Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Serviços e trabalho produtivo

A noção de classe que apresentei no meu «Oportunismo e situação concreta», disponível aqui, gerou polémica (ver, por exemplo, aqui). Mais polémica do que a conclusão que decorre da sua aplicação à realidade portuguesa. A saber:

  1. Toda a esquerda lusitana, e não apenas este ou aquele partido, está muito enraizada nos funcionários públicos. A questão não é saber se estes são mais ou menos revolucionários que outros. É notar que existe um preconceito instalado na sociedade e manobrado pela burguesia contra a função pública e, de modo geral, o Estado que põe limites claros a ação da esquerda.
  2. Nesse sentido, as maiores organizações de esquerda assumem posições completamente defensivas e conciliadoras. Outras, mais pequenas, criticam essa atitude política. Mas nem umas nem outras dão conta daquela situação objetiva que, sem ser resolvida, impede a passagem à ofensiva (ou, pelo menos, a um nível de luta de classes mais favorável aos trabalhadores). E, finalmente,
  3. Que a saída dessa situação organizar jovens desempregados. Aqui tenho dúvidas, mas esta é a única alternativa que encontro capaz de oferecer resultados mais ou menos rápidos.

Posto isto, vamos à questão «polémica». O setor dos serviços também produz mais-valia e é possível sustentar esta ideia com palavras de Marx. Mas antes, vale notar o que Marx chama de «trabalho produtivo»:

Marx3

Como se vê, «produzir», para Marx, não significa trabalhar a matéria. Significa «valorizar o capital», isto é, produzir mais-valia. Isto é essencial para entender que a distinção entre trabalho improdutivo e trabalho produtivo. Esta é feita sob o ponto de vista do capital, isto é, da criação de mais-valia e não sob o ponto de vista do consumidor, ou seja, da transformação da matéria.

Por essa razão é que há «trabalho produtivo» nos serviços. Diz Marx

Marx1

E, diga-se de passagem, nos serviços também há transformação da mercadoria. Ninguém me convence que uma cerveja numa explanada à beira-mar é o mesmo produto de uma cerveja no balcão do bar à porta de casa.

Curiosamente, Marx nunca se refere aos trabalhadores do setor dos serviços como operários. Mas também explica porquê

 Marx2

Ou seja, Marx não considera o setor dos serviços «trabalho produtivo» porque a sua submissão ao capitalismo só pode alcançar «magnitudes insignificantes». Bom, nisto Marx estava errado! Basta pensar no modo como os supermercados substituiram as lojas de bairro para confirmar a magnitude com que o capital submeteu o trabalho nos serviços. Portanto, não podemos deixar de considerar o trabalho nos serviços como trabalho produtivo, quer dizer, com produto de mais-valia. Logo, os trabalhadores no setor dos serviços são, de acordo com aquelas citações de Marx, classe operária.

Todos os trechos foram copiados do «VI capítulo (inédito)» que está disponível aqui. Uma obra um tanto ou quanto sui generis que, portanto, só é compreensível conhecendo a sua história. Vale a pena ler também este estudo da noção de classe operária em O capital.

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14 de Abril de 2015 Posted by | Economia, Ideologia, Metodologia | , , | Comentários Desativados em Serviços e trabalho produtivo

Capitalismo e indústria bélica

Li, finalmente, o texto de Arjun Appadurai sobre a vida social das coisas. De tudo o que li, o que mais me fascinou foi a recuperação de um tese de Werner Sombart, que eu não conhecia. Este sociólogo e economista alemão elaborou uma tese acerca da emergência do capitalismo que se opõe tanto à de Karl Marx quanto à de Marx Weber. Os três olham o capitalismo como um sistema económico assente no crescimento exponencial da mercadoria. Mas enquanto Marx e Weber atribuem isso às vicissitudes da produção – respetivamente, à concorrência e luta de classe e à “ideologia” (ou, mais exatamente, ética) protestante – , Sombart afirma que tal transformação se funda no aparecimento da moda.

Appadurai reconhece que a argumentação de Sombart deixa a desejar; mas indica de seguida que a historiadora Chandra Mukerji refaz, de forma bem fundamentada, as as críticas a Marx e, especialmente, a Weber. Sombart, Appadurai e Mukerji concordam com Marx e Weber que o capitalismo se distingue pelo crescimento geométrico das mercadorias; mas vêm o motor desse dinamismo no consumo. Da seguinte forma:

Em todas as sociedades existem mercadorias restritas à sua elite. Apaddurai dá o exemplo do kula, na Malinésia, estudado por Bronislaw Malinowski. Mas essa restrição é moral ou legal. O advento do capitalismo resulta, por um lado, do afrouxamento das regras que restringem o acesso a mercadorias distintivas e, por outro, da busca de distinção por meio do consumo sumptuoso que apenas as elites se podem dar ao luxo de fazer. É assim que nasce, no ocidente, a moda: a demanda voraz de bens de luxo (têxteis de seda e algodão) que permite, ao Ocidente, desenvolver a tecnologia que associamos à Revolução industrial. E, claro, numa espécie de trickle-down theory modificada, os autores argumentam que foi o desenvolvimento tecnológico associado à produção de bens de luxo que permitiu – uma vez aplicada essa tecnologia aos bens de uso comum – criar a produção em massa e o consumo de massa que define o capitalismo.

