Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Sobre a greve do professores

A “austeridade” – como disse, e bem, Carlos Carvalhas é uma opção ideológica chamar “austeridade” à concentração de riqueza – virou-se, desde fevereiro, para os funcionários públicos. A FENPROF convocou uma greve de professores para as reuniões de avaliação dos exames do ensino secundário. Ganha a batalha judicial pela não definição de serviços mínimos a adesão à greve foi bastante grande. Como, de resto, seria de esperar!

Menos esperado é que as críticas aos grevistas sejam tão excepcionais. Pensei que ia cair o Carmo e a Trindade; mas não. É claro que há críticas, mas não tanto quanto eu previa. Críticas que fazem lembrar o verso de uma canção do Sérgio Godinho (“Greves era só das seis e meia às sete/ E em frente ao cacetete”), protofascistas, e que, por isso, devem ser combatidas. Mas não creio que me enganei quando afirmei que a mobilização dos funcionários públicos iria ter a forte oposição dos trabalhadores do setor privado. Há é um silêncio ensurdecedor porque ninguém quer estar do lado do governo!

Que melhor prova que este governo já não governa???

12 de Junho de 2013 Posted by | Ideologia, Portugal | , , , | 2 comentários

O miserável PS II

Ontem, não sei porquê, passei o dia convencido que a reunião da Comissão Política Nacional do Partido Socialista era hoje. Mas não, foi segunda-feira passada. Os resultados são absolutamente contraditórios. Por um lado, o PS diz que está preparado para governar. Por outro, volta a trás, e mostra-se disponível para dialogar com o PSD acerca dos cortes no Estado Social. Um verdadeiro ‘vamos a ver’ (uma quase abstenção violenta) substituiu o redondo não da véspera.

Se, como eu sonhei ontem, a reunião fosse hoje, as declarações de segunda-feira seriam preparatórias! Sendo, na verdade, conclusões da reunião, então a montanha pariu um rato. Ao preparar-se para dar o dito por não dito acerca do Estado social, mais uma vez, Seguro é o arame que ainda segura o governo. Ou, como parece ter dito João Salgueiro na Sic Noticias, “este governo só não cai porque ninguém quer ir para lá!”.

De qualquer modo, a afirmação de que o PS está preparado para governar, é igualmente sinal que a direção do Partido “Socialista” têm cada vez menos capacidade de segurar as suas hostes que desejam derrubar o governo. Aqui a bancada parlamentar, escolhida por José Sócrates, tem sido a fonte de oposição interna às manobras conciliadoras da direção. (Vale sempre lembrar que, depois de um mês de setembro de dura contestação ao governo, José Seguro lançou a ideia de reduzir o número de deputados. Uma isca para que a esquerda atacasse o PS e desse uma folga ao governo. Mas, logo de seguida, o líder da bancada parlamentar veio sabotar a estratégia). Por quanto mais tempo Seguro pode segurar esta situação?

É óbvio que não convém ao PS ir a eleições agora. Nada pior que ser eleito contra a troika (isto é, no bojo da contestação social de uma manifestação com o lema “Que se lixe a troika! Queremos as nossas vidas de volta”) e depois ter de governar com a troika. Nada pior que um partido que se “distingue” pela defesa do Estado social (na teoria, não na prática) ter que implementar a destruição do Estado social (a troika acaba de chegar a Portugal para fazer os seus estudos, mas o calendário de cortes, segundo este vídeo, será apresentado apenas em fevereiro). De qualquer modo, o PS tem de cumprir a sua função como partido: não pode assistir à degradação do PSD impávido e sereno sem ver igualmente deteriorada a sua credibilidade. Tem – e as suas hostes começam a exigi-lo – de fazer qualquer coisa!

Também é óbvio que às elites não interessa eleições. Uma campanha eleitoral tem sempre custos e de dois tipos: o financiamento dado pelas empresas aos partidos e, mais importante, a instabilidade social gerada pela campanha eleitoral. Por estas razões, na noite de 6 de junho de 2011, Van Zeller afirmou que seria bom para Portugal que o governo durasse os quatro anos devidos. (Carvalho da Silva riu-se). Não obstante, a política do governo está a gerar uma instabilidade social muito grande. Está na hora de medir os “custo de oportunidade”. Espero que a greve geral daqui a uma semana dê um empurranzinho.

7 de Novembro de 2012 Posted by | Partidos, Portugal | , , , , | Comentários Desativados em O miserável PS II

O papel do PS hoje!

