Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Trump e a geopolítica

Não é fácil resumir o que penso sobre Trump, antes pelo contrário. Poderia dizer que ele não vai mudar nada e, ao mesmo tempo, vai mudar tudo. Não vai mudar nada por três razões. Primeiro, como marxista, sei bem que um Presidente tem os seus poderes muito limitados. O seu papel é colocar os pontos nos iis (como dizia Hegel). Isto é, as verdadeiras decisões surgem na luta de classes ou – em termos liberais – como compromissos possíveis entre os diferentes grupos de interesse, tendo em conta o poder relativo de cada grupo. No entanto, tais decisões são executadas com menos resistência dos perdedores quando escondem a sua verdadeira natureza, isto é, quando surgem não como resultado desse confronto na sociedade civil, mas antes enquanto decisão arbitrária de um indivíduo legitimado para tomá-la. Logo, uma mudança de Presidente no hegemon da ordem mundial existente não implica, imediatamente, mudanças geopolíticas de fundo, dado a capacidade limitada de um indivíduo, seja quem for.

Em segundo lugar, como muita gente lembrou após a sua vitória eleitoral, os EUA têm (em teoria) uma Constituição forte e feita para limitar os poderes do seu Presidente. Boa parte do poder de Estado está em cada um dos Estados da federação e no Congresso. Trump terá pouco espaço para grandes mudanças. Em terceiro lugar, as propostas radicais de Trump, afinal não o são. Obama foi o Presidente que mais deportou e o muro na fronteira com o México está em construção há muito tempo. Não se trata apenas de considerar que o governo de Trump está amarrando a constrangimentos sociais e institucionais, mas também notar que (como afirmou Zizek) a sua linguagem ordinária serviu apenas para mascarar um programa que nada trouxe de extraordinário e novo.

Se Trump pode mudar tudo, apesar do pouca margem de decisão que o presidente eleito, enquanto indivíduo, tem é porque Obama soube usar a sua para mudar radicalmente o tabuleiro geopolítico. Os seus efeitos podem parecer parcos; no entanto, ele inverteu uma tendência com quase 20 anos. Essa tendência foi o tema de um livro de Giovanni Arrighi. Segundo ele, o boom econômico da década de 1990, causado pela especulação imobiliária, escondeu o abrandamento do dinamismo da maior economia do mundo. E essa performance econômica decepcionante deu origem a uma tendência de perda gradual da sua influência geopolítica a partir do ano 2000.

W. Bush quis recuperar a economia e o status do país tirando partido do seu papel de polícia do mundo. Para explicar o que está em jogo, Arrighi contrapõe a guerra do Golfo à invasão do Iraque. Em ambos os casos, os EUA colocaram tropas no Iraque e, cerca de um ano depois, promoveram uma ronda de negociação com países amigos para pedir apoio financeiro à empreitada. Mas o significado dessa ronda de captação de recursos foi inteiramente distinta de um caso para o outro. No primeiro caso, a intervenção militar foi uma ação decidida por todos os parceiros: o mais forte, isto é, com mais capacidade militar, agiu e, depois, dividiu a conta pelos sócios. No segundo caso os EUA atuaram como literalmente como polícia: não apenas decidindo unilateralmente onde e quando intervir, mas também procurando instituir a obrigatoriedade da contribuição (uma espécie de imposto) para os países ricos. Ou seja, a saída encontrada por W. Bush para o declínio econômico passava, portanto, por colocar tropas ao redor do mundo e cobrar aos demais países pela segurança que isso garantia – claro, com enormes proveitos para a sua indústria bélica.

O resultado da segunda guerra do Iraque, herdado por Obama, foi desastroso. O apoio dos países ocidentais à guerra foi pouco mais que formal; a contribuição financeira ficou muito abaixo das expectativas. Assim, em vez de se apresentar como uma solução para o declínio econômico do hegemon mundial, a guerra do Iraque, com seus custos exorbitantes, acelerou-o. Prova disso foi o aumento dos preços de todas as matérias-primas no mercado mundial a partir de 2004, puxado pela elevação do preço do petróleo. No período, surgiram muitas explicações para esse crescimento do preço do crude, como, por exemplo, o aumento da demanda chinesa, a instabilidade política no Oriente Médio e o famosos pico de Hubbert. Recordo, no entanto, de ter lido uma explicação alternativa. Não era o petróleo que valorizou, mas o dólar que desvalorizou. A eclosão da crise em 2008 só veio acelerar uma tendência de desvalorização das economias ocidentais, patente na valorização das suas importações (matérias-primas), que não pode ser desligada da desvalorização correlativa das suas exportações.