Já muito foi dito sobre a oposição entre Weber e Marx – eles se complementam mais do que se opõe. Entre Marx e Sombart (ou, mais exatamente, Appadurai) a relação é do mesmo tipo. Se os quiséssemos opor, Marx sairia ganhando. Nas crises do capitalismo há um desajuste entre a oferta e a demanda porque a primeira ultrapassa a segunda, e não porque lhe fica aquém. Parece portanto indiscutível que o motor do capitalismo está do lado da produção. Mas, ao mesmo tempo, Sombart/Appadurai “perde” o embate com Marx porque “desliga” o consumo da produção – que, para Marx, são inseparáveis. É, por este caminho que Sombart pode ser usado para aprofundar a teoria marxista.

Para Marx, o consumo está duplamente ligado à produção. Em primeiro lugar, a mercadoria se define como tal porque é consumida. Nas palavras de Engels, “o prova da existência do pudim está em que o comemos”. Ou, segundo Marx, o consumo é a última etapa da produção. Em segundo lugar, não há consumo em geral. Falar do consumo das elites é falar do consumo de um conjunto de indivíduos que se encontra em um lugar determinado da divisão social do trabalho, isto é, produção. (Vale recordar que Marx tinha uma noção de economia bem mais ampla que a que hoje conhecemos. Foi nos primeiros anos do século XX que a “economia” foi definida de modo restrito, excluindo dela, por exemplo, a política. Economia, para Marx, é a divisão social do trabalho).

Juntando Marx a Sombart, partimos do princípio que o capitalismo se define pelo crescimento geométrico da produção de mercadorias. Que o motor desse fenómeno são a concorrência e a luta de classes. E que o capitalismo busca, em primeiro lugar produzir bens de luxo; somente de forma secundária produz bens de uso comum.

Isto permite reelaborar um tese de István Mészáros, segundo a qual a proliferação das industria bélica indica uma crise profunda do capitalismo. Não podendo mais expandir a produção de utensílios de uso quotidiano, o capitalismo investiu em armas cuja demanda é, aparentemente infinita. Afinal, um Estado o não compra uma bomba nuclear apenas quando usou as que já tinha como o indivíduo compra uma escova de dentes quando a sua já está gasta. Basta que surja uma bomba nuclear mais moderna para que os governos, em concorrência, sejam obrigados a se atualizar. Visto pelo prisma de Sombart, o movimento é ao contrário. A indústria bélica é o “consumo de luxo” do séc. XX – aquele consumo que dá prestígio e poder a uma elite. E na produção de armas se forja a tecnologia que é, depois, usada na produção de utensílios comuns. A história do séc. XX parece confirmar isto. A tecnologia que hoje utilizamos foi, antes de tudo, usada para fazer armas. Foi para fazer armas que se inventaram os fertilizantes, os motores (de automóveis), a informática, etc. Assim sendo, torna-se difícil aceitar que a importância atual da indústria bélica para o capitalismo seja indicador de um profunda crise do capitalismo; é antes revelador da forma atual do capitalismo.

É certo que existe atualmente uma crise do capitalismo. E que a indústria bélica está de alguma maneira a salvo dessa crise. Mas porque é um “bem de luxo” e não uma “rampa de fuga” para a atual crise do capital.

13 de Agosto de 2013 Posted by | Mundo | , , , | Comentários Desativados em Capitalismo e indústria bélica

O humor e a ontologia marxista

Hoje de manhã, liguei o computador e vi, no facebook, a famosa frase de Marx e Engels em a Ideologia Alemã: “Não é a consciência do homem que lhe determina o ser, mas, ao contrário, o seu ser social que lhe determina a consciência”. Esta pedra angular do materialismo-dialético tornou-se, nos dias de hoje, fundamento de qualquer ciência social que se prese: da história à antropologia. De seguida, outra nota no facebook me fez voltar àquela frase. Trata-se de um vídeo (que recomendo ver; aqui refiro-me ao que é dito entre o 1:20 e 5:42) com Marilena Chauí. Ela satiriza, com muito humor, o conservadorismo da classe média urbana brasileira. A piada, no entanto, remete obrigatoriamente para a ideia fundamental do materialismo dialético, pois nem todos lhe vão achar graça. É necessário fazer parte de uma certa elite intelectual de classe média para dar as gargalhadas que eu dei de manhã. Pois, partilhamos de uma consciência, de um sentido de humor, porque nos aproximamos no nosso ser social, isto é, porque pertencemos a um lugar comum na sociedade.

