Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

O meu sonho de consumo (político)

Acredito que o marxismo se distingue dos neokantianismos mais materialistas por analisar a realidade, e em especial a conjuntura, não visando apenas o Real imediatamente dado mas um devir: em termos essenciais o socialismo (entendido, de forma estrita, como a tomada de poder pelos operários em seu modus vivendi); em termos concretos como um futuro desejável, provável e previsível. Aliás, Lênin supera Marx, como já afirmei aqui, ao insistir no devir concreto e na sua articulação com o devir essencial. (Podemos mesmo afirmar que se o oportunismo e o esquerdismo decorrem do mesmo equívoco. Quando se deixa de ver a articulação entre o objetivo imediato e o objetivo final, resta optar por um deles).

Dado o atraso da luta de massas, o objetivo da esquerda deve ser, no caso concreto de Portugal, unir a classe operária! Esta unidade, não obstante, está longe de passar por uma unidade dos partidos da dita esquerda cuja impossibilidade remete para dois fatores. Primeiro, definir onde começa a esquerda. Ainda que eu estivesse disposto em considerar João Galamba de esquerda, uma unidade com o PS é sempre uma unidade com José Seguro; no melhor dos casos com António Costa. E estes dois não são de esquerda. Logo, a unidade de esquerda está condenada pelo desacordo em definir onde ela começa. A segunda razão, mais fundamental, é que a unidade de partidos não significa a unidade da classe. A unidade de esquerda, tal como já ouvi propor a Louçã, está alicerçada nesse equívoco. A unidade da classe, como já fundamentei aqui, passa muito mais pela criação de uma organização de jovens desempregados do que por quaisquer arranjos partidários.

De qualquer modo, o objetivo deste texto é outro: como, a partir do quadro institucional, podemos trabalhar para essa unidade? O meu sonho de consumo era um governo de coligação PS-PSD; o CDS reduzido a muito pouco e tendo de optar entre ser o parceiro menor, muito menor, da coligação ou ficar reduzido ao partido-taxi; e, por fim, o líder da oposição ser ou Jerónimo de Sousa ou Semedo. De preferência, Jerónimo de Sousa. Não porque espere que se façam revoluções a partir da Assembleia da República, mas porque o centro do debate político, isto é, a divisão dos partidos entre direita e esquerda, deslocar-se-ia definitivamente para a esquerda opondo PS-PSD-CDS a BE e PCP-PEV. Este deslocamento do debate, associado a um contínuo deterioro dos partidos do arco do poder, é o único modo de que o BE deslanche como o Syriza. Felizmente, o meu partido, o PCP, não é adequado para captar votos flutuantes.

Se as sondagens pareceram confirmar o meu sonho de consumo, os resultados de domingo introduziram um joker no baralho. Como se vê aqui, a perda de votos de PS, PSD e CDS abrem espaço ao surgimento de novos partidos na Assembleia da República. O maior pesadelo da burguesia, ‘dar a oposição à esquerda radical’, coisa muito perigosa como já ouvi a Francisco Van Zeller, algo que também é o meu sonho de  consumo, pode ser evitado se Marinho Pinto ajudar. No entanto, Marinho Pinto pode tanto dar uma de Nigel Farange quanto uma de António Nobre. Tudo depende de resultado das legislativas e da sua pressa em chegar ao governo: será o líder da oposição pela direita (ultrapassando a CDU com os votos perdidos pelo PSD) ou o parceiro de coligação do PS? As aproximações de Marinho Pinto à extrema-direita (aqui, aqui e aqui também) são relevantes para esta análise.

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27 de Maio de 2014 - Posted by | Ideologia, Partidos, Portugal | , , ,

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