Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

A unidade à esquerda no Brasil

A unidade de esquerda é um daqueles temas recorrentes nos debates entre partidos que se dizem de esquerda. Hoje veio à baila mais uma vez, depois de publicada a entrevista de Marcelo Freixo na Folha. Freixo argumenta que talvez este não seja o melhor momento para falar em unidade de esquerda. Porquê? Porque a aproximação do PT aos partidos à sua esquerda decorre da impossibilidade de fazer alianças com a direita. Implicitamente ele afirma que a vontade de Lula em negociar com o PSOL só dura enquanto houver indisponibilidade do PMDB para negociar com o PT. Esta unidade de esquerda depende da vontade e do interesse da direita.

Penso que Freixo tem razão, mas há razões mais profundas para deixar de lado a tese da unidade de esquerda.

Primeiro porque uma política de esquerda deve assentar em premissas reais. A premissa real é que Lula não será candidato. Embora eu não duvide que Lula seja corrupto, tenho muito mais certezas que faltam provas ao Ministério Público para demonstrá-lo. O que ocorreu no Brasil foi um julgamento típico de ditaduras. Mas a esquerda não tem meios para deter o processo em curso e muito por culpa do PT. Como li hoje no Facebook, onde estão a CUT e  o MST?

Em segundo lugar, deve ser sublinhado que a “unidade de esquerda” é uma bandeira que sempre reduz a política às disputas partidárias pelo aparelho do Estado aos seus diversos níveis. Mas o problema de esquerda é que está perdendo a sociedade. (A ineficácia da CUT e do MST, indicada no parágrafo anterior, mostra isso.) E as razões são óbvias: a esquerda governista (PT e PCdoB) fez outsourcing da organização da classe operária para a IURD/PRB; a esquerda oposicionista (PSOL, PSTU, PCB, etc.) escreveu livros sobre isso. É incrível que a esquerda brasileira, cada vez mais afastada daqueles que diz representar, esteja mais preocupada com arranjos de cúpula para as eleições de 2018. Há unidade de esquerda para combater a reforma da previdência?

Finalmente, tenho dúvidas que a unidade de esquerda sirva, de fato, para alguma coisa. Sobretudo quando somos marxistas e o nosso objetivo não é ganhar eleições, mas mudar a sociedade. Li por aí que o que acelerou a Reforma agrária no Rio de Janeiro, na década de 1960, foi a racha entre o PCB e o PCdoB: sempre que um ocupava terras e fundava um novo acampamento, o outro corria atrás para conseguir também mais um acampamento.

29 de Dezembro de 2017 Posted by | Brasil, Ideologia, Partidos | , , , | Comentários Desativados em A unidade à esquerda no Brasil

Temer fica!

O Brasil é um país que vive de acordo com o ventos que soprados pela economia global. Insistindo em ter um superavit primário, a saúde da economia depende do preço pago pelas suas exportações. O Brasil, entretanto, exporta quase exclusivamente commodities primárias (petróleo, aço, soja e frango), ou seja, mercadorias cujo preço está vinculado ao preço do petróleo. Assim, o destino de Dilma Rousseff, como se nota na figura abaixo, foi selado pela queda abrupta do preço do petróleo.

A estabilidade atual do governo de Temer é a estabilidade do preço do petróleo; e, por esse motivo, ele irá governar até 2018. A esquerda deve começar a organizar-se me torno dessa premissa.

30 de Outubro de 2017 Posted by | Brasil, Economia | , , , | Comentários Desativados em Temer fica!

O impeachment imparável

O processo contra Dilma Roussef está a ocorrer à margem do direito. O chumbo das contas do orçamento de 2014, pelo Tribunal de Contas da União sob pressão das ruas, serve de base ao impeachment. No entanto, as pedaladas fiscais não foram consideradas crime excepto nesse julgamento em 2015, muito embora sejam utilizadas de forma recorrente pelos governos. Tampouco foram consideradas crime quando utilizadas recentemente pelo Vice-Presidente Michel Temer, sucessor de Dilma em caso de impeachment. Vale notar que nenhuma das provas desveladas pela Lava Jato implica diretamente a Presidente e, como tal, não pode sustentar a sua destituição. Exceto o financiamento ilegal de campanha que, a provar-se, provocaria a cassação da legenda e, portanto, a destituição da Presidente e do seu Vice. Contudo, esta segunda opção interessa pouco à elite política por duas razões: 1. é lenta (depois da decisão do Tribunal Supremo Eleitoral, cabe ainda recurso ao Supremo Tribunal de Justiça) e 2. implica o PMDB, partido com mais deputados, senadores, governadores estaduais, etc., quer dizer, implica quem realmente manda no país.