Obama pareceu mais preocupado com a política interna do que externa, aceitando as regras do jogo pelo menos entre 2009 e 2014 (isto é, até aos dois últimos anos do seu mandato). Iniciou a retirada do seu exército do Iraque. Não me parece que a sua intervenção tenha sido determinante para iniciar os golpes palacianos que ocorreram na América Latina durante os seus governos nas Honduras; no Paraguai e no Brasil. (Devo reconhecer que não conheço bem os acontecimentos ocorridos no Paraguai e que, nas Honduras, o desfecho teria sido outro sem a intervenção da Casa Branca. Quanto ao Brasil, embora não duvide do financiamento norte-americano aos movimentos pró-impeachment, não o considero relevante para explicar o curso dos acontecimentos.) Como tal, viu crescer dois adversários geopolíticos sentados em cima de reservas energéticas: Hugo Chavez, Vladimir Putin e Kadafi.

As relações de Moscow com Berlim tornaram-se perigosas para o futuro da União Europeia e para os interesses da Casa Branca. Putin contruíu dois gaseodutos entre o Oriente Médio e a Europa, fazendo da empresa estatal russa Gazprom o principal fornecedor de gás natural à Europa; mais, ofereceu parte do capital da empresa a um grupo de investidores alemães para estimular o interesse dos europeus no negócio. Um site de esquerda, dedicado à geopolítica, anteviu o fim da União Europeia. A Alemanha, cada vez mais voltada para Moscow, tarde ou cedo, entraria em rota de colizão com os interesses atlânticos da França e Inglaterra.

Nesse contexto, Obama agiu! E fê-lo de forma inteligente e inesperada. Primeiro, aproveitou os protestos dos jovens egípcios, em 2011, e estendeu-os a outros países como a Síria e a Ucrânia, por forma a atrasar os negócios de Putin. Assim, os serviços secretos norte-americanos garantiram dois anos à Casa Branca para mostrar a sua maestria político-econômica. Primeiro, reduziu a quase zero as importações de petróleo, graças à duplicação da produção doméstica de petróleo e de energia a partir de xistos betuminosos; depois, pôs fim ao embargo ao Irão, aumentando drasticamente a produção mundial. Assim, esta redução importante da procura (os EUA continuam sendo o maior importador mundial de petróleo) e aumento espetacular da oferta fez cair o preço do barril de mais de 100 dólares para menos de 40. De uma só paulada, Obama matou dois coelhos. Por um lado, passou boa parte da crise econômica do capitalismo do centro para a periferia. A tímida recuperação de Portugal em 2015 (aqui também), bem como o caos econômico que se vive no Brasil, pode ser atribuída a isso. Por outro, deu um rude golpe na economia de dois adversários geopolíticos: a Venezuela e a Rússia.

As declarações do candidato Trump acerca da NATO mostram um regresso à estrategia de W. Bush, quer dizer, à pressão sobre a Europa para pagar os custos do policiamento do mundo. Mostram que ele não entendeu a estratégia de Obama (mas , à primeira vista, Hillary tampouco). E isto ocorre em um momento que a Rússia dá passos firmes para voltar a elevar o preço do petróleo. Por isso, tudo me leva a crer que o novo presidente dos EUA irá desfazer tudo o que o seu antecessor fez e recolocar a hegemonia do país sobre o resto do mundo na trajetória descendente que conhece desde os anos 2000.

