Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Resposta a João Medeiros

Fui brindado com um texto de João Medeiros em resposta ao meu Anti-Chico Martins. Começo por lamentar a cobardia do autor ao não indicar, aos seus leitores, onde encontrar o meu texto.  De resto, e depois de três parágrados de pura desonestidade intelectual, com que o João começa o seu argumento, encontramos um resumo das ideias de Francisco Martins Rodrigues (FMR). Não uma resposta às críticas mas uma reafirmação do que eu já havia criticado. «Uma mentira mil vezes repetida se torna uma verdade», já dizia Gobbels.

A primeira coisa que há que notar são exatamente esses três primeiros parágrafos. Algumas frases resumem essa introdução: «O PCP é um partido do sistema democrático burguês, mas não do que existe realmente (…)». «As ideias-base do PCP em matéria económica são simplórias». Elas traduzem um «projeto pusilâmine, ridículo e além do mais hipócrita, pois quem o formulou sabe de sobejo ser ele completamente irrealizável». Eu podia até concordar com isto se João Medeiros tivesse a coragem de reconhecer que o projeto do PCP, de um capitalismo de pequenos e médios burgueses sob regulação do Estado, é a Constituição da República Portuguesa. E portanto todos os problemas de que enferma a defesa da «Democracia avançada» enferma a defesa das «conquistas de Abril». É claro que é mais fácil criticar o PCP por um problema comum a toda a esquerda, inclusive João Medeiros e (nos dias ímpares) eu também.

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Vamos ao cerne da questão. João Medeiros usa uma frase minha deliberadamenter provocatória – «Chico Martins estava certo sobre Cunhal. Cunhal estava certo sobre a realidade!» – para repetir tudo o que FMR já tinha dito sobre Cunhal. Eu sempre gostei de ler o original, embora aprecie cópia quando bem escrita. Mas não é um texto bem escrito e, sobretudo, deveria ser uma resposta aos argumentos que eu apresentei no texto que o João decidiu criticar. Fiquei particularmente desiludido com a falta de esforço do João para entender o sentido daquela frase, até porque ele foi claramente explicitado. Álvaro Cunhal transformou em aliado o principal adversário de Lênin, a “aristocracia operaria” e seus companheiros de route pequeno-burgueses. Mas fê-lo num momento em que estes tinham tanta força social que era impossivel agir de outro modo. Se com ela jamais se faria o socialismo, sem ela não se faria nada.

Há exemplos abundantes e eloquentes acerca de influência da “aristocracia operária”, dessa camada aburguesada de trabalhadores, sobre a sociedade portuguesa durante a Revolução dos Cravos. O maior deles foi a vitória do PS nas primeiras eleições democráticas. A partir daí, como escrevi, «Nada se poderia fazer sem o PS. Se, com o PS, era impossível fazer a Revolução socialista foi porque, naquele momento, não existiram condições objetivas para fazer essa Revolução». Outra prova de que tenho razão é o insucesso de FMR e Arnaldo Matos em organizar uma alternativa ao PCP. Algo sobre o qual João Medeiros não é capaz de refletir.

Segundo João Medeiros «faltou ao proletariado um partido revolucionário»! Se é verdade, então o PCP é tão culpado quanto o PCP(m-l) e o MRPP. Mas não foi esse o caso. Como diz FMR, «o fortalecimento da base social do oportunismo» foi o fruto «da ascensão de uma importante camada pequeno-burguesa, bem como o reforço de uma aristocracia operária». Foi a força indispensável do PS. Ou seja, o que João Medeiros não vê é que o sucesso de Cunhal e do PCP, em particular na rápida e bem sucedida construção da CGTP, se deveu à compreensão da força da “aristocracia operária”.

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A questão não merecia ser discutida não fosse tão importante na atualidade. As duas tendências, quer dizer, os herdeiros de FMR e os herdeiros de Cunhal, estão hoje de acordo em três aspetos. 1) Que, nas vésperas da Revolução socialista, a luta essencial é contra a socialdemocracia. E 2) ainda estamos longe dessas vésperas da Revolução. 3) A prova que esta não é uma época revolucionária é que a crítica da socialdemocracia isola os partidos das massas. O desacordo está em o que fazer nesta época da maré baixa? Isolar-se para fazer, de antemão, o discurso correto; ou associar-se à socialdemocracia para alcançar algumas conquistas para o proletariado?

Eu, não obstante, tenho outra leitura da realidade. Nunca a burguesia dos países da periferia da Europa, de Ucrânia a Portugal, esteve tão dividida e tão fragilizada. Se não estão dadas as condições para fazer o socialismo hoje, é difícil imaginar algum momento no futuro em que venham a estar. Contudo, se a crítica do oportunismo isola os partidos das massas, quer dizer, não mostra qualquer efeito pedagógico sobre as massas – como provam 40 anos de vida frustada do PCTP/MRPP e dos seguidores de FMR e João Medeiros – é porque essa estratégia pensada à um século atrás não se adequa mais à realidade de hoje.

João Medeiros não percebeu que todo o meu texto se baseou em demonstrar que a realidade sobre a qual Lênin trabalhou, de 1914 a 1919, era distinta da realidade das décadas de 1970. A apropriação do discurso leninista no periodo posterior à II Guerra Mundial era possível somente à custa de um isolamento das massas, somente à custa de um abandono da função pedagógica do partido para assumir uma função quase religiosa de preservação da palavra do seu fundador. Era esse o sentido da minha acusação a FMR: para permanecer fiel às palavras de Lênin ele teve de trair o seu espírito.

Hoje estamos num novo momento distinto daqueles dois. E até que esse momento seja detalhadamente estudado, a esquerda salta como uma bola de ping-pong entre a adequação eclética à conjuntura e a leitura exegética de Lênin, isto é, entre o PCP/CGTP e a míriade de pequenos partidos e militantes portadores de um esquerdismo impotente. A solução passa pela crítica simultânea dos dois visando a “análise concreta da situação concreta”.

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8 de Dezembro de 2014 - Posted by | História de Portugal, Ideologia, Portugal | , , ,

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