Se o objetivo da esquerda é derrubar o governo, o PS é o fiel da balança. Argumenta-se que o PS representa a burguesia. E representa: o passo atrás de José Seguro em relação a moção de censura e o passo atrás de João Proença em relação à greve geral visam claramente impedir a radicalização da luta em marcha. De qualquer modo, é impensável exigir o derrube do governo sem envolver, se certo modo, o PS nos protestos. Não tem sentido exigir que uma cadeira fique vaga quando o mais provável futuro ocupante se recusa a ocupar. Pensar outra coisa é fazer a análise da conjuntura política pela metade.

Não obstante, é preciso colocar a queda do governo com objetivo tático e imediato da esquerda. Os movimentos de massas não só o possibilitam como até o exigem. E se José Seguro obtiver o governo por este caminho será obrigado a governar contra os motivos porque foi eleito. Ficam dadas as condições para que o deslocamento de votos do PASOK para o Syriza se repita em Portugal. (Motivo que certamente pesa nas decisões de Seguro e Proença). Ao mesmo tempo, a mudança de governo poderá ser o único modo de voltar a ter um governo legítimo. É certo que os protestos atuais poderão vir a ser vencidos pelo cansaço! De todos os modos, todas as medidas tomadas, daqui para a frente, por Passos e Gaspar terão pouca credibilidade e, por isso mesmo, terão pouca eficácia.

Daí que também os dirigentes socialistas sejam obrigados a uma gincana. O seu papel na corrida de estafetas entre o PS e o PSD, que vão se alternando no governo dando a impressão que tudo muda para que nada mude de facto, está em risco. Nunca foi tão necessário mudar de governo; mas é possível que seja esta a última vez que a burguesia tem esse trunfo. Além do mais, a base do PS tende a vir com a esquerda contra o governo de Passos Coelho. Se a direção do partido insistir em apoiá-lo poderá desligar-se da sua base. As duas tensões se sobrepõem. De uma maneira ou de outra, é provável que o PS saia daqui desfeito em cacos.

Portanto, explorar estas contradições é a tarefa imediata da esquerda. Por um lado, não pode recuar um milímetro na exigência da queda do governo e no repúdio da troika. Por outro, não pode descolar-se um milímetro da base do PS. Em grande medida o PCP e o BE acertaram ao recuperar a moção de censura (aqui e aqui a resposta do PS), assim como a CGTP acertou ao avançar com uma greve geral (aqui também) que, fazendo-se mesmo sem a UGT, não pretende deixá-la de lado.

Não obstante, o equilíbrio é difícil. Nada convinha tanto ao PS como ser hostilizado pela esquerda, sob o pretexto de “denunciar a sua verdadeira face”. Ser empurrado na direção do governo é tudo o que José Seguro quer. Culpar o PCP e o BE por não lhe darem alternativa é o que ele busca. Levar com ele as bases do PS e a possibilidade de derrubar o governo é o seu maior interesse!

2 de Outubro de 2012 Posted by | Partidos, Portugal | , , , , , , | Comentários Desativados em O papel do PS hoje!

Sobre a radicalidade do KKE

Acabo de ler o comunicado do KKE acerca do ato eleitoral na Grécia. A posição do partido comunista em não negociar governo com o partido Syriza está ser muito criticada pela esquerda portuguesa. Nestas análises, compara-se a posição do KKE com um certo texto de Lenine onde se afirma que sempre teve disposto a trabalhar nos “sindicatos amarelos” – sob pena de deixar os operários aí organizados nas mão livres de líderes pequeno-burgueses. Eu próprio usei este texto para defender uma aproximação entre o PCP e os Indignados, M12M ou o raio que lhe queiram chamar.

Mas é um prefeito disparate usar o mesmo argumento para a formação de um governo. Há uma relação entre directa entre as condições subjectivas de um país e a política de alianças de um partido de vanguarda – esse é o argumento de Lenine em Que fazer. Se há hipóteses de formar governo é porque as condições subjectivas estão avançadas. Então exige-se uma política de alianças mais estrita. Se essa política de alianças inviabiliza o governo, então as condições subjectivas não está tão avançada quando se pretende ou, pelo contrário, as exigências feitas não passam de exigências tontas.

A discordância entre o Syriza e o KKE resume-se a um ponto central: a saída unilateral do processo de construção da União Europeia. O KKE continua a ver o projecto europeu como um projecto capitalista. Neste sentido, o ponto nevrálgico de debate é a  continuidade ou não na União Europeia. Mas no último ponto do seu programa, a Syriza mostra a sua ambiguidade em relação é Europa. Nota-se ali um europeísmo escondido. (Curiosamente, ponto esse que anda lost in translation). E dadas as posições da Comissão Europeia, o programa do Syriza e a continuidade da Grécia na UE são incompatíveis.

