Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Lênin, teoria e prática

Lênin desenhado por Bukharin

Há muito que quero escrever um texto sobre o modo como eu leio Lênin. Apesar das minhas reflexões estarem ainda muito soltas, resolvi partilhar aquilo que já consegui compreender no 144º aniversario do nascimento de V. I. Lênin. Poderá ser até uma leitura mal feita. Consola-me que Žižek diga algures que a filosofia avança por leituras equivocadas. Aquino leu mal Aristóteles; Hegel leu mal Kant; Marx leu mal Hegel e assim por diante. Se eu me arrisco a ler mal Lênin – e, o que é mais grave, a fazer uma leitura pelo viés do pós-estruturalismo francês – é porque me parece que essa é uma leitura útil tendo em conta a realidade atual.

A minha leitura vai em dois sentidos. Primeiro, insisto em localizar a sua teoria como a síntese marxista do período histórico que vai de 1914 a 1920. A teoria leninista, posta assim, tem a audácia de pretender ser uma análise da forma do capitalismo existente da qual decorre, imediatamente, a estratégia e a tática dos comunistas. Muito do que Lênin disse então continua válido hoje. Mas aceitar a sua teoria de Revolução tout court hoje, num capitalismo substancialmente modificado daquele do início do séc. XX (pensemos no desenvolvimento das sociedades por ações), é perder de vista o elo entre a análise teórica da forma do capitalismo e a ação prática do partido de vanguarda que caracteriza o leninismo. – A apresentação que F. Claudín faz da teoria leninista, em A crise do movimento comunista (cap. 2), é a que me parece mais certeira.

Por outras palavras, o marxismo-leninismo só é uma teoria que se renova e atualiza constantemente se atualizar o elo entre a forma do capitalismo e a prática do partido de vanguarda… algo que não é feito nem na teoria nem na prática desde Lênin. Assim, em segundo lugar, procuro encontrar nos textos de Lênin e sobre Lênin os elementos – as mediações entre teoria e prática – que permitem fazer essa atualização. A meu ver, essas mediações são três:

  • A “compressão” da totalidade que é analisada. Lênin não perde a dimensão de totalidade quando analisa a situação concreta; mas dá-lhe uma temporalidade curta. Ele não analisa a essência do capitalismo, que se estende do séc XVIII aos nossos dias, mas a sua forma Imperialista que começou em 1872 (derrota da Comuna de Paris) e terminou em 1935 (New Deal rooseveltiano), e, em particular, o período de crise desta forma de capitalismo que vai da eclosão da I Guerra Mundial (1914) ao surgimento do fascismo (1920).
    A “compressão” da totalidade permite a Lênin verificar que e quando se enganou, e corrigir o que disse. Aliás, o Esquerdismo… – não me canso de repetir – deve ser lido como uma autocrítica em reação a algo não previsto: a derrota do soviete húngaro de Béla Khun às mãos do fascismo. Ante esse “joker”, Lênin aconselha a ir devagar com o andor enquanto tentava compreender tal novidade. Infelizmente, ele faleceu em 1924 não podendo introduzir esse “joker” em sua teoria.
  • O duplo sentido das suas categorias que garante a passagem imediata da ciência para a política. Falo em particular da categoria do “oportunismo”. Por um lado, é uma categoria insultuosa quando tomada pelo senso comum e, por isso mesmo, politicamente efetiva. Por outro lado, Lênin emprega o termo “oportunismo” com um rigor científico invejável. Ele nunca usa o termo “oportunista” para caracterizar uma idiossincrasia, mas sempre a atitude dos “ideólogos” da aristocracia operária (i. é, dos trabalhadores de “classe média”) em face da crise da forma Imperialista do capitalismo.

A outra mediação (que se quisermos ordená-las da mais teórica à mais prática, se colocaria entre as duas acima) é o caráter quase autocrítico das suas análises. Porquê quase autocrítico? Por um lado, Lênin sabe que apenas o domínio consciente (i. é, teórico) das determinações objetivas e das causas subjetivas de sua prática o mantém na trilha revolucionária. (Daí que não possamos confundir autocrítica como confissão quase religiosa do erro; mas tomá-la como a explicação marxista da nossa própria conduta, seja ela correta ou equivocada). Não obstante, ele sabe também que seria politicamente ineficaz expor as razões da sua conduta acertada. Para ser politicamente eficaz é necessário fazer a crítica dos equívocos daqueles que lhe são próximos.

O anterior é, contudo, apenas a aparência (i. é, a análise superficial) dessa mediação. Para alcançarmos a sua essência é necessário opor Lênin ao primeiro Lukács, mas indo bastante da análise padrão. Por exemplo, B. Williams critica, por um lado, Lukács por fazer depender a Revolução socialista do autoconhecimento do proletariado, repetindo a crítica de Lênin da necessidade de um conhecimento exaustivo de todas as classes e de todas as forças políticas existentes. Por outro lado, Williams argumenta que o erro lukacsiano deriva de uma ruptura incompleta de Lukács com o idealismo de Hegel.

