Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Janaína Paschoal: a vergonha da USP

Janaína Paschoal, a cara do trio que apresentou, no Congresso Brasileiro, o pedido de impeachment de Dilma Rousseff é professora da afamada Universidade de São Paulo. Diz o seu currículo oficial que já foi professora de Direito Constitucional no Centro de Altos Estudos da Polícia Militar de São Paulo. Recomendo, no entanto, a consulta de duas intervenções na última sessão do impeachment, ocorrida ontem no Senado Federal, para dar conta o quão mal ela parece conhecer o debate constitucional existente no país. Primeiro, as alegações finais do processo de impeachment proferidas pela própria Janaína Pascoal. Respondendo às acusações feitas, por Dilma Rousseff na véspera, de que o processo nada seria sem o apoio do execrável Eduardo Cunha, a advogada relembra que o processo assentava em um tripé: o negócio ruim de Passadina; a gestão económica de 2014 e os atos fiscais de 2015. O ex-Presidente da Câmara dos Deputados havia retirado os dois primeiros “pés” da acusação, restando apenas aquele – segundo a autora – de menor gravidade.

O segundo vídeo para o qual chamo a atenção é a intervenção de Fernando Collor, o presidente afastado em 1992. Ao recordar o seu impeachment há catorze anos, ele permite compreender a jurisprudência do rito. Collor foi impedido pela Câmara dos Deputados, cassado pelo Senado e absolvido pelo Supremo Tribunal Federal. Porque foi absolvido? Ora, porque um Presidente da República só pode ser julgado e condenado por atos ilícitos cometidos durante o seu mandato. O carro comprado por Collor, ilegalmente, com as sobras do dinheiro da campanha eleitoral, jamais poderia servir como base para impeachment uma vez que ocorreu antes da sua tomada de posse! Esta foi a decisão da suprema corte. (Poderia, contudo, ser julgado em qualquer corte civil após o termino do seu mandato. A Constituição Brasileira prevê isso! Um Presidente que haja cometido um assassinato na véspera do seu empossamento, não sendo pego em flagrante, só poderá ser julgado por isso quatro anos depois.)

A professora da USP parece não ter levado isto em conta. Será que estudou o processo pelo qual Collor foi afastado da Presidência da República? Bastava olhar para a decisão do STF para entender que qualquer coisa que tenha ocorrido antes do dia 1 de janeiro de 2015, isto é, antes da tomada de posse de Dilma Rousseff para o seu atual mandato, jamais poderia servir de base ao impeachment. Cunha salvou o impeachment… e os três advogados que o perpetraram da vergonha.

31 de Agosto de 2016 Posted by | Brasil, Ideologia, Sociedade Brasileira | , , | Comentários Desativados em Janaína Paschoal: a vergonha da USP

70 velhos?

Duas leituras me levaram a escrever este segundo texto sobre o manifesto dos 70 notáveis. A primeira foi a Carta a uma geração errada, de José Gomes Ferreira. Por um lado, insiste no discurso antidemocrático que já assinalei aqui. Por outro – e é o que quero tratar agora – coloca as coisas em termos geracionais. (Não deixa de ser sintomática que este porta-voz da “nova geração” termine a sua carta com uma frase tão velha como: “Deixem os mais novos trabalhar”). A segunda foi este texto, no 5dias, cuja utilidade está em ser o único a constatar acertadamente que o efeito prático deste manifesto terá sido apenas isolar Passos Coelho e Seguro. (Utilidade que se resume ao último parágrafo. Quem não está convencido do discurso genérico de esquerda, que perfaz quase todo o texto, não ficará convencido com a sua repetição Ad nauseam).

De qualquer modo, pergunta-se: estamos perante uma guerra de gerações? Vale lembrar – e é isso que motiva a chamada de atenção para a segunda leitura – que a melhor qualidade e o pior defeito do governo de Passos Coelho foi ser composto por uma nova geração. Portanto, a sentença de Frederico Aleixo apenas confirma o ponto de vista de Gomes Ferreira, se considerarmos que a direção atual do PS está, como o governo de Passos, nas mãos de uma nova geração. Não é, de qualquer modo, uma geração isenta de culpas, porque é nela que se deve colocar José Sócrates. Aliás, seria equivocado não considerar que os governos de Barroso a José Sócrates foram de transição.

