Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Porque a Europa não resolve a crise na Síria?

Não se entende o que se passou ontem em Paris sem falar da guerra civil síria. O clima anti-democrático que se vive no Médio Oriente, e também na Síria, explica alguma coisa. Mas muito pouco, porque a Síria é (ou era) o país mais secular e democrático da região. Quando a Primavera Árabe, em 2011, chegou à Síria, muitos foram surpreendidos e alguns apontaram o dedo à CIA. A evolução da guerra civil síria, em 2012, deixou clara a mão norte-americana no processo. Obama chegou a propor ajuda militar às guerrilhas que combatiam Al Assad; mas o Congresso recusou-se a aprovar o envio de armas a xiitas que haviam pertencido à Al Qaeda. (A Al Qaeda desapareceu com a invasão do Afeganistão; mas as suas unidades subsistem de forma desarticulada.)

A oposição síria não contou com a ajuda direita dos EUA; mas a indirecta, através de Israel e da Arábia Saudita, não faltou. Sabe-se que a denúncia do uso de gás sarin, pelas tropas de Al Assad, em julho de 2012 foi plantada pela Mossad numa estação de rádio alemã. (Eu, fica a nota, estou convencido que foram os rebeldes a disparar o míssil. Por duas razões. Primeiro, porque já o tinham feito em março; a ONU denunciou-o, mas não encontrou eco na imprensa. Depois porque os supostos que levaram os comentadores encomendados pela CNN para atribuir a autoria do atentado ao governo foram todos desmentidos pelas análises balísticas do MIT. O MIT, contudo, chegou apenas à conclusão de que não podia atribuir a autoria a ninguém.)

Os interesses dos EUA na região vão além do controlo da energia. Isso ficou claro com o golpe de Estado na Ucrânia. Putin estava a usar o negócio do gás natural para atrair a Alemanha para o seu lado no xadrez geopolítico. Aproximou-se de Gerhard Schröder e vendeu uma parte da GazProm a investidores alemães para que os interesses russos passassem a coincidir, pelo menos em parte, com os alemães. Além disso, problemas técnicos na Turquia levaram ao abandono do gasoduto franco-americano, deixando a Europa dependente da GazProm para o seu abastecimento em gás natural. Criar problema e até mudar os regimes nesses países de passagem do gás e do petróleo do Médio Oriente para a Europa, então amigos de quem lhe pagava mais (Putin), foi a estratégia dos EUA para evitar o casamento entre Berlim e Moscovo.

Entretanto, uma jogada mais fundamental se preparava em Washington: o desenvolvimento de tecnologias e políticas de subsídios para produzir energia a partir de xistos betuminosos. Com isto, os EUA deixaram de importar petróleo no final de 2014, produzindo uma quebra no preço do barril de crude de 120 dólares (em junho de 2014) para 40 (em março de 2015), deixando a Rússia e, muito em particular, a GazProm, em maus lençois. Os capangas, arregimentados pelos EUA, foram dispensados. Os ucranianos tinha chegado ao poder e Merkel encarregou-se de os proteger. Os sírios ficaram soltos e transformaram-se no ISIS. Ficaram, não obstante, dominando um território com recursos suficientes para se manter sem apoio daqueles que, até há pouco tempo, os financiaram. O resto ainda está na memória e foi muito mais publicitado: destruição, assassinatos, etc. Não apenas entre a Síria e o Iraque, mas também fora. Agora em França.

Daí a dificuldade do Ocidente em atacar o ISIS. Derrotar o ISIS será fácil como apoio do exército sírio… Mas isso seria reforçar a posição geopolítica da Rússia. Outra solução complementar é apoiar o exército curdo. No entanto, isso seria fortalecer a sua luta pela conformação do Curdistão (promessa de Roosevelt, Churchill e Stálin no final da II Guerra Mundial), subtraindo territórios ao Iraque e (eis o problema:) à Turquia. Vale notar que PKK (Partido Comunista Curdo cujo braço armado é o exército curdo), até há poucos anos, era considerado uma organização terrorista pela Casa Branca. Mais: para escândalo de vários países da Coligação contra o Estado Islâmico, a Turquia bombardeou posições do exército curdo, a quem os EUA lançam armas do céu, dizendo que também eles são terroristas.

Ou seja, vencer o antigo capanga dos EUA é fortalecer inimigos geopolíticos do ocidente.

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14 de Novembro de 2015 - Posted by | Mundo | , , ,

1 Comentário

  1. Bem raciocinado.

    O que te parece isto casando com a teu artigo, por favor?

    http://susmitkumar.net/index.php/us-economy?id=96:Theory%20of%20Modernization%20of%20Islam

    Comentar por kiitossakidila | 15 de Novembro de 2015


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