Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Nós da conjuntura brasileira

Hoje queria, mais uma vez, escrever um post no meu blog sobre o Brasil.

Sobre como a substituição do debate político pela ética moral redunda sempre numa moral conservadora (segundo a qual defender a adoção por homossexuais é doutrinação ideológica; mas afirmar que a homossexualidade é doença já é liberdade de expressão).

Sobre como essa moral conservadora cresce, em Portugal, ante a desorganização dos sindicatos e partidos marxistas. Mas, no Brasil, o processo já vai mais adiantado e dá lugar ao surgimento de organizações conservadoras como partidos neopentacostais (PRB e PSC) e movimentos fascistas (MBL, quando buscou, há dias, acabar com as ocupações de escolas pela violência contra estudantes).

Sobre como essa passagem do controle das ruas, da esquerda para a direita, coincide com uma redução drástica da proteção social do Estado (que não começou com o impeachment, mas em 2014.) E que essa falta do apoio do Estado tem aberto caminho quer ao profundamento ao refúgio na religião, quer à violência (aqui também).

Sobre como esse moralismo político reforçou o poder do judiciário sobre a política, em o momento que Cármen Lúcia, eleita para a presidência do STF, alinha, ainda mais, o poder judiciário com a lógica neoliberal do governo Temer (aqui, aqui e aqui também).

Mas, por hoje, basta dizer que:

A escola Floristan Fernandes, de formação de quadros do MST, foi invadida pela polícia sem mandato.

O reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro foi convocado ao Ministério Público por causa da realização de um encontro de organizações contra o movimento Escola sem Partido.

4 de Novembro de 2016 Posted by | Brasil, Economia, Ideologia | , , , | Comentários Desativados em Nós da conjuntura brasileira

Quem financia o golpe?

A minha certeza de que o impeachment de Dilma Roussef se fará à margem da lei é tão grande quanto a certeza de que ele é inevitável. A esquerda deveria estar já a pensar em como se reorganizar e não como resistir – esse foi o argumento do meu último post. Participar nas manifestações em defesa do governo é adiar as tarefas necessárias da esquerda.

Isso não impede que eu considere que o golpe será muito ruim para os trabalhadores. Que ele legitimará a judicialização da política e da criminalização dos movimentos sociais (o que já vinha ocorrendo com o apoio do PT no governo). Que trará consigo o ajuste estrutural que Dilma vinha adiando devido à crise política. Por essa razão, não posso deixar de assinalar aqui os patrocinadores do golpe ou, mais exactamente, de um encontro que ocorrerá em Portugal que

  • É promovido por Gilmar Mendes, ministro do STF que impediu Lula de ser ministro;
  • Terá a participação da dupla Temer-Serra, que já se perfilam como figuras centrais do governo pós-impeachment. Aécio Neves, líder da oposição, também estará presente. E
  • Ocorrerá entre os dias 29 a 31 deste mês, ou seja, quando o STF tomará a decisão final sobre o empossamento de Lula como ministro.

A lista de patrocinadores do evento, retirado do Instituto Brasiliense de Direito Público, que tem como sócio Gilmar Mendes, é esta:

Golpe

23 de Março de 2016 Posted by | Brasil, Ideologia | , , | 1 Comentário

Marine Le Pen e o Passa a Palavra

Não sou leitor assíduo do Passa a Palavra. O que o blog tem a dizer sobre Portugal repete-se há mais de um ano, sem que nenhuma novidade seja acrescentada. Mas regressei hoje motivado por notícias que dão conta da participação de portugueses em candidaturas municipais do partido de extrema-direita Frente Nacional. É que o argumento do Passa a Palavra prende-se com a adesão da esquerda ao discurso nacionalista (ou, melhor, patriótico – o que vai dar no mesmo) e com isso, afirma o Passa Palavra, nada mais faz que estender um tapete vermelho ao fascismo. E, de facto, o que encontro é um texto editoral que faz o balanço dos argumentos usados no blog a longo de meses (aqui: 1.ª parte; 2.ª parte).

