Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Programa mínimo IV

Desde 2012 que venho insistindo na necessidade de organizar jovens desempregados. Só a redação do programa vem melhorando. As versões anteriores, já publicadas neste blog, podem ser lidas aqui: I, II e III. Esta parece-me dizer tudo em menos palavras.

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Quando se olha para cada greve geral, salta à vista o quanto os sindicatos e, por consequência os partidos de esquerda, têm as suas raízes na função pública. Quem se destaca nelas? Os motoristas de transportes públicos (que quando não são EP, são PPP); os professores; os trabalhadores da recolha do lixo; e os funcionários da segurança social. Pouco mais! Reparem que nenhum sindicato dos três setores privados mais importantes para a economia portuguesa – construção cívil, supermercados e metalomecânica – se faz sentir na vida política nacional. Isto, por um lado.

Por outro lado, em cada greve geral, o debate entre a CGTP e a CIP é sempre acerca do impacto da greve no setor privado. Ou seja, a elite busca sempre colocar os trabalhadores do setor privado contra funcionários públicos e seus sindicatos, não só explorando a suposta melhor condição salarial destes como alertando que se cortam salários na função pública para (teoricamente) não aumentar impostos.

E tem funcionado. A CGTP que quer falar em nome de todos os trabalhadores, é obrigada a refrear a vontade de luta dos funcionários públicos para tornar essa luta minimamente aceitável para os trabalhadores do setor privado. Tanto é assim que se tem visto crescer a influência de algumas alas esquerdas do BE e do PCTP/MRPP nos sindicatos devido às hesitações que esta contradição interna e objetiva da classe trabalhadora provoca.

Ora, foram os jovens desempregados que conseguiram trazer a classe inteira para a rua. Não fisicamente, é verdade, mas em espírito. Basta lembrar o que ocorreu a 12 de março de 2011 e a 15 de setembro de 2012. Afinal, eles são filhos e netos das outras duas frações de classe. Antes do 12 de março, certos ideólogos burgueses assustados (José Manuel Fernandes, João Duque, etc.) tentaram explorar uma oposição entre uma geração “velha” previligiada e uma geração nova sem emprego devido a esses privilégios. Mas não funcionou. Os jovens sabem que é o rendimento seguro de seus pais e avós que ainda lhes dá alguma segurança. E estes estão tão ou mais preocupados com o desemprego jovem que seus filhos e netos.

Contudo, esta fração de classe que consegue mobilizar toda a classe, nunca se mobiliza a si mesma. Só a instabilidade social a mobiliza. Soares dos Santos contra Sócrates primeiro; Belmiro de Azevedo depois. Quase sempre, o maior empregador privado, o comércio por retalho, criticando o governo tomado pela banca. Salgado era amigo de Sócrates assim como Ulrich é amigo de Passos.

Bom, a prioridade da esquerda hoje é construir a autonomia desta fração de classe: criar uma organização própria que a garanta. E por forma a tirar partido das constantes brigas internas da burguesia, quer dizer, de maneira a andar à boleia das críticas dos donos de centros comerciais aos Estado apropriado pelos banqueiros, a organização dos jovens desempregados deve passar por uma campanha: «Desempregados não pagam dívidas!».

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1 de Dezembro de 2014 - Posted by | Economia, Ideologia, Portugal | ,

3 comentários

  1. Bom começo: “«Desempregados não pagam dívidas!»”

    Talvez a seguintes reflexões adicionais:

    1) Ninguém consegue o que quer seja útil sózinho… a começar por a producção de um novo homo sapiens sapiens…

    2) A tecnologia permite hoje que os mecanismos de trocas deixem de ser moedas e passem a ser “valor” directamente.

    3) Assim no meio dos desempregados TEM que haver alguns que são especialistas em:

    :: marketing
    :: informática
    :: línguas
    :: psicologia
    :: etc

    4) Imaginemos que eles se juntavam numa forma jurídica aberta que permitisse entrada de novos membros bem como a saída de membros que quisessem abraçar outros projectos.

    5) Iriam construir uma mecanismo de compensação de valor que poderia compensar valor e valor (moedas).

    6) Esse mecanismo teria o mecanismo de repartição dos excedentes para os dinamizadores e uma parte para uma fundação para fins que não tivessem ligação a política, religião, defesa, jogo, marketing-multível, alcool, tabaco e afins…

    7) A producção de valor iria fazer com que os desempregados começassem a criar valor mais que suficiente para satisfazer as suas próprias/familiares comodidades

    Comentar por kiitossakidila | 1 de Dezembro de 2014

    • Oi

      Hoje, precisamente, debatiamos algo semelhante a isso, estimado Marco. Rafael, um amigo economista que conheci este fim de semana, sonha em criar com uma cadeia de restaurantes, propriedade cooperativas dos seu clientes, trabalhadores e de todos os que lhe estão a jusante: agricultores, transportadores, etc. Um sistema fechado cuja distribuição dos excedentes (em termos marxistas, o que sobra depois de cobertos os custos) não se possa esconder por detrás de supostas leis de mercado, mas se torne, para todos os participantes, um problema político, quer dizer, sobre o qual têm que chegar a um acordo que não se pode sustentar por detrás de outros critérios que não éticos.

      Abraço

      Comentar por Jose Ferreira | 3 de Dezembro de 2014

      • Força!

        A ver se isto acontece ANTES do desaparecimento do homo sapiens sapiens… ☺

        Comentar por kiitossakidila | 3 de Dezembro de 2014


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