Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Temer fica!

O Brasil é um país que vive de acordo com o ventos que soprados pela economia global. Insistindo em ter um superavit primário, a saúde da economia depende do preço pago pelas suas exportações. O Brasil, entretanto, exporta quase exclusivamente commodities primárias (petróleo, aço, soja e frango), ou seja, mercadorias cujo preço está vinculado ao preço do petróleo. Assim, o destino de Dilma Rousseff, como se nota na figura abaixo, foi selado pela queda abrupta do preço do petróleo.

A estabilidade atual do governo de Temer é a estabilidade do preço do petróleo; e, por esse motivo, ele irá governar até 2018. A esquerda deve começar a organizar-se me torno dessa premissa.

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30 de Outubro de 2017 Posted by | Brasil, Economia | , , , | Comentários Desativados em Temer fica!

As opções de Dilma Russef

As notícias das últimas semanas não me surpreendem. Sempre disse que o governo brasileiro passou do neodesenvolvimento ao neoliberalismo em dezembro de 2012. Portanto, tudo aquilo que, segundo o PT, iria acontecer caso Aécio Neves vencesse as eleições aconteceu no dia seguinte à vitória de Dilma Russef. Os apelos à unidade da candidata eleita, claramente dirigidos à burguesia financeira, e prontamente rerspondidos por ela. A inflação transformada em problema central da economia nacional. E o anúncio do arrocho salarial dos funcionários públicos (aqui também). E, mais, quando Dilma se transforma na imagem que o PT criou de Aécio, Marina afirma «que governo passa por dose de realidade» mostrando que os três candidatos eram, de fato, iguais. (Recomendo a leitura de dois textos sobre este giro de Dilma na noite das eleições: O povo brasileiro não existe por Vladimir Safatler e Sinais trocados por André Singer).

Comentei, no Facebook, que a conjuntura brasileira só é intelegível com a análise, que eu faço de modo muito superficial, do ano de 2012. Ele não só lança uma nova luz sobre os 10 anos de neodesenvolvimentismo que findam aí como também esclarece a correlação de forças que determina a política atual do governo. Os governos de Lula da Silva beneficiaram do boom das comodities agrícolas, quer dizer, da exportação de alimentos para a China. A boa performance da economia dispôs a burguesia financeira à indiferença em face da arrojada e importante política social do governo. Quem a combateu foi o agronegócio que via não só aumentar o custo do trabalho como perder a sua influência social sobre a vida no campo. Quem tem acesso ao bolsa família não precisa mais de recorrer aos favores de um coronel ou quaisquer intermediários destes. Não obstante, foi o agronegócio que pagou essas políticas de transferência de renda e – o que se revelou mais importante no combate à pobreza – de aumento do salário mínimo. As exportações agrícolas, em primeiro lugar, permitiram aumenta o PIB e assim financiar tais políticas. E, em segundo lugar, manter uma balança comercial positiva pese ao aumento de importações para fazer face ao aumento de consumo gerado por essas políticas sociais.

A crise econômica de 2008 estilhaça este modelo em que todos ganham. Mas até 2011 os seus efeitos eram pouco visíveis pois a evolução do consumo interno, que tinha o seu motor nas políticas do governo, compensou a quebra do consumo externo. O Programa de Aceleração do Crescimento e as obras para a Copa do Mundo criaram os empregos e, logo, os consumidores que garantiram o crescimento do Brasil por mais uns anos. Mas em 2012 havia que fazer escolhas. E Dilma Russef escolhe realizar o sonho de Celso Furtado em transformar uma economia assente num setor primário com vocação exportadora para uma economia industrial voltada para o mercado interno. Esta política tem uma dimensão ética clara. No segundo caso, os trabalhadores coincidem com os consumidores, obrigando a burguesia a pagar salários mais altos. Assim, esperava Celso Furtado e toda uma geração de economistas latino-americanos, se fazia desenvolvimento. Mas para operar tal transformação era necessário enfrentar a burguesia financeira e baixar o preço do crédito (a taxa de juro) dos investimentos. Era necessário encontrar aliados e limitar os adversários. Dilma fez, em primeiro lugar, as pazes com o agronegócio e Kátia Abreu se torna aliada da presidenta. Em segundo lugar, ainda que por omissão, reforça a posição da bancada evangélica no Congresso Nacional para ampliar a sua base de aliados. Desse modo, o racista, machista e homofóbico Marcos Feliciano chega à presidencia da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados.

