Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Lula é preso, Bolsonaro desiste e Alckmin é eleito

As eleições presidenciais no Brasil começa em breve. Todo o mundo está esperando o julgamento de Lula da Silva. Infelizmente Lula vai ser preso. Digo infelizmente não porque gostaria de o ver, de novo, na presidência, nem porque considero que ele é inocente. “Ninguém se elege sem caixa 2”, disse, há alguns anos, José Dirceu entrevistado no Roda Viva. Apenas porque, mais preocupante que a corrupção, que vilipendia mais as classes baixas que a falta de saúde e educação, é um sistema judiciário injusto, para o qual não há distinção entre negro, pobre e criminoso. Esse sistema judiciário celebrará, em breve, sua maior vitória e dela tirará a legitimidade para seguir fazendo com mais vigor aquilo que sempre fez.

A maioria dos analistas, entretanto, têm afirmado que, com Lula fora da corrida, qualquer um pode ganhar (ver aqui).

A verdade é que, depois deste vídeo, poucos acreditam que Bolsonaro seja eleito. Os debates televisivos têm, no Brasil, um peso muito grande e, neles, o candidato só pode revelar-se um idiota. Será esmagado pelos concorrentes e perderá a eleição ainda no primeiro turno. Além disso, com Lula fora da corrida, Bolsonaro terá toda a imprensa contra ele, como já se vê à medida em que se aproxima inevitável condenação de Lula (aqui e aqui). Mas, a minha aposta é que Bolsonaro sequer será candidato. Nesta confusão gerada pelo impedimento da candidatura de Lula, conhecer e jogar de antemão com as regras do jogo – que são novas – é crucial. E, assim, merece ser lido este artigo do Valor. Eu faço um resumo:

Um dos impactos da Lava-Jato foi a proibição legal de doações de empresas e o temor das doações privadas. Assim sendo, a principal fonte de financiamento de campanhas eleitorais será o orçamento, ou seja, o dinheiro que o congresso porá ao dispor dos partidos. Como indica o jornalista do Valor, isso transferiu boa parte do poder do candidato para o presidente do partido. Se as regras anteriores ainda valessem, vários partidos já se haviam aproximado de Bolsonaro que, entretanto, já estaria rodeado de empresários dispostos a financiar a sua campanha. Dependente do dinheiro de um partido que o aceite, é ele que deve tomar a iniciativa – e têm feito isso com o talento que se lhe conhece. Acredito que, cedo ou tarde, ele acabará por reconhecer a sua incapacidade de diálogo e regressará ao seu partido de origem para renovar o seu salário de deputado.

De fato, o único presidenciável que já se moveu de acordo com as novas regras de financiamento, e se fez eleger como presidente do PSDB, foi Alckmin. No xadrez complicado pelo que ocorre com Lula da Silva, ele é o único que parece saber para onde deslocar as peças.

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23 de Janeiro de 2018 Posted by | Brasil, Partidos | , , , | Comentários Desativados em Lula é preso, Bolsonaro desiste e Alckmin é eleito

A unidade à esquerda no Brasil

A unidade de esquerda é um daqueles temas recorrentes nos debates entre partidos que se dizem de esquerda. Hoje veio à baila mais uma vez, depois de publicada a entrevista de Marcelo Freixo na Folha. Freixo argumenta que talvez este não seja o melhor momento para falar em unidade de esquerda. Porquê? Porque a aproximação do PT aos partidos à sua esquerda decorre da impossibilidade de fazer alianças com a direita. Implicitamente ele afirma que a vontade de Lula em negociar com o PSOL só dura enquanto houver indisponibilidade do PMDB para negociar com o PT. Esta unidade de esquerda depende da vontade e do interesse da direita.

Penso que Freixo tem razão, mas há razões mais profundas para deixar de lado a tese da unidade de esquerda.

Primeiro porque uma política de esquerda deve assentar em premissas reais. A premissa real é que Lula não será candidato. Embora eu não duvide que Lula seja corrupto, tenho muito mais certezas que faltam provas ao Ministério Público para demonstrá-lo. O que ocorreu no Brasil foi um julgamento típico de ditaduras. Mas a esquerda não tem meios para deter o processo em curso e muito por culpa do PT. Como li hoje no Facebook, onde estão a CUT e  o MST?