Em lugar nenhum estou a dizer que se trata de uma piada só para “eleitos”, pessoas mais inteligentes que outras. A questão é outra e pode ser melhor vista se olharmos para uma empresa, espero que de sucesso, que existe em Portugal. A empresa chama-se Portuguese sayings e vende t-shirts com expressões idiomáticas portuguesas traduzidas literalmente para o inglês. Vende porque as traduções são hilariantes. E são hilariantes porque, ao traduzir as frases, põe em relevo a sua falta de sentido literal. É, obviamente, necessário entender a frase original – ser português – e a tradução – saber inglês – para achar piada; isto é, para entender o sentido original e a falta de sentido da tradução. Mas não é apenas uma questão cognitiva. Se algumas frases são, para mim, mais hilariantes que outras é porque o seu sentido é-me mais caro. Porque uso certa frase com frequência, me apego mais a ela que às outras. Portanto, o abismo entre o sentido em português e a falta de sentido em inglês me parece maior. O humor de Marilena Chauí é do mesmo género: os “xingamentos” são conceitos filosóficos que, numa briga de rua, não fazem sentido – como expressões idiomática traduzidas. Poucas pessoas que entendem português não vão entender isso. Mas o facto de eu achar muito mais graça que outros é que, sendo um apaixonado por filosofia e me dedicando profissionalmente à antropologia (que faz fronteira com a filosofia), me apeguei a esses conceitos – usados por Marilena Chauí – como um juiz ou um professor de biologia jamais se apegariam.

Ao contrário do que Marx pensava, não é por interesses que as classes entram em confronto, mas antes por visões de mundo a que nos apegamos como a uma camisa velha. Não obstante, forjadas na tentativa de viver melhor – isto é, de realizar os seus interesses – é inevitável que, salvo exceções, exista uma adequação entre visão de mundo e os interesses de cada pessoa ou grupo. De forma que, para compreender o modo como uma classe, fração de classe ou indivíduo se insere hoje na luta de classes é necessário analisar o que buscaram nos últimos anos, e a forma como o buscaram, para compreender a visão de mundo desse grupo ou indivíduo. É inevitável, pela necessidade de manter a reprodução do capital, que a visão de mundo da classe dominante não se altere na sua essência, embora se particularize de acordo com a forma histórica e geográfica específica da reprodução do capital. Mas o mesmo não é válido para um proletariado ocupado em comer três refeições ao fim do dia. A sua visão de mundo (uma vez que falamos de classes: ideologia) varia consoante o modo como ele se insere na economia. Aliás, Marx nunca esperou que os trabalhadores, por serem trabalhadores, fossem imediatamente revolucionários. Pelo contrário. Mas, na medida em que buscam superar a sua miséria, na medida em que se organizam para superar a sua miséria, e na medida em que para superar a sua miséria os operários organizados são obrigados a entender a reprodução do capital do ponto de vista dos trabalhadores, – somente agora – eles podem adquirir/apegar-se a uma visão do mundo comprometida com a superação do capitalismo. Enfim, a mal-chamada consciência da classe operária (por oposição à burguesa) é uma visão de mundo de segunda ordem: coletiva, e não mais individual!

25 de Fevereiro de 2013 Posted by | Ideologia | , , | 4 comentários

Não sou ludista

Parece que o futuro da industria passará pela robotizão – é o que diz aqui. Metade dos empregos dos EUA serão ocupados por robots até 2025. A resposta a isto, para ser marxista, obriga a colocar a perspetiva da Revolução. É sabido que a passagem do capitalismo ao socialismo se dá pela supressão da propriedade privada dos meios de produção. Menos conhecido – e mais pertinente para aqui – é a passagem do socialismo ao comunismo. Diz-se que corresponde ao desaparecimento paulatino do Estado; mas raramente se conhece a lógica desse processo (e, por ende, a concepção de Estado de Marx). Em poucas palavras, desde que existem desigualdades culturais entre os Homens, os que têm mais poder impõem as suas regras aos mais fracos. Mas para fazê-lo com menos esforço – e menos violência – são obrigados a criar, conscientemente ou não, uma fictícia terceira parte que impõe essas regras: o Estado. A Revolução Socialista destina-se a estilhaçar a maior desigualdade do capitalismo; não assegura o desaparecimento de todas as outras. Portanto, não pode assegurar – como queriam os anarquistas – o desaparecimento do Estado.