O governo tomou três medidas para reduzir a taxa de juro no país. Reduziu a taxa de referência, SELIC, cujo valor real, isto é, descontada a inflação andou próximo de zero; reduziu a reserva fracionada e deu indicações ao Banco do Brasil e à Caixa para canalizarem a maior disponibilidade de crédito para o investimento e não para o consumo. Esperava Dilma, com esta última medida, impôr o mesmo comportamento aos bancos privados. E esperava também o apoio da burguesia industrial e dos trabalhadores para estas medidas. Os trabalhadores, depois de 10 anos de colaboração com uma política de conciliação de classes, estavam e seguem estando desorganizados. A CUT não pode ameaçar a burguesia com o aumento da contestação social, como fez em 2005 para evitar a cogitação de um impeachment sobre Lula por causa do Mensalão. Limitou-se a publicar um comunicado em à política monetária do governo. A burguesia industrial, a quem apenas se pedia que investisse o dinheiro barato, a juros próximos de zero, se disse assustada com o nível de intervenção do governo na economia e não o fez. Como disse Maria da Conceição Tavares: «Não há pacto político tampouco porque o capital financeiro está ligado ao capital industrial. Na verdade, a indústria está assim porque parte do seu sócio menor [o capital financeiro] está virando sócio maior. E o rentismo está predominando na economia brasileira».

No final de 2012, o governo reconhece a derrota ao inverter a estratégia monetária. O Banco Central, que at então vinha intervindo no mercado de câmbio em resposta aos quantative easings por forma a frear a descida do dólar e promover as exportações brasileiras, passa a agir no sentido inverso para baratear as importações e controlar a inflação. Em 2013 viriam os aumentos da taxa SELIC com o mesmo objetivo de controlo dos preços. Ou seja, o governo de Dilma Russef que foi surdo ao “pânico” do PIG com o dragão da inflação durante o inverno de 2012, começa a assumn]ir políticas neoliberais para combatê-la. Hoje o combate da inflação é prioridade, em consequência da assunção da derrota há quase três anos. Com a decisão do BC a 26 de dezembro de 2012 o sonho de Celso Furtado foi abandonado e o neodesenvolvimentismo deu lugar ao neoliberalismo. A única diferença entre Dilma e Aécio nestas eleições é que o segundo é neoliberal por convicção e a primeira é-o por falta de opção! Ou, mais exatamente, porque a CUT não teve capacidade para pleitar a política do governo – e o culpado é o PT. Ganhasse quem ganhasse, e ainda que ganhasse Marina Silva. o governo já estava entregue a três setores: o agronegócio; a burguesia financeira e a bancada evangélica. Qualquer que fosse o governo, seria uma continuidade do observado em 2013 e 2014.

Entretanto, as polarização entre esquerda e direita que ocorreu nos últimos dias da campanha eleitoral fez alguns estilhaços naquela coalizão dominante. Os mais destacados porta-vozes da bancada evangélica manifestaram o apoio explicito a Aécio Neves que perdeu. Dilma Russef ficou livre e, de certa forma, foi obrigada a negociar apoios à esquerda com o PSOL e Jean Willys. Só o futuro dirá se, posteiormente, Dilma não se “corrige” também neste quisito. Afinal a bancada do PSOL tem poucos deputados para servirem de apoio a coisa alguma. Não obstante lembremos três coisas. Não há mais uma burguesia financeira para enfrentar – as pazes com ela estão feitas. Existe uma esquerda do PT que quer ver medidas de esquerda no governo e medidas pró minorias poderão servir para parecer de esquerda enquanto tomam medidas neoliberais. Finalmente, o conservadorismo evangélico, apesar de crescer, ainda gera muitas antipatias – daí que Jean Willys tenha participado nos comícios de Dilma, mas nem Bolsonaro nem Malafaia participaram nos de Aécio. Por outras palavras, a bancada evangélica garante votos mas não um apoio social mais amplo. Aliás, haveria que analisar até que ponto a influência que a bancada evangélica teve no primeiro governo de Dilma não foi devida a que, nas eleições de 2010, os votos evangélicos e noepentacostais decidiram a eleição. Agora foi a polarização esquerda vs. direita que o fez.