Mas, se é assim, a nova geração não fica muito bem no retrato. Basta lembrar Medina Carreira, acusando Sócrates de ser um destes novos políticos de classe média baixa que não seriam ninguém fora da política. E que, por isso, são incapazes de agir sem pensar em eleições. Ou em Pacheco Pereira, que caracteriza Passos como um político formatado num a juventude partidária e movido pela mera ambição de poder (aqui; não encontro a fala de Carreira e, por isso, citei de memória).

Contudo, essa crítica é injusta. A política foi tomada por gente formada nas “jotas” porque todos os outros não quiseram saber de política. Não pondo em discussão a competência individual de cada um, os partidos são hoje liderados por equipas que têm competências redundantes. Aliás, eu mesmo tive a oportunidade de observar isto no PCP. Reconheço grandes competências a cada um dos elementos desta nova geração de comunistas que é a minha. Mas o facto da maioria provir da “jota” faz com que a pouca diversidade de experiências e competências resulte num coletivo “incompetente”. O PCP ainda tem a vantagem da sua forte raiz ideológica obrigar a ler e discutir filosofia e história. Mas imagine-se o que terá ocorrido nos partidos catch-all!

Mas, ainda assim, a crítica não será justa enquanto não observarmos que o problema não está só nos políticos. Duas décadas em que o crescimento econômico (1980 e 1990) permitiu uma política estável e fez com que as pessoas tivessem poucas preocupações com a sociedade. Foi um tempo mais apropriado para as visões especializadas, por forma a prosseguir a sua carreira profissional, do que para as visões panorâmicas de quem é assaltado pela diversidade de problemas sociais. Ao lado dos políticos cuja especialização é organizar pessoas para qualquer coisa, surgiram economistas para quem a realidade é um modelo matemático; matemáticos que nunca leram Ramalho Ortigão; e professores de português que não sabem fazer contas. Por outras palavras, a falta de desafios societários durante uma gerações gerou visões estreitas! … bem contrárias à daqueles que tiveram de reinventar a democracia.

Ora, o governo de atual é fruto do encontro destes políticos com aqueles economistas. Passos Coelho e António Borges (embora mais velho, partilha do perfil); Miguel Relvas e Álvaro Santos Pereira. Este governo é bem o resultado desta geração. De um lado, políticos práticos, organizadores de coisas, para quem as necessidades são sempre ditadas pela contingencia, ou por quem está acima deles, e nunca estrategicamente pensadas. Do outro, economistas abstratos que ditam as necessidades a partir de modelos teóricos. Eis porque a reação dos novos à rabugice dos velhos foi tão antidemocrática.

13 de Março de 2014 Posted by | Ideologia, Sociedade Brasileira | , , | 3 comentários

Notas sobre a morte do Santigo Ilídio

O que acontece hoje no Brasil é gritante. Se a vida pessoal me tinha atirado para o sofá, os acontecimentos exigem que vá para a rua. O cinegrafista Santiago Ilídio morreu depois de ter sido atingido por um foguete (rojão de vara) lançado por um manifestante. Duas pessoas foram presas (aqui e aqui).

Sobre este assunto quero fazer algumas notas:

1.° Nenhuma morte de um ser humano nos deve deixar indiferentes; nenhuma morte deve ficar impune. Não posso subscrever a posição de alguns partidos de esquerda que buscam isentar os dois responsáveis pelo acidente (ver aqui). Quem brinca com o fogo queima-se. E estes brincaram com fogo e pólvora no meio de uma multidão. Que seja feita justiça!!!

2.º Vários setores conservadores aproveitaram o acontecimento para fazer a mais suja campanha contra as manifestações e os partidos à esquerda do governo. O editoral de hoje da Globo é a vitrine desta campanha. Por todos os meios se busca ligar os dois acusados ao deputado do PSOL Marcelo Freixo. Também o advogado do primeiro preso, de proveniência duvidosa, afirmou que o seu cliente recebia dinheiro de partidos para ir nas manifestações provocar tumultos. O Estadão, como bom aluno, aceita vergonhosamente a propaganda da Globo como facto.

3.º Sobre o anterior tenho duas coisas a dizer. A) Não é a primeira morte (e aqui) desde que as manifestações do Movimento Passe Livre tomaram parte da agenda política (aqui e aqui também). Onde tem estado o jornalismo empenhado da Globo? B) Conheço bem demais a forma como estas manifestações são organizadas, bem como o tipo de pessoas que as organizam. Não há nem logística nem dinheiro para pagar 150 reais a cada membro dos Black Blocs. Pior, os Black Blocs tendem a isolar-se do grupo principal com sua agenda própria.