É aqui que o KKE vê, na posição do Syriza, lobo em pele do cordeiro. Em nome da continuidade no projecto europeu, o KKE espera que o Syriza abdique, ponto a ponto, do seu programa. Acrescento eu: sobretudo porque, com um governo minoritário, será necessário um agente externo – o FMI, a estabilidade política, etc. – para ajudar no braço de ferro entre governo e oposição. Mas tudo isto é, na essência falso. O Syriza sabe de tudo isto; sabe que não pode formar governo. Estas negociações são campanha eleitoral. E o lobo em pele de cordeiro aparece então de outra forma. O Syriza está a fazer tudo para ir a novas eleições com um projecto irrealizável. Ao mesmo tempo que é contra a CE, não põe na mesa a saída da UE.

9 de Maio de 2012 Posted by | Economia, Europa | , , , | 7 comentários

A greve e o DN

Vinha a ler o DN de sábado e os seus comentários acerca do fracasso da greve geral. A opinião de Filomena Martins traduz bem o tom com que o DN relatou a greve. Por certo, a greve geral estava fadada a ser menor que a anterior. Faltava um alvo claro como a meia-hora extra de trabalho não pago. O dinheiro das famílias já é demasiado curto para arriscar-se a perder mais um dia de salário. E por razões que ficaram para outro post, as pessoas começavam a deixar de acreditar em greves – ainda que se anuncie uma nova mudança.

E, apesar de tudo, a greve não foi, surpreendentemente, muito inferior à anterior.

Mas o que começa a confirmar-se como uma tendência forte é o DN querer tornar-se o porta-voz do governo. Os apelos do seu provedor do leitor (ler aqui e aqui) são um indício disso mesmo. Não obstante, Óscar Mascarenhas está condenado ao fracasso: não adianta questionar os jornalistas quando o DN se preza de ter uma forte política editorial.

O DN arrisca-se a ser, para Passos Coelho, aquilo que o i foi para José Sócrates.

25 de Março de 2012 Posted by | Ideologia, Portugal | , , , | Comentários Desativados em A greve e o DN

Este governo trabalha?

Estava a ouvir o meu camarada Honório Novo a questionar a alteração à lei do endividamento do Estado quando sou surpreendido por uma queixa: a proposta de lei, diz o Honório Novo, não tem nenhum documento a suportá-la. Lembrei-me imediatamente de um outro vídeo, este com o meu camarada Bruno Dias, que se indignava, e bem, por ter sido chamado para debater um plano estratégico dos transportes que não existe. E logo a seguir, lembrei-me que o debate do Orçamento de Estado foi adiado porque um deputado socialista lembrou-se que tinha erros que violavam a lei e a Constituição.

Tudo isto me leva a uma pergunta: neste governo trabalha-se?

31 de Outubro de 2011 Posted by | Partidos, Portugal | , | Comentários Desativados em Este governo trabalha?

O governo de Passos

Acabo de conhecer o novo governo de Portugal. Como se esperava, é um governo com uma forte tónica neoliberal. O que é surpreendente é o modo como isso fica tão claro. Começo pelo óbvio: o desaparecimento do Ministério da Cultura. Parece que o nosso Primeiro-Ministro olha para a cultura como um desperdício de dinheiro.  Mas há mais.

A seleção do Ministro das Finanças é deveras surpreendente. Obviamente, foi uma segunda opção. De qualquer modo, um académico sem qualquer experiência política faz prever uma falta de competência – como dizem os americanos – para sair da caixa (out of the box) da ideologia que lhe é dada pela sua formação. Prevejo uma falta de capacidade de diálogo neste ministro. Mas também não é de prever que tenha de fazer tantos golpes de rins como o seu antecessor.

Expectável, embora significativo, é a divisão do Ministério do Trabalho e da Segurança Social em dois. O trabalho que integra, de forma subordinada, o Ministério da Economia. E a Segurança Social é agora estabelecida em ministério dedicado chamado de Ministério da Solidariedade e Segurança Social. Esta mudança, que tem o precedente da anterior coligação PSD/CDS-PP, tem dois significados. Em primeiro lugar, as questões de legislação laboral são institucionalmente – já o eram na prática – subordinadas ao crescimento económico. Em segundo lugar, a segurança social perde qualquer vínculo com o  trabalho, passando este arranjo institucional a indicar que se trocou a justiça social pela claridade.

Alguém me consegue explicar para que quer Paulo Portas o Ministério dos Negócios Estrangeiros?

18 de Junho de 2011 Posted by | Ideologia, Partidos, Portugal | , , , | Comentários Desativados em O governo de Passos