Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

A folha de excel do FMI

Pela segunda vez, uma folha de excel é notícia. O que indica que a política não é mais digna desse nome – foi reduzida a simples gestão. Mas só aparentemente. A política agora é feita de outro modo. Dadas as opções A e B, quando se deseja seguir em frente com a A, o melhor é gerar todo o debate em torno da má fundamentação da opção A. Ora, dada a necessidade de recolocar a economia a crescer, a única solução apontada é baixar salários. São discutidos os erros técnicos na fundamentação dessa opção, mas não as alternativas. A conclusão é inevitável: pese aos factos, there is no alternative.

Às vezes aparece uma alternativa B. Alguém diz que os custos de contexto são menos competitivos que os custos salariais; se o objetivo é fazer a economia crescer, o melhor é atuar aí.  (E eu lembro de uma certa prioridade do FMI e da CIP em reduzir os custos da energia elétrica, cujo preço é definido pelo governo, esquecida depois da terceira visita da troika). No Facebook, alguém me disse que as condições do empréstimo da troika à Grécia, cujos juros foram definidos a 1%, permitiriam um corte na despesa do Estado igual aos 4 mil milhões de euros previstos pelo Estado. Ao contrário do despedimento dos funcionários públicos, o corte por esta via não implica a redução das vendas dos cafés, das papelarias e dos centros comerciais, isto é, não implicaria o agravar do decrescimento.

Mas para aplicar a opção A devemos só debater as suas virtudes e, principalmente, os seus defeitos. O debate há-de gerar suficiente ruído para esconder a hipótese B, C e, porque não, talvez uma D!

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30 de Agosto de 2013 Posted by | Economia, Portugal | , , , | 1 Comentário

Da fuga em frente à marcha atrás

A vinda de Krugman a Portugal coincide com o PS a divorciar-se do acordo com a troika. O tom é dado por Mário Soares, que ora se cala,  mandando um recado ao PS para se calar, ora vem afirmar que a austeridade não leva a lugar nenhum. De facto, e como já disse aqui, a Europa divide-se entre a opção uma economia voltada para o mercado interno – dinamizado pela construção civil e endividamento do Estado e das famílias – e a opção por uma economia voltada para a exportação. O primeiro modelo (um keynesianismo empobrecido) está esgotado. O segundo está longe de dar resultados: a banca está hoje a soro (ver aqui e aqui também). Exportar para onde? Com o decrescimento da economia, a dívida soberana torna-se impagável. Depois de um ano de governação pelo segundo modelo, é significativo que três universidades portuguesas tenham concedido um doutoramento Honoris Causa a um keynesiano. Sinais do tempos.

Sinais dos tempos que refletem uma marcha atrás na austeridade europeia. Apesar das declarações recentes de Merkel e Barroso, a verdade é que, desde janeiro, o crescimento económico começou a ombrear com o equilíbrio orçamental na agenda dos Conselhos Europeus. Acordos europeus que, há uns meses, eram inquestionáveis, hoje são alterados. O G20 coloca a possibilidade de abrir os cordões à bolsa. E o Spigel, jornal alemão que há dois anos atrás pintava os europeus do sul de preguiçosos, questiona agora abertamente a eficácia das políticas de austeridade (ver aqui também). E a Grécia? A possibilidade de uma vitória à esquerda não terá obrigado os líderes europeus a refletir? Não! As mudanças começaram antes do surgimento das sondagens que davam a maioria aos três países à esquerda do PSOK. Mas essas sondagens parecem ter vindo a acelerar essas mudanças. O melhor indicador dessa mudança são as notícias nos jornais e na televisão. Até há pouco, toda a gente falava de austeridade; de há umas semanas para cá, o (des)emprego tornou-se mais importante!

Assumindo que tive razão e foi Bruxelas que colocou Passos Coelho no governo, pode repetir-se em 2012 o mesmo descompasso entre a Europa e o governo português que esteve na origem do calamitoso ano político de 2010. Desta vez a Europa será mais keynesiana de trazer por casa e Portugal mais liberal (ao contrário de há dois anos atrás). O PS, como o PSD há dois anos atrás, já se desalinhou da austeridade para alinhar-se com possíveis novos ventos.

27 de Fevereiro de 2012 Posted by | Economia, Partidos, Portugal | , , , , , , | 5 comentários

A inflação e a crise

Há dias li uma entrevista com Alberto Castro (economista da Universidade Católica) no Expresso Economia. Chamou-me a atenção para um coisa pouco discutida em Portugal e na UE: o problema da inflação. Sabe-se que ao menor sinal de inflação, o BCE sobe as taxas de juro para contê-la. “O BCE é um chato”, resume o economista da Católica.

A paranoia da inflação começou na década de 1980. Numa era em que o Estado controlava o sector financeiro, e promovia o investimento industrial, o dogma de manter a inflação muito perto do zero não existia. Na década de 1970, a inflação era tolerada em nome do crescimento económico.

