiseram saber de política. Não pondo em discussão a competência individual de cada um, os partidos são hoje liderados por equipas que têm competências redundantes. Aliás, eu mesmo tive a oportunidade de observar isto no PCP. Reconheço grandes competências a cada um dos elementos desta nova geração de comunistas que é a minha. Mas o facto da maioria provir da “jota” faz com que a pouca diversidade de experiências e competências resulte num coletivo “incompetente”. O PCP ainda tem a vantagem da sua forte raiz ideológica obrigar a ler e discutir filosofia e história. Mas imagine-se o que terá ocorrido nos partidos catch-all!

Mas, ainda assim, a crítica não será justa enquanto não observarmos que o problema não está só nos políticos. Duas décadas em que o crescimento econômico (1980 e 1990) permitiu uma política estável e fez com que as pessoas tivessem poucas preocupações com a sociedade. Foi um tempo mais apropriado para as visões especializadas, por forma a prosseguir a sua carreira profissional, do que para as visões panorâmicas de quem é assaltado pela diversidade de problemas sociais. Ao lado dos políticos cuja especialização é organizar pessoas para qualquer coisa, surgiram economistas para quem a realidade é um modelo matemático; matemáticos que nunca leram Ramalho Ortigão; e professores de português que não sabem fazer contas. Por outras palavras, a falta de desafios societários durante uma gerações gerou visões estreitas! … bem contrárias à daqueles que tiveram de reinventar a democracia.

Ora, o governo de atual é fruto do encontro destes políticos com aqueles economistas. Passos Coelho e António Borges (embora mais velho, partilha do perfil); Miguel Relvas e Álvaro Santos Pereira. Este governo é bem o resultado desta geração. De um lado, políticos práticos, organizadores de coisas, para quem as necessidades são sempre ditadas pela contingencia, ou por quem está acima deles, e nunca estrategicamente pensadas. Do outro, economistas abstratos que ditam as necessidades a partir de modelos teóricos. Eis porque a reação dos novos à rabugice dos velhos foi tão antidemocrática.

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13 de Março de 2014 - Posted by | Ideologia, Sociedade Brasileira | , ,

3 comentários

  1. Caro José Ferreira, mas era preciso mais que um parágrafo para exprimir aquele que me parece ser um dos principais objectivos dos notáveis socialistas e social-democratas descontentes com as respectivas lideranças? Além de quem quer atrair o PS para uma coligação pós-eleitoral…

    Parece-me mais assustador acreditar numa reestruturação da dívida com o beneplácito desta UE. A concretizar-se não será menos do que um presente envenenado.

    Comentar por Frederico Aleixo | 13 de Março de 2014

    • Três notas. 1. Podia então ter-nos poupado à introdução maçante. :)) 2. O que penso do manifesto ainda há-de ser escrito. Mas, até agora, a posição que mais gostei de lei foi a do João Vilela aqui (reproduzido também no Resistir.info). 3. Achei que era importante, antes de assumir uma posição, era assinalar e combater a atitude antidemocrática com que o manifesto foi recebido.

      Comentar por Jose Ferreira | 13 de Março de 2014

      • Por vezes é preciso repetir ad nauseam perante as desgraças que se lêem por aí.

        O texto do João Vilela está bom, sim senhor.

        Comentar por Frederico Aleixo | 13 de Março de 2014


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