Enfim, não há duvidas que o segundo governo de Dilma Russef será neoliberal (a não ser que, por milagre, a contestação organizada nas ruas exploda!). Será patriarcal e defenderá os chamados “valores da família”? É uma questão em aberto na qual a esquerda poderá marcar pontos.

8 de Novembro de 2014 Posted by | Brasil, Economia, Feminismo, Partidos | , , , , , | 3 comentários

Brasil: curva com freio de mão

Acabava de escrever o meu post anterior quando li, no Valor, que o Banco Central do Brasil surpreendeu o mundo ao atuar no mercado secundário de forma a valorizar o dólar. Depois de meses em guerra contra os bancos para baixar os juros e, consequentemente, desvalorizar o real face ao dólar e aumentar a competitividade externa da economia brasileira, o governo decide intervir no “mercado” (bolsa) para obter o efeito contrário: valorizar o real. A justificação apontada é que a estratégia estava a gerar inflação.

Por morrer uma andorinha não acaba a primavera (diz-se em Portugal). Não obstante, a ação do BC de hoje é totalmente contrária ao que eu poderia esperar. Com as expectativas frustradas em relação a uma mudança de rumo na Europa, Dilma assumiu que não pode contar mais com o mercado internacional. A solução é um pacote meio-keynesiano meio-neoliberal que, por um lado, procura estimular o consumo (e, através dele, a economia) por meio de obras públicas e, por outro, procura captar capitais estrangeiros pela privatização de infraestruturas.

Era como complemento desta estratégia que eu tinha lido a guerra que Dilma abriu contra a burguesia financeira (uma análise diferente mas complementar aqui). Baixar os juros não foi visto apenas como um estímulo ao investimento (efeito interno que se soma às medidas citadas acima). É parte de uma guerra cambial que resulta, de um lado, das enormes emissões de moeda nos EUA e na Zona Euro para desvalorizar a sua moeda e aumentar a competitividade externa da sua economia e, de outro lado, das ações diversas dos restantes países para anular a sua perda de competitividade. É necessário ter claro que, sem competitividade externa (ou algum tipo de protecionismo), o estímulos ao consumo podem ser, não estímulos à atividade económica, mas às importações. É por isso que ambas as medidas, interna e externa, são necessariamente complementares. E é por isso que a ação de ontem do BC é tão surpreendente.

Obviamente, a ação do BC é menos surpreendente se levarmos em conta a “surpresa” da inflação no Brasil. A valorização do dólar permite importar produtos mais baratos, isto é, baixar preços, ainda que à custa de tornar a exportação mais difícil e pesar no saldo da balança comercial (em duas palavras: à custa de reduzir a competitividade externa da economia brasileira).

Ao mesmo tempo, é necessário notar dois aspetos. Primeiro, que não é uma simples inversão de caminho. O governo recuou na guerra cambial sem recuar na guerra aos bancos (não subiu, de novo, a taxa de juro, por exemplo). O que quer dizer que não foi uma cedência a esta fração da classe burguesa (ao contrário do que fez, por exemplo, com o agronegócio). Sem dúvida, o facto de dois grandes banco brasileiros serem públicos permite ao governo impor a sua política aos bancos, enquanto que no caso de outros sectores, como o agronegócio e a indústria, é obrigado a governar de modo a contar com eles.

Segundo, que durante o ano de 2013, Manteiga será um timoneiro levando o barco em águas bravias. As taxas de câmbio e de juros serão empregues para guiar o país entre o estímulo ao crescimento económico e o combate à inflação. Serão previsíveis outras guinadas, ora numa direção ora noutra, que incendiarão a disputa entre as frações de classe que sustentam o governo.