Numa das mais interessantes análises de conjuntura, Rodrigo Nunes, professor de filosofia na PUC-Rio, afirma: “(…) importa apenas uma coisa: os votos do PMDB no Congresso. Sérgio Moro poderia vir a público atestar a inocência de Dilma agora que, sem estes votos, o Governo cairia igual.” A questão do impeachment só em teoria é uma questão jurídica, quer dizer, só formalmente os deputados e senadores vão julgar o carácter legal dos atos de Dilma Russef. Na prática estarão tomando uma decisão política. É por isso que Eduardo Cunha, contra o qual a Lava Jato já reuniu provas e já existe uma acusação formal, pode comandar o julgamento de Dilma Russef. (A justificação que FHC deu para o facto só confirma o carácter político, contra a Constituição, do impeachment.)

Ou seja, o PMDB é o fiel da balança e a pergunta-chave só pode ser o que quer o PMDB? Ele quer, por um lado, um plano de ajuste estrutural/austeridade para fazer face à crise económica e, por outro, barrar a as investigações da Lava Jato para poupar ao máximo os seus dirigentes. O PT tem alguns trunfos para atirar água na fervura da Lava Jato; um artigo de Sylvia Moretzon (professora de Ética na faculdade de jornalismo da UFF, bastante conceituada no Brasil e que deve ter cobrado a um ex-aluno para publicar em Portugal um artigo capaz de contrabalançar a repetição do discurso anti-petista da Globo) mostra bem como os juízes se transformaram em justiceiros contra o PT, em clara violação da lei e da imparcialidade do sistema judiciário. Mas mobilizar todos estes factos não chega; é preciso também disputar nas ruas o clima político anti-petista decorrente da mobilização da classe média. Para isso é preciso crer que a CUT e o MST ainda são capazes de ocupar as ruas.

A questão é que o PT não pode resolver a outra metade do problema sem minar a solução necessária para resolver a metade anterior. Há um consenso de que, para fazer face à crise, é necessário austeridade ou, como se dizia há umas décadas, um ajuste estrutural. Dilma aceitou esse programa quando apelou ao diálogo na noite eleitoral e quando, logo depois, chamou Joaquim Levy para Ministro da Fazenda. Marina Silva assinalou essa adesão de Dilma Russef ao neoliberalismo apelidando-a de “choque de realidade”; o PT também, mobilizando-se contra as medidas que a Presidente cogitou tomar. E Dilma somente não aplicou a receita neoliberal porque a crise política tem o governo paralisado desde o dia das eleições. Receita essa que, ao invés de ser revertida, acaba de ser confirmada. Ora, é inegável que a adopção desta política económica irá desmobilizar as bases da CUT e do MST. O governo não pode (como se diz em Portugal) querer sol na eira e chuva nos nabal, isto é, pedir à esquerda que defenda o seu governo e governar à direita.

Mas o problema é que o PMDB continua a ser o fiel da balança e, para ele, uma aliança com o PSDB – capaz de sustentar o governo de Temer – é muito mais eficaz. Por um lado, o programa neoliberal pode ser aplicado com o consentimento ou mesmo apoio das suas bases partidárias. E, por outro lado, o fuel que alimenta a Lava Jato é o ódio fascista ao PT – não só porque os juízes estão a correr atrás de aplausos (independentemente das suas ligações ao PSDB), mas também porque fazem parte dessa classe média anti-petista. Com o PT fora do governo, a classe média e o sistema judiciário desmobilizado, será mais fácil jogar água na fervura.

