Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

PCP vs. KKE

O Joel Ferreira publicou, no Facebook, esta notícia: Crise de liquidez provoca as primeiras corridas aos bancos na China! E, em comentário, criticou o facto do PCP afirmar, na resolução do XIX Congresso, que a China não se integra no sistema capitalista. Elaborei uma longa resposta que acho oportuno transcrever aqui. Pois a posição do PCP sobre a China é um sucedâneo de uma disputa entre a esquerda mundial que, desde o final do ano passado, opõe o PCP ao KKE. (Ver aqui uma crítica do KKE à forma como o PCP conduziu os trabalhos do 15.º EIPCO).

Se, no texto abaixo, mal falo da China é porque a questão não é, tanto, se a China é o não anti-capitalista. A questão é, pelo contrário, se o movimento internacional comunista deve rachar em nome da coerência ideológica, como defende o KKE, ou, antes, conservar a sua composição ampliada atual, como defende o PCP.

Posto isto, eis a minha resposta (com correções gramaticais):

Na verdade, a questão é bem mais complexa. Não há razão nenhuma para continuar a dizer que a China é um país socialista. O problema que daí decorre é: então, o que fazer com o EIPCO? Albano Nunes [em outro comentário, o Joel acrescenta: “still, o melhor partido português, malgré (et pour cause) os Albanos Nunes] segue a tradição bresneviana, da qual Álvaro Cunhal foi um dos grandes construtores, segundo a qual “se disserem bem de mim no teu país, eu direi bem de ti no meu. As nossas diferenças não são maiores que as nossas divergências com os nossos inimigos”. E isto serve para manter o EIPCO operante e fazendo duas coisas: 1) Cria um bloco forte que não deixa isolar Cuba*; 2) É uma força de atração para muitos pequenos partidos de esquerda europeus para uma esquerda justa, em vez de serem fagocitados pela falsa social-democracia.

Os problemas de fazer as coisas certas pelos motivos errados são três. Primeiro, nunca sabemos se é certamente a coisa certa; apenas o intuímos. Intuímos, por exemplo, que o nosso inimigo é o bloco “central” e não o Bloco de Esquerda – como quer o KKE e por isso quer acabar com o EIPCO. (Aqui entra a tese leniniana segundo a qual o que sustenta o capitalismo numa profunda crise como a atual e o põe a salvo de uma Revolução socialista  não é a audácia dos burgueses, mas o oportunismo de certos líderes de esquerda). Essa intuição leva o PCP a dizer que afinal a crise não é tão estrutural e por isso, não podendo estar de bem com o diabo, devemos conversar com os partidos de oposição no inferno.

Segundo, porque as razões dadas não sustentam as nossas intuições é fácil cair no outro extremo. E passamos a fazer como o KKE: a Revolução está para daqui a pouco, o nosso inimigo é o “oportunismo”. Sou leninista, mas quero ler Lénine como este leu Marx: mais interessado na metodologia que nas conclusões. Porque o que falta é articular a profunda crise objetiva do capitalismo com (para usar as palavras de Albano Nunes no último congresso, que em boa medida resumem a estratégia do PCP) “o atraso do fator subjetivo”. Se isso não se deve, em primeiro lugar, ao oportunismo; se o oportunismo não é o nosso inimigo, nem sequer a burguesia de oposição o é; então como explicamos esse atraso? Se a única explicação que temos é a dada por Lénine em 1914 – o “oportunismo” – somos obrigados a circular entre a posição do PCP e do KKE sem nunca sair dela. Talvez seja necessário fazer como Lénine fez quando a II Internacional não conseguiu cumprir a sua missão de travar a Primeira Guerra Mundial: tirar uns meses para ir estudar filosofia e olhar de novo a realidade.

Finalmente, se a realidade muda e nós conservamos um impressão passada, fruto da intuição, erramos. Ao não conhecer as razões da nossa intuição, e ao justificá-la com falsas razões, terminamos não entendendo quando a nossa intuição não é mais válida. Ou, ainda, a intuição pode mudar, e com ela a estratégia, sem que o discurso que a justifica mude. É por isso que a estratégia dimitroviana, atualizada por Cunhal em “Rumo à Vitória”, pode servir hoje. No entanto, nos dois casos, a estratégia adequava-se (mas não esclarecia este ponto) ao facto de que a “aristocracia operária”, esses proletários de “classe média” ideologicamente oportunista, estava a crescer em número devido a um crescimento económico mundial em torno de 5 a 7%. A força dessa classe, que decorre tanto do seu número como do seu movimento ascendente, foi a maior barreira a uma Revolução socialista entre 1935 e 2000. A concepção de uma etapa intermédia, a “democracia avançada”, foi útil por permitiu preservar a preservativa da Revolução socialista em condições não revolucionárias.