Vale seguir esta disputa atentamente!

27 de Dezembro de 2012 Posted by | Brasil, Economia | , , | Comentários Desativados em Brasil: curva com freio de mão

A Dilma e a comunicação social

A relação dos governos petistas com a comunicação é complexa. Já se sabe que os principais meios de comunicação social estão contra o PT. Chegou-se ao ponto do jornal Estado de São Paulo assumir publicamente, e durante a campanha eleitoral, uma posição pró PSDB. TV Globo, o jornal A Folha, etc. fizeram o mesmo, embora sem o tornarem oficial. Tudo isto lhe valeu o apelido de PIG – Partido da Imprensa Golpista – um apelido (em Portugal, alcunha) criado pela esquerda Brasileiro.

No ano passado, foi organizado um conjunto de conferências que culminaram na Conferencia Nacional de Comunicação. Esta conferencia propôs pouco mais do que aquilo que já está estipulado no Titulo VIII capítulo V da Constituição Federal do Brasil. Dada a impossibilidade de analisar as centenas de propostas aprovadas na conferencia, vale a pena citar as mais polémicas e demonstrar que pretendem apenas fazer cumprir as disposições da constituição.

  • Criar um concelho federal e concelhos estaduais de comunicação social. O concelho federal está previsto no artigo 228º da Constituição de 1988 e, não sendo jurista, parece-me racional que os concelhos estaduais se justifiquem como desdobramento do primeiro.
  • Regulamentar os conteúdos emitidos através de radiodifusão, dando carácter obrigatório a programas educativos e outros pertinentes e impedido programas racistas, ou discriminatórias de outro tipo. Trata-se aqui de passar a lei o previsto no inciso 3º do artigo 220º da Constituição e  também do artigo 221.
  • Impor limites a concentração económica da propriedade dos meios de comunicação, isto é, legislar o previsto no inciso 5 do artigo 221.

Posto isto, a Conferência propôs aquilo que está constitucionalmente “previsto”. Pode, é certo, ter sido mais exigente que o necessário nas suas propostas, pode até discutir-se os mais o menos xis-por-cento de uma cota, de um limite, de um financiamento. Mas não há dúvidas: o que está aqui em causa é passar do texto fundamental à lei ordinária.

Vale a pena considerar que a Constituição possa estar equivocada? É um questão legítima. Mas a resposta é dada pela realidade. Sem controlo social, estatal ou burocrático, a comunicação social vira-se para o que dá dinheiro, o que assegura a publicidade, como uma bússola para o norte. Poucos jornais dando as mesmas notícias da mesma forma; eis o resultado da “liberdade” de expressão. Isto é resultado de serem poucos os jornais (como acontece com qualquer outra empresa) que, em livre concorrência podem sobreviver; e para fazê-lo, esses pequeno número de grandes empresas utiliza a mesma estratégia. Portanto, as notícias e o entretimento são enfadonhamente homogéneos.

A liberdade de expressão enferma de falta de diversidade de expressão!!!

No início da campanha, o PT chegou a cogitar avançar com as propostas de Conferência. Lula afirmou, quase um ano antes das eleições, que as propostas da conferência iram ser transformadas em lei. E consta que o programa eleitoral de Dilma Russef chegou a comprometer-se com elas. Mas logo, a Veja liderou uma campanha contra a conferência e o PT deu um passo atrás. A referência à Conferência Nacional de Comunicação foi retirada do programa de Dilma Russeff, e na última semana de campanha eleitora a candidata obrigou-se a repetir o seu compromisso com a “liberdade de imprensa”. E, quando não precisava de ganhar mais votos, no seu discurso de agradecimento ao receber a confirmação da sua eleição, Dilma Russeff repetiu, mais uma vez, o compromisso que agradou às grandes meios de comunicação social.

O sonho ficou ferido de morte nesta campanha eleitoral pela própria Dilma Russeff. Há dois dias, a ala esquerda do PT tentou ressuscitá-lo. Esperança para muitos ou devaneio de alguns? Aguardo desenvolvimentos!