Como é que essas desigualdades desaparecem? A resposta de Marx nos Manuscritos de 1844 é conhecida. À medida que a tecnologia vai se interpondo entre o Homem e a natureza as profissões vão-se assemelhando (acreditava Marx). Assim, o Homem poderá ser pescador de manhã, agricultor à tarde e filósofo à noite. Ou seja, não está condenado a um lugar na sociedade e por isso a ficar prisioneiro de uma relação de poder. Esta tese nunca mais foi exposta e há leitores d’O capital que “encontram”, aí, outra. A atenção que ele presta a forma como os trabalhadores resolviam as suas diferenças internas para lutar contra o patrão leva alguns lukacsianos à seguinte conclusão: Marx acreditava que era necessário colocar a questão das diferenças internas entre operários para chegar a derrubar a burguesia. E esta experiência anteciparia já aquilo que deveria ser o socialismo enquanto estádio de transição para o comunismo. (Daí que, embora n’O Capital, Marx falasse pouco da condição específica das mulheres, os seus apontamentos mostram o quanto Marx tomava a desigualdade de género como exemplo daquilo que havia que havia de ser resolvido).

Mas a principal desigualdade social para Marx, depois da divisão entre capital e trabalho, é a divisão entre trabalho manual e trabalho intelectual. As razões são menos conhecidas que a existência desse facto. Ora, separado do trabalho concreto, o teórico dá aquilo que encontra como o que sempre existiu. Apesar da admiração por Feuerbach, Marx não deixou de ironizar com o seu materialismo: A cerejeira dada à ‘razão sensível’ de Feuerbach foi trazida para a Europa por duzentos anos de comércio. A crítica a Adam Smith é mais clara. Smith toma a economia burguesa emergente como a economia “natural” que se desentranha dos entraves da religião. Marx compara-o aos teólogos da Igreja Católica que, tomando a sua fé como verdadeira, falavam das superstições dos outros. Para Marx a economia burguesa não é mais verdadeira que a feudal; são dois estágios do desenvolvimento societário cuja essência é o processo dialético (resultado da ação do Homens, mas não nas condições escolhidas por ele, senão naquelas herdadas de todas as gerações anteriores) de desenvolvimento. Consequentemente, uma sociedade onde os Homens de ciência estão separados da produção só pode ter uma falsa consciência de si – uma ciência ideológica. Uma ciência que se foca nos aspetos estáticos da realidade e não nos seus aspetos dinâmicos. Enfim, uma ciência conservadora: apta para gerir o status quo mas não para conduzir mudanças radicais e revolucionárias.

Um comentário a’ O capital que ouvi em novembro passado, permite regressar ao artigo acerca da robotização da economia. Segundo André Guimarães Augusto, num mini-curso proferido na UFF, apesar de, a partir de 1830, os trabalhadores lutarem tanto pela redução do horário de trabalho, como por aumentos de salário, como também pela melhoria das condições laborais, é sobretudo o primeiro que é analisado por Marx em O capital. As lutas por aumentos de salário quase são excluídas. Qual a razão para esta opção? O André aventou uma hipótese: se a tecnologia não permite que sejamos pescadores de manhã e agricultores à tarde, pelo menos que nos permita ser filósofos à noite. Isto é, que permita mais tempo livre para os operários dedicarem-se à cultura em geral e à filosofia em particular. Que dê condições para a existência de um modo de pensar não alienado (no sentido acima), capaz de mudar o mundo. (Acrescento eu, mais terra a terra, que a luta pela redução da jornada de trabalho tem a potencialidade de unir trabalhadores empregados e trabalhadores desempregados; enquanto o aumento de salário tende a dividi-los).

Por tudo isto, escrever – como fez o artigo – que “em 2025 os robots terão feito desaparecer praticamente metade dos empregos existentes no EUA” é fazer uma afirmação ideológica. Não menos ideológica, mas igualmente verdadeira – o que expõe o conteúdo ideológico de ambas – é afirmar que em 2025, os robots permitirão aumentar o tempo de lazer da sociedade norte-americana. Mas, como a sociedade é de classe, a primeira frase é seguramente mais provável que a segunda.

30 de Janeiro de 2013 Posted by | Ideologia | , , , , | 1 Comentário

Žižek: o impensado e o impensável

Slavoj Žižek é um pensador curioso. Instigante o populista. Nada define tão bem a sua forma de fazer política como o affaire que teve com a Lady Gaga. Atrai a esquerda do mesmo modo que afasta… com um palavrão oportuno numa igreja. Porque ele acerta e falha, deste modo, no mesmo ato?

Para responder temos de entender o conceito de ideologia que Žižek emprega: o foracluído lacaniano ou a oculsão semiótica, para falar em termos técnicos. O que é isto? Imaginemos uma mulher rural da Gâmbia, com pouco contacto com o pensamento feminista. Como poderá ela não aceitar ser uma das quatro esposas do mesmo homem se, em todas as famílias, é assim? Na mesma linha pensa Alain Badou que não para de repetir que a principal prisão ideológica do mundo moderno é a democracia. Sabemos que a democracia, em si, – e até pela separação entre legislativo (que entretém o povo) e executivo (que toma decisões de facto) – desapropria os cidadãos do exercício efetivo da cidadania. Não obstante, defendêmo-la com unhas e dentes declarando-a “o pior sistema excluindo todos os outros”. Somos assim tão incapazes de inventar sistemas políticos superiores à democracia?