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Algumas notícias sobre pontos a verificar no futuro:

Trump could send a shockwave through natural gas markets

The largest oil deposit ever found in America was just discovered in Texas

Merkel oferece a Trump colaboração e mais gasto militar

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13 de Novembro de 2016 Posted by | Economia, Mundo | , , , , | Comentários Desativados em Trump e a geopolítica

PCP vs. KKE

O Joel Ferreira publicou, no Facebook, esta notícia: Crise de liquidez provoca as primeiras corridas aos bancos na China! E, em comentário, criticou o facto do PCP afirmar, na resolução do XIX Congresso, que a China não se integra no sistema capitalista. Elaborei uma longa resposta que acho oportuno transcrever aqui. Pois a posição do PCP sobre a China é um sucedâneo de uma disputa entre a esquerda mundial que, desde o final do ano passado, opõe o PCP ao KKE. (Ver aqui uma crítica do KKE à forma como o PCP conduziu os trabalhos do 15.º EIPCO).

Se, no texto abaixo, mal falo da China é porque a questão não é, tanto, se a China é o não anti-capitalista. A questão é, pelo contrário, se o movimento internacional comunista deve rachar em nome da coerência ideológica, como defende o KKE, ou, antes, conservar a sua composição ampliada atual, como defende o PCP.

Posto isto, eis a minha resposta (com correções gramaticais):

Na verdade, a questão é bem mais complexa. Não há razão nenhuma para continuar a dizer que a China é um país socialista. O problema que daí decorre é: então, o que fazer com o EIPCO? Albano Nunes [em outro comentário, o Joel acrescenta: “still, o melhor partido português, malgré (et pour cause) os Albanos Nunes] segue a tradição bresneviana, da qual Álvaro Cunhal foi um dos grandes construtores, segundo a qual “se disserem bem de mim no teu país, eu direi bem de ti no meu. As nossas diferenças não são maiores que as nossas divergências com os nossos inimigos”. E isto serve para manter o EIPCO operante e fazendo duas coisas: 1) Cria um bloco forte que não deixa isolar Cuba*; 2) É uma força de atração para muitos pequenos partidos de esquerda europeus para uma esquerda justa, em vez de serem fagocitados pela falsa social-democracia.

Os problemas de fazer as coisas certas pelos motivos errados são três. Primeiro, nunca sabemos se é certamente a coisa certa; apenas o intuímos. Intuímos, por exemplo, que o nosso inimigo é o bloco “central” e não o Bloco de Esquerda – como quer o KKE e por isso quer acabar com o EIPCO. (Aqui entra a tese leniniana segundo a qual o que sustenta o capitalismo numa profunda crise como a atual e o põe a salvo de uma Revolução socialista  não é a audácia dos burgueses, mas o oportunismo de certos líderes de esquerda). Essa intuição leva o PCP a dizer que afinal a crise não é tão estrutural e por isso, não podendo estar de bem com o diabo, devemos conversar com os partidos de oposição no inferno.

Segundo, porque as razões dadas não sustentam as nossas intuições é fácil cair no outro extremo. E passamos a fazer como o KKE: a Revolução está para daqui a pouco, o nosso inimigo é o “oportunismo”. Sou leninista, mas quero ler Lénine como este leu Marx: mais interessado na metodologia que nas conclusões. Porque o que falta é articular a profunda crise objetiva do capitalismo com (para usar as palavras de Albano Nunes no último congresso, que em boa medida resumem a estratégia do PCP) “o atraso do fator subjetivo”. Se isso não se deve, em primeiro lugar, ao oportunismo; se o oportunismo não é o nosso inimigo, nem sequer a burguesia de oposição o é; então como explicamos esse atraso? Se a única explicação que temos é a dada por Lénine em 1914 – o “oportunismo” – somos obrigados a circular entre a posição do PCP e do KKE sem nunca sair dela. Talvez seja necessário fazer como Lénine fez quando a II Internacional não conseguiu cumprir a sua missão de travar a Primeira Guerra Mundial: tirar uns meses para ir estudar filosofia e olhar de novo a realidade.

Finalmente, se a realidade muda e nós conservamos um impressão passada, fruto da intuição, erramos. Ao não conhecer as razões da nossa intuição, e ao justificá-la com falsas razões, terminamos não entendendo quando a nossa intuição não é mais válida. Ou, ainda, a intuição pode mudar, e com ela a estratégia, sem que o discurso que a justifica mude. É por isso que a estratégia dimitroviana, atualizada por Cunhal em “Rumo à Vitória”, pode servir hoje. No entanto, nos dois casos, a estratégia adequava-se (mas não esclarecia este ponto) ao facto de que a “aristocracia operária”, esses proletários de “classe média” ideologicamente oportunista, estava a crescer em número devido a um crescimento económico mundial em torno de 5 a 7%. A força dessa classe, que decorre tanto do seu número como do seu movimento ascendente, foi a maior barreira a uma Revolução socialista entre 1935 e 2000. A concepção de uma etapa intermédia, a “democracia avançada”, foi útil por permitiu preservar a preservativa da Revolução socialista em condições não revolucionárias.