9 de Novembro de 2010 Posted by | Brasil, Imprensa, Sociedade Brasileira | , , | Comentários Desativados em A Dilma e a comunicação social

O PIG contra-ataca

Enquanto a esquerda petista continua em campanha, arremessando argumentos contra os partidos à esquerda do PT que passaram à oposição no dia seguinte às eleições, o Partido da Imprensa Golpista (nome que o PT inventou para os principais jornais do país que fazem política com se fizessem parte da coligação de direita) já passou a outra fase. A bem dizer, somente o PT continua – infelizmente – em campanha eleitoral.

Li hoje num blog da Folha, de um tal de Gilberto Dimenstein, o seguinte: “Passamos toda a campanha ouvindo os candidatos prometerem baixar os impostos. As urnas fecharam e imediatamente vemos os governantes – PT e PSDB – falarem na volta do imposto do cheque para financiar a saúde. Se é para fazer palhaçada, melhor chamar o Tiririca.

Parece que o blogueiro viu uma campanha diferente daquela a que eu assisti. No último debate televisionado, um dos cidadãos brasileiros convidados a colocar perguntas no debate perguntou aos candidatos o que pretendiam fazer acerca de tão elevados impostos. Serra respondeu que nada poderia ser feito sem tomar em conta os compromissos com a despesa. Dilma, por sua vez, falou de um abaixamento de impostos com um vistas a estimular aqueles que continuam na economia informal a formalizarem a sua actividade. Desse modo, [e de acordo com um modelo que presumo que seja econométrico] aumentar a receita com o crescimento do número daqueles que pagam impostos.

Mas o blogueiro segue: “Um dos males de baixa escolaridade brasileira é que o cidadão não faz ideia quanto paga de imposto nem como o dinheiro é gasto. Estamos pagando cada vez mais para bancar a elite do Brasil, composta de funcionários públicos. Com isso, sobra menos dinheiro para os pobres, aqueles que usam o SUS.

O ataque aos funcionários públicos, a defesa da ideia de que o Estado apenas deve garantir direitos aos pobrezinhos, é a defesa da caridade e não da justiça social. É uma postura ideológica de quem não aceita um Estado activo na promoção dos Direitos Humanos e o relega à função de gestor dos problemas do capitalismo. Como ouvi um dia, os direitos sociais têm de ser garantidos pelo Estado para todos. Justiça social não é o rico pagando pela sua saúde; justiça social é o rico pagando impostos para que o sistema de saúde, educação, etc. promovido pelo Estado funcione bem.

Enquanto o PT continua celebrando a vitória, o PIG vai ditando a agenda dos primeiros meses do governo de Dilma…

7 de Novembro de 2010 Posted by | Brasil, Ideologia | , , , | Comentários Desativados em O PIG contra-ataca

Luta de classes no Brasil

Após a eleição de Dilma Russeff, está na hora de passar à oposição. Sem nunca deixar de reconhecer o empenho do Partido dos Trabalhadores, durante os 8 anos de governo de Lula da Silva, em fazer política social, devo reconhecer também que fê-lo sem beliscar os lucros das elites económica e agrária do país. Como o próprio Lula disse, os ricos foram os que mais dinheiro ganharam no seu governo. De facto, Lula pôde juntar sindicalistas e latifundiários no seu governo.

Isso só pôde acontecer porque o seu governo se aproveitou de uma maior demanda de produtos agrícolas (cujo valor cresceu de forma sustentada de 2004) e ao saneamento das contas públicas levado a cabo pelo governo de Fernando Henrique Cardoso. Mas longe de mim afirmar que FCH fez as reformas e Lula surfou na onda porque a onde foi soprada por ventos fora do Brasil: o crescimento económico da China, a transformação de açúcar em gasolina, o desmantelamento das políticas agrícolas na União Europeia e EUA, e a alteração dos mecanismos de formação de preços da soja (particularmente), do milho e do trigo… Sem demérito para a capacidade de reinvestimento do governo de Lula, é um erro crasso não ver a importância que a conjuntura internacional teve para o seu sucesso.