O equívoco de Williams é não levar em conta que a teoria do conhecimento de Lukács é pautada pela categoria de totalidade e que, portanto, o autoconhecimento implica o conhecimento do outro, i. é, o seu re-conhecimento como parte do Todo. Por outras palavras: o proletariado não se pode auto-conhecer se não conhecer todas as classes e todas as forças políticas, para, a partir daí se re-conhecer como uma das classes, como uma das forças políticas. Portanto, Lukács está formalmente correto e indica o movimento autocrítico marxista – que é também levado a cabo por Lênin – : de Si para o Outro e deste para Si. O erro Lukács começa precisamente no momento em que, depois de enunciar o movimento tomada de consciência do proletariado, começa a operá-lo, i. é, a aplicá-lo à análise da realidade.

Lukács, ao opor a ‘ideologia da classe operária’ à ‘consciência psicológica do proletariado’, inaugura aquela que iria ser a grande problemática do chamado marxismo ocidental: a “tomada de consciência”. Ora se procurou explicar a distância entre aquilo que os trabalhadores mostravam pensar e a sua ideologia atribuída – o marxismo; ora se procurou questionar a legitimidade dessa atribuição. Lukács ofereceu uma resposta para as duas questões no plano da epistemologia. As noções fundamentais (p. ex.: luta de classes) de uma determinada corrente de pensamento só podem ser colocadas por um grupo social ou uma classe; mas a análise da realidade a partir desse acervo de noções/categorias necessita de ser feita por um filósofo. Smith o fez com as noções burguesas; e Marx com as operárias. Este argumento não apenas explica a distância entre a consciência psicológica dos operários e o marxismo como também sustenta que o marxismo é a ideologia operária.

Agora compare-se com Lênin. O problema apenas em sua aparência não é o mesmo. Lênin está preocupado em fazer a crítica do “oportunismo”, i. é, a consciência daquela fração da classe operária que adotou um “espírito” pequeno-burguês. Mas ao contrário de Lukács, o que está em análise não é a distância subjetiva entre a ‘consciência psicológica’ e a ‘ideologia’, mas a diferença objetiva entre os operários que professam um marxismo eclético e aqueles que professam o marxismo revolucionário. Vale notar que, enquanto Lukács se exclui – e exclui toda a vanguarda – da classe como filósofo, Lênin permanece nela. Mas este é só o aspecto exterior do movimento de pensamento. O seu cerne é que Lukács idealiza o marxismo cancelando toda a possibilidade de autocrítica e autoconhecimento de Si, uma vez que à ‘consciência psicológica’ real é oposta o ‘marxismo’ ideal e idealizado. Os termos contrapostos por Lênin são ambos reais e, por isso mesmo, o movimento de Si para o Outro e vice-versa é feito sempre em bases materiais.

Fica então esclarecida a imprescindível dimensão autocrítica do leninismo: para analisar os “desvios” é necessário partir de uma análise correta dos fundamentos materiais – uma autocrítica – da “linha justa”.

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22 de Abril de 2014 - Posted by | Ideologia, Metodologia | , , ,

2 comentários

  1. Dizer que não estamos na fase imperialista do capitalismo é um erro total. É daquelas coisas que desarma completamente a teoria revolucionária. E relacionar o suposto fim da fase imperialista com o surgimento do fascismo é uma enorme asneira construída em cima da primeira. O fascismo confirmou e de que maneira o desenvolvimento da fase imperialista (o fascismo revelou isso sim as potencialidades das forças e fraquezas da fase imperialista no climax da sua hegemonia), fase essa que é bom relembrar Lenine afirmou certeiramente ser a derradeira. A ideia de que o fascismo evitou a revolução socialista explica alguma coisa na Europa ocidental, mas não explica nada, absolutamente nada no resto do mundo. Não explica nada na China e não explica nada em Cuba. Acho que o problema da tua análise de Lenine é que é realmente muito deslocada, o que devias estar a discutir era o dimitovismo, pois aí sim é que se estudam os êxitos e fracassos em enfrentar o fascismo na Europa.

    Comentar por Eduardo | 22 de Abril de 2014

    • Olha Eduardo, em poucas palavras.

      Compreendo a tua preocupação: do Imperialismo decorre a crítica do oportunismo. Assim, afirmar o fim do Imperialismo seria declarar o fim só combate ao oportunismo? O mesmo decorre do problema com o fascismo: o combate ao nazi-fascismo levou a teoria das frentes, que é a unidade com os oportunistas. Ora, trazer os dos temas pode parecer que para mim o combate ao oportunismo está ultrapassado.

      A questão é, entretanto, outra. Qual o lugar do fascismo e do oportunismo no contexto político atual. A diferença entre Lênin e a esquerda atual é que Lênin não dava espaço para o achismo. Tudo saía da análise rigorosa da realidade.

      Prometo em breve um texto sobre o capital-imperialismo, a nova fase do capitalismo segundo Virginia Fontes. Entretanto, o trabalho teórico e prático não pode parar.

      Abraço.

      Comentar por Jose Ferreira | 23 de Abril de 2014


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