Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Impeachment (desabafo)

Dilma não foi ontem impedida pela sua política. Embora eu a considere mais de esquerda do que Lula. Ou, pelo menos, entre 2010 e 2012, mostrou um arrojo que Lula nunca teve para mudar a estrutura económica do Brasil. Ocorreu, entretanto, que foi derrotada e reconheceu a derrota: desde 31 de dezembro de 2012 que a política de ajuste neoliberal, quer dizer, de corte nos salários e nas prestações sociais, se veio consolidando no governo. Dilma Roussef – acredito que contra as suas convicções – tornou-se tão de direita como Aécio Neves. Assinalei isso aqui. Tanto é assim que a primeira medida do novo governo de Temer já havia sido proposta por Dilma.

Dilma foi impedida porque o inevitável governo pela direita (uma vez que a crise económica não permitia mais o prosseguimento da política de conciliação de classes e uma vez que a desorganização da CUT e do MST, devido a essa política de conciliação de classes, não permitia a saída pela esquerda) dificilmente poderia ser levado a cabo por um governo petista. É que este não tinha base social para tanto. Aliás, ela só pode ser eleita porque mobilizou contra o eleitorado do PSDB, isto é, a base social de um ajuste neoliberal, uma multidão que ainda sonhava com a continuidade da política lulista. Sem possibilidade económica de governar com a mesma política de conciliação de classes, mas dependendo para sobreviver politicamente de uma base social à esquerda que se esfumaria caso Dilma abraçasse, de fato, o ajuste neoliberal, o governo tornou-se inoperante. E é por isso que ele cai empurrado pela elite empresarial do país!!!

O que me custa não é perder um governo de esquerda. Afinal, o Brasil perdeu um governo de direita que, manifestamente, não consegue governar, para outro igualmente de direita que talvez governe. A questão é que, no processo, se consolidaram valores de direita muito preocupantes; valores que o PT no governo nunca combateu. Juízes que agem como justiceiros; políticos que votam em nome do dízimo que recebem; corruptos que usam a corrupção para afastar adversários políticos; etc. Enfim, uma justiça parcial e injusta contra os pobres que agora atinge até os ricos que dizem falar em nome dos pobres. Sem falar de Bolsonaro que defendeu abertamente o torturador de Dilma Rousseff com a maior naturalidade. Um show de horrores que ontem desfilou pela Câmara dos Deputados do Congresso Brasileiro.

É essa banalização do mal que me leva a dizer que, não havendo diferenças na prática entre Dilma e Temer, exceto no plano da eficácia, o impeachment, ainda assim, foi muito ruim para o Brasil.

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18 de Abril de 2016 Posted by | Brasil, Ideologia, Partidos | 2 comentários