A crise na Europa coloca as coisas em outros carris. E não adianta nem insinuar que a crise já passou, a crise não é coisa do passado. Ora, embora a crise não afecte directamente o Brasil  – até porque as exportações brasileiras têm crescido à custa da Ásia e dos países vizinhos da América do Sul – ela abranda a competitividade das exportações pela valorização do real. Neste sentido, Dilma chega ao governo em condições totalmente distintas de Lula (agravadas pela falta de talento da nova presidente para falar em público). E, mais, ela não se poderá esquivar a tomar medidas para fazer face a esta situação logo nos seus primeiros meses de governo. As opções são simples

  • Basear o crescimento da economia brasileira no mercado interno, como pretende Lula, levando a sério suas declarações, tendo para isso que enfrentar-se às relações de poder existentes no país. Ou seja, o PT terá de tomar partido e abandonar a sua estratégia de coligação ampla.

Sem dúvida estamos perante uma luta de classes que vale a pena acompanhar. Até porque o debate eleitoral nos deixou no escuro nesta e noutras questões.

1 de Novembro de 2010 Posted by | Brasil, Economia | , , | Comentários Desativados em Luta de classes no Brasil

Silêncios do PT de Dilma

“A Dilma pode não ser o governo dos nossos sonhos; mas o Serra é certamente o governo dos nossos pesadelos”. Com esta frase se resume tudo o que há a dizer sobre a campanha eleitoral brasileira. Os candidatos disputam quem vai construir mais estradas, escolas técnicas e hospitais (pré-fabricados). É uma guerra de números que se esquiva ao debate de questões fundamentais do país. Logo, não é possível distinguir os candidatos senão pelos políticos da ditadura que ressuscitaram para apoiar José Serra. Somente por essa razão, a Dilma tem o voto de muita gente.

Os feitos do governo Lula são de fato notáveis. Em parte foi sorte. O preço internacional dos produtos agrícolas, que o Brasil exporta, subiram sustentadamente desde 2004. Devido ao crescimento económico da China; devido à alteração das políticas agrícolas nos EUA e na Europa; devido ao seu emprego (em particular do açúcar) na fabricação de combustíveis; e, finalmente, devido a alterações nos mecanismos de formação de preços de alguns produtos. Hoje o preço internacional da soja, do trigo e do milho dependem mais de jogos na bolsa do que da quantidade produzida naquele ano.

Em parte foi mérito. Se Lula teve sorte com a conjuntura económica internacional e com a herança (um Estado com as contas organizadas) que recebeu de Fernando Henrique Cardoso, teve o mérito de saber investir o dinheiro. Reunindo em torno de si os melhores especialistas do país, criou programas de distribuição de riqueza que representaram um combate à pobreza sem precedentes. Catorze novas universidades democratizaram o acesso a educação.  De fato o PT fez muito pelo país!

Mas como seria um governo PT à frente de um Brasil com dificuldades para exportar?

Isso é o que esperamos ver nos próximos quatro anos. A crise na Europa está a ter as suas consequências. As exportações desvalorizaram-se em 30% somente devido à alteração do cambio do real em relação ao dólar e ao euro. Com a redução do consumo nos países “desenvolvidos” o impacto nas exportações brasileiras será ainda maior. E, como todos as projecções apontam, espera-se no próximo ano uma nova recessão na europa.

Como irá Dilma (ou Serra) almofadar tal quebra de recursos?

Existe uma tendência maioritária – que coincide em parte com a base da candidatura de José Serra – que afirma que o governo deve tomar medidas para impedir a “valorização excessiva” do real. Percebo pouco de economia, mas que fazer quando o problema não está no Brasil? Será possível fazer outra coisa que não absorver parte do desastre económico da Europa?

A outra tendência, marginal, afirma que a solução está em estimular o consumo interno. Esta tem dificuldade em mostrar-se, mas fica a impressão que é liderada por pessoas ligadas ao governo de Lula (uma hipótese a confirmar). A redução da desigualdade interna é o meio para manter o crescimento económico. Aliás, como Merkel recomendou há meses atrás.