4.º Há uma justiça para ricos e outra para pobres. Será que Caio Silva vai ser condenado a “serviços à comunidade” como Thor Batista? Obviamente que não. Essa “violência”, de se saber menos humano que outros perante a justiça, deveria servir de atenuante para Caio Silva e justificar, em parte, a sua fúria perante o mundo e a manifestação.

5.º A elite age com as duas mãos. Ao mesmo tempo que avança com esta propaganda contra as manifestações, restringe os direitos democráticos dos manifestantes (aqui e aqui também). O que está em marcha, sob a liderança de um governo dito de esquerda, cheira a fascismo.

6.º Em resumo, a elite está como sempre: a provocar uma guerra entre as favelas e a classe média para manter-se no poder.

Para que a morte de Santiago Idílio não sirva ao espírito de porco da burguesia, e por estas seis razões, voltaremos para as ruas quinta-feira.

12 de Fevereiro de 2014 Posted by | Imprensa, Segurança Rio, Sociedade Brasileira | , , , | Comentários Desativados em Notas sobre a morte do Santigo Ilídio

Sobre os Black Blocs

Já faz umas semanas, pouco mais de um mês, que eu quero escrever algo sobre os Block Blocs aqui no meu blog. O texto do PSTU, equivocado, acirrou o debate. Penso que chegou o momento. Para começar, digamos que me irrita profundamente os termos do debate em que os Black Blocs se tornaram algo sagrado: quem os crítica é acusado estar do lado da Globo, portanto, ser de direita. A primeira crítica que os Black Blocs merecem não é exatamente a eles, mas ao seu entorno: a aureola que a esquerda, em particular anarquista, construiu sobre eles.

Uma questão teórica sobre teoria

Os anarquistas e os trotkistas se parecem mais do que o que creem. Os trotskistas olham para a teoria (em particular, o Programa de Transição) como a receita, uma receita de bolo, para mudar o mundo. Ora, a teoria é o domínio consciente de prática. Isto é, a teoria é o conjunto de pressupostos que nos fazem optar por este ou aquele método de luta. Sem colocar o pressupostos em debate, sem se propor a duvidar do Programa de Transição, os trotskistas só podem aparecer como “certificadores de boas práticas” de luta de massas. Enfim, só a tática decorrente de uma teoria pré-estabelecida é considerada correta.

Ora, os anarquistas estão, apenas aparentemente, do outro lado. Suas organizações se definem pela sua prática; os Black Blocs são apenas o caso extremo. O desprezo pelo debate teórico sobre a prática é tão antigo quanto o anarquismo – ao ponto de não darem conta que partilham, com o liberalismo, a mesma noção de indivíduo. Neste sentido, entre trotskistas e anarquistas não há qualquer maleabilidade tática.

Esboço de uma análise da violência

É mais ou menos partilhada por toda a esquerda a seguinte questão: 1) ninguém defende a violência, é contra ela; 2) mas todos sabem que sem violência as manifestações não atingem o impacto mediático que podem ter. No Brasil isto ainda é mais unânime. Os Black Blocs na Europa fazem da destruição do património burguês sua tática. Os Black Blocs do Rio de Janeiro se propõem como um grupo que não ataca; apenas defende os manifestantes. Este texto foi partilhado na página dos Black Blocs RJ e foi dado destaque ao ponto “Violência policial e autodefesa”. No entanto, isto é compatível com atitudes claramente provocatórias como aquela usada na manifestação de 11 de julho, em que se colocaram entre a CUT e a polícia.

É certo que a violência funciona em dois sentidos. Sem a violência de 13 e 15 de junho, da polícia sobre os manifestantes, as grandes manifestações de 20 de junho nunca teriam ocorrido. Mas é também a violência, sobretudo aquela do dia 20, que faz com que hoje muitos fiquem em casa. Ainda assim, a violência dos das semanas anteriores (a destruição da griffe Toulon) é que transformaram o Rio no epicentro da luta no país. É a violência que tem garantido que manifestações de mil ou dois mil manifestantes tenham um impacto maior do que o que têm tido até aqui.

Não admira pois esta ambiguidade: todos querem a violência desde que possam responsabilizar os outros por ela.

O maior entrave ao debate teórico

A violência parece algo totalmente prático. E, não obstante, livros famosos foram escritos sobre ela – em particular, sobre a guerra. Este, em particular, teve uma influência grande sobre o leninismo. O problema está sempre em colocar a ação em seu contexto; em lembrar que um vestido vermelho numa igreja não é a mesma coisa se se trata de um casamento ou um funeral. Os Black Blocs e os anarquistas em geral sempre tiveram dificuldade em fazer isso. Vou dar um exemplo.