Em segundo lugar, deve ser sublinhado que a “unidade de esquerda” é uma bandeira que sempre reduz a política às disputas partidárias pelo aparelho do Estado aos seus diversos níveis. Mas o problema de esquerda é que está perdendo a sociedade. (A ineficácia da CUT e do MST, indicada no parágrafo anterior, mostra isso.) E as razões são óbvias: a esquerda governista (PT e PCdoB) fez outsourcing da organização da classe operária para a IURD/PRB; a esquerda oposicionista (PSOL, PSTU, PCB, etc.) escreveu livros sobre isso. É incrível que a esquerda brasileira, cada vez mais afastada daqueles que diz representar, esteja mais preocupada com arranjos de cúpula para as eleições de 2018. Há unidade de esquerda para combater a reforma da previdência?

Finalmente, tenho dúvidas que a unidade de esquerda sirva, de fato, para alguma coisa. Sobretudo quando somos marxistas e o nosso objetivo não é ganhar eleições, mas mudar a sociedade. Li por aí que o que acelerou a Reforma agrária no Rio de Janeiro, na década de 1960, foi a racha entre o PCB e o PCdoB: sempre que um ocupava terras e fundava um novo acampamento, o outro corria atrás para conseguir também mais um acampamento.

29 de Dezembro de 2017 Posted by | Brasil, Ideologia, Partidos | , , , | Comentários Desativados em A unidade à esquerda no Brasil

Brasil, economia e classes

Há tempos que tento começar a olhar a política brasileira do mesmo modo que olho a política portuguesa. Pretendo ver os acontecimento políticos como disputas entre classes e frações de classe confrontadas, consciente ou inconscientemente, com uma realidade económica. Até hoje isso me era difícil. Eu havia aceite a opinião de alguns amigos de partidos à esquerda do PT segundo os quais o Lula se tinha “passado” para o “lado” das elites.  Isso bloqueava-me a análise.

Este artigo, ontem, abriu-me outra prespetiva. Não se compreende o governo Lula sem assumir que se trata de uma aliança entre a burguesia industrial com certos grupos das classes trabalhadoras, contra a burguesia agrícola. Isso, não obstante, não resultou num forte processo de reforma agrária, bem pelo contrário. Aumentaram os apoios às famílias assentadas; mas o número de assentamentos caiu em 40% em relação ao seu antecessor.

A luta deu-se em outros dois domínios. Primeiro, na distribuição de apoios sociais no campo que obrigavam os fazendeiros a pagar mais caro para obter mão-de-obra As notícias que acusam os beneficiários do bolsa família de preguiçosos são pouco mais que preconceitos encomendados. Mas o facto de terem sido encomendadas indica o impacto dos apoios do Estado sobre o preço da mão-de-obra no meio rural brasileiro. Segundo, com as contas organizadas, Lula (bem orientado por Maria da Conceição Tavares) pôde promover o crescimento do setor industrial. Aí ele enfrentava o agronegócio retirando-lhe a fonte de seu poder: o peso na balança comercial. Enfim, foi a luta pela urbanização do Brasil!

As classes trabalhadoras entraram de modo subordinado. Os “privilegiados” foram as classes mais baixas da população: os 45 milhões de beneficiários do bolsa família e os trabalhadores indiferenciados que aproveitaram o crescimento industrial. Esses entraram tanto como trabalhadores como consumidores de uma economia cada vez mais industrial e urbana. De foram ficaram aqueles que sofrem o impacto ambiental do desenvolvimento, como os indígenas, e as classes médias que já estavam instaladas quando Lula chegou ao governo.

A aliança desfez-se com a crise económica. Com a depreciação do dólar, os empresários brasileiros ficaram em piores condições para exportar. Afinal, vendendo ao mesmo preço em dólares, passam a ganhar menos em reais. Somente o agronegócio continuou de vento em poupa na medida em que a demanda chinesa fez subir os preços dos alimentos em dólares. Com o agravar da crise europeia a situação ainda piorou mais: as exportações não param de cair na industria. E com isto, obviamente, o governo perde força frente ao agronegócio.

É óbvio que a nova classe média podia consumir boa parte da produção industrial não exportada. E isso aconteceu, de facto, em 2008 e 2009, o que levou Lula da Silva a afirmar que a crise estava superada. Mas, a partir de 2010, o Brasil entra numa situação complexa. Cada vez mais capitais estrangeiros buscavam o pouso seguro dos bancos brasileiros e suas elevadas taxas de juro. Mas com o mercado externo incerto e juros elevados, a burguesia industrial não quis aproveitar a oportunidade. Por seu turno, os bancos estavam mais interessados no ganho fácil do crédito ao consumo. E o endividamento acelerado da classe média brasileira fez a burguesia industrial, que já temia as nuvens sombrias do mercado exterior, a desconfiar do futuro do mercado interno. Mas o rol de problemas não para por aqui. O crescimento da classe média, associado, por um lado, ao crédito ao consumo e, por outro, à falta de investimento, fez disparar a inflação e, portanto, o custo dos investimentos.

