Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Notas sobre a morte do Santigo Ilídio

O que acontece hoje no Brasil é gritante. Se a vida pessoal me tinha atirado para o sofá, os acontecimentos exigem que vá para a rua. O cinegrafista Santiago Ilídio morreu depois de ter sido atingido por um foguete (rojão de vara) lançado por um manifestante. Duas pessoas foram presas (aqui e aqui).

Sobre este assunto quero fazer algumas notas:

1.° Nenhuma morte de um ser humano nos deve deixar indiferentes; nenhuma morte deve ficar impune. Não posso subscrever a posição de alguns partidos de esquerda que buscam isentar os dois responsáveis pelo acidente (ver aqui). Quem brinca com o fogo queima-se. E estes brincaram com fogo e pólvora no meio de uma multidão. Que seja feita justiça!!!

2.º Vários setores conservadores aproveitaram o acontecimento para fazer a mais suja campanha contra as manifestações e os partidos à esquerda do governo. O editoral de hoje da Globo é a vitrine desta campanha. Por todos os meios se busca ligar os dois acusados ao deputado do PSOL Marcelo Freixo. Também o advogado do primeiro preso, de proveniência duvidosa, afirmou que o seu cliente recebia dinheiro de partidos para ir nas manifestações provocar tumultos. O Estadão, como bom aluno, aceita vergonhosamente a propaganda da Globo como facto.

3.º Sobre o anterior tenho duas coisas a dizer. A) Não é a primeira morte (e aqui) desde que as manifestações do Movimento Passe Livre tomaram parte da agenda política (aqui e aqui também). Onde tem estado o jornalismo empenhado da Globo? B) Conheço bem demais a forma como estas manifestações são organizadas, bem como o tipo de pessoas que as organizam. Não há nem logística nem dinheiro para pagar 150 reais a cada membro dos Black Blocs. Pior, os Black Blocs tendem a isolar-se do grupo principal com sua agenda própria.

4.º Há uma justiça para ricos e outra para pobres. Será que Caio Silva vai ser condenado a “serviços à comunidade” como Thor Batista? Obviamente que não. Essa “violência”, de se saber menos humano que outros perante a justiça, deveria servir de atenuante para Caio Silva e justificar, em parte, a sua fúria perante o mundo e a manifestação.

5.º A elite age com as duas mãos. Ao mesmo tempo que avança com esta propaganda contra as manifestações, restringe os direitos democráticos dos manifestantes (aqui e aqui também). O que está em marcha, sob a liderança de um governo dito de esquerda, cheira a fascismo.

6.º Em resumo, a elite está como sempre: a provocar uma guerra entre as favelas e a classe média para manter-se no poder.

Para que a morte de Santiago Idílio não sirva ao espírito de porco da burguesia, e por estas seis razões, voltaremos para as ruas quinta-feira.

12 de Fevereiro de 2014 Posted by | Imprensa, Segurança Rio, Sociedade Brasileira | , , , | Comentários Desativados em Notas sobre a morte do Santigo Ilídio

Impressões da manifestação

Pela primeira vez participei no Rio numa manifestação a sério. Nem uma passeata do Primeiro de Maio ou do Grito dos Excluídos; nem a célebre passeata da Cúpula dos Povos. Uma manifestação de protesto contra o aumento da passagem de ônibus. Fiquei nela até a primeira bomba de efeito “moral” – até descobrir que a moral abre nos olhos.

A impressão geral é a de um amadorismo tremendo. A manifestação refletia uma convocação por facebook sem nenhum outro trabalho de preparação: 500 estudantes, numa contagem por cima! À composição social dos manifestantes se junta outra característica típica dos protestos do Rio de Janeiro. Todos os temas aparecem. Para além do aumento da tarifa do ônibus falou-se da expulsão dos índios da Aldeia Maracanã, das remoções de casas causadas pela obra da Copa, etc. Ou seja, as manifestações são menos dos interessados nos motivos do protesto do que daqueles que vão a todas. Os que vão a todas são essenciais, sem dúvida, para trazer os interessados: sempre foram eles o esqueleto dos movimentos de protesto. Mas, no Rio, temos um esqueleto sem carne.