Em abril do ano passado, o Passa Palavra acolheu dois textos de contraditório. Destes apenas consigo localizar o de Miguel Madeira que coloca a tónica no anti-imperialismo. O outro autor, cujo o nome não recordo, subscrevia a análise do Passa Palavra acerca dos pontos de contacto entre o “patriotismo de esquerda” e o “nacional-socialismo”. [Adendo, 23/03/14: Localizei o texto. É da autoria de José Nuno Matos]. Apenas questionava se o PCP era assim tão influente na sociedade portuguesa e duvidava haver razões para tanto alarido com esse discurso. Este segundo autor está bem enganado; e a introdução do tema do fim do euro na campanha para as eleições europeias, parece-me, irá estimular a prolixidade do Passa Palavra.

Há, no entanto, um terceiro argumento do contraditório que foi deixado de lado. O fascismo, a ressurgir na Europa, não será nacionalista, mas europeísta. Isso foi muito claro agora com o crescimento do fascismo na Ucrânia a partir da decisão do presidente Viktor Yanukovich em não assinar um tratado de adesão à União Europeia. A tomada de posição dos fascistas portugueses, o PNR, sobre a situação ucraniana é, desse ponto de vista, igualmente significativa: “O PNR condena pois, inequivocamente, a submissão da União Europeia aos interesses dos EUA, que excluem todas as negociações com a Rússia, quando à Europa conviria um melhor relacionamento com Moscovo” (aqui). E a confirmar o carácter europeísta da extrema-direita do séc. XXI está não apenas a adesão de portugueses à francesa FN, como o discurso da líder da FN:

A comunidade portuguesa de França está bem assimilada na nossa sociedade, respeita as leis e o nosso modo de vida. Os portugueses de França são os mais duros para com os imigrantes que vêm para cá e não respeitam ninguém! (aqui). A luta contra o fundamentalismo islâmico é repreensível? A luta contra a ‘sharia’ [lei islâmica] é repreensível? Eu assumo a responsabilidade (aqui).

Num aspeto dou bastante razão ao Passa Palavra: O recorte geográfico (pátria, nação… e, de certo modo, o Estado) tendem a colocar no mesmo barco pessoas com interesses distintos e, por isso, a deixar apenas espaço para políticas irracionais, isto é, o fascismo. Não obstante, esta é apenas uma das dimensões do fascismo – que eu analisei aqui. A outra é que o fascismo só vinga se tiver o apoio da burguesia monopolista; e só terá esse apoio se for uma via – ou, antes, se for a única via – para a reorganização do capitalismo em tempos de crise. Ora, o fascismo será uma via para a reorganização do capitalismo apenas sendo europeísta. É por esta razão que o Passa Palavra não tem razão. Sendo o discurso patriótico “de esquerda” um equívoco, ele não é um tapete vermelho estendido ao fascismo.

Por todas as razões apresentadas pelo Passa Palavra, o que é mesmo necessário é lutar contra o europeísmo que, se eles não perfilham, pelo menos não criticam.

20 de Março de 2014 Posted by | Ideologia, Portugal | , , | Comentários Desativados em Marine Le Pen e o Passa a Palavra

O que Isaltino e Rui Moreira têm em comum com a abstenção?

1. Cada vez estou mais convicto que existe um elo de continuidade entre a “democracia burguesa” (i. é, a democracia baseada no sufrágio universal, num quadro institucional em que o poder executivo ofusca o poder legislativo) e o fascismo. Vamos por partes. Porque razão vale destacar estas duas caraterísticas do sistema político atual – o sufrágio universal e a importância do poder executivo? Porque, como eu argumentei aqui e aqui, elas tendem a transformar o sentido da política. A política – e, nela, o voto – tem por objetivo escolher uma entre várias ideias de como resolver um problema coletivo. A escolha entre pessoas é um meio para alcançar esse fim. Ora, a política se transformou numa disputa entre pessoas (entre meios) que exclui a discussão dos fins! Qualquer pessoa sabe isto e reconhece que entre dois candidatos há, no máximo, diferenças no modo de levar a cabo a mesma política. A questão é: é legítimo imputar-se àquelas duas caraterísticas do sistema político esta transformação?