Também na manifestação de dia 11 de junho, os Black Blocs tiveram a sua primeira escaramuça com a polícia logo à saída da manifestação. Não sei quem começou. Sei que estava toda a gente bem alheada do que se passava entre eles quando estouraram as três primeiras bombas da gás lacrimogéneo. O comando de greve deu, imediatamente, início à manifestação convocou os manifestantes para começar a andar. O trio elétrico saiu até em passo apressado para tirar os manifestantes dali, da Candelária, então cheia de gás pimenta. Entretanto, vejo um pequeno grupo de Black Blocs vir na direção do comando do ato a gritar: “A opressão está ali!” – indicando a polícia de choque.

Ora, o que surpreende nesta história é o modo como os Black Blocs – e, devo dizer mais uma vez, os anarquistas – são incapazes de ver que a opressão não está ali. Não estamos numa disputa militar ou proto-militar com a polícia; mas numa disputa pelo espaço publico e pelo senso comum contra o arsenal de propaganda da burguesia. E é precisamente aí que os Black Blocs estão à frente de toda a gente: a sua violência é estética, não militar. Ela disputa o espaço público. (Esta reportagem da Globo News tem o interesse de pontuar precisamente esse ponto quando afirma que os Black Blocs é um movimento estético, e não político. Só se equivocam ao desconhecer o óbvio: como mostrou a Escola de Frankfurt, a estética é política).

Comentários finais

A violência, até agora, tem sido mais favorável aos manifestantes que ao Estado. Num contexto em que já ninguém apoia Cabral, a violência assegura a visibilidade dos protestos mesmo quando o número de manifestantes é exíguo. Em outro contexto poderá funcionar ao contrário: isolar os manifestantes do apoio popular e legitimar uma intervenção mais dura pela parte do Estado. É por isso que devemos debater teoricamente a nossa prática. Só com teoria tomaremos as melhores opções práticas.

Mas para isso não pode ser permitido isentar os Black Blocs de toda a crítica.

2 de Agosto de 2013 Posted by | Brasil, Ideologia, Sociedade Brasileira | , , | 4 comentários

Sobre as manifestações no Brasil

As análises que tenho lido acerca das manifestações ocorridas recentemente no Brasil não dão conta do seu aspeto mais importante: a pluralidade das demandas. Ninguém deixa de afirmar essa pluralidade; pouca gente a analisa de fato. Perdoem-me o “excesso” de teoria: eu proponho que comecemos a ver os atos como um campo, no sentido de Pierre Bourdieu (figura abaixo).

CaptureOs manifestantes existem entre dois extremos: os que acordaram agora e os que nunca dormiram. Não é uma divisão precisa, assim como não podemos saber com que idade alguém deixa de ser novo e passa a ser velho. É um contínuo que podemos representar pelo quadrado maior da figura ou pela oposição entre A e B. Entre os que sempre estiveram há uma tensão secundária (C-D): entre aqueles que querem fazer dos atos um meio para construir um ator legitimo para a negociação política (o que implica algum grau de verticalização do movimento – a eleição de representantes – e inclui o risco de aparelhamento político do protesto) e aqueles que querem fazer de cada ato um fato político. Para estes, um ato sem tensionamento com a polícia não dá em nada.

Mas o mais importante, nestas manifestações recentes, foi que o número de manifestantes, só no Rio de Janeiro, passou de mil a 300 mil em três semanas. Isto é, o quadro pequeno determinado pela tensão C-D foi “engolido” pelo quadro maior, determinado pela tensão A-B. Quais foram as causas? E quais as suas consequências?

Causas: A meu ver, a inflação está na origem dos protestos. Assim como esteve nos protestos dos últimos dois anos: primeiro, da polícia e dos bombeiros; depois, dos servidores federais. 20 centavos objetivaram o aumento geral dos preços, dos alimentos ao aluguer de casas, nos últimos tempos. Por isso os protestos cresceram para além daqueles que vão a todas e, quando a polícia tentou acabar com os protestos pela repressão (13/6  em São Paulo e 16/6 no Rio), as manifestações cresceram ainda mais. Cresceram ao ponto da mídia ser obrigada a mudar a sua narrativa sobre elas: não eram mais uns esquerdistas vivendo no século passado. Essa virada do discurso mediático justifica as grandes manifestações de 20 de junho em todo o país.