A partir de 2000, e sobretudo a partir de 2008, a “aristocracia operária” não tem mais como crescer. Ao agarrar-se à memória de Cunhal, o PCP não mantém apenas uma posição desatualizada face ao “oportunismo” (a ideologia dessa “aristocracia operária”), como ainda alarga alianças aos burgueses de oposição: seja, no mundo, a China; sejam os supostos empresários patrióticos em Portugal. Eu creio – mais por intuição que por análise, mas também por análise – que isto só é possível porque não é mais o “oportunismo” que é responsável pelo “atraso do factor subjetivo”. O que justifica esse atraso é um protofascismo que se instalou na sociedade, segundo o qual tudo o que vier da política é mau!

Em baixo disto, o Eduardo Neves respondeu:

Perigosíssima e enorme erro essa conclusão José. A verdade é que temos tanto fascismo como proto-fascismo e o oportunismo ao mesmo tempo. O oportunismo que cria o caldo de cultura em que cresce o fascismo e o proto-fascismo. É precisamente por isso que eu digo que o KKE tem razão.

A questão do BE coloca-se da maneira diferente do que o Syriza na Grécia mas sim coloca-se eventualmente. O PCP está sob ataque do oportunismo, mas esse ataque vem das suas relações internacionais, o BE tem pouco peso nesse ataque, porque o BE nunca conseguiu claramente o seu objectivo de se tornar um partido maior que o PCP. Já o Syriza em termos eleitorais e institucionais é outra história. Ou seja, não eu não defendo simplesmente fazer o mesmo que o KKE, porque o trabalho anti-oportunista em Portugal tem de começar obrigatoriamente na ruptura com o PCE, PCF e Refundação, mas o espírito deve ser o mesmo.

Coloco aqui o texto do Eduardo porque me parece que tem alguma razão. Eu intuo isso, sobretudo a partir do momento em que o europeísmo se mostra comum ao “oportunismo” e ao fascismo. A questão está em que não encontro razões para intuir isso!

*Adendo: Repare-se que o esforço que o PCP faz para não deixar isolar Cuba leva-o a subscrever a iniciativa do Fórum de São Paulo (ver aqui sobre o Fórum, e aqui e aqui algumas posições do partido sobre o Fórum), que é promovido por um partido hoje demo-liberal, o Partido dos Trabalhadores.

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28 de Março de 2014 - Posted by | Europa, Ideologia, Partidos | , , ,

4 comentários

  1. Algumas questões:
    – Qual terá sido a quota parte da “tradição bresneviana” na derrocada da URSS?
    – O EIPCO assume assim tanta relevância que permita «não deixa isolar Cuba»? Ou, ao misturar Cuba e Coreia do Norte, não acabará por agravar o isolamento de uma à conta do isolamento da outra?
    É pertinente falares no factor subjetivo, pois o fim do etapismo do KKE visa precisamente acelerar essa preparação! Do programa do KKE, longe desse simplismo da revolução para daqui a pouco: «The duties of the KKE for the socialist revolution
    The KKE operates in the direction of preparing the subjective factor for the prospect of the socialist revolution, despite the fact that the time period of its outbreak is determined by objective pre-conditions, the revolutionary situation.
    The activity of the KKE in a non-revolutionary situation decisively contributes to the preparation of the subjective factor (party, working class, alliances) for revolutionary conditions, for the realization of its strategic duties:
    The rallying of the large majority of the working class with the KKE, determined for the revolution.
    The alliance of the working class with the oppressed under capitalismpopular strata, some to be drawn more or less actively into the revolutionary struggle, others to be rendered neutral.
    The support for the people engaged in the revolution by the broadest possible forces which are detached from the army.
    The ensuring of the overwhelming superiority of the revolutionary forces rallied with the KKE against the reactionary bourgeois and wavering petty bourgeois at the decisive moment and in the decisive areas. This is an important political and at the same time organizational issue.
    These duties are implemented only in conditions of the revolutionary situation; their implementation will develop simultaneously, and interact with the main and decisive task of rallying the majority of the working class with the Party.»
    Os trabalhadores e os eleitores portugueses não são ingénuos. Sabem que a aplicação do programa da “Democracia Avançada” do PCP retomaria o processo revolucionário de 74-75. Há quanto tempo na propaganda do PCP a ideia de “Revolução” foi substituída por um choradinho de vago teor moralista (“Basta de roubos e mentiras!”, por exemplo)?
    O protofascismo é filho do oportunismo. É esperar mais 10 anos e ir acompanhando a evolução do partido grego. A radicalização da sua política irá manter, declinar ou alargar a sua influência?