1.1. Ora, o açambarcamento das potestades do legislativo pelo executivo, diz Agamben, tem como consequência a criação de um permanente “estado de exceção” onde a lei deixa de valer em nome da urgência e da emergência da situação. A lei é a voz do governo; e a única lei válida é a que diz como se escolhe o governo. Por outras palavras, o debate legislativo, que fazia leis discutindo projetos de sociedade (ideologias), se esbate e dá passo aos desmandos de um executivo com poder de legislar provisoriamente, por decreto, frente a contingências e conjunturas. Assim, deixa de estar em jogo o debate sobre o que queremos para o futuro do país; passa a estar em jogo quem é a pessoa mais bem preparada para tomar todas as decisões face às urgências e emergências nacionais.

1.2. Acrescenta Losurdo que, longe de esta transformação resultar de um travessura de Clio, resulta da ação consciente e confessa das elites contra o crescimento dos partidos operários ao longo do séc. XIX, com a expansão do sufrágio universal. A única maneira de travar o crescimento de partidos de massas, à medidas que os operários ganharam o direito de voto, foi oferecer às massas lideres carismáticos que faziam lembrar os reis absolutistas de quem toda a política dependeu no séc. XVIII. Isso implicou reduzir a importância do poder legislativo, lugar por excelência da disputa ideológica, passando o seus poderes para o executivo, ao qual só candidatos com campanhas milionárias podem chegar.

1.3. Ao mesmo tempo, como eu argumentei aqui, os políticos profissionais servem à burguesia porque servem-se a si mesmos. Apostar nas suas qualidades pessoais, no seu carisma, permite ao candidato procurar votos em todos os quadrantes ideológicos. Apostar nas suas ideias, ou num projeto societário (ideologia), implica agradar a uns e desagradar a outros; perder votos entre os últimos sem necessariamente ganhar votos entre os primeiros. Daí que os políticos optem por apostar na sua imagem (e no marketing). Estas três dinâmicas favorecem os partidos catch-all que dão mais importância à gestão do status quo que à disputa de ideias.

2. O resultado desta mudança na forma de fazer política é duplo. As opções entre os caminhos a ser seguidos pelo governo ficam fora das campanhas eleitorais. Vale recordar Durão Barroso em sua campanha para Primeiro-Ministro de Portugal: “A Europa é um assunto demasiado sério para serem debatido numa campanha eleitoral”. Os temas importantes passam a ser debatidos nos corredores dos palácios, entre políticos profissionais e os lobbys. Outro efeito, menos visível, é a subtração, aos eleitores, das informações necessárias para poderem compreender as opções políticas do governo. Se os cidadãos não ouvem os políticos discutir as opções que o governo tem pela frente, mas apenas as idiossincrasias deste ou daquele ministro, como vão saber o que está em jogo nas decisões políticas? Nos jornais, que nada mais fazem que ecoar o modo de fazer política que venho descrevendo? Certamente que não!

2.1. Em resultado da forma do debate político, impõe-se aos eleitores uma grelha de avaliação dos candidatos que opõe o “competente” ao “corrupto”. Mas estas qualidades são pessoais e difíceis de (re)conhecer em quem não se conhece pessoalmente. E muito mais difíceis de reconhecer em políticos enfeitados pelo marketing eleitoral. Em política parecer é tudo! Consequentemente, para os eleitores, (a) os políticos são todos iguais: (b) quando as coisas correm bem, eles são tomados como “competentes” (a tese do ‘rouba mas faz’); se corre mal, é porque são corruptos. Vale lembrar, as informações de contexto que permitiam melhor avaliar os políticos, as informações sobre o seu leque de opção, foram subtraídas do debate político.

