Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

A imprevisibilidade de Trump

O apoio irrestrito a Israel anunciado ontem por Trump diz muito do político que mora na Casa Branca. Ele toma os problemas complexos pelas suas partes, ignorando tempestivamente a suas inter-relações. Sobre o Oriente Médio, Trump já prometeu fazer duas coisas incompatíveis com esta: a) encontrar uma solução para a Síria junto com a Rússia e b) assegurar um maior envolvimento financeiro da UE neste “policiamento do mundo” (eis o que está por detrás das suas polêmicas declarações acerca da NATO). Ambas as promessas eleitorais colidem com este c) apoio irrestrito aos tradicionais aliados do “Ocidente”: Israel e Arábia Saudita. (A primeira intervenção externa dos EUA na era Trump foi contra os rebeldes no Iêmen, que tentam derrubar o Presidente pró-saudita.)

Ora, por razões diferentes, a Europa e a Rússia não podem subscrever uma política para o Oriente Médio assente neste apoio irrestrito a Israel e à Arábia Saudita. Pois, a Europa mantêm-se alinhada com a política do Obama de pretender um determinado equilíbrio regional que permita o “Ocidente” reduzir a sua intervenção (e os gastos a ela associados) no Oriente Médio, sem, com isso, deixar a região à mercê de Putin. Já a Rússia quer ter um protagonismo maior na política daquela região; mas o seu principal aliado é o governo iraniano, arqui-inimigo dos sauditas.Ao tomar esta decisão de ignorar a pretensão palestina de criar um Estado nacional, Trump coloca obstáculos claros a realização das suas duas promessas de campanha. E mesmo a aproximação à Rússia é incompatível com a exigência feita à Europa de mais dinheiro para a NATO. Afinal, o primeiro desejo da Europa é não depender da Rússia para ter acesso ao petróleo e gás natural do Oriente Médio.

Numa primeira análise, prever Trump implica i) mapear os problemas que ele têm na agenda e como ele os desmonta; ii) esperar para ver qual o primeiro que ele decide resolver (na sua forma radical de tomar decisões) e iii) antever as consequências dessa solução nas demais partes do problema. Por exemplo, este apoio irrestrito dos EUA a Israel e Arábia Saudita irá, em primeiro lugar, aumentar a despesa militar norte-americana na região; e, apesar dos apelos da Casa Branca, a Europa não virá ajudar a pagar a conta. Pior, enquanto os EUA não combaterem diretamente, mas se limitarem a financiar os exércitos israelita e saudita, a Rússia não terá pudor em financiar o Irão provocando uma escalada militar. A médio prazo, Trump terá de inventar dinheiro para colocar men on the ground. Enfim, a política de Trump, não só para o Oriente Médio, mas também para a governança global e interna, poderá ser antecipada pelos seus primeiros passos comprometedores.

Mas há também outra possibilidade. Deparando-se com os problemas criados pela primeira medida, Trump pode recuar criando um vácuo político. A imprevisibilidade será maior, porque a globalização dependerá menos da ação de Trump do que das reações dos demais países ao seu governo errático. Neste sentido, teremos de aprender a desviar o olhar e começar a compreender a dinâmica dos modelos de governança regionais.

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16 de Fevereiro de 2017 - Posted by | Mundo | , ,

2 comentários

  1. Esta mania que os comentadores têm de achar que foram Passos, ou Sócrates, os homens, que tomaram as decisões que tomaram! Trump é a ponta do icebergue de uma política que foi delineada a régua e esquadro por alguém que tem muito mais poder que ele. Ele é só o fiel executante. Se meter a pata na poça acontece-lhe o mesmo que a Kennedy… (lá não existe o Forte de Évora!).

    Comentar por manoloheredia | 16 de Fevereiro de 2017

    • Caro Manolo

      Duas notas.
      Primeiro, senti a ausência de Costa nessa lista que junta Passos com Sócrates, como títeres de poderes ocultos.

      Segundo, se houvesse uma relação imediata entre esses poderes ocultos e os seus “fiéis executantes”, então não haveria diferença alguma entre Obama e Trump; entre as decisões deles e as recomendações do jornal da burguesia (era assim que Marx falava do Economist).

      De resto, tento aprender com Marx. A luta de classes, para falar de forma marxista, não dita diretamente as decisões dos políticos, mas apenas a sua margem de manobra. Como eu digo a brincar: a luta de classes determina tanto as decisões do governo quanto o tampo da mesa determina onde eu coloco o meu copo de cerveja. Marx sabia disto quando analisou o governo de Napoleão III (que não era um títere da burguesia).

      Abraço

      Comentar por Jose Ferreira | 16 de Fevereiro de 2017


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