O trajeto original era descer a Rio Branco da Cinelândia até a Presidente Vargas e talvez ir até à Central. Creio que foi mesmo a polícia que conseguiu convencer os organizadores da manifestação – aqueles que dirigiam o carro de som do Sintuff – pela 1.º de Março. Mas logo à saída da Cinelândia ficou evidente que a coisa ia correr mal. Enquanto uns caminhavam a passo lento pela Almirante Barroso, outros queria ficar protestando de forma a cortar o trânsito na Rio Branco. Ora, é certo que “o negócio é fechar a avenida!“; mas não se fecha a Rio Branco com 500 pessoas. Alguns polícias chegaram à Cinelândia com cara de querer descarregar os cacetes que empunhavam. Tudo conspirava para que tivessem essa oportunidade. Na chegada à 1.º de Março, o carro do Sintuff foi “empurrado” para uma das laterais. Mas os manifestantes tudo fizeram para ocupar não apenas a lateral mas também uma das vias da avenida. Apenas uma das quatro! A polícia quis evitá-lo mas não foi a tempo. E se não ocupamos mais vias é porque aquelas 500 (talvez menos) pessoas mal chegavam para ocupar aquela além da lateral.

Foi ao chegar ao Tribunal de Justiça que tudo se estragou. A manifestação parou um pedaço em protesto… uma boa meia hora. Até que dois polícias se dirigiram ao carro e pediram-lhe que começasse a andar. O grupo se dividiu entre os que acompanhavam o carro e os que permaneciam protestando – já batendo nos vidros – frente ao tribunal. Obviamente, isolado o segundo grupo, a pancadaria começou. Dizem que o primeiro a bater foi um polícia – e acredito! Depois rebentou uma bomba de efeito “moral” e começou tudo a correr. A organização ainda gritou “não corram; não corram!” tentando reagrupar os manifestantes obrigando a polícia a se reagrupar também. Mas nada; ninguém parou. E a polícia fez rebentar mais quatro ou cinco bombas.

Li no facebook que uns foram para o IFCS. A maioria se reorganizou e passou a Presidente Vargas ficando a protestar na Central. Mas parece que também ali houve confrontos com a polícia e os manifestantes foram obrigados a correr para o Campo de Santana. No saldo dos dois confrontos 30 presos por vandalismo.

Durante a manifestação, ouvi gritar muita coisa bonita. O que mais me agradou foi “Oh motorista! Oh cobrador! Me diz aí se o seu salário aumentou”. Mas o que mais me marcou foi o “Vem. Vem. Vem…” que junto ao carro de som se gritava para fazer a manifestação avançar. E o “Vem. Vem. Vem…” que se repetia do outro lado exigindo que o carro recuasse.

P. D. Não quero naturalizar a violência da polícia que devia ter agido de outra forma. Mas também me recuso a naturalizar o comportamento naïfe dos manifestantes que deviam ter agido de outra forma também. Sinceramente, se todos tivessem seguido a convocação do carro de som a primeira bomba de efeito moral não tinha rebentado.

11 de Junho de 2013 Posted by | Brasil, Segurança Rio, Sociedade Brasileira | , , , | Comentários Desativados em Impressões da manifestação

Polícia com rosto humano??

Há dias chegou-me a notícia que as Unidades de Polícia Pacificadora anda a organizar feiras de poesia em favelas. É claro que se trata de um ação da chamada UPP Social, componente do programa de segurança da cidade do Rio de Janeiro levada a cabo, não por polícias, mas por assistentes sociais, sociólogos, pedagogos, etc. De qualquer modo, dependente de um comandante da polícia.

Trata-se de algo desenvolvido na Colômbia e que está a espalhar-se por toda a América Latina. Os políticos procuram melhorar a imagem que a população tem da polícia colocando o polícia a fazer serviço social ou contratando técnicos de serviço social para programas coordenados pela polícia. Mas o resultado é, em meu entender, muito pernicioso: tudo isto resulta numa militarização do braço social do Estado.

