Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Se as eleições mudassem alguma coisa seriam proíbidas?

Trotsky, em sua Teoria da revolução permanente, analisa as suas diferenças com Lênin no período de 1906 a fevereiro de 1917. Ambos afirmam, logo em 1906, que a crise revolucionária de 1905 se irá repetir e que, dessa vez, o proletariado irá tomar o poder. Não obstante, daqui Trotsky retira a conclusão de que não há necessidade de combater o oportunismo; enquanto Lênin afirma que somente combatendo o oportunismo é que a crise se repete. Trotsky reconhece que se equivocou.

A segunda diferença, segundo o próprio Trotsky, era que Lênin teria deixado em aberto a possibilidade do campesinato estabelecer uma organização revolucionária própria. Trotsky, pelo contrário, afirmou logo que eles eram incapazes de fazê-lo. Portanto, a necessária aliança operário-camponesa teria de ser, segundo Trotsky, desigual: isto é, sob liderança dos operários. Lênin, pelo contrário, deixava esse ponto em aberto à espera que a realidade oferecesse a resposta. É esse ponto que me interessa aqui!

O erro de Trotsky está em não considerar que, se os indivíduos podem aprender através de exemplos históricos, a massa só pode ser educada na prática. Basta olhar para o golpe de Pinochet para verificar que ‘se as eleições mudassem alguma coisa seria proibidas’. E mais, a história nos ensina que sempre que um partido comunista obtém, pela via eleitoral, influência considerável num órgão de Estado, esse órgão perde poder. Assim, os parlamentos perderam, na segunda metade do séc. XIX, algumas das suas atribuições para os governos. E, do mesmo modo, nas décadas de 1970 e 80 os governos perderam poder para os organismos internacionais. Ainda assim, resta no executivo um poder considerável que a simples possibilidade de um partido de esquerda alcançá-lo deixa o mundo em pânico. Veja-se a Venezuela.

Mas maioria da população e, igualmente, da classe operária, somente saberá que se as eleições mudassem alguma coisa seriam proibidas no dia em que a burguesia proibir as eleições. Saber saber já sabem; o problema é ter aquela certeza cá dentro que muda a nossa forma de agir. O que também me leva a dizer que adquirimos conhecimentos estudando; mas somente adquirimos certezas na prática. Devemos portanto deixar a resposta à questão (no título) em aberto. Não tanto porque, como mostra o caso da Venezuela, podemos ter a “sorte” de enfrentar uma excepção (ainda que confirmadora da regra), ao invés de lidar com a regra. Nas sobretudo pelo valor pedagógico das questões em aberto e da força das respostas dadas pela realidade.

Portanto, o papel da esquerda é levar as eleições ao ponto em que elas entram em contradição com a burguesia! Até esse momento, em que a sentença anarquista se confirma na prática e se transforma de retórica em lição. O papel da esquerda é VOTAR à esquerda!!!

Apresentei aqui outra razão pelas quais a esquerda deve, acima de tudo, abster-se de fazer campanha pela abstenção!

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23 de Maio de 2014 - Posted by | Partidos, Portugal | , ,

2 comentários

  1. Zé: mas dizer, dentro do contexto do seu artigo, que os parlamentos e governos perderam poder, é dizer, perderam -foram esvaziados- em razão de sua assunção por partidos de esquerda. Eu discordo dessa análise. Não vimos a esquerda subir aos governos em peso assim, quando muito uma esquerda meia-bomba à la socialdemocracia tardia. É verdade, todavia, que mesmo essa “esquerda” causa arrepios à direita mais conservadora.

    Acho fundamental, quando se discute esse assunto -institucionalismo, voto etc.- trazer à baila a necessidade de ser erguer o DUPLO PODER, a DUALIDADE DE PODERES, que, na ordem do dia, pode ser trabalhado desde já.

    Comentar por TEJO | 23 de Maio de 2014

    • Oi grande Tejo

      Sim! Mas o que dizes, Tejo, está longe de invalidar o argumento central do meu texto. O meu ponto é criticar os apelos que certa esquerda faz à abstenção. Porque a crítica em palavras de ordem é ineficaz se ela não indicar/ajudar a ver o movimento concreto real. (A distinção que adicionei, talvez enquanto comentavas, entre conhecimentos e certezas vai nesse sentido).

      E, por razões que não expus aqui, mas que linkei na última frase do texto, acredito que os apelos à abstenção servem mais à direita que à esquerda.

      De resto, faço a minha autocrítica: o texto não toca na questão do duplo poder. Mas tampouco quero ir ao outro extremo e passar a ver apenas o “anti-poder” (desculpa, não encontrei melhor termo) como solução. Aliás, na falta de estruturas de “anti-poder” em processo de construção, falar na necessidade delas pode ser um bom modo de evitar fazer alguma coisa. “Operaístas” como Negri são especialistas nisso.

      Abraço

      Comentar por Jose Ferreira | 23 de Maio de 2014


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