A partir de 2000, e sobretudo a partir de 2008, a “aristocracia operária” não tem mais como crescer. Ao agarrar-se à memória de Cunhal, o PCP não mantém apenas uma posição desatualizada face ao “oportunismo” (a ideologia dessa “aristocracia operária”), como ainda alarga alianças aos burgueses de oposição: seja, no mundo, a China; sejam os supostos empresários patrióticos em Portugal. Eu creio – mais por intuição que por análise, mas também por análise – que isto só é possível porque não é mais o “oportunismo” que é responsável pelo “atraso do factor subjetivo”. O que justifica esse atraso é um protofascismo que se instalou na sociedade, segundo o qual tudo o que vier da política é mau!

Em baixo disto, o Eduardo Neves respondeu:

Perigosíssima e enorme erro essa conclusão José. A verdade é que temos tanto fascismo como proto-fascismo e o oportunismo ao mesmo tempo. O oportunismo que cria o caldo de cultura em que cresce o fascismo e o proto-fascismo. É precisamente por isso que eu digo que o KKE tem razão.

A questão do BE coloca-se da maneira diferente do que o Syriza na Grécia mas sim coloca-se eventualmente. O PCP está sob ataque do oportunismo, mas esse ataque vem das suas relações internacionais, o BE tem pouco peso nesse ataque, porque o BE nunca conseguiu claramente o seu objectivo de se tornar um partido maior que o PCP. Já o Syriza em termos eleitorais e institucionais é outra história. Ou seja, não eu não defendo simplesmente fazer o mesmo que o KKE, porque o trabalho anti-oportunista em Portugal tem de começar obrigatoriamente na ruptura com o PCE, PCF e Refundação, mas o espírito deve ser o mesmo.

Coloco aqui o texto do Eduardo porque me parece que tem alguma razão. Eu intuo isso, sobretudo a partir do momento em que o europeísmo se mostra comum ao “oportunismo” e ao fascismo. A questão está em que não encontro razões para intuir isso!

*Adendo: Repare-se que o esforço que o PCP faz para não deixar isolar Cuba leva-o a subscrever a iniciativa do Fórum de São Paulo (ver aqui sobre o Fórum, e aqui e aqui algumas posições do partido sobre o Fórum), que é promovido por um partido hoje demo-liberal, o Partido dos Trabalhadores.

28 de Março de 2014 Posted by | Europa, Ideologia, Partidos | , , , | 4 comentários

O otimismo de Medina Carreira

Vi hoje, e recomendo, o Olhos nos Olhos de ontem. Medina Carreira teve como convidado Luís Amado. Luís Amado argumenta que a Europa vai no bom caminho, infelizmente de forma muito lenta. Para Medina Carreira os problemas certos nem sequer estão colocados. Mas vendo bem o otimista aqui é Medina Carreira.

Os dois estão de acordo em algo. A crise tem uma causa fundamental e outra mais superficial. A primeira é a desindustrialização da Europa. A segunda a sua desorganização política da qual resulta um euro vulnerável. Mas o desacordo está na ordem com que os dois defendem a resolução destes problemas. Para Medina Carreira, a crise do euro já devia estar resolvida. Os políticos deviam estar a preocupar-se com em negociar com a China a reindustrialização da Europa. Para Luís Amado, a urgência é resolver os problemas internos, do euro, que são complexos – as soluções devem ser legitimadas democraticamente. Até porque (ele não diz, mas depreende-se das suas palavras) o problema fundamental é irresolúvel.

