Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Nota sobre ‘palavras de ordem’

Queria apenas partilhar um exemplo de como o marxismo pretende ser uma forma científica de abordar a política. Há muito que se perdeu a prática; mas basta olhas os textos dos líderes da Revolução Russa para entender o que é a prática marxista enquanto prática científica. Neste curto texto pretendo responder à questão: como se escolhe uma boa “palavra de ordem”. Para tal vou partir de uma pequena análise que têm-me levado a defender uma palavra de ordem tão modesta como “Desempregados não pagam dívidas”.

Segundo Constantino Piçarra, se há algo surpreendente no papel do PCP durante a Reforma Agrária de 1975 foi ter recuado. Em “Rumo à vitória”, Álvaro Cunhal tinha insistido no programa de Reforma Agrária. No VII Congresso, a 20 de outubro de 1974, a bandeira é abandonada. Em vez disso, nos documentos do Sindicato dos Trabalhadores Agrícolas, hegemonizado pelo PCP, surgia exatamente o que os trabalhadores dos campos do sul exigiam: o pleno emprego. Mas a tática ainda ia mais longe. O PCP recomendou ao STA enquadrar a bandeira do pleno emprego na política de aumento da produção agrícola (“revolução agrícola”) defendida pelo Ministério da Agricultura dos governos provisórios. Lembremos: esse Ministério estava “entregue” ao PSD. O pleno emprego não ficou no acordo coletivo com a AdA (Associação de Agricultores, atual CAP). Mas no contexto da Revolução dos Cravos, foi possível acordar a criação de uma comissão tripartida (STA-AdA-Governo) destinada a identificar quantos empregos tinha cada herdade para oferecer e obrigar o seu proprietário a contratar os trabalhadores correspondentes.

Parte dos latifundiários aceitaram imediatamente o programa. Certamente os mais próximos do PSD e do governo. A maioria resignou-se dado o contexto da Revolução. Uma parte opôs-se visceralmente ao acordo. A tensão foi  tanta que chegou a haver duas confederações de agricultores, e apenas em Novembro de 1975 se reúnem na CAP. Mas, antes disso, ainda em meados de segundo semestre de 1974, um latifundiário decide vender rebanhos e tratores para não ter empregos para dar. Nessa conjuntura, os trabalhadores agrícolas ocupam a entrada da herdade impedindo a venda. O conflito é tal que o governo é obrigado a nacionalizar a herdade. O decreto é assinado pelo Ministério do Trabalho (PS/PCP), mas também pelo Ministério da Agricultura (PSD). A partir de então, o conflito não parou de escalar. Em fevereiro de 1975 foram os próprios trabalhadores agrícolas que obrigaram o STA e o PCP a repor a bandeira da Reforma Agrária. E em agosto e setembro de 1975, vendo que os latifundiários não iniciavam a sementeira para boicotar a revolução, os trabalhadores ocupam centenas de herdades. Não se pode ignorar que em agosto de 1975 só havia comunistas no governo – aliás, foi o único mês de toda a Revolução em que isso aconteceu. Mas em setembro chegaria o VI governo provisório no qual o PCP não tinha voz ativa e a Reforma Agrária continuou.

Há dois elementos que devem ser sublinhados neste resumo. Em primeiro, as conclusões que dele resulta. Em seguida, apontar (apenas apontar) os aspetos metodológicos do marxismo. Assim, podemos tirar duas conclusões acerca do que é uma boa palavra de ordem. a) Ela recua até ao discurso dos trabalhadores – é um programa mínimo. Não obstante, no momento em que se apodera das massas, o programa mínimo transforma-se num programa máximo. Mas só o faz porque b) explora as contradições internas da classe que se lhe opões. Cumpridas estas duas condições, a palavra de ordem tem um efeito de bola de neve.