***

Como seria de esperar, a esquerda está divida entre os críticos do impeachment, que sublinham a sua ilegalidade, e os críticos da política económica de Dilma. De todos os modos é, pela sua pequenez, um jogador incapaz de fazer a diferença neste jogo onde as cartas estão dadas. O que mais espanta, não obstante, que apesar do consenso existente acerca do esgotamento do projeto petista de conciliação de classes, não consiga ver na impossibilidade do PT para sair do atoleiro onde se enfiou, a prova concreta dessa tese teórica. O impeachment jamais será resolvido favoravelmente aos trabalhadores porque não será resolvido sem o PMDB, isto é, sem o aval da burguesia em um momento de crise, quer dizer, que não à conciliação de classes possível.

O futuro será negro. A passagem de Dilma para Temer custará aos trabalhadores o mesmo que custou, na Argentina, a eleição de Macri. A esquerda ficará reduzida, de um lado, aos burocratas sindicais do PT e, de outro, às universidades de ciências humanas onde afloram o PSOL, o PSTU e o PCB. Em ambos os casos, o ponto de partida da esquerda é o seu real afastamento das massas fustigadas pela política neoliberal que se aprofunda. É triste. É difícil. Mas é o preço a pagar pelo que anos de política de conciliação de classes fizeram com as organizações dos trabalhadores como o MST e a CUT, bem como da incapacidade dos intelectuais críticos do PT para sair dos muros da academia.

22 de Março de 2016 Posted by | Brasil, Economia, Partidos | , , , , , , | Comentários Desativados em O impeachment imparável

O Impeachment e a esquerda

A campanha pelo Impeachment de Dilma Russef começou no dia seguinte às eleições e ficou vinculada à corrupção na Petrobrás. A cada novo escândalo e revelação da operação Lava Jato, a campanha sobe de tom. Até o FHC já tomou parte… mas calou-se, aos primeiros sinais que o envolveram na corrupção na Petrobrás.

Sobre isto vale dizer apenas uma coisa: O PSDB pede o Impeachment porque não tem mais nada para pedir. A subida dos juros, o arrocho salarial, a suspensão da reforma agrária, o fim da demarcação de  terras indígenas, etc. tudo está feito ou em curso. Esta constatação tem duas consequências.

1. É pouco provável que haja um Impeachment de facto. Há antes uma pressão sobre o PT que premite a consolidação do PMDB  e da política neoliberal no seu governo. Tanto é assim que a direita que manda está calada. Foi Lobão e Bolsonaro, e não Aécio Neves, que levantaram a bandeira do Impeachment. A direita que conta, Roberto Setúbal por exemplo, está do lado de Dilma; no máximo, tirando proveito desta conjuntura de instabilidade para impor-se mais e melhor a Dilma.

2. Por outro lado, bastava o PT fazer política para a campanha pelo Impeachment desaparecer. Bastava baixar a taxa SELIC para que todas as televisões e jornais esquecessem o Impeachment e começassem a falar de juros e de inflação, isto é, política a sério. A esquerda -PSOL, PCB e PSTU – só pode apoiar o PT se ele tomar alguma destas medidas; apoiar, em primeiro lugar, estas medidas.

Até lá tem outras coisas que fazer. A avaliar pelo Rio, a esquerda – PSOL, PCB e PSTU – está muito amarrada à academia, em particular, ao IFCS e à UERJ. Tem de começar a viajar à Baixada Fulminense, a Campo Grande e ao Jacarezinho para aprender com os lideres locais que aí existem e que o PT e o PCdoB deixaram, por assim dizer, órfãos.

25 de Fevereiro de 2015 Posted by | Brasil, Ideologia | , , | Comentários Desativados em O Impeachment e a esquerda

Se as eleições mudassem alguma coisa seriam proíbidas?

Trotsky, em sua Teoria da revolução permanente, analisa as suas diferenças com Lênin no período de 1906 a fevereiro de 1917. Ambos afirmam, logo em 1906, que a crise revolucionária de 1905 se irá repetir e que, dessa vez, o proletariado irá tomar o poder. Não obstante, daqui Trotsky retira a conclusão de que não há necessidade de combater o oportunismo; enquanto Lênin afirma que somente combatendo o oportunismo é que a crise se repete. Trotsky reconhece que se equivocou.