Entretanto as duas campanhas evitam falar sobre estes assuntos. É impossível saber o que esperar destes dois candidatos em relação a esta matéria.

27 de Outubro de 2010 Posted by | Brasil, Economia | , , | Comentários Desativados em Silêncios do PT de Dilma

A segunda volta de Dilma e Serra

De repente, eis-me a acompanhar a política brasileira. Hoje (ontem! – já escrevo depois da meia-noite) assisti a mais um debate entre os candidatos do segundo turno. Confirma-se aquilo que já estava claro desde o primeiro debate: a Dilma é uma política inexperiente rodeada de bons assessores; o Serra é um político muito bem preparado com uma equipa que deixa a desejar. Ele fala bem, mas deixa por fazer o trabalho de casa. Ela antecipa as perguntas e engasga-se nas respostas.

Mas o que vale a pena notar são os dados adquiridos da campanha. O aborto e as privatização da Petrobrás. São temas que já se posicionaram. Nenhum dos candidatos quer discordar do outro. O aborto continuará a ser ilegal (viva a direita conservadora) e a Petrobrás é para continuar Estatal (viva a esquerda…), embora trabalhando em parceria com empresas privadas (… moderada).

Os candidatos pouco discordam disso. O debate não é mais e o aborto deve ou não ser legalizado, mas qual dos dois candidatos, no passado, cometeu a falta grave de defender a sua legalização. A Petrobrás não é para ser privatizada; discute-se, isso sim, qual dos candidatos uma vez sonhou em privatizá-la. (Pelo meio uma divergência de peso. Serra vai-se afirmando contra a privatização da Petrobrás, mas defendendo o “sucesso” da privatização das telecomunicações e a necessidade da privatização dos Correios. Dilma apresenta-se contra a privatização – conceito que, para a candidata, deixa estranhamente de fora as parcerias público-privadas).

Em suma, eis a causa da abstenção. Os políticos começam a estar cada vez menos em divergência na forma de como governar um país; discordam, isso sim, em quem deve governar. Quando o discurso se reduz a “eu sou melhor que tu!”, como pode o eleitor decidir?

P.D. Acompanho, no entanto, o PCB no facto que existem divergências na forma de execução de um mesmo projecto político comum aos dois candidatos, que torna um governo do PT menos pior que um governo do PSDB.

18 de Outubro de 2010 Posted by | Brasil, Partidos | , , | Comentários Desativados em A segunda volta de Dilma e Serra

Esquerda à brasileira

O início do segundo turno das eleições no Brasil trás revelações interessantes no campo da esquerda. As três candidaturas à esquerda do PT se posicionaram. A saudável combinação entre a utopia e o pragmatismo típica do Leninismo pautou o comunicado do PCB. Claramente, entre duas candidaturas burguesas ele opta por aquela que defende a soberania nacional do país e respeitará os projectos socialistas dos países vizinhos. Mais, opta por dar o seu voto a uma opção que, sendo capitalista, não manda prender aqueles que protestam contra o governo.

Os trostkistas seguem como sempre. O PSTU apelou ao voto nulo. Nunca é demais repetir a frase de Gramsci que considerava Troskty o teórico do ataque frontal quando isso não trás mais que derrotas. A hipóteses de uma vitória de José Serra deitará por terra o movimento de esquerda. Voltarão a ser presos os dirigentes do MST por porem em causa o direito à propriedade privada; as políticas sociais em franca expansão irão recuar; o Brasil tornar-se-á um país ao serviço do capital internacional na guerra ideológica com Venezula (papel que Lula se esquivou de jogar).

O PSOL, surpreendentemente, fica no meio. A opção entre votar no PT ou votar nulo é dada a cada um dos seus militantes. Mas o seu cabeça de lista veio defender o voto nulo. Plínio de Arruda Sampaio não é troskista, mas parece.

15 de Outubro de 2010 Posted by | Brasil, Partidos | , , , , | Comentários Desativados em Esquerda à brasileira