O problema destes programas pode ser explicado por uma analogia futebolística. A boa polícia é como o bom juiz de futebol: não se vê. Neste caso, o mau juiz quer compensar um penalty mal marcado com outro para a equipa contrária. É claro que o jogo é difícil de conduzir – a desigualdade imensa do continente produz necessariamente uma sociedade violenta. De qualquer forma dois certos não dão um errado.

Assim, se acredito que o policial deve chegar primeiro que o professor ou o médico – até para o professor ou o médico chegar em segurança – , não aceito que o professor e o médico cheguem sobre o comando da polícia. O trabalho da UPP Social não pode estar inserido no programa de segurança do Rio de Janeiro e depender dele. Deve estar inserido no programa de educação, saúde, etc. As funções devem ser separadas e vinculadas aos respetivos ministérios do Governo. Caso contrário, caso tudo – a saúde, a educação, a cultura, etc. – dependa da polícia, as UPPs se tornarão micro-estados militarizados dentro do Estado Brasileiro.

Uma polícia com rosto humano é tão pertinente quanto um juiz carinhoso numa partida de futebol.

21 de Maio de 2012 Posted by | Brasil, Segurança Rio | , | Comentários Desativados em Polícia com rosto humano??

Ambiguidades sobre a violência

Depois da entrada da polícia e do exército na Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão discute-se o que fazer. Pela minha parte, fico na ambiguidade de não poder deixar de subscrever as críticas ao modo como a polícia tem actuado, nem de dizer que nunca deveria ter entrado. Como afirmar que o polícia não tem o direito de julgar o criminoso, e portanto atirar sobre traficantes em fuga condenando-os à morte sem julgamento; que a política de segurança do Estado serve a interesses que não são os da segurança; e, ainda assim, não voltar atrás com o apoio à invasão do Complexo do Alemão?

Simplesmente porque a entrada da polícia senão é a entrada imediata do direito (incluído nele os direitos humanos), é pelo menos – o que já não é pouco – possibilidade de exigir que o direito entre. Uma curta pesquisa permite confirmá-lo:

Pacto: Pesquisas dizem que, depois da Lei Maria da Penha, aumentou o número de queixas. Como tem sido a demanda na Deam Legal – Rio?

Delegada:Em média, são 600 registros por mês nesta Deam. E cerca de três ou quatro prisões no mesmo período. Acredito que a informação sobre seus direitos tem estimulado as mulheres a procurarem as delegacias. (…) Mas, infelizmente, o que temos menos aqui é a procura de mulheres de comunidades.

Pacto: Qual seria o motivo dessa baixa procura de mulheres moradoras de favelas?

Delegada:Há mulheres moradoras de algumas comunidades que falam que não podem chegar com carro de polícia. Estas, às vezes, desistem de fazer o RO. Relatam para nós que, se chegar uma intimação, ela vai ser punida duas vezes, além de ser punida pelo agressor, ela também será punida pelo tráfico. Eles não querem a Polícia por perto por nenhum motivo. Acredito que este seja um forte motivo para que não tenha muitos casos de vítimas que moram em comunidades (ver fonte).

3 de Dezembro de 2010 Posted by | Brasil, Segurança Rio | , , , | Comentários Desativados em Ambiguidades sobre a violência

Ainda o Rio

A complexidade dos acontecimentos ocorridos esta semana no Rio de Janeiro – complexidade de natureza polícia – fez-me já escrever quatro posts à procura de trabalhar e retrabalhar a minha visão e posição sobre os processos. Este texto serve para apresentar alguma dessas conclusões.