A segunda diferença, segundo o próprio Trotsky, era que Lênin teria deixado em aberto a possibilidade do campesinato estabelecer uma organização revolucionária própria. Trotsky, pelo contrário, afirmou logo que eles eram incapazes de fazê-lo. Portanto, a necessária aliança operário-camponesa teria de ser, segundo Trotsky, desigual: isto é, sob liderança dos operários. Lênin, pelo contrário, deixava esse ponto em aberto à espera que a realidade oferecesse a resposta. É esse ponto que me interessa aqui!

O erro de Trotsky está em não considerar que, se os indivíduos podem aprender através de exemplos históricos, a massa só pode ser educada na prática. Basta olhar para o golpe de Pinochet para verificar que ‘se as eleições mudassem alguma coisa seria proibidas’. E mais, a história nos ensina que sempre que um partido comunista obtém, pela via eleitoral, influência considerável num órgão de Estado, esse órgão perde poder. Assim, os parlamentos perderam, na segunda metade do séc. XIX, algumas das suas atribuições para os governos. E, do mesmo modo, nas décadas de 1970 e 80 os governos perderam poder para os organismos internacionais. Ainda assim, resta no executivo um poder considerável que a simples possibilidade de um partido de esquerda alcançá-lo deixa o mundo em pânico. Veja-se a Venezuela.

Mas maioria da população e, igualmente, da classe operária, somente saberá que se as eleições mudassem alguma coisa seriam proibidas no dia em que a burguesia proibir as eleições. Saber saber já sabem; o problema é ter aquela certeza cá dentro que muda a nossa forma de agir. O que também me leva a dizer que adquirimos conhecimentos estudando; mas somente adquirimos certezas na prática. Devemos portanto deixar a resposta à questão (no título) em aberto. Não tanto porque, como mostra o caso da Venezuela, podemos ter a “sorte” de enfrentar uma excepção (ainda que confirmadora da regra), ao invés de lidar com a regra. Nas sobretudo pelo valor pedagógico das questões em aberto e da força das respostas dadas pela realidade.

Portanto, o papel da esquerda é levar as eleições ao ponto em que elas entram em contradição com a burguesia! Até esse momento, em que a sentença anarquista se confirma na prática e se transforma de retórica em lição. O papel da esquerda é VOTAR à esquerda!!!

Apresentei aqui outra razão pelas quais a esquerda deve, acima de tudo, abster-se de fazer campanha pela abstenção!

23 de Maio de 2014 Posted by | Partidos, Portugal | , , | 2 comentários

A importância da conjuntura

Nos últimos dois ou três anos venho insistindo que a esquerda presta pouca, mas muito pouca, atenção às contradições internas da classe burguesa. Consequentemente é incapaz de antecipar o seu devir. Mas tenho ido mais longe: num momento em que a hegemonia da burguesia está mais ou menos estabilizada, as contradições internas da classe burguesa se tornam mais importantes que as contradições de classes.

Por todo lado tenho sido criticado. Pelos amigos de bar, e por pessoas bem autorizadas (Virgínia Fontes, por exemplo, num pequeno debate organizado há alguns meses atrás por alunos de ciência política na UniRio). A resposta é sempre a mesma: em última análise, o capital de quem investe no setor automóvel, na  construção ou na agricultura é do banqueiro. Não há, portanto, frações na classe burguesa. Não há contradições! Há, no máximo, atritos entre gestores – capitalistas de segunda linha.

Parece-me, no entanto, mais do que isso. Quando, como está a acontecer agora no Brasil (ou já aconteceu: estas informações são tornadas públicas com atraso), o capital se move do setor industrial para a especulação com a dívida europeia, nem todos se deslocam à mesma velocidade. Uns antecipam o movimento; outros procuram evitá-lo. São estas divergências conjunturais, por certo, mas divergências de facto que estão por detrás dos tropeços de quem quer mediar os conflitos internos da burguesia – Dilma Russef (o debate de há uns meses atrás sobre inflação foi muito condicionado por isto) ou, em Portugal, Passos Coelho.