2.2. A ideia que os políticos são todos iguais e são todos corruptos permite aos cidadãos conviver com este facto: eles não possuem competências para agir politicamente, embora não por demérito próprio. Foram-lhe subtraídas as informações necessárias. E é esta ideologia (no sentido técnico da palavra), segundo a qual os políticos são todos corruptos, que permite aos eleitores caminharem convictamente para a abstenção, elegerem “independentes” ou votar em quem rouba mas faz. Quem não tem recursos para agir dentro da política, porque (vale repetir) lhe foram subtraídos, vai para fora da política, não quer saber de política (esse “antro de corrupção”), ou procura falsas tábuas de salvação que parecem vir de fora da política.

2.3. Se é assim, Daniel Oliveira está enganado. Não é a ausência de solidariedade que levou os cidadãos de Oeiras a eleger o delfim de um político corrupto; é porque, para os eleitores, todos os políticos são corruptos. Desse modo, a corrupção deixa de ser um critério pertinente de avaliação dos candidatos. Mas estão enganados também aqueles que, por uma ou outra via, acreditam que a eleição de independentes assinala o marasmo dos partidos. Os partidos não esclerosam; tornaram-se máquinas de propaganda adaptadas ao atual sistema eleitoral e político. Eles não caducaram; são exatamente naquilo que o sistema político lhes exige: aparelhos que fabricam o “carisma” de seus candidatos! (É também por esta razão que as listas independentes são uma não solução. Como vencer eleições sem ser eleitoreiro? … sem se tornar uma máquina para enfrentar campanhas eleitorais?).

3. No conjunto, falamos do aparecimento da “política fetiche”: uma política onde a escolha dos meios (de candidatos) aparece desligada da escolha dos fins (projetos societários). Onde o debate político é centrado na “competência” e na “ética” dos candidatos e não no leque de opções políticas existentes. Mas também onde a competência e a ética dos candidatos são impossíveis de avaliar – porque ampliadas pelo marketing político, mas sobretudo porque não é possível avaliar as escolhas dos políticos sem conhecer as alternativas. Uma política onde o discurso moralista dirigido para lado nenhum leva as pessoas a sair da política (têm-se orgulho em não perceber de política) ou a confiar em anti-candidatos.

3.1. A esquerda tem reagido de duas maneiras ao avanço da “política fetiche”. a) A sua ala mais moderada tem participado nesta “política fetiche”; de fato, tem sido convertida por ela e aderido a ela. Ainda que não explorem a “política fetiche” com o oportunismo de Rui Moreira, a sua simples existência já reforça este movimento de natureza, como irei já argumentar, fascista. b) Outra esquerda, supostamente radical, aplaude a saída dos cidadãos da política (ver aqui também) como uma crise do sistema político burguês. Infelizmente não se trata de uma crise d”o” sistema político burguês, mas de uma modalidade de organização política da sociedade burguesa. Existem alternativas de sobrevivência do capitalismo para além da social-democracia – o fascismo é uma.

3.2. Um terceiro erro da esquerda, sobretudo da esquerda partidária, é atribuir esta crise da democracia a uma crise dos partidos da burguesia. Uma posição que entende a abstenção é fruto das inúmeras promessas não cumpridas dos partidos de direita; uma posição, segundo a  qual, existe uma tremenda injustiça em colocar os partidos de esquerda no mesmo saco. Esta posição é totalmente equivocada. O anti-partidarismo se manifesta, em primeiro lugar, contra os partidos de esquerda, de forma tanto mais radical quanto mais estes são consequentes. Para quem foge, orgulhosamente, da política para a abstenção, existe maior equívoco que levar a política para toda a parte? Para quem espera, sebastianicamente, uma salvação para a política que venha de fora dela, há maior pecado que levar a política para fora dela? Eis a origem do caráter fascista do anti-partidarismo.

