Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

A era do petróleo barato

Há 3 anos atrás era comum ouvir “a era do petróleo barato acabou”. A estratégia da Shell, elaborada em 2008 e revista apenas em 2016, assentava nisso. Durante as últimas duas semanas e meia dediquei-me a estudar a geopolítica do petróleo com vistas a um trabalho que não chegou a acontecer. Assim que resolvi partilhar aqui as conclusões preliminares.

A minha “investigação”, baseada em material que fui encontrando na internet, visava explicar dois momentos do preço internacional do barril de crude (ver gráfico abaixo). Primeiro, a ascensão dos preços entre 2002 e 2014; depois, a queda repentina entre agosto de 2014 e o momento atual. Esta queda é importante porque o aumento dos preços das commodities foi um dos processos por meio dos quais a riqueza se deslocou da Europa e EUA para os países de desenvolvimento médio como o Brasil. A sua inversão recente encerra uma tendência que ditou, durante 12 anos, os rumos da geopolítica mundial tão cheia de incógnitas agora (com Trump na Casa Branca e sem fatores econômicos nos quais assentar uma previsão).

oilprices

Inventariei quatro fatores para justificar a subida e mais quatro para explicar a queda. São eles: o aumento da demanda chinesa, o pico de Hubbert, a desvalorização do dolar e os conflitos no Oriente Médio (particularmente a guerra civil na Líbia) para a subida; e o abrandamento do crescimento chinês, o desenvolvimento de formas de produção não convencional de petróleo, a revalorização do dólar e a crise da OPEP para explicar a queda.

Estes fatores, mesmo que considerados em simultâneo, pareceram-me insuficientes. Uma resposta muito mais convincente – para justificar a subida e capaz de explicar a queda – encontrei-a no livro de Nizan e Bichler, The global politial economy os Israel (download gratuito no site dos autores). No capítulo 5, os autores argumentam que o preço do petróleo é historicamente determinado não tanto pelos conflitos no Oriente Médio, mas pelo temor dos investidores em relação à possibilidade do conflito, o que outros chamam de “prêmio de risco“. Os demais fatores serviram apenas para gerar, nos mercados financeiros, outros “prêmios” capazes de elevar o preço. Pelo menos é essa a perspetiva de Bridge e Wood acerca do efeito a teoria do pico de Hubbert: o que fez aumentar o preço do barril de petróleo não foi a escassez física das reservas predita pela teoria, mas a perspetiva dessa possibilidade nos mercados financeiros.

Se Nizan e Bichler têm razão e o “prêmio de risco”, decorrente da possibilidade de conflitos no Oriente Médio, que segue bem viva, foi o grande motor da alça de preços do petróleo, não apenas entre 2002 e 2014, mas desde 1973, então é muito fácil explicar a queda do preço que se seguiu a 2014. Foram “descobertas” grandes jazidas de petróleo no continente americano (Canadá, Venezuela e Brasil), cuja situação política não permite cobrar um “prêmio de risco”.

Para ser mais exato, é bom lembrar que essas reservas não foram verdadeiramente “descobertas”. No entanto,as novas jazidas só passaram a ser contabilizadas a partir do momento em que foi criada tecnologia capaz de extrair delas petróleo a um custo aceitável. Vale lembrar que, no caso do Canadá e da Venezuela, o petróleo não existe aprisionado em bolsões no subsolo, mas forma uma película em torno de areias desde a superfície até algumas centenas de metros de profundidade. A tecnologia para separar a areia do petróleo, em escala industrial, foi inventada no final da década de 1990. Já no caso do Brasil (e em outras áreas cuja exploração agora se inicia: Golfo do México e África Ocidental) os bolsões de petróleo se encontram a tão elevada profundidade que, até 2010, eram inalcançáveis. Essa profundidade varia entre 5 mil e 8 mil metros (1-2 mil metros de água e 4-6 mil metros de solo marinho).

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10 de Fevereiro de 2017 Posted by | Economia, Mundo | , , | 1 Comentário