Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Internacionalismo otário

A CDU, corretamente, lançou-se para esta campanha para o Parlamento Europeu exigindo o fim do euro. Sem duvida as afirmações feitas por João Ferreira são cautelosas e exigir que Portugal se prepare para a dissolução da união monetária não é o mesmo que exigir que o país se retire dela! Não obstante, a luta de classes tem destas coisas e as pessoas estão a tomar o discurso do camarada João Ferreira não pelo que ele é, mas pelo que ele devia ser. O “programa” da CDU se transforma assim, pela dinâmica política, na exigência da dissolução da união monetária e até da União Europeia. Eu, ateu, exclamo: Graças a deus!

Que os partidos da burguesia assumam a defesa do euro, um projeto clara e irremediavelmente burguês, não surpreende. Obviamente, pela divisão do trabalho entre tais partidos (eufemisticamente chamados ‘do arco do poder’), as críticas ao PCP são feitas pelos “socialistas”. Isto é extremamente positivo e ajuda a tornar o debate claro! Nada a opor. Que várias organizações de cariz oportunista o façam tampouco é novidade. Mas este facto nada tem de saudável e de esclarecedor, muito pelo contrário.

Há muito que alguns grupos, como o Passa Palavra (aqui a minha crítica) e outros, vêm opondo ao “patriotismo de esquerda” do PCP o “internacionalismo proletário”. Eu seria o primeiro a acompanhá-los nas críticas – e prometo, para breve, uma análise crítica deste vídeo do Octávio Teixeira – se o seu “internacionalismo proletário” não se revelasse, numa leitura mais atenta, um “internacionalismo otário”. Um modo bastante oportunista de fazer esquecer que qualquer transformação profunda da sociedade implica conquista do Estado (que permanece e está longe de deixar de ser nacional). A defesa vazia do internacionalismo, bem com a crítica fanática da burocracia, não são mais do que dois modos de iludir o mesmo problema: a necessidade de conquistar o poder sobre o Estado e destruir o sistema capital-imperialista burguês. Não é mais que o resultado de sua acomodação ao lugar da esquerda folclórica permitida pelo sistema capitalista.

Contra o “patriotismo de esquerda” convém lembrar sempre que, numa economia globalizada, o socialismo não se faz em um só país. Por esta razão o patriotismo nunca pode ser de esquerda. Mas isto não nega que o socialismo tenha que começar num país; que a tomada de um qualquer Estado nacional pelos operários seja um momento indispensável da transição ao socialismo. Que, portanto, o “patriotismo de esquerda” é o passo certo pelas razões erradas. Sem dúvida, há um atraso no trabalho teórico de analisar as mediações entre esse momento e aquele processo de transição. No entanto, é preciso insistir que o verdadeiro internacionalismo proletário só pode ser construído sobre as ruínas do imperialismo burguês.

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25 de Abril de 2014 - Posted by | Europa, Ideologia | , , , ,

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