1. Se existe alguma relação entre as actos de terrorismo do narcotráfico (a queima de 96 viaturas) e a invasão das favelas Vila do Cruzeiro e do Complexo do Alemão é o facto da polícia ter aproveitado as acções dos traficantes para justificar a ocupação dessas favelas há muito prevista. A reacção foi desproporcionada e pouco eficaz: a queima de carros continuou para além do início da intervenção e, o que é mais grave, pessoas chave nessa acção apenas foram presas cinco dias depois do inicio das acções. De resto, não é credível que as acções fossem uma resposta à nova estratégia da polícia contra o narcotráfico, até porque os bandidos não têm muito que se queixar. Resta-nos, por isso mesmo, especular porque o narcotráfico iniciou tal acção  de queima de ônibus/autocarros e carro.

2. Não, obstante, colocada a questão como uma reconquista de território ao narcotráfico, não há como não apoiar a acção do Estado. Somente quando se olha a polícia como uma instituição separada do Estado (que não é), graças a uma simplificação da realidade se pode tomar a posição contrária. Sem a presença da polícia não existe Estado a quem demandar educação, saúde, etc. Um exemplo muito concreto: como aplicar a Lei Maria da Penha num território onde a polícia não pode entrar; onde o narcotráfico dita os seus próprios tribunais. Que deve fazer o Estado quando necessita construir um teleférico (ou um hospital) para o Complexo do Alemão: negociar com o tráfico, entrar com a polícia ou não construir?

Contudo, a incapacidade da polícia permanecer nos territórios ocupados tem permitido que o narcotráfico se reorganize. Se a promessa  do secretário de segurança do Estado for cumprida, a de o contingente policiar permanecer nas favelas até a entrada da UPP, é  um passo. Não demasiado grande, mas importante. Se não se cumprir, então tudo foi uma perda de tempo e de vidas porque isto acontecerá, como sempre tem acontecido, a cada três anos.

3. Assumindo a necessidade da intervenção armada como forma de confronto do tráfico, ela não pode ser reduzida a isso. O carácter estrondoso e de necessidade urgente que assumem estas intervenções, faz esquecer que elas são um remédio para as consequências de um mal cujas causas não foram prevenidas (ver aqui também e aqui). Uma solução, não definitiva porque não acredito nelas, mas verdadeira, terá de tornar as intervenções pela força a menor parte do trabalho da polícia. Como perguntou um deputado federal de esquerda, como pôde ter saído uma ordem de atear fogo de uma prisão de segurança máxima? O texto de Luiz Eduardo Sousa foi-me o mais útil nessa reflexão.

4. Existe uma transformação social no Rio que, por um lado, eleva um grande número de pobres para a classe média e, por outro, recluir aqueles que não conseguem ascender socialmente às margens do Estado e do espaço. A construção civil e a criminalização da violencia têm um papel importante nisto. A primeira oferece à nova classe média o seu pequeno paraíso; a segunda empurra os outros para fora da vista: para esses espaços onde predominam as milícias e a corrupção da polícia.

Um dilema complexo, que já tentei abordar aqui mas que o espaço de um blog nunca será suficiente, que transformará a cidade do Rio de Janeiro em dois sentidos. Primeiro, forjará a criação de uma classe média conservadora que porá em causa a viabilidade política daquelas medidas que a fizeram surgir. Segundo, deslocará a criminalização da pobreza da luta entre ricos e pobres para a disputa entre remediados (classe média) e pobres. Se isto acontecer, o papel da esquerda estará mais provavelmente fadado ao fracasso.

5. Existem excluídos que sabem que não podem contar com a polícia: esses que foram marginalizados para a periferia do Estado, sob o controlo das milícias, onde a polícia não chega com o Estado de direito muito menos com o Estado social. Comecei este post a dizer que a luta pelo território deve ser inquestionavelmente apoiada porque é ela que permite a chegada do direito, dos direitos e dos serviços do Estado. Mas nessas margens de exclusão, onde chega uma polícia em simbiose com as milícias, o direito não chega. É por isso normal que certos grupos não vejam diferença entre a polícia e o narcotráfico. E, nesse caso, prefiram o narcotraficante com quem jogaram à bola em criança ao polícia que chega de outro lugar e que só vêem quando lhe têm de encher o bolso para poderem continuar com o pequeno negocia informal que os sustenta.