3.3. O fascismo é, desde Dimitrov, analisado por aquilo que ele se tornou: um sistema político de governo direto da burguesia financeira, com ajuda do exército. Mas esta é só a sua “aparência” (no sentido marxista) – este é só um momento de um processo. A sua essência é esse processo que tem três fases: a agitação da “massa” (desorganizada) contra a classe trabalhadora; a chegada ao poder e a apropriação do movimento pela banca; e, finalmente, a sua decadência, quando deixou de servir à burguesia financeira e, por isso mesmo, esta deixou os líderes fascistas à sua sorte. É certo que, desde o início, que a burguesia financiou os partidos fascistas; mas no primeiro momento teve dificuldade – e pouca vontade – para controlar a sua direção. Preferiu apostar nos partidos conservadores. Mas, tendo estes caído em descrédito assim como os partidos sociais-democratas, não lhe restou outro caminho: botar dinheiro nos partidos fascistas para impedir a ascensão dos partidos comunistas. Uma vez no poder, os fascistas não sabiam o que fazer, não tinham um programa político. Foi aí que a burguesia financeira se apropriou deles. É por isso que a análise dimitroviana do fascismo ajuda pouco ao combate das tendências fascistas atuais: estamos numa época análoga à primeira fase do fascismo que Dimitrov não levou em conta.

19 de Outubro de 2013 Posted by | Ideologia, Partidos | , , , | Comentários Desativados em O que Isaltino e Rui Moreira têm em comum com a abstenção?

Crítica do Passa a Palavra

A relação que tenho com as tomadas de posição do blog Passa a Palavra é, em certo sentido, semelhante às que tenho com o PCP. O seu ponto de partida é correto; mas o seu ponto de chegada é equivocado. Li e comentei o extenso texto do João Valente de Aguiar (JVA). E o argumento repete-se aqui e aqui. Mas é o primeiro destes últimos que me esclarece a essência da posição do grupo. Eles insistem que a saída mais provável de uma crise económica é o fascismo. E, portanto, que a ideia de “patriotismo de esquerda” – empregue, de fato, por Stálin para travar a sangria de militantes do PC Espanhol em direção à direita nacionalista – é um discurso de direita que estende um tapete vermelho ao fascismo. Por outras palavras, ao dizer-se patriótica, a esquerda coloca no debate político uma questão cara ao fascismo: a identidade nacional; em suma, faz o jogo do inimigo.

Consequentemente, eles rejeitam a palavra de ordem de saída do euro. Não queria tocar na questão dos custo económicos e sociais. O JVA limita-se a concordar com o Francisco Louçã contra o Octávio Teixeira. Mas posso resumir a minha opinião em duas linhas. Octávio Teixeira  faz contas supondo que sairíamos do euro sem tumulto social; Louçã assume que o tumulto social será tão grande que não há como fazer contas. Ao mesmo tempo, Louçã assume que esse tumulto social manteria inócuo o poder a burguesia sobre a sociedade: desse modo, os custos incalculáveis da saída do euro seriam pagos pelos trabalhadores. Octávio Teixeira supõe a boa vontade da burguesia; Louçã supõe que a esquerda seria capaz de impor uma, mas só uma – a saída do euro – decisão à burguesia. Como se vê, o debate está mal enquadrado. Basta colocar a questão de quem é o sujeito da saída do euro para ver que é a burguesia! E que, portanto, a esquerda está a debater do ponto de vista da burguesia.

O segundo argumento do Passa a Palavra não se resolve assim. Defender a saída do euro é abrir a porta ao nacionalismo fascista – diz o Passa a Palavra. Aqui o sujeito é a esquerda. Mas terão razão? Aqui divergimos. Sem dúvida, o fascismo da primeira metade do século XX foi nacionalista. Mas será o fascismo do séc. XIX uma cópia do anterior? Será necessariamente chauvinista?