Estamos longe do conceito de ideologia de Marx. Neste, ideologia está ligado à diferença entre o indivíduo e a sociedade. A sociedade inventou Deus; mas como Deus não foi inventado por nenhum indivíduo em particular, os indivíduos particulares vêem-se uma criação de Deus. De modo semelhante, o carpiteiro produz segundo as necessidades do “mercado”. Mas o mercado é a sociedade. E, por isso, aquilo que é está dado, de forma inalterável, para o carpinteiro é, de facto, criado por ele mas apenas em conjunto com outro (milhões) como ele. Se quisermos voltar ao exemplo do funcionamento da democracia, a única forma de derrotar um mau governo é votar no outro partido que tem chances de ganhar. Isto por muito que ambos partidos se pareçam. Este indivíduo sabe que é culpado da sua falta de alternativas; mas sabe igualmente que pouco pode fazer para que algo mude.

Por isto mesmo é que Slavoj Žižek é um provocador. Ele quer levar-nos a pensar fora do quadrado. Mas, por isso mesmo, ele é igualmente insuficiente. Pensar diferente não implica fazer diferente. No plano individual, mostra Marx, estamos limitados às opções inscritas no sistema. Só colectivamente podemos mudar essa lista de opções. Enfim, para Žižek, a solução dos velhos problemas demanda novas ideias; para Marx o velhos problemas exigem novas organizações. Assim o desabafo de Marx contra Lassale aplica-se também a Žižek: “Um passo do movimento real vale mais que uma dúzia de programas”… neste caso, uma dúzia de boas ideias!

21 de Outubro de 2012 Posted by | Ideologia | , , , | 2 comentários

Sobre dialética (II)

Ler aqui Introdução e Parte I

II – Devir histórico e contradição

Por outro lado, ao contrário de Bobbio, não creio existirem duas dialéticas (ver Introdução). O devir histórico implica a reunião de contradições; a tese e a antítese podem conviver por tempo indeterminado antes de resolverem-se numa síntese. Assim, o terceiro elemento da dialética implica o segundo. Esta constatação exige, a meu ver, esclarecer um dos principais desafios da dialética: a relação temporal entre tese e antítese. A antítese sucede à tese, e inspira-se nela por inversão, mas convive com ela, lado a lado ou, mais exatamente, frente a frente, durante muito tempo.

Assim, como afirmei na análise da conjuntura política de Portugal, Sócrates fez tudo o que pode para manter o modelo de uma economia assente na proteção do Estado à construção civil e à banca que existia desde o primeiro governo de Cavaco e Silva. Foi como antítese daquela proposta que apareceu a sua antítese: o recurso ao FMI, primeiro defendido por Soares dos Santos e somente depois por Passos Coelho. Somente depois da vitória eleitoral de Passos Coelho a hipótese de manter o modelo passou de dominante ao moribunda. Pode, portanto afirmar-se que a política de Passos Coelho é uma síntese da contradição entre José Sócrates e Soares dos Santos.

Se o anterior é verdadeiro, então qualquer par de contrário (2) é, potencialmente, o confronto entre tese e antítese (3). Pois, metodologicamente, o conflito é o ponto de partida. É o conflito entre opostos que o marxista encontra quando decide estudar uma realidade.

Na análise de conjuntura que realizei um ano antes (predominantemente e necessariamente idealista, por se tratar de uma primeira abordagem), José Sócrates e Soares dos Santos surgiam vinculados a correntes de opinião – respetivamente, a saída da crise pela injeção de dinheiro do Estado na economia, através de obras públicas como o TGV,  e o recuo do Estado de modo a deixar a economia caminhar por si mesma – e não às frações de classe que realmente representavam.

Mas como afirmei na parte I deste texto, é preciso encontrar as razões objetivas que justificam aquele comportamento subjetivo. Pouco a pouco, se identifica pelos discursos nos jornais aquilo o enraizamento de cada grupo na infraestrutura.

O próprio discurso de José Sócrates revela a base material da posição que assume: a banca que emprestaria o dinheiro somada aos construtores civis que fariam a obra do TGV. A oposição, pelo contrário (e pela sua natureza), é mais difícil de perceber, pois a sua proposta é, porque está fora do governo para pô-la em prática, fragmentada e incoerente. De qualquer modo, os fragmentos do discurso (sobretudo da Comissão Europeia em que estes, como se sabe, e apoiaram contra Sócrates), bem como os negócios de Soares dos Santos na Polónia e na Colômbia, permitiam reconhecer ali a mão do sector exportador.

Não obstante, os dois grupo ainda aparecem como identidades separadas. A unidade de contrários resulta de vê-los como ‘tese’ e ‘antítese’ de um momento da dialética. Mas isto, obriga, por outro lado a reconhecer, na ‘tese’ a ‘síntese’ de um momento dialético anterior.