Consequências: Muitos dos que aderiram às manifestações fizeram-no por uma espécie de adesão estética (B) que se opõe à adesão militante (A). O cartaz “Desculpe o transtorno, estamos a mudar o Brasil” e a frase “O gigante acordou” representam bem o que quero dizer com adesão estética. Algo de novo estava acontecendo, uma revolta (ainda que sem sentido) contra o estado de coisas, explodiu e todos os brasileiros quiseram participar nela. Daí a crítica da corrupção em termos generalizados que demonstram apenas uma insatisfação generalizada com o Estado, mas não o seu conhecimento. Daí um espaço vazio que a mídia tratou de preencher: Arnaldo Jabor propôs a luta contra a PEC 37, que virou uma das demandas dos manifestantes.

Mas, em oposição a isso está o programa tradicional da esquerda (fim da privatização via PPPs; mais financiamento para saúde e educação; desmilitarização da polícia e regulação dos meio de comunicação). Apesar de ser minoria, consegue se impor porque a esquerda é quem tem o poder de convocatória das manifestações. Aliás, a convocação para amanhã de uma manifestação para as imediações do Maracanã e terça-feira para as imediações do Complexo da Maré mostra essa capacidade da esquerda determinar o programa político do protesto decidindo o trajeto dele.

Não compreender esta disputa (e que o grande trunfo da esquerda é o poder de convocatória) é deixar que o sentido das manifestações seja guiado pela estética e pela mídia.

29 de Junho de 2013 Posted by | Ideologia, Sociedade Brasileira | , , , | 1 Comentário

Impressões da manifestação

Pela primeira vez participei no Rio numa manifestação a sério. Nem uma passeata do Primeiro de Maio ou do Grito dos Excluídos; nem a célebre passeata da Cúpula dos Povos. Uma manifestação de protesto contra o aumento da passagem de ônibus. Fiquei nela até a primeira bomba de efeito “moral” – até descobrir que a moral abre nos olhos.

A impressão geral é a de um amadorismo tremendo. A manifestação refletia uma convocação por facebook sem nenhum outro trabalho de preparação: 500 estudantes, numa contagem por cima! À composição social dos manifestantes se junta outra característica típica dos protestos do Rio de Janeiro. Todos os temas aparecem. Para além do aumento da tarifa do ônibus falou-se da expulsão dos índios da Aldeia Maracanã, das remoções de casas causadas pela obra da Copa, etc. Ou seja, as manifestações são menos dos interessados nos motivos do protesto do que daqueles que vão a todas. Os que vão a todas são essenciais, sem dúvida, para trazer os interessados: sempre foram eles o esqueleto dos movimentos de protesto. Mas, no Rio, temos um esqueleto sem carne.

O trajeto original era descer a Rio Branco da Cinelândia até a Presidente Vargas e talvez ir até à Central. Creio que foi mesmo a polícia que conseguiu convencer os organizadores da manifestação – aqueles que dirigiam o carro de som do Sintuff – pela 1.º de Março. Mas logo à saída da Cinelândia ficou evidente que a coisa ia correr mal. Enquanto uns caminhavam a passo lento pela Almirante Barroso, outros queria ficar protestando de forma a cortar o trânsito na Rio Branco. Ora, é certo que “o negócio é fechar a avenida!“; mas não se fecha a Rio Branco com 500 pessoas. Alguns polícias chegaram à Cinelândia com cara de querer descarregar os cacetes que empunhavam. Tudo conspirava para que tivessem essa oportunidade. Na chegada à 1.º de Março, o carro do Sintuff foi “empurrado” para uma das laterais. Mas os manifestantes tudo fizeram para ocupar não apenas a lateral mas também uma das vias da avenida. Apenas uma das quatro! A polícia quis evitá-lo mas não foi a tempo. E se não ocupamos mais vias é porque aquelas 500 (talvez menos) pessoas mal chegavam para ocupar aquela além da lateral.

Foi ao chegar ao Tribunal de Justiça que tudo se estragou. A manifestação parou um pedaço em protesto… uma boa meia hora. Até que dois polícias se dirigiram ao carro e pediram-lhe que começasse a andar. O grupo se dividiu entre os que acompanhavam o carro e os que permaneciam protestando – já batendo nos vidros – frente ao tribunal. Obviamente, isolado o segundo grupo, a pancadaria começou. Dizem que o primeiro a bater foi um polícia – e acredito! Depois rebentou uma bomba de efeito “moral” e começou tudo a correr. A organização ainda gritou “não corram; não corram!” tentando reagrupar os manifestantes obrigando a polícia a se reagrupar também. Mas nada; ninguém parou. E a polícia fez rebentar mais quatro ou cinco bombas.