É preciso evidenciar as diferenças de diagnóstico entre Medina Carreira e Luís Amado para entender porquê e até que ponto um é alarmista e o outro é fatalista. Para Medina Carreira, a deslocalização da industria da Europa e EUA para a China resultou da assinatura irresponsável de tratados comerciais liberais. Mas, acrescenta, com o esgotamento do keynesianismo na década de 1970, essa parecia a melhor opção há 30 anos atrás. Luís Amado faz outro diagnóstico. Até 1985, o mundo estava divido em dois; com a queda do Muro de Berlim o mundo unificou-se. A partir de então, começa a gestar-se uma nova repartição do mundo ou, mais exatamente, dos recursos existentes do mundo. O ocidente saiu a perder porque a oriente moram dois terços da humanidade.

Eu partilho mais do pessimismo de Luís Amado do que do otimismo de Medina Carreira. Segundo Medina Carreira, os políticos europeus devem negociar com os chineses o regresso parcial da industria à Europa. Com que argumento? Os chineses só vendem porque os europeus (e norte-americanos) compram. Se todos os empregos que produzem riqueza desaparecerem deste lado do mundo quem comprará aos chineses?

Respondo eu com no meu grande pessimismo: ora, os latino-americanos!!!

4 de Julho de 2012 Posted by | Economia, Europa | , , , , | Comentários Desativados em O otimismo de Medina Carreira

III Guerra Mundial

A hipótese da guerra como solução para a crise está permanentemente a ser trazida à baila pelos agoirentos (de esquerda). Afinal, ela foi uma solução para a crise: a reconstrução europeia relançou o crescimento depois da crise dos anos 30. Além de que, o VAB das empresas que fabricam balas conta para o PIB. E a procura solúvel de balas é inesgotável.

Não obstante, as condições político-institucionais actuais impedem um guerra. A guerra do Iraque foi, na verdade, uma guerra dos EUA contra a França na disputa por petróleo. Os EUA avançaram; a França acobardou-se; a Sadam Hussain saiu a fava. É preciso ter claro o que está em jogo aqui. Não é o petróleo que interessa; mas a moeda que controla o petróleo. Como todo o crude se compra em dólares e, portanto, todos os países precisam de dólares, o endividamento externo dos EUA a baixos juros é ilimitado. É o único país que pode pedir dinheiro emprestado aos outros sem praticamente pagar juros. Os outros necessitam de emprestar-lhes para ter dólares (ou títulos do tesouro norte-americano, mais cómodos) para comprar petróleo. A Europa quis disputar essa hegemonia inventando o euro. E, por alguns meses, a Total teve um contrato no Iraque em euros.

Recentemente, a China entrou no jogo. Ao contrário dos europeus, os chineses são mais activos diplomaticamente. Quando os EUA se preparavam para invadir o Irão – com o qual os chineses já celebraram alguns contratos – , a China virou as suas atenções para o principal aliado americano, a Arábia Saudita. O sinal foi claro: a diplomacia chinesa é mais ágil que o exército norte-americano. O clima abrandou; mas logo depois foi retomado pelas bordas. Falo da Síria. Chineses e Russos bloquearam qualquer intervenção externa, e a cedência do passado domingo (o estabelecimento de um plano de transição?!) terá o significado do que resultar desse plano. É certo que o actual governo sírio vai cair; não é certo como isso reequilibrará o jogo de influencias que os EUA e a Rússia disputam sobre esse país. Boato ou não, é significativo que uma agência iraniana de notícias tenham afirmado que a China, a Rússia e o Irão se preparavam para fazer exercícios militares na Síria. A China está bastante mais disposta a empregar as armas contra os EUA que a Europa.

Por outro lado, deve ter-se consciência de que a paz é um valor frágil. Tem 65 anos (surgiu após a II Guerra Mundial) e está muito localizado na Europa. Além do mais, depende da “democracia” parlamentar, isto é, da existência de um sistema político que resolve os diferendos pela via do diálogo burocrático. Ora, este mecanismo institucional só, com muita dificuldade, foi estendido ao resto do mundo. Por outro lado, um valor europeu (extremamente ligado à má memória de duas guerras e do Holocausto nazi), de algum modo japonês (depois de Nagazaki e Hirochima), será hegemónico no mundo na condição que a Europa seja uma potência mundial. A crise económica europeia significará igualmente uma crise dos valores europeus no mundo.