Todo o meu investimento no estudo da hipótese de uma solução fascista para a crise, me leva a crer que ela não é necessariamente nacionalista. O fascismo, pelo menos do modo como eu o entendo, é fruto, de um lado, da ideologia das massas desorganizadas e, do outro, do oportunismo da burguesia monopolista em servir-se dessa ideologia. De de ideologia se trata? Ora, as massas desorganizadas – compostas com elementos de todas as classes dominadas, de pequeno-burgueses a trabalhadores – encontram-se numa situação de dupla vulnerabilidade: a incerteza quanto ao seu futuro socioeconómico e incapacidade de organizarem-se e criar um projeto político próprio. No plano subjetivo, terminam 1) rejeitando as formas de luta tipicamente operárias, greves e manifestações, pois estas só obrigam a burguesia a ceder porque criam mais incerteza. Ora, com a incerteza já sofrem as massas. Portanto, as massas são tipicamente de direita. (No 18 de brumário, Marx usa esta oposição entre classe com projeto político e massa sem projeto político, portanto, alienada). 2) Consequentemente, a única esperança para a situação em que se encontram está no surgimento de uma solução sebastiânica – ou, no caso português, salazarista. Facilmente, a burguesia monopolista lhe dará um D. Sebastião como deu Mussolini e Hitler no século passado. As massas investirão contra os sindicatos, destruindo o movimento operário e abrirão caminho à reconstrução violenta do capitalismo.

O que havia de nacionalismo na solução fascista da década de 1930 era o “sebastianismo”. Foi o Estado nacional que surgiu como salvador na situação trágica da crise de 1929. Mas não está garantido que seja o Estado nacional que venha a ser apontado como salvador da atual crise. Pode até ser a Comissão Europeia e – a surgir e vento em poupa – o Banco Europeu de Investimento. Nesse caso, o argumento do Passa a Palavra volta-se contra ele e defender o euro pode ser, no fim de contas, o tapete vermelho para uma solução fascista. Além do mais, não vale a pena argumentar que o nacionalismo é melhor enraizado que o europeísmo. Na década de 1930, o nacionalismo estava pouco melhor enraizado que o europeísmo de hoje. (Lembremos que a unificação da Itália e a unificação da Alemanha terminaram ambas em 1870. E que na passagem do séc. XIX para o XX se contava uma anedota segundo a qual o El Rei de Portugal havia perguntado a uma embarcação pesqueira “Sois portugueses?” A resposta foi “Não Majestade. Somos da Póvoa de Varzim!”).

Isto não impede que eu reconheça que o “patriotismo de esquerda”, incompatível com o “internacionalismo proletário” , tolde a visão da esquerda atual. Em primeiro lugar, porque a pátria anula as classes. Ao discutir o que o país deve ou não deve fazer está-se, na verdade, a debater o que a burguesia deve ou não deve fazer. Em outras palavras, a esquerda está a assumir o ponto de vista burguês. Mas também é verdade que o Passa a Palavra ao fazer a crítica do “patriotismo de esquerda” deixa de lado a crítica do imperialismo alemão e europeu! Creio que a saída, como propôs Floristã Fernandes para o caso brasileiro, é que a luta contra o imperialismo não é uma luta contra a burguesia estrangeira (no nosso caso, alemã). Mas, antes de mais, uma luta contra a burguesia nacional a quem o imperialismo serve (a banca)! Pois, sem apoio interno, nenhum imperialismo é possível.

25 de Fevereiro de 2013 Posted by | Ideologia, Portugal | , , | 3 comentários

Sobre o amor fascista

“Na acepção de São Paulo, caridade é amor… A solidariedade é algo mais frio que incumbe ao Estado e que não tem que ver com amor, mas sim com direito adquiridos”

disse hoje Isabel Jonet ao jornal i.