Li no facebook que uns foram para o IFCS. A maioria se reorganizou e passou a Presidente Vargas ficando a protestar na Central. Mas parece que também ali houve confrontos com a polícia e os manifestantes foram obrigados a correr para o Campo de Santana. No saldo dos dois confrontos 30 presos por vandalismo.

Durante a manifestação, ouvi gritar muita coisa bonita. O que mais me agradou foi “Oh motorista! Oh cobrador! Me diz aí se o seu salário aumentou”. Mas o que mais me marcou foi o “Vem. Vem. Vem…” que junto ao carro de som se gritava para fazer a manifestação avançar. E o “Vem. Vem. Vem…” que se repetia do outro lado exigindo que o carro recuasse.

P. D. Não quero naturalizar a violência da polícia que devia ter agido de outra forma. Mas também me recuso a naturalizar o comportamento naïfe dos manifestantes que deviam ter agido de outra forma também. Sinceramente, se todos tivessem seguido a convocação do carro de som a primeira bomba de efeito moral não tinha rebentado.

11 de Junho de 2013 Posted by | Brasil, Segurança Rio, Sociedade Brasileira | , , , | Comentários Desativados em Impressões da manifestação

As cores da educação

O Brasil acaba de aprovar uma bolsa de cotas para negros – ou, mais exactamente, indivíduos que se reclamem como tal. Em outra altura eu seria contra. Com fui, há anos, contra as cotas de mulheres na Assembleia da República em Portugal. Era contra pelas mesmas razões que são expressas neste texto: a discriminação racial é sobretudo uma projecção da discriminação económica. Uma política que ataca uma projecção… falha a essência do problema.

Com o tempo fui confrontado com outra forma de ver o mundo. Foi bem o resultado de muitas leituras sociológicas*. Aprendi a levar em conta que o facto das desigualdades sócio-económicas ganham uma aura de legitimidade simplesmente por se projectarem em marcadores como a cor de pele (apoiando-se na correlação entre um e outro, imediatamente apercebida pela estatística espontânea do senso comum). Dizem: a universidade não é para negros. Ou pior, dizem os negros: a universidade não é para nós.

É por isto que modifiquei a minha visão sobre as cotas. Ao mostrar que a universidade é para todos, eles forçam a desigualdade sócio-económica a expressar-se com toda a sua violência. E, portanto, criam condições para combatê-las com igual veemência. Assim, o argumento de que o maior prejudicado com esta política é o branco pobre é falso. É falso porque muito branco pobre identifica-se mais com o negro marginalizado na universidade que com o branco engravatado que o marginaliza.

Aliás, voltando ao texto que me fez escrever este post (“A justiça com lentes coloridas“) devo ainda discordar de outro argumento. Por muito que as estatísticas mostrem que o gargalo está nos ensinos fundamental e médio, é lá onde ele é visível, nos níveis graduados e pós-graduado, que ele deve ser atacado em primeiro lugar. Para torná-lo visível socialmente. Até porque a alternativa de panfletar os censos do IBGE na Cinelândia não me parece viável.

Sem dúvida, se algum dia fui contra as cotas foi por efeitos de um marxismo economicista que professei durante muito tempo!

* Diz algures o sociólogo Pierre Bourdieu que há uma lei das instituições segundo a qual “os titulares de uma das propriedades que favorece o acesso a posições de poder, por exemplo determinado título académico, ficam automaticamente em vantagem, na competição que os opõe aos detentores de outras propriedades (no quadro de uma empresa pública ou privada),  quando a personalidade que ocupa uma posição dominante é igualmente dotada dessa propriedade”.

28 de Abril de 2012 Posted by | Brasil, Sociedade Brasileira | | Comentários Desativados em As cores da educação

Análise estrutural do samba

O samba do Rio de Janeiro tem crescido muito. A Pedra do Sal, o lugar onde os escravos eram vendidos, tornou-se um ponto de encontro do samba muito importante. Toda a segunda-feira tem a Roda de Samba da Pedra do Sal que há sete anos faz samba ali. De há uns meses para cá, o grupo Samba da Lei começou a ocupar o espaço à sexta-feira. À segunda e a sexta, a Pedra do Sal enche. Uma hipótese porque isto acontece: A mobilidade social dos últimos dez anos fez chegar à universidade muita gente que vem de famílias que nem sonhavam fazê-lo. Falo de um advogado que nasceu, cresceu e vive em Madureira; ou da estudante de turismo cujos pais são emigrantes da Bahía. Ambos negros, ambos saídos de uma família pobre, ambos com formação superior.