29 de Novembro de 2010 Posted by | Segurança Rio, Sociedade Brasileira | , , , | Comentários Desativados em Ainda o Rio

Violência: limites do discurso de esquerda

O conflito entre o Estado (polícia e exército) e o narcotráfico no Rio de Janeiro mostra bem os problemas que a esquerda tem em colocar politicamente a sua visão de mundo. Os debates entre esquerda e direita não fazem uma tese e uma antítese; eles não são sequer confrontáveis. Enquanto a direita se coloca no plano do hoje, do curto prazo, a esquerda se coloca no plano do ontem e do amanhã, isto é, das reformas institucionais que somente poderão suceder a médio ou mesmo longo prazo. Assim, a ideia de que “não defendemos criminosos, mas o que a política está a fazer não resolve” não passou para a população. Culpa da comunicação social? Seguramente tem a sua cota parte. Mas é mais culpa de uma sociedade – e já nem sei se é característica do capitalismo ou se é inevitável – onde o “urgente não deixa tempo para o importante” (Quino).

Sem ter conseguido mostrar a existência destes dois planos (duas temporalidades), mais vezes confundindo-os, foi acusada pela vox populi de defender criminosos. Mas, pelo contrário, a esquerda sabe que a polícia deve agir by the book, pese que esse book tem muito poucas virtudes e necessite de ser reescrito. Mesmo assim o contrário é não agir. E não agir é fazer desaparecer uma instituição e tornar inviável qualquer política de segurança, boa ou má, pela simples ausência de um agente para implementá-la. Por isso, políticos destacados de esquerda escreveram explicitamente “Todo apoio às recentes ações de fim do controle territorial de regiões pobres pelos bandidos” ou “Num momento de crise como este a Polícia deve estar na rua e algumas perdas são inevitáveis, infelizmente“. Porquê? Porque quando é necessária uma resposta urgente “não há espaço para nada senão o disponível, acessível, conhecido, que se aplica com maior ou menor destreza“.

Mas esta é a única oportunidade de que dão para falar do combate ao narcotráfico. Por isso, a esquerda respondeu a perguntas que não se colocam quando fingia responder às perguntas colocadas. Com isto não quero dizer que a esquerda não disse nada de importante. Bem pelo contrário. Somente que o momento em teve para falar foi um em ninguém estava preparado para ouvi-las. Mas pela sua importância vale a pena repetí-las:

  • Reforço institucional da polícia. Mais investimento em inteligência e menos em força. Combate à corrupção e às suas relações com a segurança privada ilegal (milícias).
  • Combate ao transporte de drogas e armas, não às  favelas, isto é, a um varejo capilar, um peixe miúdo que se reproduz facilmente.
  • Ao lado da polícia (braço direito e masculino do Estado) devem estar as políticas sociais (braço esquerdo e feminino). Somente as políticas sociais e o emprego podem evitar que o narcotráfico continue a recrutar jovens nas favelas.

Em tudo isto, resta uma boa notícia:

Um processo em curso levará a uma pacificação da cidade mais rápido do que o que se supõe. De facto já tinha ficado com essa ideia quando li que as UPP reduzem as despesas dos traficantes. É, portanto, do interesse dos traficantes terminar com a guerra com a polícia. Esta ideia lí-a hoje no texto de Luiz Eduardo Soares: “É excessivamente custoso [ao narcotráfico] impor-se sobre um território e uma população, sobretudo na medida que os jovens mais vulneráveis ao recrutamento comecem a vislumbrar e encontrar alternativas. Não só o velho modelo é caro, como pode ser substituído com vantagens por outro muito mais rentável e menos arriscado, adotado nos países democráticos mais avançados: a venda por delivery ou em dinâmica varejista nômade, clandestina, discreta, desarmada e pacífica” (fonte). O fim insegurança no Rio de Janeiro parece ter tudo para acontecer e sem sequer exigir uma grande reforma das polícias.