O marxismo é eclético nas fontes; mas é ortodoxo na metodologia. O objetivo é fazer analogias entre a política presente com experiências históricas passadas. E o modo como o faz deve obedecer a certas regras – trata-se de o método dialético. Essas regras são três.

i) Apesar do objetivo ser a analisar os acertos e os erros do passado, o foco não é a atenção nas atitudes da classe dominada. O foco é o desenrolar histórico da tensão entre duas ou mais classes; e somente integradas nessa “totalidade” (o desenrolar da contradição), as decisões subjetivas poder ser avaliadas. De facto, as classes nem existem em si; são somente a disposição dos indivíduos em relação à tensão analisada. É nessa medida que toda a história é a história da luta de classes.

ii) É preciso separar claramente os aspetos objetivos dos aspetos subjetivos na realidade em análises. Os primeiros são, desde logo, o que distingue as classes (aqui, a propriedade da terra), mas também fatores externo (o governo revolucionário em Lisboa) e outros que os grupos/classes e suas organizações têm de tomar como pré-adquiridos (a relação entre emprego e salário: o desemprego pressiona os salários para baixo). Os fatores subjetivos são as decisões dos dois grupos em disputa: suas organizações (STA, PCP, AdA) e os indivíduos em geral.

Convém pontuar uma questão bastante debatida no marxismo. A oposição entre objetivo e subjetivo aparece, muitas vezes, como oposição infraestrutura e super-estrutura, economia e sociedade. Trata-se, de facto, da aplicação deste princípio à separação filosófica existente no séc. XIX ente natureza dada (ou criada por Deus – de qualquer modo eterna) e a sociedade construída pelos Homens. Marx aceita esta divisão, mas pretende mostrar 1) que a natureza não é dada, mas evolui por si (lembremos Darwin que publicou a sua “Teoria das espécies” por esta altura) e que 2) os Homens agiam segunda a sua vontade, mas limitados pelos limites impostos, em cada momento, pela natureza. A evolução da sociedade, para Marx – em oposição aos jusnaturalistas – , dependia mais da evolução da natureza, na qual ele incluía a economia, do que do aperfeiçoamento (Rousseau fala em perfectibilidade) do “espírito” dos Homens.

Mas quando a questão é estudar conjunturas, a distinção entre objetivo e subjetivo nunca está dada. Voltando à Revolução dos Cravos, aquilo que é subjetivo do ponto de vista nacional – o programa revolucionário do governo – pode ser objetivo do ponto de vista local de quem se debelava com o processo de Reforma Agrária.

iii) Há dois erros típicos. Por um lado, pode estudar-se o passado sem pretender retirar dele qualquer consequência para as tarefas imediatas do presente. O marxismo ocidental é um caso típico. Podem citar-se centenas de historiadores, economistas e sociólogos marxistas cujas análises estavam radicalmente desligadas da sua vida política. No extremo oposto, tomam-se as decisões subjetivas acertadas como verdades absolutas que devem ser aplicadas independentemente do seu contexto. Assim, a construção de uma aliança operária e camponesa assumida por Lénin na Revolução Russa passou a fazer parte do receituário de qualquer revolução.

O stalinismo foi um caso particular destes dois erros. Por um lado, analisava o passado, sobretudo pelo seu viés económico, de modo a confirmar os aspetos gerais do método marxista. Ao ponto de tratar supostos – a existência de classes, por exemplo – como conclusões e repetir até a exaustão a sua demonstração. E porque não analisava as relações particulares entre os fatores objetivos e os fatores subjetivos, podia tratar as decisões subjetivas dos grandes marxistas como princípios gerais. Assim, que fazer perante as eleições? Seguir o que Lénin disse. O problema é que Lénin disse coisas diferentes de acordo com a conjuntura. E sem estudar cada conjuntura, os stalinistas podiam ler os textos do modo que mais lhe convinha segundo o momento em que os liam. (Aqui no Brasil é conhecido que os comunistas procuravam demonstrar o caráter ora feudal ora capitalista da economia brasileira – notem o caráter genérico da conclusão retirada – para subsidiar as brigas entre diferentes grupos marxistas).