Divergências conjunturais mas… não é no dia-a-dia, na conjuntura, que se faz política? Será possível formular uma estratégia verdadeiramente marxista se a análise materialista e dialética não chega a analisar essa estratégia? Se o tropeço do “inimigo” é relativizado em vez de antecipado e aproveitado? Não estaremos equivocados no uso do marxismo? Não estaremos a usá-lo apenas para justificar a nossa prática (fazer a análise de todas as injustiças do sistema capitalista) e não para elaborar a nossa tática? Será então a nossa prática, como queria Marx, verdadeiramente científica?

O outro lado da moeda é que também a classe operária não tem contradições. Ela está dividida porque os seus membros são “alienados” e os seus dirigentes são “sectários”. Portanto, construir a unidade da classe operária não é fazer apelos éticos… nem dizer mal dos outros!

13 de Novembro de 2013 Posted by | Ideologia, Partidos | , , , | 8 comentários

Sobre os Black Blocs

Já faz umas semanas, pouco mais de um mês, que eu quero escrever algo sobre os Block Blocs aqui no meu blog. O texto do PSTU, equivocado, acirrou o debate. Penso que chegou o momento. Para começar, digamos que me irrita profundamente os termos do debate em que os Black Blocs se tornaram algo sagrado: quem os crítica é acusado estar do lado da Globo, portanto, ser de direita. A primeira crítica que os Black Blocs merecem não é exatamente a eles, mas ao seu entorno: a aureola que a esquerda, em particular anarquista, construiu sobre eles.

Uma questão teórica sobre teoria

Os anarquistas e os trotkistas se parecem mais do que o que creem. Os trotskistas olham para a teoria (em particular, o Programa de Transição) como a receita, uma receita de bolo, para mudar o mundo. Ora, a teoria é o domínio consciente de prática. Isto é, a teoria é o conjunto de pressupostos que nos fazem optar por este ou aquele método de luta. Sem colocar o pressupostos em debate, sem se propor a duvidar do Programa de Transição, os trotskistas só podem aparecer como “certificadores de boas práticas” de luta de massas. Enfim, só a tática decorrente de uma teoria pré-estabelecida é considerada correta.

Ora, os anarquistas estão, apenas aparentemente, do outro lado. Suas organizações se definem pela sua prática; os Black Blocs são apenas o caso extremo. O desprezo pelo debate teórico sobre a prática é tão antigo quanto o anarquismo – ao ponto de não darem conta que partilham, com o liberalismo, a mesma noção de indivíduo. Neste sentido, entre trotskistas e anarquistas não há qualquer maleabilidade tática.

Esboço de uma análise da violência

É mais ou menos partilhada por toda a esquerda a seguinte questão: 1) ninguém defende a violência, é contra ela; 2) mas todos sabem que sem violência as manifestações não atingem o impacto mediático que podem ter. No Brasil isto ainda é mais unânime. Os Black Blocs na Europa fazem da destruição do património burguês sua tática. Os Black Blocs do Rio de Janeiro se propõem como um grupo que não ataca; apenas defende os manifestantes. Este texto foi partilhado na página dos Black Blocs RJ e foi dado destaque ao ponto “Violência policial e autodefesa”. No entanto, isto é compatível com atitudes claramente provocatórias como aquela usada na manifestação de 11 de julho, em que se colocaram entre a CUT e a polícia.

É certo que a violência funciona em dois sentidos. Sem a violência de 13 e 15 de junho, da polícia sobre os manifestantes, as grandes manifestações de 20 de junho nunca teriam ocorrido. Mas é também a violência, sobretudo aquela do dia 20, que faz com que hoje muitos fiquem em casa. Ainda assim, a violência dos das semanas anteriores (a destruição da griffe Toulon) é que transformaram o Rio no epicentro da luta no país. É a violência que tem garantido que manifestações de mil ou dois mil manifestantes tenham um impacto maior do que o que têm tido até aqui.

Não admira pois esta ambiguidade: todos querem a violência desde que possam responsabilizar os outros por ela.