A inflação é, antes de mais, “excesso” de consumo: a economia não consegue produzir tudo o que as pessoas querem consumir. O combate à inflação faz-se pelo aumento dos juros das dívidas. Quem tem empréstimos, reduz o consumo para pagar juros mais elevados. E, sobretudo, como as empresas investem a crédito, o aumento da taxa de juros, abranda a criação de emprego – logo, abranda o consumo.

Não obstante, a inflação também pode dever-se ao aumento dos custos de produção. Foi assim que o choque petrolífero de 1972/73 acelerou a inflação pré-existente. Isto colocou um problema à economia política: entrou-se numa era de inflação sem crescimento (até então impossível, na cabeça dos economistas). Por outro lado, os bancos, que se tornaram muito poderosos nesses anos, “perdem” dinheiro com a inflação. Na década de 1980, os Estados impuseram medidas drásticas de combate à inflação, a despeito do crescimento económico; medidas que tinham sido previamente testadas no Chile, pela ditadura de Pinochet. E de lá para cá a inflação é um monstro.

Somente no último ano, apareceram vozes discordantes, na China, nos EUA  e no Brasil. O resto do mundo, inclusive a Europa, continua militantemente a lutar contra a inflação.

É óbvio que, nas condições atuais de elevado desemprego e necessidade urgente de crescimento económico, combater a inflação é o último que Portugal – como outros países periféricos europeus – necessita. A “perda de valor” do dinheiro também daria uma contribuição, ainda que pequena, para facilitar o pagamento da dívida. Mas o Banco Central Europeu é alemão na sua genética e sempre que a economia “aquece” aumenta a taxa de juros.

Disto tudo uma lição: a político macro-económica que interessa à Alemanha não é a mesma que interessa aos outros países. A crise portuguesa deve-se a muitas razões. Mas uma fundamental é a perda de soberania económica. Portugal anda há 10 anos a viver com uma política económica desadequada – como se vê pelo exemplo que nos dá o combate à inflação.

23 de Julho de 2011 Posted by | Economia, Europa, Portugal | , , , | Comentários Desativados em A inflação e a crise

Pode Portugal crescer?

Saíram nestes dias algumas notícias afirmando que Bruxelas exige a Portugal uma redução dos direitos laborais (ver aqui também). Embora notícias mais recentes tenham vindo turvar as águas, algumas medidas populistas do governo parecem estar a preparar as condições para isto. De qualquer modo, a Portugal não é necessário reformar o código de trabalho, basta tão somente criar condições para que ele não se aplique.

Para quê mudar ou reduzir os direitos laborais? Para que o investimento aumente e Portugal inicie um ciclo de crescimento. A redução dos custos do trabalho em 30% permitiria um crescimento da taxa de lucro das empresas não financeiras de 6% para 10%, isto é, para ao nível ao qual a economia se torna “funcional” *.

Contudo, este tipo de análise é míope. É preciso qualificar o tipo de investimento esperado para entender as implicações a longo prazo de uma política de crescimento económico baseada na redução dos salários. Tendo Eugénio Rosa dito tudo no que toca à formação do empresariado português, problema que afecta as pequenas e médias empresas, resta- -me fazer uma observação sobre as grandes: não se vislumbra um projecto de país no empresariado português.

Creio que foi Miguel Cadilhe que afirmou que o 25 de Abril afrontou os empresários portugueses e por isso, ao contrário dos espanhóis, estes não são nacionalistas. Outro dia ouvi uma tese muito mais pertinente: até ao 25 de Abril, o empresariado português tinha uma visão imperial. Angola ainda era território português quando foi decidido construir o porto de Sines, como a porta de entrada de África na Europa. Depois do 25 de Abril, os empresários portugueses perderam o sentido de país e somente a existência de empresas do Estado permitiu a presença de um tecido industrial em Portugal. Com as privatizações depois da adesão à União Europeia, este tecido empresarial desapareceu.

Sem uma participação do Estado – o que não exige redução de salários mas vontade política – a reconstrução do tecido industrial português dificilmente se fará. Se a única preocupação do Estado for em reduzir o custo do trabalho, quando muito, surgirão empresas com uma estratégia competitiva baseada em mão-de-obra barata e pouco qualificada. Serão as mesmas que surgiram no final da década de 1980 e que, apesar de todas as ajudar da UE, nunca quiseram ser competi- tivas. Serão empresas pouco disponíveis para inovar e se diferenciar. Assim como jogaram para o lixo os subsídios europeus, desbaratarão o esforço que agora exigem dos trabalhadores.

A redução dos salários dos trabalhadores poderá criar um novo ciclo de crescimento, mas de pouca dura. Daqui a 10 anos estaremos na mesma, com os empresários a pedir novo abaixamento de salários.

*As contas que apresento baseiam-se em dados de 2008 (os mais recentes), considerando que todo o valor de custos com o trabalho (salário + impostos) não pagos se transformavam em lucros (distribuídos + auto-financiamento). Os dados estão disponíveis no site do INE e Eugénio Rosa já os comentou.

9 de Junho de 2010 Posted by | Economia | , , | Comentários Desativados em Pode Portugal crescer?