A meio caminho entre o erro e o acerto, está a prática de alguns grupos trotkistas. Com um domínio aprofundado da Revolução Russa, retiram dela conclusões que mais servem para desautorizar a prática de outros grupos marxistas do que para iniciar alguma prática. Nesse sentido – bem caraterístico da situação de classe média ilustrada dos seu militantes – a solução é sempre ensinar o marxismo-leninismo aos operários. Contudo é possível educar uma centena de operários, mas jamais a massa. A teoria chega à massa pela prática, como fica claro num insight de Marx desenvolvido por Lukács a partir da análise da rutura de Lénin com a II Internacional. Em termos práticos, de nada vale eu escrever no meu blog “Desempregados não pagam dívidas” e gastar dez páginas a explicar a pertinência dessa palavra de ordem. Tampouco vale a pena levar 10 cartazes para uma manifestação ou pagar um campo de publicidade num jornal. Somente constituindo uma organização permanente de desempregados uma palavra de ordem dessa natureza se coloca permanentemente no debate político. E é na medida em que aderem ou se afastam dela que as massas – não confundir com os operários individualmente, que podem ser ou vir a ser eruditos nos clássicos do marxismo – aprovam ou vetam essa estratégia.

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21 de Setembro de 2012 Posted by | Ideologia, Metodologia | , , , , | Comentários Desativados em Nota sobre ‘palavras de ordem’

Crise: dois preconceitos

Não sei se são preconceitos ou pré-conceitos (isto é, ideias feitas, independentemente se são fonte de legitimação e poder – como os preconceitos – ou não). Mas dois preconceitos têm levado a que, sobretudo a esquerda, não coloque questões fundamentais sobre a crise.

O primeiro pré-conceito deriva do nacionalismo do pensamento económico. Se analisa a crise a partir da contabilidade nacional de um ou dois países. Normalmente o país do autor da análise e/ou os EUA. Assume-se que o mundo é um grande país. Ou, mais das vezes, a média de todos os países, onde os BRICs vão contra corrente. Esquecemo-nos que, na década de 1990, a economia mundial apareceu organizada em regiões (Europa, América do Sul/MERCOSUR, etc.) numa dupla hierarquia: hierarquia entre regiões; e hierarquia entre economias nacionais dentro das regiões.

De acordo com a literatura marxista as crises devem-se ao fato de a  vários fatores. Pelo seu aspeto externo, podemos dizer, com Marx, que “[e]nquanto o poder produtivo aumenta numa razão geométrica, a extensão dos mercados avança, na melhor das hipóteses, numa razão aritmética”. (Não  confundir capacidade de consumo com necessidade de consumo. 8 milhões de pessoas em todo o mundo têm necessidade de alimentos, mas não têm capacidade – poder de compra – para consumí-los). Quando a produção supera em demasia a capacidade de consumo, a economia conhece prejuízos terríveis. Uma tonelada de laranjas que fica por vender se torna em uma tonelada de laranjas pobres. Mil caixas de sapatos não vendidas são mil caixas de sapatos ganhando pó. 500 casas por vender valem tanto quanto 500 casas imaginárias – sobra só a dívida da construtora. O consumo é a última fase do processo produtivo. É pelo consumo que a produção se realiza.

Nesse momento, e devido ao planeamento anárquico da produção (cada empresa por si), a solução mais corrente é ajustar para baixo. Colocam-se de lado as máquinas e os indivíduos em excesso que produziram aquilo que o mercado não consumiu. A consequência é, evidentemente, um novo golpe na capacidade de consumo. O problema de produção excessiva, aparentemente resolvido com a demissão de trabalhadores ou corte nos salários, simplesmente se agrava exigindo outro corte. Começa então uma espiral negativa a que chamamos crise do capitalismo.