O maior entrave ao debate teórico

A violência parece algo totalmente prático. E, não obstante, livros famosos foram escritos sobre ela – em particular, sobre a guerra. Este, em particular, teve uma influência grande sobre o leninismo. O problema está sempre em colocar a ação em seu contexto; em lembrar que um vestido vermelho numa igreja não é a mesma coisa se se trata de um casamento ou um funeral. Os Black Blocs e os anarquistas em geral sempre tiveram dificuldade em fazer isso. Vou dar um exemplo.

Também na manifestação de dia 11 de junho, os Black Blocs tiveram a sua primeira escaramuça com a polícia logo à saída da manifestação. Não sei quem começou. Sei que estava toda a gente bem alheada do que se passava entre eles quando estouraram as três primeiras bombas da gás lacrimogéneo. O comando de greve deu, imediatamente, início à manifestação convocou os manifestantes para começar a andar. O trio elétrico saiu até em passo apressado para tirar os manifestantes dali, da Candelária, então cheia de gás pimenta. Entretanto, vejo um pequeno grupo de Black Blocs vir na direção do comando do ato a gritar: “A opressão está ali!” – indicando a polícia de choque.

Ora, o que surpreende nesta história é o modo como os Black Blocs – e, devo dizer mais uma vez, os anarquistas – são incapazes de ver que a opressão não está ali. Não estamos numa disputa militar ou proto-militar com a polícia; mas numa disputa pelo espaço publico e pelo senso comum contra o arsenal de propaganda da burguesia. E é precisamente aí que os Black Blocs estão à frente de toda a gente: a sua violência é estética, não militar. Ela disputa o espaço público. (Esta reportagem da Globo News tem o interesse de pontuar precisamente esse ponto quando afirma que os Black Blocs é um movimento estético, e não político. Só se equivocam ao desconhecer o óbvio: como mostrou a Escola de Frankfurt, a estética é política).

Comentários finais

A violência, até agora, tem sido mais favorável aos manifestantes que ao Estado. Num contexto em que já ninguém apoia Cabral, a violência assegura a visibilidade dos protestos mesmo quando o número de manifestantes é exíguo. Em outro contexto poderá funcionar ao contrário: isolar os manifestantes do apoio popular e legitimar uma intervenção mais dura pela parte do Estado. É por isso que devemos debater teoricamente a nossa prática. Só com teoria tomaremos as melhores opções práticas.

Mas para isso não pode ser permitido isentar os Black Blocs de toda a crítica.

2 de Agosto de 2013 Posted by | Brasil, Ideologia, Sociedade Brasileira | , , | 4 comentários

Papa Francisco

A visita do Papa ao Brasil foi, no mínimo, mais uma realização de sincretismo. Aliás, a Igreja Católica sempre se deu bem quando fez esta opção. Cresceu na Europa cristianizando os símbolos pagãos; e enraizou-se na América Latina misturando-se com a cultura local. (A esse propósito, eu gosto de dar  como exemplo o altar da Igreja de Santiago Atitán. Ali, a imagética católica se cruza com a maya). Na semana passada, no Rio de Janeiro, o sincretismo foi outro. A visita papal foi um grande negócio, certamente turístico e realizado à medida da especulação imobiliária; que, no entanto, apresentou um Papa que fez, no Vaticano, uma curva à esquerda. A visita à comunidade da Varginha na favela de Manguinhos foi apenas a caridade previsível. Surpreendente foi o discurso em apoio aos protestos dos jovens brasileiros contra o governo. Surpreendente foi a abertura ao diálogo com a Teologia da Libertação (aqui também). Surpreendente foi, por fim, ouvir do papa Francisco “Quem sou eu para julgar os gays?”.

Ao contrário de outros, eu não procuro, nesta contradição, o lado certo. Como marxista, devo saber que a vida é feita de unidade de contrários; que a pureza programática é um mito cartesiano. Esta contradição é o programa que vai marcar o papado de Jorge Mario Bergogli. Um progresso considerável, uma curva à esquerda…  dado o seu ponto de partida: o anticomunismo de Karol Wojtyla, e missão evangelizadora, de uma igreja fechada sobre si mesma, contra o catolicismo não praticante, pai do agnosticismo, de Joseph Ratzinger.