28 de Novembro de 2010 Posted by | Brasil, Segurança Rio | , , | Comentários Desativados em Violência: limites do discurso de esquerda

E o Rio continua indo…

Quando a operação militar do BOPE subiu a Vila Cruzeiro empurrando os narcotraficantes para o Complexo do Alemão, fiquei apreensivo. Encurralaram os criminosos num conjunto de seis favelas onde a polícia já tem história de intervenção atabalhoada. Mas logo isso pareceu previsto, com o reforço da polícia com mais 800 militares e equipamento. Uma medida, sem duvida, desproporcionada e desajustada para enfrentar os mais recentes crimes no Rio. Além de somente hoje a polícia ter feito o que deveria ter feito desde início: prender os intermediários entre o autor da ordem e os executores. Tudo isto deixa claro que o governo do Estado decidiu aproveitar a oportunidade para outros fins: retirar território ao narcotráfico. E, se é assim, não é como resposta a uma série de crimes que esta acção deve ser vista, mas nas suas intenções aparente.

Quando a disputa que se coloca é por território, não há como estar de outro lado que o da polícia. Sem dúvida, discordo de uma polícia que faz tiro ao alvo a criminosos em fuga. Sem dúvida, é uma ofensa ao bom senso o facto do território em disputa ser escolhida à medida das conveniências da industria imobiliária. Mas, apesar disso, não se pode ter outra opinião. Dizer que o Estado não deve disputar um território com o narcotráfico – seja em nome das vítimas de balas perdidas, seja afirmando que a polícia não difere dos narcotraficantes nos maus tratos à população – … Dizer isso, é aceitar a presença de um outro Estado, de um outro direito (no jornal da Globo uma moradora da Vila Cruzeiro falava dos tribunais dos narcotraficantes onde eram julgados os diferendos da favela). É, enfim, negar a presença do Estado do Brasil para aceitar a presença de um proto-estado do narcotráfico. A questão é que por muito que o Estado de direito dificulte a mobilização social e torne difícil as eleições para as minorias, o proto-estado narcotraficante nem sequer coloca essa hipótese. Então como exigir direitos, educação, saúde, isenção de um Estado que não está ou de um proto-estado que não tem?

Obviamente, o Estado de direito funciona mal. A esquerda perde sistematicamente todas as lutas nesse Estado. Vale a pena então defender a presença de um Estado que não nos dá muito pouco espaço? Vale! Vale porque é contra um proto-estado que não nos dá espaço nenhum. Um político é corrupto, mas no proto-estado narcotraficante nem é possível falar de corrupção. Há maus políticos mas também há cassassão de mandato e há CPI’s. Há tudo isso que de bom tem muito pouco. Do outro lado não há nada.

Uma má solução de hoje que nos permite desejar um amanhã. Penso que foi de acordo com esta lógica que Chico Alencar escreveu “Todo apoio às recentes ações de fim do controle territorial de regiões pobres pelos bandidos“. Mas a polícia do Rio de Janeiro não parece ter condições para manter o território ‘conquistado’. E o que poderia ter sido o início de uma nova era na Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão, arrisca-se a ser apenas mais uma demonstração de forças da polícia e do exército. Mais 34 pessoas condenadas à morte sem julgamento para que tudo se repita daqui a 1 ano. Porque afinal, o Rio não pode chegar assim à Copa do Mundo.

27 de Novembro de 2010 Posted by | Brasil, Segurança Rio | , , , , | Comentários Desativados em E o Rio continua indo…

O que se passa no Rio de Janeiro?

No mais recente bairro assegurado (tanto no sentido da segurança como no sentido dos preços) para a elite, a Lapa, sinto-me seguro. Hoje vai cantar Lenine ao ar livre, gratuitamente, e eu talvez vá! Não deixo de ouvir os helicópteros sobrevoando a cidade, nem de ver nas imagens da Globo as operações policiais nas favelas. Cerca de  trinta de carros e autocarros incendiados; vinte e cinco traficantes mortos (todos traficantes?); quase duzentos presos; e, números oficiais, duas pessoas mortas, inclusive um criança, por balas perdidas.