O arquétipo do amor, para um fascista, é o amor (autoritário) do pai para um filho. Por isso, o fascista tem de passar um atestado de menoridade para amar. Jamais pode amar uma mulher de igual para igual. Só pode amar o inferior: o filho, a esposa, o pobre…

Para o comunista, o amor é aquele que um homem sente por uma mulher – horizontal. O comunista só pode amar quem quer a seu lado. E ao amar sente um louco de desejo de estar ao lado de quem ama. Jamais abaixo ou acima! Por isso Paulo Freire afirmava:

“Eu sou um intelectual que não tem medo de ser amoroso, eu amo as gentes e amo o mundo. E é porque amo as pessoas e amo o mundo, que eu brigo para que a justiça social se implante antes da caridade”.

11 de Dezembro de 2012 Posted by | Ideologia | , , | Comentários Desativados em Sobre o amor fascista

As declarações fascistas de Jorge Sampaio

As declarações de Jorge Sampaio, hoje, à SIC merecem apenas um qualificativo: fascistas! Bem distintas das, igualmente erradas, declarações de Mário Soares (artigo completo aqui). A nomeação de um governo por iniciativa presidencial, como forma de fazer face ao descrédito deste, quer pela sua praticidade quer pela sua imediaticidade, reduz-se a uma arranjo das elites políticas para concertar, momentaneamente, os estragos das mobilizações populares desde dia 15 de setembro.

Jorge Sampaio vai mais longe. Ele quer resolver o problema a longo prazo. Defende “partidos modernos (sic.)” que possam “dialogar com as pessoas”. Porque, “o problema mais grave” é que, depois do dia 15 de setembro, “a necessidade de austeridade caiu”! Isto é,  Jorge Sampaio exige, com todas as letras, que os partidos se tornem válvulas de escape para o conflito social que decorre da imposição da política de austeridade. Ela “é necessária” e, portanto, indiscutível. Aos partidos cabe apenas divertir a população com fait divers. Nem Passos Coelho conseguiu ser tão exato e, ao mesmo tempo, tão subtil.

14 de Outubro de 2012 Posted by | Ideologia, Portugal | , , | 1 Comentário

Sobre o regresso do fascismo

Raquel Varela está numa campanha contra os discursos à esquerda que já falam do fim da democracia. Ela esta correta. É falso dizer que está em curso a suspensão da democracia desde cima, encoberto. Isto constitui uma enxurrada de erros. Trata-se de um alarmismo que 1) substitui a compreensão do que está a ocorrer realmente; 2) cumpre a simples função de exaltar dos ‘convertidos’, pagando o preço de afastar todos os outros; e 3) coloca a ênfase em valores da classe-media letrada. (Depois de ano e meio a conversar com agricultores pobres de vários países do mundo descobri que a democracia é um valor que interessa à classe média que não passa fome. Todo os outros dão mais valor às consequências da política económica).

Mas procurar o conceito certo para caracterizar o fenómeno não é fazer marxismo, é fazer escolástica. Os partidos de esquerda suspendem a análise com conceitos errados; Raquel Varela suspende a análise com um conceito certo, mas genérico. Seguindo a sua linha, podemos corrigir, escolasticamente, Varela. O fascismo não é a burguesia a cavalo na pequena-burguesia frente a uma terrível ameaça de revolução proletária. É o resultado de uma crise económica aguda onde não surge um partido revolucionário, diria Trotsky de quem Varela tanto gosta. E, por isso, a sua hipótese de que a urbanização europeia torna mais factível uma revolução socialista do que o regresso a uma ditadura fascista está assente em areias movediças.

Fazendo marxismo, não é errado dizer, como dizem os dirigentes do BE, que existem tendências “fascizantes” na sociedade. É errado dizer que elas estão a ser impostas de cima. Por isso a crítica de Raquel Varela falha quando acerta! Ao mesmo tempo que mostra o erro desses dirigentes; não capta a sua intuição acertada mas mal direcionada. Essas tendências vêm (eu não fui buscar aquele texto do Trostky por acaso) da classe média em declínio como eu já reflecti aqui, aqui e aqui.

7 de Julho de 2012 Posted by | Ideologia, Portugal | , , | Comentários Desativados em Sobre o regresso do fascismo