29 de Julho de 2013 Posted by | Ideologia, Mundo | , , | Comentários Desativados em Papa Francisco

Sobre as manifestações no Brasil

As análises que tenho lido acerca das manifestações ocorridas recentemente no Brasil não dão conta do seu aspeto mais importante: a pluralidade das demandas. Ninguém deixa de afirmar essa pluralidade; pouca gente a analisa de fato. Perdoem-me o “excesso” de teoria: eu proponho que comecemos a ver os atos como um campo, no sentido de Pierre Bourdieu (figura abaixo).

CaptureOs manifestantes existem entre dois extremos: os que acordaram agora e os que nunca dormiram. Não é uma divisão precisa, assim como não podemos saber com que idade alguém deixa de ser novo e passa a ser velho. É um contínuo que podemos representar pelo quadrado maior da figura ou pela oposição entre A e B. Entre os que sempre estiveram há uma tensão secundária (C-D): entre aqueles que querem fazer dos atos um meio para construir um ator legitimo para a negociação política (o que implica algum grau de verticalização do movimento – a eleição de representantes – e inclui o risco de aparelhamento político do protesto) e aqueles que querem fazer de cada ato um fato político. Para estes, um ato sem tensionamento com a polícia não dá em nada.

Mas o mais importante, nestas manifestações recentes, foi que o número de manifestantes, só no Rio de Janeiro, passou de mil a 300 mil em três semanas. Isto é, o quadro pequeno determinado pela tensão C-D foi “engolido” pelo quadro maior, determinado pela tensão A-B. Quais foram as causas? E quais as suas consequências?

Causas: A meu ver, a inflação está na origem dos protestos. Assim como esteve nos protestos dos últimos dois anos: primeiro, da polícia e dos bombeiros; depois, dos servidores federais. 20 centavos objetivaram o aumento geral dos preços, dos alimentos ao aluguer de casas, nos últimos tempos. Por isso os protestos cresceram para além daqueles que vão a todas e, quando a polícia tentou acabar com os protestos pela repressão (13/6  em São Paulo e 16/6 no Rio), as manifestações cresceram ainda mais. Cresceram ao ponto da mídia ser obrigada a mudar a sua narrativa sobre elas: não eram mais uns esquerdistas vivendo no século passado. Essa virada do discurso mediático justifica as grandes manifestações de 20 de junho em todo o país.

Consequências: Muitos dos que aderiram às manifestações fizeram-no por uma espécie de adesão estética (B) que se opõe à adesão militante (A). O cartaz “Desculpe o transtorno, estamos a mudar o Brasil” e a frase “O gigante acordou” representam bem o que quero dizer com adesão estética. Algo de novo estava acontecendo, uma revolta (ainda que sem sentido) contra o estado de coisas, explodiu e todos os brasileiros quiseram participar nela. Daí a crítica da corrupção em termos generalizados que demonstram apenas uma insatisfação generalizada com o Estado, mas não o seu conhecimento. Daí um espaço vazio que a mídia tratou de preencher: Arnaldo Jabor propôs a luta contra a PEC 37, que virou uma das demandas dos manifestantes.

Mas, em oposição a isso está o programa tradicional da esquerda (fim da privatização via PPPs; mais financiamento para saúde e educação; desmilitarização da polícia e regulação dos meio de comunicação). Apesar de ser minoria, consegue se impor porque a esquerda é quem tem o poder de convocatória das manifestações. Aliás, a convocação para amanhã de uma manifestação para as imediações do Maracanã e terça-feira para as imediações do Complexo da Maré mostra essa capacidade da esquerda determinar o programa político do protesto decidindo o trajeto dele.

Não compreender esta disputa (e que o grande trunfo da esquerda é o poder de convocatória) é deixar que o sentido das manifestações seja guiado pela estética e pela mídia.

29 de Junho de 2013 Posted by | Ideologia, Sociedade Brasileira | , , , | 1 Comentário

Impressões da manifestação

Pela primeira vez participei no Rio numa manifestação a sério. Nem uma passeata do Primeiro de Maio ou do Grito dos Excluídos; nem a célebre passeata da Cúpula dos Povos. Uma manifestação de protesto contra o aumento da passagem de ônibus. Fiquei nela até a primeira bomba de efeito “moral” – até descobrir que a moral abre nos olhos.