    Comentar por NL | 29 de Março de 2014

    • Oi

      Estão aqui duas questões em jogo que eu gostaria de separar. Primeira: tem alguma utilidade nós mantermos certas estruturas internacionais? Segunda: é a estratégia do KKE pertinente dadas as condições objetivas? Começo pela segunda.

      Sei que o KKE não afirma que a Revolução está aí – apesar de eu próprio conhecer pouco das suas posições. Se que está atrelado, como o PCP, a uma concepção leninista da Revolução. Daí que, declarando que já entrámos na fase final da revolução, a “preparação do factor subjetivo” é combater a influência oportunista, i. é, da “aristocracia operária” (os trabalhadores de “classe média”) sobre os demais operários. E isto é muito claro nos posicionamentos anti-Syriza do KKE, posicionamentos dos quais o PCP se demarcou ao iniciar conversações com o PCE.

      A minha crítica ao KKE é por empregar a tática leninista sem que nos encontremos nas condições de 1914-19. Aliás, nota que no Que fazer? Lênin não emprega a palavra “oportunista”, mas sim revisionistas. No início do seu combate, Lênin entende o revisionismo como a infiltração do pensamento burguês nas direções operárias devido à imaturidade organizacional do movimento. Posteriormente, algures entre 1905 (a Revolução fracassa na Rússia) e 1914 (início da Primeira Guerra Mundial) ele muda a sua perspectiva de análise: o ecletismo entre o marxismo e o positivismo burguês, que retira à teoria marxista toda a força revolucionária prática, é fruto do interesse de uma fração da classe operária, a “aristocracia operária”, em conservar os seus privilégios, no capitalismo, sobre os demais operários. Daí que o oportunismo se intensifique mais à medida que nos aproximemos da Revolução socialista.

      Ora, a questão é mais complexa e está longe de resumir-se a isto. A questão que Lênin coloca é: qual a base objetiva do “oportunismo” – isto é, dos privilégios da “aristocracia operária”? Ora, a resposta já tinha sido dada pela II Internacional quando buscou explicar a apatia dos operários do coração do capitalismo: Inglaterra, França e Alemanha. A exploração imperialista do mundo livrou estes três países de crises económicas; os operários acomodaram-se a uma vida confortável durante 40 anos: 1872 (Comuna de Paris) a 1914. Então a Revolução socialista, necessariamente mundial, é pensada a dois níveis. Um primeiro nível, o da infraestrutura, seria lento e do centro para a periferia. Mas esta transição mundial da forma de produção implicava, antes, a instauração de Estados proletários que, necessariamente, seguira o caminho inverso, da periferia para o centro. Porquê? Porque os operários alemães jamais se ergueriam contra a sua burguesia enquanto esta os mantivesse livres de crises; e a burguesia alemã apenas poderia fazê-lo porque exportava as suas crises para os seus investimentos na Rússia. Libertar a Rússia das garras do imperialismo alemão, o que implicou a constituição de um Estado proletário na Rússia, era pré-condição para a instauração de uma ditadura do proletariado na Alemanha. Não obstante e por outro lado, esse Estado operário russo entraria (como entrou) em contradição com as tarefas burguesas que ele teria de realizar – pois a burguesia russa não o havia feito – caso uma Alemanha socialista não viesse, num terceiro momento, em seu socorro.

      A “luta contra o oportunismo” é a chave prática deste esquema dialético que une a transição para o socialismo do centro para a periferia com a instauração de Estados proletários da periferia para o centro. Enquanto os operários da periferia estivessem sob a influência teórica dos operários do (acomodados) centro, a Revolução socialista não seria iniciada.