Assim, é necessário levar em conta que José Sócrates defendia tenazmente um modelo criado por Cavaco e Silva, isto é, aplicado desde 1985. Em nada diferia daquele aplicado por Roosevelt em 1935 ou Dilma Russef atualmente. Tratava-se de acelerar o crescimento por meio de obras públicas pois, a construção civil é o setor com mais capacidade de puxar por outros setores. Não obstante, o aceleração da globalização nas décadas de 1980 e 1990 põe em causa a eficácia deste modelo. A construção civil pode puxar pela indústria chinesa… que não paga impostos para a manter.

As empresas de exportação portuguesas foram tanto puxadas pelo consumo dos pedreiros e funcionários públicos (as cadeias de supermercado) e que, posteriormente, se internacionalizaram como pelos deslocamentos de capital alemão (o sector da metalomecânica: Wolksvagen/Auto-Europa e Bosh). Embora estas últimas tenham ficado de fora da estratégia económica de Portugal entre 1985 e 2008, elas foram definitivamente afetadas por elas. Setores distintos, elas fazem parte da totalidade da economia portuguesa: são afetadas pelas mesmas condições macroeconómicas, nas quais elas exigem que o governo intervenha. PIB, consumo, investimento, balança corrente de transações, etc., letras mortas, ganham vida a partir do momento em que são entendidas no cerne da luta política. O que interessa a uns, pode não interessar a outros.

A contradição pensada como oposição entre tese e antítese de um momento dialético de devir histórico, obriga à reunião de contrários. Se a ‘tese’ não produziu por completo a ‘antítese’, pelo menos fazem parte da mesma infraestrutura. Obviamente, tese e antítese colocam uma ‘síntese’ em perspetiva. Desse ponto trata a terceira e última parte deste texto.

– continua –

9 de Agosto de 2012 Posted by | Ideologia, Metodologia | , , , | Comentários Desativados em Sobre dialética (II)

Sobre dialética (I)

Li ontem dois textos de Nobert Bobbio no seu livro Nem com Marx, nem contra Marx. Devo dizer que, na minha leitura desorganizada dos marxistas tinha outra compreensão da dialética materialista. E, como a correção não me convenceu, é a minha dialética que vou expor. A dialética tem três elementos: (1) a relação entre infraestrutura e super estrutura; (2) a reunião de contrários; e (3) a dinâmica histórica por ‘tese’, ‘antítese ‘ e ‘síntese’.

Duas notas: Quem conhece a proposta de Engels sabe que o primeiro termo da dialética é, para ele, a relação entre quantidade e qualidade. Mas isso não deve ser levado muito a sério. Trata-se apenas da generalização de um exemplo hegeliano sem que haja motivo para transformá-lo em lei geral. Por outro lado, a relação entre infraestrutura e super-estrutura pode não ser parte da dialética, mas é a base ontológica em que ela assenta. Assim, não se distingue a dialética materialista da dialética idealista sem tê-la em conta. Essa é a primeira parte deste texto.

Em segundo lugar, vou discordar de Bobbio. Os dois outros elementos da dialética não dão origem a duas dialéticas. A primeira, presentes nas obras de Marx entre 1843 a 1848, corresponderia ao (3), isto é, a uma filosofia da histórica. A segunda, d’O Capital, era um método de investigação semelhante a muitos outros. No ponto II e III deste texto pretendo argumentar que uma implica a outra.

I – Infraestrutura e super-estrutura

A posição entre infraestrutura e super-estrutura é enganadora. Ela remete para um termo intermédio: a estrutura. Neste sentido, a estrutura seriam as classes. Mas logo em Miséria da filosofia, Marx nos lembra que a classe existe em-si e para-si, isto é, como infraestrutura e super-estrutura. Então onde fica a estrutura? Por outro lado, esta oposição é resolvida em outra: entre sociedade civil e Estado. Assim, o Estado, como super-estrutura, passaria a ser um fenómeno secundário face à economia. Como acusaram J.-P. Sartre, Bobbio e Virgílio Ferreira, relação entre Estado e economia ou sociedade civil seria pouco dialética (entendida de acordo com [2] e [3]).

Um problema decorre desta dicotomia: onde está a ideologia da classe operária? Na década de 1950 este constituía o grande problema do marxismo, da III Internacional à Escola de Frankfurt. A falta de soluções obrigou dentro do marxismo obrigou ao recurso à psicanálise – solução na qual Slavoj Žižek insiste ainda. Por uma via alternativa vão E. P. Thompson, Lukács e Leandro Konder. Para eles, essa oposição foi usada uma ou outra vez, por Marx, com funções de clareza argumentativa. Como não tem qualquer utilidade teórica, melhor abandoná-la. Mas a diferença entre uns e outros não se funda aí. Se para os primeiros é preciso explicar porque é que a forma de pensar dos operários não progride como Marx previu, para os segundos a resposta está dada: Marx, nesse aspeto, enganou-se. Trata-se então de compreender os operários pelo que são (infraestrutura) e pelo que pensam (super-estrutura) como um todo inseparável.