Em breve, somente o medo dos efeitos devastadores da bomba atómica, impedirá os líderes mundiais de entrarem em guerra. Aliás, só não estamos em “guerra mundial” porque os políticos têm-se decidido por pequenas guerras pelas bordas do mundo: Iraque, Irão, Síria… Mas, ontem, alguém alertava que uma grande guerra na Europa pode começar por aí, pelas bordas.

3 de Julho de 2012 Posted by | Mundo | , , , , | Comentários Desativados em III Guerra Mundial

Viragem à esquerda

O marxismo tem destas coisas. O esforço por conhecer as fracções de classe por detrás de um dos pontos de vista no debate político torna a explicação extremamente produtiva. Mas uma vez definida uma certa divisão da sociedade em classes e fracções de classe tendemos a tentar explicar tudo a partir dali. É como tentar enroscar parafusos com um martelo.

Arriscando-me, portanto, a enroscar parafusos com um martelo, prevejo uma viragem de Portugal à esquerda. E não digo isto referindo-me somente a uma viragem do poder do PSD para o PS. Mas, sobretudo, a uma alteração fundamental no modo de entender as relações entre a economia e a política que, no final de contas, porá esta  dominar aquela. Isto é, se hoje a economia dita o que fazer dos políticos, “amanhã” a política poderá começar a ditar os objectivos dos empresários.

Futurismo? É certo que sim! Mas vale a pena arriscar previsões.

A minha análise da passagem de testemunho de José Sócrates para Passos Coelho leva-me a crer que existem 3 sectores pertinentes na economia Portuguesa: construção civil, banca e exportações. O primeiro “morreu” em 2011; o terceiro tentou governar a partir de junho de 2011, mas em fevereiro de 2012 rendeu-se às evidências do seu fracasso. A política só continua a favorecer-lhes porque os seus interesses coincidem, mas só em parte, com os dos credores de Portugal. A banca quer agora tomar as rédeas do governo nacional, embora essas estejam entregues ao FMI.

Tais condições, associada a uma mudança de estratégia da Europa (ver aqui também) faziam prever que o controlo do Estado passasse dos exportadores, de novo, para a banca. Mas a decisão do juíz de Portalegre (e aqui) promete fazer história. Ao afirmar que a entrega das casas sobre o qual recai uma dívida salda a dívida – num contexto em que a queda do mercado imobiliário fez cair o preço das casas para valores bastante inferiores aos pré-crise e, portanto, aos valores da dívida – , pode colocar a banca de novo em apuros. Até porque, neste contexto em que a banca ainda está fora do governo, os partidos prometem passar aquela decisão a lei.

Ou seja, ao fundo do túnel nenhum sector capaz de impor-se ao Estado como solução para a crise. Ao fundo do túnel, para falar verdade, nenhuma solução para a crise. É, portanto, provável que se imponha ao Estado a necessidade de colocar as mãos na economia – até agora temos visto a economia com as mãos no Estado – como única solução para o buraco onde estamos. O regresso dos nacionalismos tenderá dispor a opinião pública – em termos marxistas: criará as condições ideológicas – para essa mudança.

O único obstáculo pela frente será apenas o medo da corrupção. Medo que as notícias de hoje vêm reforçar. (Como me disse um amigo, não se pode falar verdadeiramente de favorecimento até ver como certas universidade privadas seleccionam professores. Portanto, associar a corrupção ao Estado é um equívoco profundo).

Mas tenhamos consciência: não estamos a falar do caminho para o socialismo; mas do regresso do velho Keynes que buscava salvar o capitalismo dele mesmo.

29 de Abril de 2012 Posted by | Economia, Portugal | , , , , , | Comentários Desativados em Viragem à esquerda

Da fuga em frente à marcha atrás

A vinda de Krugman a Portugal coincide com o PS a divorciar-se do acordo com a troika. O tom é dado por Mário Soares, que ora se cala,  mandando um recado ao PS para se calar, ora vem afirmar que a austeridade não leva a lugar nenhum. De facto, e como já disse aqui, a Europa divide-se entre a opção uma economia voltada para o mercado interno – dinamizado pela construção civil e endividamento do Estado e das famílias – e a opção por uma economia voltada para a exportação. O primeiro modelo (um keynesianismo empobrecido) está esgotado. O segundo está longe de dar resultados: a banca está hoje a soro (ver aqui e aqui também). Exportar para onde? Com o decrescimento da economia, a dívida soberana torna-se impagável. Depois de um ano de governação pelo segundo modelo, é significativo que três universidades portuguesas tenham concedido um doutoramento Honoris Causa a um keynesiano. Sinais do tempos.

