Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Marine Le Pen e o Passa a Palavra

Não sou leitor assíduo do Passa a Palavra. O que o blog tem a dizer sobre Portugal repete-se há mais de um ano, sem que nenhuma novidade seja acrescentada. Mas regressei hoje motivado por notícias que dão conta da participação de portugueses em candidaturas municipais do partido de extrema-direita Frente Nacional. É que o argumento do Passa a Palavra prende-se com a adesão da esquerda ao discurso nacionalista (ou, melhor, patriótico – o que vai dar no mesmo) e com isso, afirma o Passa Palavra, nada mais faz que estender um tapete vermelho ao fascismo. E, de facto, o que encontro é um texto editoral que faz o balanço dos argumentos usados no blog a longo de meses (aqui: 1.ª parte; 2.ª parte).

Em abril do ano passado, o Passa Palavra acolheu dois textos de contraditório. Destes apenas consigo localizar o de Miguel Madeira que coloca a tónica no anti-imperialismo. O outro autor, cujo o nome não recordo, subscrevia a análise do Passa Palavra acerca dos pontos de contacto entre o “patriotismo de esquerda” e o “nacional-socialismo”. [Adendo, 23/03/14: Localizei o texto. É da autoria de José Nuno Matos]. Apenas questionava se o PCP era assim tão influente na sociedade portuguesa e duvidava haver razões para tanto alarido com esse discurso. Este segundo autor está bem enganado; e a introdução do tema do fim do euro na campanha para as eleições europeias, parece-me, irá estimular a prolixidade do Passa Palavra.

Há, no entanto, um terceiro argumento do contraditório que foi deixado de lado. O fascismo, a ressurgir na Europa, não será nacionalista, mas europeísta. Isso foi muito claro agora com o crescimento do fascismo na Ucrânia a partir da decisão do presidente Viktor Yanukovich em não assinar um tratado de adesão à União Europeia. A tomada de posição dos fascistas portugueses, o PNR, sobre a situação ucraniana é, desse ponto de vista, igualmente significativa: “O PNR condena pois, inequivocamente, a submissão da União Europeia aos interesses dos EUA, que excluem todas as negociações com a Rússia, quando à Europa conviria um melhor relacionamento com Moscovo” (aqui). E a confirmar o carácter europeísta da extrema-direita do séc. XXI está não apenas a adesão de portugueses à francesa FN, como o discurso da líder da FN:

A comunidade portuguesa de França está bem assimilada na nossa sociedade, respeita as leis e o nosso modo de vida. Os portugueses de França são os mais duros para com os imigrantes que vêm para cá e não respeitam ninguém! (aqui). A luta contra o fundamentalismo islâmico é repreensível? A luta contra a ‘sharia’ [lei islâmica] é repreensível? Eu assumo a responsabilidade (aqui).

Num aspeto dou bastante razão ao Passa Palavra: O recorte geográfico (pátria, nação… e, de certo modo, o Estado) tendem a colocar no mesmo barco pessoas com interesses distintos e, por isso, a deixar apenas espaço para políticas irracionais, isto é, o fascismo. Não obstante, esta é apenas uma das dimensões do fascismo – que eu analisei aqui. A outra é que o fascismo só vinga se tiver o apoio da burguesia monopolista; e só terá esse apoio se for uma via – ou, antes, se for a única via – para a reorganização do capitalismo em tempos de crise. Ora, o fascismo será uma via para a reorganização do capitalismo apenas sendo europeísta. É por esta razão que o Passa Palavra não tem razão. Sendo o discurso patriótico “de esquerda” um equívoco, ele não é um tapete vermelho estendido ao fascismo.

Por todas as razões apresentadas pelo Passa Palavra, o que é mesmo necessário é lutar contra o europeísmo que, se eles não perfilham, pelo menos não criticam.

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20 de Março de 2014 - Posted by | Ideologia, Portugal | , ,

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