Para reforçar esta ideia, é preciso colocar o samba da Pedra do Sal na sua posição estrutural. De um lado estão as casas de samba da Mem de Sá, na Lapa, cujo o público é predominante branco, entre uma classe média alta e turistas. Paga-se um cover entre 20 a 40 reais, cerveja cara, etc. No outro extremo está a Roda de Samba da Feira, na Feira da Glória toda a tarde de domingo. Este também é um samba elitista como o anterior, mas não no sentido financeiro. É uma elite dos que sabem samba. Há uma disputa não dita entre os participantes a ver quem sabe um samba que os outros desconhecem. Ou seja, na Mem de Sá, passa o samba mais divulgado; na Feira da Glória o samba mais desconhecido. Na Mem de Sá cantam os músicos; na Feira da Glória canta o público (pois é o público que entra em disputa para mostrar que conhece o samba).

A Pedra do Sal, isto é, a Roda de Samba da Pedra do Sal e o grupo Samba da Lei, está no meio termo, embora cada grupo por razões distintas. Boa parte dos membros do grupo da Roda de Samba da Pedra do Sal são parte integrante do grupo Batuque na Cozinha, que toca na Mem de Sá, e torna a roda conhecida. Ali é o espaço que eles têm para tocar o que gostam – o menos conhecido – e não o que lhes dá dinheiro às sextas-feiras. (Nem por acaso, tocam ali à segunda-feira). Portanto, são um grupo capaz de atrair tanto o público da Feira da Gloria como da Mem de Sá. Diga-se de passagem que foram os membros da Roda de Samba da Pedra do Sal que não integram o grupo Batuque na Cozinha que criaram a Roda de Samba da Feira, radicalizando o projeto.

O Samba da Lei é o que melhor explica toda este fenómeno. Explica o crescimento do samba; explica a vontade dos membros do grupo Batuque na Cozinha em cantar samba desconhecido; explica porque é que estes dois personagens, negros, com estudos, oriundos de famílias pobres, são o público que está a encher as rodas de samba. Eles tocam sambas desconhecidos mas, de sexta para sexta, sempre os mesmos. Os frequentadores habituais já os sabem de cor distinguindo-se dos turistas, numa competição mais fácil de ganhar qiuie na Feira da Glória. Aliás, Lendas da Mata é um samba de excelência. Escrito por João Martins (da Roda de Samba da Feira) e por Di Caprio, nunca foi gravado. É tocado toda a sexta na Pedra do Sal. Quem é frequentador habitual sabe-o de cor; quem é turista nunca o ouviu. Isto é, o Samba da Lei facilita a criação de uma entidade ligada ao samba, um nós (os brasileiros, negros, cariocas) VS eles (os gringos, brancos), que permite a esse grupo de recém-ascendidos à classe média encontrar a sua identidade.

Isto leva a outra questão: à definição de samba de raiz. Samba de raiz não existe; é uma construção recente desta classe média. Numa definição mais ampla, é todo o samba exceto samba enredo e o pagode (também chamado de samba paulista), esse samba comercial com melodias permitidas pela introdução de instrumentos eletrónicos. Numa definição mais restrita ele é, para uns, o samba de roda da Bahía, para outros, um samba com referências ao candomblé. Está ideia marca muito a seleção dos sambas na Pedra do Sal. “Rosa Maria” de Aníbal da Silva e Eden Sílva e “Oxossí” de Roque Ferreira são o sucesso garantido que o grupo Samba da Lei usa, propositadamente, para atrair público. A estrutura musical do primeiro é um samba de roda perfeito; a segunda música é quase uma reza. Mas aqui se coloca um problema: o samba de raiz também é definido pelo facto de ser desconhecido. Por isso, a Roda de Samba da Pedra do Sal e a Roda de Samba da Feira quase não cantam estes sambas.