Sinais dos tempos que refletem uma marcha atrás na austeridade europeia. Apesar das declarações recentes de Merkel e Barroso, a verdade é que, desde janeiro, o crescimento económico começou a ombrear com o equilíbrio orçamental na agenda dos Conselhos Europeus. Acordos europeus que, há uns meses, eram inquestionáveis, hoje são alterados. O G20 coloca a possibilidade de abrir os cordões à bolsa. E o Spigel, jornal alemão que há dois anos atrás pintava os europeus do sul de preguiçosos, questiona agora abertamente a eficácia das políticas de austeridade (ver aqui também). E a Grécia? A possibilidade de uma vitória à esquerda não terá obrigado os líderes europeus a refletir? Não! As mudanças começaram antes do surgimento das sondagens que davam a maioria aos três países à esquerda do PSOK. Mas essas sondagens parecem ter vindo a acelerar essas mudanças. O melhor indicador dessa mudança são as notícias nos jornais e na televisão. Até há pouco, toda a gente falava de austeridade; de há umas semanas para cá, o (des)emprego tornou-se mais importante!

Assumindo que tive razão e foi Bruxelas que colocou Passos Coelho no governo, pode repetir-se em 2012 o mesmo descompasso entre a Europa e o governo português que esteve na origem do calamitoso ano político de 2010. Desta vez a Europa será mais keynesiana de trazer por casa e Portugal mais liberal (ao contrário de há dois anos atrás). O PS, como o PSD há dois anos atrás, já se desalinhou da austeridade para alinhar-se com possíveis novos ventos.

27 de Fevereiro de 2012 Posted by | Economia, Partidos, Portugal | , , , , , , | 5 comentários

A Europa e a crise

As conclusões da última reunião do G20 parecem indicar que não será encontrada uma solução global para a crise. Ela depende cada vez mais da acção dos Estados nacionais ou, até certo ponto, da Comissão Europeia.  Neste nível devemos estar atentos a uma disputa entre França e Alemanha, cuja dinâmica sempre estruturou a política da “comunidade”. Posto isto, convém assinar que, por uma estranha razão é mais fácil compreender o que se passa no “Mundo” do que o que se passa na “Europa”. Talvez porque me seja mais fácil consultar, na Internet, um jornal americano do que um alemão.

De qualquer modo, nada como a análise do cientista político brasileiro, José Luís Fiori, sobre a crise. O euro funcionou com base numa suposição falsa, a de ter a Alemanha como avalizadora do euro e, portanto, da dívida contraída pelos 16 países da zona euro. Nisto a crise norte-americana é distinta da europeia. Enquanto a crise do dólar é tratada de forma centralizada, como um problema de todos os Estados, a crise do euro é um problema de culpas fragmentadas. Não quero com isto afirmar que os alemães são os responsáveis pela crise da Europa do Sul. Mas não se explica o crescimento da dívida pública e privada em Portugal (ou da Grécia, da Irlanda e da Espanha) sem explicar a sua baixa taxa de juro a partir da sua adesão ao euro. Nem se pode entender a subida recente e repentina das taxas de juro sem levar em conta a recusa da Alemanha em ajudar imediatamente o seu parceiro grego. O que está aqui em questão é outros coisa. A que nível se irá resolver a crise: europeu ou nacional? Ou, por outras palavras, a política monetária é europeia ou nacional? Ou ainda, é possível e desejável suportar uma moeda única europeia? Afinal, como manter uma moeda que gera 16 dívidas públicas distintas é administrada por 16 bancos centrais, apoiados por um banco central fictício?