O que pensar de tudo isto? É complexo. Por um lado, os carros em chamas foi uma provocação de um cabeça do narco, em retaliação contra a estratégia das Unidades de Polícia Pacificadora  (UPP). Ao mesmo tempo, aproveitando a oportunidade para uma “reacção desmedida”, a polícia ocupou mais uma favela – a Vila Cruzeiro – e, possivelmente, amanhã repetir-se-á o mesmo em várias outras: o Complexo do Alemão. Como negar ao Estado o monopólio da violência legítima de um território? Como exigir o braço social do Estado – saúde, educação, etc. – num lugar onde não chega o seu braço legal, onde a lei é ditada pelo narcotráfico?

Por outro, o principio de disparar antes de perguntar, antes mortos do que presos. As balas disparadas do alto de um helicópteros ante criminosos em fuga. Um autêntico jogo de playstation para o sniper da polícia tirou o direito de julgamento a vários homens armado – condenados à morte num país que se orgulha de não ter pena de morte. Enfim, pior, o facto de terem empurrado os narcotraficantes numa favela onde vivem milhares de civis. Alguns destes, amanhã serão vítimas do fogo cruzado.

Além disso, isto tudo acontece sem que outras medidas de combate ao tráfico de drogas e de armas mostrem resultados. Combate-se o vendedor na ponta final, no retalho ou varejo, o peixe miúdo, enquanto o combate a transporte e ao peixe graúdo não existe. Mas é mais: nem todo o peixe miúdo é combatido. Somente aqueles que atrapalham o sector imobiliário do Rio de Janeiro. Somente quem está perto de um bairro onde os preços dos apartamentos não param de subir. Claramente, protege-se, por um lado, a especulação imobiliária e, por outro, os eventos internacionais como os a copa do mundo de 2014 e os jogos olímpicos de 2016.

Tudo isto não chega para dizer o Estado não deve reocupar os seus territórios, a começar com a polícia (mas logo exigindo o direito e os serviços públicos). Tudo isto não serve para afirmar que seria preferível deixar impune a acção do narcotráfico a fazer o que estão fazendo.  Por isso, gostava de citar dois políticos da esquerda brasileira. O deputado federal Chico Alencar, do PSOL

Todo apoio às recentes ações de fim do controle territorial de regiões pobres pelos bandidos. Mas sem políticas públicas plenas para as áreas e populações ditas ‘libertadas’ o potencial de degradação da vida continuará, ao invés da propalada ‘pacificação’. O ‘sacode’ do banditismo – sempre considerado ‘acuado’ pelas autoridades – só semeia pânico pelo fato de continuarem muito bem armados seus ‘ativistas’: sem desarmamento e corte das fontes desse abastecimento nada avançará. (fonte)

E do deputado estadual Marcelo Freixo, do mesmo partido

Nós temos a tradição de uma polícia violenta e uma criminalidade com armamento muito pesado no Rio de Janeiro. Num momento de crise como este a Polícia deve estar na rua e algumas perdas são inevitáveis, infelizmente. Mas ao longo do tempo o que poderia e ainda deve ser feito é um enfrentamento ao tráfico de armas muito mais estratégico do que se tem. Hoje temos um enfrentamento às favelas e não ao tráfico de armas. Não tem nenhuma ação no que diz respeito à entrada de armas, sobretudo na Baía de Guanabara e nas estradas. O enfrentamento ao tráfico de armas é frágil, ocorre mais no destino do que no caminho. E o destino é sempre o lugar mais pobre. (fonte)

Enfim, mais do que criticar a má solução de hoje, há que apontar o que não foi feito ontem e o que fazer amanhã.

26 de Novembro de 2010 Posted by | Brasil, Segurança Rio | , , | Comentários Desativados em O que se passa no Rio de Janeiro?