25 de Novembro de 2011 Posted by | Brasil, Sociedade Brasileira | , , | Comentários Desativados em Análise estrutural do samba

Indignados à brasileira

Não vi com bons olhos a chegada do movimento global dos indignados ao Brasil. Assisti a tudo isso com dois pés atrás. Por um lado, a crise não é global. O Brasil, como a China ou a Índia, estão num momento expansivo do capitalismo. Ao contrário da Europa e Norte de África que vivem um momento de contração. As características do movimento seriam (e foram) dadas pelas características do momento: sem nenhum aperto claro, incapazes de juntar-se àqueles que vivem permanentemente apertados, o movimento tornar-se-ia e tornou-se um espaço para estudantes divagarem acerca de um mundo sem Estado, sem líderes e sem poder, glosando Negri, Deleuze ou, no melhor dos casos, Foucault.

Por outro lado, a direita não há muito tempo, tinha iniciado uma campanha contra a corrupção. Uma campanha bem paga e sem símbolos, o que levou algumas pessoas perspicazes a dizer: uma campanha paga por aqueles que não querem pagar impostos. O risco do movimento jogar lenha nesta fogueira era elevado. E o movimento jogou. A Veja (revista brasileira que faz o Correio da Manhã parecer um jornal imparcial), publicou um número com o título de capa Dez motivos para se indignar com a corrupção, associando o movimento global àquela campanha de direita.

Obviamente, o movimento já divulgou uma carta de protesto. Mas, como diz um amigo, não será fácil explicar que tomada não é focinho de porco.

30 de Outubro de 2011 Posted by | Imprensa, Sociedade Brasileira | , | 1 Comentário

A falsa solução dos círculos uninominais

Na pulverização do movimento Geração à Rasca, que eu próprio defendi, surgiu um grupo no Facebook pela defesa dos círculos uninominais. A vantagem de viver num país onde as votações são uninominais é ter a certeza que esta é uma falsa solução. O Brasil é um sistema um pouco mais complexo do que círculos uninominais puros; é um sistema misto em que metade dos votos são do candidato e metade são dos partidos. Uma vez preenchido metade do Congresso pelas pessoas eleitas de forma uninominal, começa-se então a contagem de voto para os partidos (como em Portugal).

Mas é um facto, para as pessoas o candidato aparece de forma uninominal. Não se faz campanha pelo PT ou pelo PSOL, mas pelo Lidberg e pelo Freixo. Obviamente, isto não dispensa os partidos. Afinal, como financiar uma campanha de outra maneira? Queremos voltar ao século XIX onde só aqueles que vivam de rendas (donos de bancos, donos de empresas e fazendeiros) podiam candidatar-se?

Mas o mais interessante é o debate aqui. Toda a gente quer fortalecer os partidos de modo a tornar o debate ideológico. Aqui se acusa que a personificação de debate levou à sua desqualificação. Não se distinguem ideologias e, por isso, não se distinguem ideias. Tudo se torna eu “eu sou melhor que ele“. Lamento informar os meus amigos brasileiros: o reforço dos partidos não irá resolver isso. Mas também lamento informar os meus amigos portugueses: os círculos uninominais também não.

Tenho dito em vários lugares (por exemplo aqui) que é a concorrência por votos é despolitizante. Ao querer encontrar votos em todos os quadrantes ideológicos, os candidatos são obrigados a deixar de discutir questões propriamente políticas (aquelas que, por não interessarem a todos da mesma maneira, obrigam a um debate político entre diferentes interesses). Os candidatos optam assim por um discurso despolitizado em torno da competência e corrupção que leva ao afastamento dos cidadãos da política.

(A corrupção, embora não me pareça o problema fundamental da crise portuguesa, pode e deve ser debatida de outra maneira).

De modo que não me canso de dizer que o problema tem de ser resolvido pelo lado da sociedade civil. Como disse aqui no dia seguinte à manifestação

Os partidos trocaram o debate político pelo marketing político porque nós deixámos. Não adianta pedir a demissão de toda a classe política se a sociedade não sabe distinguir o que distingue os políticos. Novos políticos, com uma máquina de propaganda, a fazer as mesmas políticas, enganariam-nos em pouco mais de 2 dias.

Por isso as tertúlias que propôs logo no início deste texto. Essa é uma maneira que encontro de constituir essa sociedade civil que não se deixa enganar pelo marketing. Quando professores e intelectuais, da esquerda a direita, entrarem no contraditório político sem necessidade de ir a votos, empregarão argumentos honestos. E o puro marketing dos políticos cairá no ridículo.

27 de Março de 2011 Posted by | Ideologia, Sociedade Brasileira, Sociedade portuguesa | , , | 1 Comentário