Mas os alemães parecem não estar dispostos a uma maior integração europeia cujo ónus será sobretudo sustentado por eles. As sucessivas derrotas da CDU em eleições passadas pode ser lidas como uma oposição aos compromissos que o governo tem assumido com os parceiros europeus. Em abono da verdade, é difícil saber se Merkel crê no que defende ou se está amarrada às pressões que os alemães lhe impõem por via eleitoral. (Além de ser verdade o facto de sempre que o euro cai devido a uma crise, as exportações alemãs sobem).

Do outro lado temos os franceses, com Sarkozy a opor-se a um presidente do BCE que se opôs à compra de dívida pública pelo BCE. A França, tão apagada no G20, parece afinal ter algo a dizer quando se trata da Europa.

A nomeação do novo director do BCE será um bom indicador da correlação de forças dos dois países.

23 de Fevereiro de 2011 Posted by | Economia, Europa | , , , , | Comentários Desativados em A Europa e a crise

O indicador perdido da crise

No meu último post expus um gráfico do Economist que mostra que a inflação na Europa é maior que nos EUA. Porquê? Não sei! Tudo deveria apontar para o contrário. Enquanto os EUA vão libertando crédito nem que seja pela impressão de dólares, na Europa o crédito é cada vez mais escasso. Isto não deveria ter gerado uma inflação mas sim uma deflação, como Paul Krugman chegou a temer. Mas o gráfico abaixo indica o contrário. Se alguém me souber explicar porquê, por favor usar os comentários. Entretanto eu vou perguntando ao google.

3 de Janeiro de 2011 Posted by | Economia, Portugal | , , | Comentários Desativados em O indicador perdido da crise

É possível um ajuste estrutural na Europa?

A receita ortodoxa para a crise económica é velha: congelam-se os salários, deflaciona-se a economia. Foi aplicada pela primeira vez no Chile de Pinochet em 1973. Ali, radicalmente, se reduziram de uma assentada os salários a metade do seu valor. As empresas começaram logo a dar lucros e a exportar. À custa da fome e do desespero – quando não do sangue – da maioria da população, o Chile tornou-se o segundo país mais desenvolvido da América Latina, depois da Argentina. (Cuba, sem ajustamento estrutural nenhum, têm curiosamente um valor de IDH próximo !).

Na Europa, está em curso um processo semelhante. Congelam-se os salários, restringe-se o crédito, aumentam-se os impostos. A moeda não é deflacionada por decisão do governo, mas como consequência do mesmo processo. No ano de 2009, a economia portuguesa sofreu uma deflação de 1% (dados da OCDE). Pode ser pouco, quando comparado com o caso Chileno. Mas o processo é o mesmo e tem como objectivo de baixar os salários em 30%.

Contudo o lugar é diferente – mesmo do ponto de vista dos capitalistas. Os salários podiam baixar à vontade no Chile, porque o mercado dos produtos produzidos lá estava nos Estados Unidos ou na Europa. Do ponto de vista capitalista – não dos trabalhadores – não houve qualquer problema no ajuste estrutural. Contudo, na Europa e nos Estados Unidos os trabalhadores são também consumidores.

Aqui, para os capitalistas, colocam-se dois problemas. Por um lado, a produção global do planeta terá como único mercado os EUA. A redução dos salários na Europa tornarão-a um mercado de exportação muito menos interessante, pois as pessoas não terão dinheiro para comprar nada. Por outro lado, os EUA ver-se-ão inundados pelos produtos de todo o mundo: não só da Europa que estará a produzir com salários mais baixos, mas de todos aqueles países que deixarão de conseguir vender os seus produtos na Europa

Inundados com os produtos dos outros, os Estados Unidos terão maiores dificuldades para sair da crise. Mesmo as expectativas europeias, sobretudo alemães, de crescer à custa das exportações para os Estados Unidos sairão frustradas. O pacto de estabilidade, longe de resolver a crise, poderá agravá-la e contagiá-la aos chamados países emergentes que perderão o mercado europeu.

E para cúmulo, as empresas que estão na Europa, ao contrário daquelas que estão no Chile, não são americanas. É, por isso, que Obama começou a reunir aliados contra o ajuste estrutural na Europa. Os trabalhadores europeus, que não querem ver reduzido o seu poder de compra, agradecem.

26 de Junho de 2010 Posted by | Economia | , , , | Comentários Desativados em É possível um ajuste estrutural na Europa?