Eu, creio, pelo contrário que não se pode abandonar aquela oposição. Não obstante, deve-se vê-la como uma forma de colocar o problema filosófico que de Descartes à atualidade atormenta os filósofos: a dicotomia entre objetivo e subjetivo. Daí o termo intermédio da estrutura não fazer sentido na teoria marxista. Assim, a minha decisão subjetiva “vou hoje ao cinema” implica sempre um referente objetivo: a existência de um cinema aberto a que eu possa ir, acessível física e economicamente. Do mesmo modo, o debate político subjetivo – como prova a crise atual – tem como referente objetivo as condições económicas do país e, de maneira mais geral, a composição da sociedade civil. É neste sentido que a estrutura determina a super-estrutura: não posso ir a um cinema fechado; e nem sequer podia pensar em ir ao cinema se tivesse nascido no séc. XV.

Postas as coisas desta maneira, as críticas de J.-P. Sartre, Bobbio e Virgílio Ferreira a esta oposição, caem em saco roto. É preciso, por outro lado, mostrar como é que também desta maneira o conflito entre Althusser, Adorno e Žižek, por um lado, e E. P. Thompson, Lukács e Leandro Konder, por outro, também pode perder o sentido. O problema não é saber como a infraestrutura determina a super-estrutura, mas como a super-estrutura é sustentada pela infraestrutura. Por outras palavras, o problema é metodológico e não teórico. Não partimos da análise das condições objetivas para “prever” a evolução das condições subjetivas. Partimos sim da disputa política subjetiva e buscamos encontrar as razões dessa disputa no plano objetivo. Com esta inversão, a falta de sintonia entre a classe e a sua consciência nunca se coloca. Necessitados sempre de encontrar o substrato – a classe – de determinada forma de pensar; nunca a forma de pensar que seria “teoricamente” correta (oh! teoria transmutada em fé) para aquela classe.

contínua

9 de Agosto de 2012 Posted by | Ideologia, Metodologia | , , , , | Comentários Desativados em Sobre dialética (I)

Falso marxismo

Anda aí um citação, supostamente atribuída a Marx, que é falsa. Mas é tão tomada como verdadeira que até a própria direção da Izquierda Unida já a citou num comício. Os trotskistas, que vivem para “corrigir” a esquerda marxista-leninista, já vieram cantar de galo. A frase reza assim:

Os donos do capital incentivarão a classe trabalhadora a adquirir, cada vez mais, bens, carros, casa e tecnologia, impulsionando-a cada vez ao mais caro endividamento, até que a sua dívida se torne insuportável.

Existem três boas razões para não divulgar esta frase. Primeira, para não permitir que certa esquerda, parasita da esquerda, encontre mais uma oportunidade para parasitar. Segunda, trata-se de uma abordagem muito naïfe: própria do anarquismo e não do marxismo. Divulgar é dar razão aos anarquistas que acreditam que a exploração hoje se faz pela dívida e não mais pelo trabalho. Estas teses do homem-endividado são falsas e não dão conta o quanto o endividamento dos trabalhadores é um fenómeno secundário na dinâmica do capitalismo. Quando olhamos o desenvolvimento do capitalismo ao longo do século XX, como eu fiz aqui, vemos que o endividamento dos trabalhadores surgiu na década de 1980 e como complemento da dinâmica capitalista já em marcha. Enfim, o eixo da reprodução do capital seguiu sempre sendo a exploração do trabalho.

Mas a terceira razão, a mais importante, pela qual se deve ter cuidado com estas frases é que ela está nas antípodas do pensamento marxista. Num momento de acesa luta ideológica (como se vê no parágrafo anterior) o rigor ideológico é a arma indispensável de um marxista. Marxismo é o modo como Marx olhava a realidade e, apenas em segundo lugar, as suas conclusões. E aquela frase opõe-se por três razões ao modo como um marxista deve olhar o mundo.

1. A primeira é imediatamente marxista. Marx começou a falar de “comunismo científico” porque propôs uma filosofia política que se baseia na realidade. Prever o futuro, como disse Marx, não é coisa de um comunista. Se o Manifesto descreve melhor o séc. XX que o séc. XIX foi porque Marx se focou naqueles aspectos dos séc. XIX que viu a desenvolver-se. Assim, se há algum futurismo no marxismo é quando parte do suposto que o futuro já existe, em embrião, no presente. Afinal, o futuro em sentido estrito não existe e é impossível analisar. Falar do futuro é ser utópico; para ser cientifico é necessário falar do presente.

2. Lenine, por seu turno, deu um passo em frente. O marxismo é um método de análise subordinado à acção política. Ou, nas suas palavras, a prática valida a teoria. Assim, fazer teoria para os outros, para os que hão-de vir, nada tem de marxismo. O marxismo sabe que não pode actuar sem estar teoricamente informado. A teoria é o antídoto da falsa ideologia. Por outro lado, de nada serve fazer teoria senão para pô-la em prática. Enfim, a teoria não se faz para estar aí num livro. Mas para criar um mapa do que fazer imediatamente.

