Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

O Papa e os vendilhões do templo

Percorrer as ruas do Rio de Janeiro hoje não é muito diferente de há um mês atrás quando ocorria a Copa das Confederações – exceto pelos protestos nas ruas, que agora são menores. Por toda a parte se ouve espanhol e inglês: nos restaurantes, no metrô, nos hotéis… Se entende então porque o Estado brasileiro investiu mais de cem milhões de reais neste evento religioso. Afinal, ele é acima de tudo um evento turístico.

Mas o que mais impressiona é Campo da Fé: quatro mil metros quadrados de terra planada, nos arredores do Rio de Janeiro, para a celebração de uma missa a céu aberto no próximo domingo dia 28. Um terreno que o cunhado do governador do Estado do Rio de janeiro cedeu “gratuitamente” em troca de uma terraplanagem. Ali será, depois, construído o loteamento Vila Mar.

De fato, uma visita papal se parece com um campeonato internacional de futebol. Não apenas pela capacidade de atrair turistas, mas também por abrir caminho à especulação imobiliária

22 de Julho de 2013 Posted by | Brasil, Economia, Igreja Católica | , , | Comentários Desativados em O Papa e os vendilhões do templo

Francisco

Muito se tem falado no Papa. Que é misógino, contra o casamento homossexual, contra o aborto, etc. Que foi o confessor e amigo do sanguinário ditador Videla. E que participou no desaparecimento de dois sacerdotes comprometidos com a esquerda, bem como foi cúmplice no rapto dos filhos dos militantes de esquerda mortos. Há até quem se lembre de Karol Wojtyla. Assim como um papa polaco foi pedra chave no derrube do comunismo soviético, um papa conservador argentino teria como missão minar o socialismo bolivariano?

Leonardo Boff, teólogo que Joseph Ratzinger mandou calar, acha que não. A eleição de um jesuíta que escolhe como nome Francisco, juntando assim as duas ordens da esquerda da igreja, anuncia novos tempos. Lembremos que, ao longo dos papados de João Paulo II e Bento XVI, o Vaticano foi comandado por duas ordens de direita: a Opus Dei e os Legionários. E que Bento XVI renuncia depois dos escândalos de corrupção, pedofilia e abuso sexual de freiras de que ambas eram acusadas. E mais: tais notícias só vieram a público na disputa entre estas duas ordens de direita. Na busca de poder, uma contava os podres da outra.

Parece então que estamos numa contradição. Para por termo à guerra entre duas ordens de direita, o Concílio elegeu um bispo e uma das ordens de esquerda da Igreja. Não obstante, esse bispo é de uma direita radical a que os seus dois predecessores não fazem sombra.

Parece irracional! Mas devemos considerar a hipótese da nomeação do confessor de Videla como Papa um sinal de que a esquerda será fortalecida na Igreja Católica. Simplesmente porque ninguém pode fazer alguma coisa sozinho. E para pôr ordem na casa, Francisco I terá a necessidade de apoiar-se na ala esquerda da Igreja Católica. Ou seja, os jesuítas e os franciscanos têm agora a chance de reforçar o poder que vêm perdendo nos últimos 50 anos.

Talvez a minha avó tenha razão: “Deus escreve direito por linhas tortas”.

14 de Março de 2013 Posted by | Igreja Católica, Mundo | | 1 Comentário

O último Papa

Alguém disse que somente é necessário demonstrar o valor de uma organização quando ela já perdeu o seu valor. O nobreza só é nobreza quando é inquestionável. O papado de Bento XVI, um intelectual católico, é o exemplo acabado de uma instituição que luta desesperadamente pelo seu lugar na sociedade.

A viragem do séc. XVIII para o séc. XIX foi péssimo para a igreja. Todos os países da Europa e da América Latina tiveram seus Mouzinho da Silveira que retiraram à igreja católica as bases de seu poder: suas terras e seu património, bem como lançaram-se a construir escolas. A secularização do conhecimento e da política começou aí. Enfim, para que os Estados nacionais se desenvolvessem e tornassem o que são hoje, foi necessário desembaraçar-se da tutela da Igreja Católica. E, contra a igreja, lançaram o conhecimento secular.

O século XX trouxe uma trégua nesta luta. A igreja, de repente, ganhou um novo papel na sociedade: o combate ao comunismo. O papado de João Paulo II esteve ao serviço de interesses claros e foi claramente apoiado por esses interesses. Na América Latina, a teologia da libertação impediu a igreja de cumprir o papel que lhe era exigido pelos Estados então dominantes. E daí se explica a grande proliferação de igrejas protestantes e neopentacostais no continente, inicialmente com o financiamento de fundações sediadas nos Estados Unidos da América.

Com a queda do Muro de Berlim, o polaco Karol Józef Wojtyła deixou ao alemão Joseph Ratzinger uma instituição perdida no seu papel no mundo. Ameaçada de um lado pela secularização, do outro pelas pequenas igrejas protestantes e neopentacostais. Se um milagre não acontecer, o filósofo alemão poderá ser o último Papa a ter vez e voz na política mundial.

7 de Novembro de 2010 Posted by | Igreja Católica | , , | Comentários Desativados em O último Papa

Reflexão sobre Ratzinger

Li ainda agora uma notícia sobre o modo como Papa está a lidar com os escândalos de pedofilia. A minha incompetência para contextualizar esta notícia é grande. Mas vejamos. Ratzinger foi apresentado ao mundo como o representante do que de mais conservador existe na Igreja Católica. A sua primeira acção foi em consonância com isso: foi ao Brasil criticar os restos de teologia da libertação que ainda existem na América Latina. No entanto, logo surpreendeu o mundo ao criticar os organismos geneticamente modificados. Ele opôs-se, nada mais nada menos, que à  Revolução Verde em África, essa iniciativa “humanitária” da fundação Bill e Melinda Gates, que decidiu “ajudar” ao desenvolvimento da agricultura em África quando a agricultura começou a dar dinheiro.

Ao contrário de João Paulo II, ele herdou uma missão onde vai contar com menos apoio internacional. O seu papel não é combater o papão comunista, onde certamente contaria com o empenho e a propaganda europeia e americana. A sua missão é travar a perda de fiéis para as igrejas protestantes e neo-pentacostais. (A crítica à teologia da libertação não é gratuita. Muitas igrejas protestantes proliferaram na América Latina com o financiamento de fundações norte-americanas que procuravam combater o comunismo na sua versão teologia da libertação. A despolitização da igreja é motivada pela necessidade de travar o crescimento da concorrência).

Em suma, um homem inteligente, religiosamente conservador mas no plano económico nem tanto, zeloso guardião da sua instituição. Vai ser interessante de seguir este papado. Terá mais a contar que o anterior… onde tudo já estava previsto desde o início.

19 de Abril de 2010 Posted by | Igreja Católica | , | Comentários Desativados em Reflexão sobre Ratzinger