      Ora, obviamente a Revolução nunca chegou à Alemanha. A meu ver foi interrompida em agosto de 1919, quando o soviete húngaro, dirigido por Béla Kun, às mãos do fascismo. O próprio Lênin escreve, em 1920, um livro que deve ser lido como autocrítico: “O esquerdismo…”. Mas depois, mesmo com a ascensão do nazi-fascismo na Alemanha, não houve nenhum teórico que fosse capaz de abordar o tema como era merecido. Por uma razão bem simples! Dois debates, primeiro este o PCUS e o PSD Alemão (seria Lênin um filósofo ao nível de Marx ou um simples estrategista?), depois entre Stálin e Trotsky (qual dos dois o mais fiel herdeiro de Lênin?), impossibilitaram qualquer análise crítica séria do leninismo e sobretudo a integração nele daquilo que Lênin, por falta de tempo (morreu em 1924) não pode integrar: o fascismo! (Eis o motivo da minha frase acima: o “oportunismo” não justifica mais o atraso subjetivo dos operários).

      Apenas em 1935 um marxista pensou seriamente o fascismo. Foi G. Dimitrov que, basicamente, e como logo denunciou Trotsky, propôs uma aliança com a aristocracia operária e até setores da burguesia para combater o fascismo. Mas cometeu dois erros. Primeiro, avaliou o fascismo pelas suas fases maduras, quando já estava instalado no governo e se tinha tornado anti-popular. Ignorou os seus estágios iniciais quando ele era um movimento de massas capaz de disputar o coração dos operários com o marxismo. Segundo, buscou compatibilizar esta tática de aliança com diversos setores da sociedade, as “frentes”, com a teoria leninista. Obviamente, só o pode fazer destruindo o núcleo lógico do leninismo e pegando, aqui e ali, frases avulsas. Trotsky, pelo contrário, tornou-se o teórico do leninismo e da luta contra o “oportunismo” quando ela já não dava resultados.

      Aquilo que garantiu, no entanto, o sucesso de Dimitrov, foi a alteração da forma do capitalismo. Em 1935 também, Roosevelt assina o New Deal e a introdução de espaços de planificação as economias nacionais torna-se mais determinante para o desenvolvimento capitalista que a exploração colonial. Essa nova forma do capitalismo foi capaz de gerar um desenvolvimento económico tão grande que a “aristocracia operária” voltou a ganhar a sua pujança (Lênin havia-lhe declarado sentença de morte, e a luta contra o “oportunismo” era fazer, no plano político, aquilo que já era inevitável no plano económico: derrotar a “aristocracia operária”). Logo, uma tática que andava de braço dado com esta classe fortalecida tinha todas as condições para resultar; uma que a quisesse combater seria derrotada. De tal modo que os trostkistas inventaram uma distinção entre atualidade e imediaticidade da Revolução socialista. Para eles, embora a Revolução não fosse para daqui a dois ou dez anos, isto é, imediata, era necessário começar já o combate ao oportunismo porque, sendo atual, a Revolução poderia chegar a qualquer momento.

      Para abreviar direi apenas o seguinte. Em 1935 e 1973 houveram duas alterações de forma do capitalismo. Embora o capitalismo mantenha traços monopolistas e imperialistas, continuar a chamar-lhe Imperialismo só é possível à custa de destruir, mais uma vez, o núcleo central da teoria leninista. A forma atual do capitalismo tem sido estudada apenas por Negri e Harvey. O primeiro, de uma perspectiva totalmente errada que nenhuma boa conclusão daí sai. O segundo, apenas analisa as grandes reestruturações do capitalismo sem criar sequer pontes para ligar essa análise à situação e à tática do movimento operário. Enquanto isso, a esquerda “revolucionária” se debate entre a adaptação contingente à situação sem pensá-la teoricamente e a fidelidade ao programa leninista, mas distinguindo atualidade de imediaticidade. Entre, portanto, Dimitrov e Trotsky ou entre o PCP e o KKE.

      Esta incapacidade de pensar a revolução era normal até 2000, quando a “aristocracia operária” ainda estava numa perspectiva ascendente. Agora, e sobretudo depois da crise de 2008, só posso explicar não pelo facto da maioria dos operários estarem atraído pelo “oportunismo” mas pelo fascismo, E, portanto, a falta de força dos partidos “revolucionários” permitir manter debates sem sentido que não têm nada que ver com as suas tarefas práticas.

      Depois desta contextualização, duas respostas:

      – Qual terá sido a quota parte da “tradição bresneviana” na derrocada da URSS?
      Bom, eu acho que o erro é bem anterior a Bresnev. Ao chamar de socialista, em 1930 (com o encerramento do NEP), um país que ainda era capitalista, embora um capitalismo gerido pelo Estado, Stálin truncou toda a reflexão honesta acerca da URSS. Não acho, como alguns, que sem uma Revolução socialista na Alemanha, a Revolução russa estava condenada. No entanto, salvá-la implicava corrigir profundamente a tese leninista e não a adaptação contingente que foi a teoria do “socialismo num só país”.