A impressão geral é a de um amadorismo tremendo. A manifestação refletia uma convocação por facebook sem nenhum outro trabalho de preparação: 500 estudantes, numa contagem por cima! À composição social dos manifestantes se junta outra característica típica dos protestos do Rio de Janeiro. Todos os temas aparecem. Para além do aumento da tarifa do ônibus falou-se da expulsão dos índios da Aldeia Maracanã, das remoções de casas causadas pela obra da Copa, etc. Ou seja, as manifestações são menos dos interessados nos motivos do protesto do que daqueles que vão a todas. Os que vão a todas são essenciais, sem dúvida, para trazer os interessados: sempre foram eles o esqueleto dos movimentos de protesto. Mas, no Rio, temos um esqueleto sem carne.

O trajeto original era descer a Rio Branco da Cinelândia até a Presidente Vargas e talvez ir até à Central. Creio que foi mesmo a polícia que conseguiu convencer os organizadores da manifestação – aqueles que dirigiam o carro de som do Sintuff – pela 1.º de Março. Mas logo à saída da Cinelândia ficou evidente que a coisa ia correr mal. Enquanto uns caminhavam a passo lento pela Almirante Barroso, outros queria ficar protestando de forma a cortar o trânsito na Rio Branco. Ora, é certo que “o negócio é fechar a avenida!“; mas não se fecha a Rio Branco com 500 pessoas. Alguns polícias chegaram à Cinelândia com cara de querer descarregar os cacetes que empunhavam. Tudo conspirava para que tivessem essa oportunidade. Na chegada à 1.º de Março, o carro do Sintuff foi “empurrado” para uma das laterais. Mas os manifestantes tudo fizeram para ocupar não apenas a lateral mas também uma das vias da avenida. Apenas uma das quatro! A polícia quis evitá-lo mas não foi a tempo. E se não ocupamos mais vias é porque aquelas 500 (talvez menos) pessoas mal chegavam para ocupar aquela além da lateral.

Foi ao chegar ao Tribunal de Justiça que tudo se estragou. A manifestação parou um pedaço em protesto… uma boa meia hora. Até que dois polícias se dirigiram ao carro e pediram-lhe que começasse a andar. O grupo se dividiu entre os que acompanhavam o carro e os que permaneciam protestando – já batendo nos vidros – frente ao tribunal. Obviamente, isolado o segundo grupo, a pancadaria começou. Dizem que o primeiro a bater foi um polícia – e acredito! Depois rebentou uma bomba de efeito “moral” e começou tudo a correr. A organização ainda gritou “não corram; não corram!” tentando reagrupar os manifestantes obrigando a polícia a se reagrupar também. Mas nada; ninguém parou. E a polícia fez rebentar mais quatro ou cinco bombas.

Li no facebook que uns foram para o IFCS. A maioria se reorganizou e passou a Presidente Vargas ficando a protestar na Central. Mas parece que também ali houve confrontos com a polícia e os manifestantes foram obrigados a correr para o Campo de Santana. No saldo dos dois confrontos 30 presos por vandalismo.

Durante a manifestação, ouvi gritar muita coisa bonita. O que mais me agradou foi “Oh motorista! Oh cobrador! Me diz aí se o seu salário aumentou”. Mas o que mais me marcou foi o “Vem. Vem. Vem…” que junto ao carro de som se gritava para fazer a manifestação avançar. E o “Vem. Vem. Vem…” que se repetia do outro lado exigindo que o carro recuasse.

P. D. Não quero naturalizar a violência da polícia que devia ter agido de outra forma. Mas também me recuso a naturalizar o comportamento naïfe dos manifestantes que deviam ter agido de outra forma também. Sinceramente, se todos tivessem seguido a convocação do carro de som a primeira bomba de efeito moral não tinha rebentado.

11 de Junho de 2013 Posted by | Brasil, Segurança Rio, Sociedade Brasileira | , , , | Comentários Desativados em Impressões da manifestação