Enfim, a burguesia industrial está parada à espera de notícias melhores. Logo, o governo está com um projeto cujo principal sujeito saiu do barco e parou para ver. Por outro lado, as classes trabalhadoras começam a afastar-se da política do governo. Os benefícios trazidos pelas políticas do PT estão a ser anulados pelo aumento geral dos preços. E os primeiros a protestar foram aqueles que não receberam benefícios nenhuns: polícias, professores, enfim, a classe média FHC. A popularidade de Dilma Russef está segura apenas pelas classes trabalhadoras baixas e pelo facto de o desemprego no Brasil ter atingido um recorde mínimo o mês passado. Mas com o crescimento do PIB parado há nove meses, o desemprego deve começar agora a subir.

Prevejo um governo assente em nenhum projeto de classe ou fração de classe. Consequência? Ziz-zagueante! Pois, por muitas boas políticas que desenhe, elas por si só não levam o país para a frente. É preciso que um sujeito social se aproprie delas e conduza a economia (em sentido amplo), isto é, a sociedade. Se esse sujeito não surgir rapidamente, o governo vai começar a disparar medidas para todos lados para ver por que lado funcionam… e não vão funcionar em lado nenhum!

4 de Julho de 2012 Posted by | Brasil, Economia | , , , , | Comentários Desativados em Brasil, economia e classes

PT… um novo PRI?

O Partido Revolucionário Institucional é um partido que ocupou o poder no México em 1929… e saiu em 2000. Durante 70 anos os presidentes do país eram os presidentes deste partido. Poderá o Partido dos Trabalhadores, de Lula, tornar-se num novo PRI?

Como fazê-lo em três passos.

1. O primeiro passo está dado. 8 anos de governo com a (quase) garantia de mais 8 (ou 12). O governo do Lula, privilegiado ou não pela facilidade de acesso ao crédito deixada pelo ajustamento estrutural levado a cabo pelo governo anterior, pode fazer o país crescer. Cresceu a partir da base, com políticas sociais que nas regiões mais pobres chegam a representar 70% dos rendimentos das famílias (por exemplo, em São Francisco no Estado de Minas). Cresceu a partir do topo com os mega-projectos de investimento, a despeito dos impactos sociais e ambientais que geraram.

O terceiro governo petista está garantido com a candidata Dilma Rossef a ter a possibilidade de ganhar logo na primeira volta. Será que o seu governo vai permitir que a primeira presidente mulher do Brasil se recandidate em 2014? Isso não parece ser um problema. Talvez o PT ganhe mais se o governo for desastroso. Isso permitiria a volta de Inácio Lula da Silva (qual Perón) e talvez governar até 2022.

2. Segundo, 16 ou 20 anos de governo petista deixará o principal partido de oposição, o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) com um menor acesso ao Estado e, por isso mesmo, com menos possibilidades de distribuir cargos pelos seus militantes. Qual é a consequência disto? Sabe-se desde o início do século XX que a manutenção de um partido depende da capacidade que tem de empregar os seus quadro nos Estado. Se estes tiverem ocupados em outras profissões não poderão fazer política.

3. Terceiro, é que para que o PT se mantenha no poder terá de tornar-se o PRI. Somente o controlo do Estado não chega, é preciso fazer o que o PRI fez – substituir-se ao Estado na gestão das lutas de interesses ou lutas de classes do país. O PT parece ter as condições para isso. Nasceu da maior central sindical do país, a Central Única de Trabalhadores (CUT), da qual Lula chegou a ser um destacado dirigente. Tem alianças fortes com o maior movimento de esquerda do planeta, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

E à direita não parou de fazer acordos com empresários e latifundiários. Alías, recentemente o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) [sic], que está no governo coligado com o PT, tornou-se um grande aliado da bancada ruralista.

Se o PT, suas facções internas e seus coligados, conseguirem gerir por dentro da sua estrutura os conflitos sociais do Brasil, a verdadeira eleição vai ser, durante os próximos anos, do presidente o PT. As eleições presidenciais do Brasil somente irão confirmar aquela.

26 de Setembro de 2010 Posted by | Brasil, Partidos | , , , | Comentários Desativados em PT… um novo PRI?