3. Finalmente, temos o alerta de Álvaro Cunhal. O culto dos líderes, mortos ou vivos, é quase sempre uma desculpa para que cada um que se diz marxista estude a realidade. Ah! Marx, Engels, Lenine já disseram tudo, agora é só por em prática?! Os diagnósticos estão feitos, falta realizar?? Falso! É falso. Se, como Marx disse, o mundo muda constantemente (tudo o que é sólido se desfaz no ar), a teoria que o explica necessita de mudar também. O culto aos mortos é uma forma de preguiça intelectual dos vivos.

24 de Maio de 2012 Posted by | Ideologia | , , | 6 comentários

Uma esquerda que serve à direita.

Nem era para tocar neste assunto, mas depois de um debate com o Nuno Leal, o  João Vilela e o João Valente Aguiar no facebook, resolvi comentar a ideia peregrina de uma refundação da esquerda lançada por militantes do Partido Socialista e do Bloco de Esquerda. A ideia não é nova e, por isso mesmo, não é novidade a posição que eu tomo sobre o assunto. Trata-se de uma posição constitutiva do BE que, como disse aqui e aqui, se baseia num erro.

Trata-se de um projeto de soma quantitativa de “força” ou, mais exatamente, de “líderes” e de votos. Não se trata do necessário: alterar a disposição moral das massas – para falar em termos gramscianos. Por isso, o diagnóstico da crise é feito de modo tão amplo que pouco passa de uma formalização da opinião do senso comum: “As raízes desta crise estão no desprezo do que é público”. Tão amplo, que serve até à extrema-direita. Tão amplo, mas não o suficiente para caber nele o marxismo. Estreito demais para poder afirmar que a crise de deve a dinâmica da economia assente na propriedade privada e não ao egoísmo e à imoralidade dos políticos. Enfim, um projeto de esquerda mais empenhado em ganhar eleições que em difundir um discurso marxista sobre a crise.

Ignorar as diferenças entre os diferentes grupos de esquerda em nome da unidade, poderá até ajudar os partidos de esquerda a ganhar mais votos. Debater tenaz e respeitosamente essas diferenças ajudará as pessoas a compreenderem as razões pelas quais estamos em crise. Só esse debate porá múltiplas perspetivas sobre a crise à disposição dos eleitores. Assim, a opção é simples: quem queremos ajudar? Os partidos (a ganhar votos) ou as pessoas (a compreenderem a crise)?

Diga-se de passagem, neste caso, nem existe esta opção. Defendendo explicações de direita (“as raízes desta crise estão no desprezo do que é público”), esta esquerda capta votos para a direita. Pois, como eu já disse aqui, se o problema está na má gestão dos políticos, então – como dizem os partidos de direita – reduza-se o Estado e as oportunidades de roubo. Se o problema está, como diz Marx, na economia e na queda tendencial da taxa de lucro, então amplie-se o Estado para transformar a economia e superar essa lei económica.

Em suma, um erro crasso. Uma estratégia que não vê o essencial. Que não dá conta que a extrema-direita cresce – e a esquerda decresce – à bolina do discurso “estamos em crise porque fomos roubados pelos políticos”. Uma estratégia que não nota que, mais do que ganhar eleições, é importante desfazer este mito de que “os políticos são todos corruptos”. (Afinal, que poderia fazer um governo de esquerda que chegasse ao governo apoiado em mitos? Nada mais que a direita: governar como se os mitos fossem verdades).

O João Vilela foi mais certeiro e mais fulminante que eu. Vale a pena ler o texto dele aqui.

16 de Maio de 2012 Posted by | Ideologia, Portugal | , | 2 comentários

Marx, 194 anos do seu nascimento

5 de Maio! Cumprem-se os 194 anos do nascimento de Karl Marx: o mais polémico filósofo do tempos modernos. Eu gostaria de aproveitar a efeméride para assinalar o aspecto central – pelo menos do meu ponto de vista – da sua obra. Não se trata nem da ideia de luta de classes. Essa ele encontrou entre os socialistas franceses; coube-lhe apenas dar-lhe um fundamento racional.

Aqui vou abordar, na medida em que o espaço de um blog e o meu conhecimento permitem, o modo como Marx deu uma solução original para o maior problema filosófico desde Descartes: a oposição entre sujeito e objecto. A maioria dos pensadores do séc. XVII dividiu o mundo em dois. Uma parte objectiva, a natureza, cuja razão humana poderia explicar pela descoberta de leis causais. O segundo, a cultura, a política, a sociedade jamais poderia sem explicado: no máximo, poderíamos almejar a compreender a vontade dos Homens que a fazem.

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6 de Maio de 2012 Posted by | Ideologia, Metodologia | , , | Comentários Desativados em Marx, 194 anos do seu nascimento