      – O EIPCO assume assim tanta relevância que permita «não deixa isolar Cuba»?
      Não; o Fórum de São Paulo faz isso melhor. Mas vale a pena defender o Fórum de São Paulo, cujo líder é o PT, de Lula da Silva, e ser contra qualquer aliança com o PCF? Talvez seja o mais lúcido: há uma razão concreta para apoiar essa iniciativa do PT, ainda que ele esteja à direita do PCF. Mas então temos que mudar as coordenadas da nossa análise, isto é, sair do eixo Dimitrov vs. Trotsky.

      – Há quanto tempo na propaganda do PCP a ideia de “Revolução” foi substituída por um choradinho de vago teor moralista (“Basta de roubos e mentiras!”, por exemplo)?
      Devo-te confessar que a falta de um caminho teoricamente pensado levou a adaptação eclética do PCP a uma confusão requintada. Ao ponto de ter apenas a sua história como farol da sua tática. O problema não é o chorinho, é mais grave. É ver-se como o polícia e juiz da Constituição de Abril, ao ponto de chamar “criminoso” o governo e colocar-se no lugar de defensor da lei. Fica assim claro, para mim, porque a CGTP recuou na manifestação da ponte 25 de Abril e é incapaz de desafiar a ordem.

      Abraço

      Comentar por Jose Ferreira | 30 de Março de 2014

      • obrigado pela qualidade da resposta! aprendo sempre qualquer coisa mais com as tuas abordagens a estes temas.

        acho que faz de facto sentido equacionar o posicionamento do KKE na dialéctica actualidade / imediaticidade da revolução socialista. não te parece, no entanto, que um trabalho de afirmação da actualidade da revolução socialista, entendido enquanto preparação do factor subjectivo, leva a um crescendo da sua imediaticidade?

        Comentar por NL | 30 de Março de 2014

    • Oi Joel

      Eu colocaria a questão do seguinte modo. Se a dialética entre atualidade e imediaticidade servir para eu adotar a tática leninista sem me preocupar se ela funciona, então é um mau caminho. Essa dialética, no entanto, pode ser posta em outros termos. Digo que a Revolução é atual quando tudo no contexto me indica que ela é possível; digo que ela é imediata quando conheço o caminho.

      Para explicar o que entendo por conhecer o caminho, deixa-me empregar uma imagem usada por Marx n’O capital. “[O] que distingue o pior arquiteto da melhor abelha é que ele figura na mente sua construção antes de transformá-la em realidade”. Isto é, a Revolução socialista passa de imediata a atual quando a vanguarda idealiza – a partir da situação objetivamente dada, e não de forma idealista (como receita de bolo, apta a funcionar em qualquer circunstância) – o caminho para a tomada do poder sobre o Estado. Neste sentido, a dialética entre a atualidade e imediaticidade pode ser útil.

      Mas a mesma crítica se pode empregar ao PCP. Cito o Albano Nunes textualmente: “Se em termos mundiais o socialismo se apresenta como a única e verdadeira alternativa ao capitalismo isso não significa que por toda a parte estejam reunidas as condições para a conquista do poder pelos trabalhadores, e que a palavra de ordem e a tarefa imediata sejam a revolução socialista, tendo particularmente em conta o atraso do factor subjectivo”. Ora, só há um modo possível aceitar esta ideia de que as condições objetivas estão aí mas faltam as subjetivas. Não é aquele que o PCP assume, segundo o qual a burguesia está em crise mas o proletariado cruza os braços. Por atraso do fator subjetivo deve entender-se a incapacidade da vanguarda saber o que fazer.

      Isto acontece porque, tanto no caso do PCP como do KKE, aceita-se um caminho datado: do contexto de 1914-19 para o socialismo, e não do contexto atual para o socialismo. Neste caso temos duas únicas hipóteses: o consideramos que ainda não é o momento certo para começar a trilhar o caminho conhecido (PCP); ou vamos insistindo que, mais dia menos dia, há-de dar certo (KKE).

      Eu defendo um caminho novo… em que a diferença não está no ponto de chegada, mas no ponto de partida.

      Abraço

      Comentar por Jose Ferreira | 30 de Março de 2014


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