Este nacionalismo só é possível porque ajudado por um eurocentrismo. A crise atual é frequentemente comparada com a crise de 1929. No melhor dos casos com a de 1973. Mas jamais com as crises de 1985 em diante na América Latina e de 1997 em diante na Ásia. Deste ponto de vista, continua a ser verdade que a crise é uma crise de super-produção. Não obstante, não existirá aqui também uma deslocalização dos espaços de consumo, isto é, dos espaços de realização da produção?

Partindo desta questão podemos prever três cenários:

  • Se trata mesmo de uma crise de super-produção.
  • Se trata de uma redução dos espaços de realização da produção.
  • Se trata de uma deslocalização desses espaços.

No primeiro caso, o modelo marxista explica ainda as crises. No segundo e no terceiro, é necessário incluir nele os deslocamentos geográficos da produção estrito senso e do consumo no último meio século. Esses deslocamentos podem mostrar-nos duas coisas. Que os espaços de consumo estão a reduzir-se aos países da Europa do Norte e aos Estados mais industrializados dos EUA. Ou, pelo contrário, que os espaços de consumo estão migrando dos espaços que se desindustrializaram há 40-50 anos (Europa do Sul, por exemplo) para os espaços que se industrializaram no mesmo período: Brasil, China, etc.

O meu palpite – à falta de uma análise – é que a realidade contém elementos de cada um destes três cenários. Assim, a economia mundial tenderá a aproximar-se de um ou de outro cenário conforme a evolução das condições objetivas e subjetivas. Obama, pouco interessado em der a hegemonia mundial que o seu país detém, supõe e propõe o primeiro cenário. Tendo como “ponta de lança” Krugman, tenta convencer a Europa a tomar medidas que evitem a contração do consumo. Mas isto implica, entre outras coisas, que a Alemanha pague boa parte da dívida aos países da Europa do sul. E Merkel não está interessada; por isso supõe e propõe o terceiro cenário. Enquanto obriga os países da Europa do Sul a acelerarem a sua quebra de consumo – como forma de reduzirem o défice da balança comercial – , faz pressão sobre os BRICs para implementarem políticas sociais. A distribuição de rendimentos nestes países serve para acelerar a formação de uma classe média capaz de consumir aquilo que os europeus deixaram de consumir.

Claro que de boas intenções está o inferno cheio. E, mais do que as boas ou más intenções de Obama e Merkel – que resumem a divisão atual de toda a classe burguesa – , está a realidade. As dificuldades que a Europa tem em aplicar a política keynesiana de Obama, como as dificuldades de Dilma em aplicar a política de Merkel, mostram os limites a vontade humana sobre a  condução dos assuntos económicos. É um facto que os três cenários continuam em cima da mesa. Mas não é só escolher!

21 de Agosto de 2012 Posted by | Economia | , , , | Comentários Desativados em Crise: dois preconceitos

Segunda nota sobre o stalinismo

Segundo Bobbio, o marxismo do séc. XX dividiu-se em dois: no marxismo dogmático e no marxismo empírico. A classificação só é feliz se dogmático for – como ele propõe – , não uma desqualificação a priori desse marxismo, mas a indicação de que o procedimento destes marxistas se assemelham ao procedimento dos juízes (que se apoiam no método dogmático da jurisprudência). Assim como o juiz procura na lei estabelecida a decisão justa para o caso que julga, o marxismo dogmático procura, nos textos canónicos de Marx, Engels e Lénin, a explicação para a realidade que observa.

O método dogmático opõem-se ao método empírico. Neste, lugar o pensamento científico, os factos empíricos têm a soberania. É preciso, portanto, estar disposto a rejeitar o próprio marxismo. Nele, os factos podem, não apenas refutar este ou aquele aspeto do marxismo, mas toda a teoria. Sublinho “estar disposto”! Os factos estão longe de rejeitar o marxismo; longe disso: seus traços fundadores, sob outro nome de modo a desconhecerem a sua origem, aparecem hoje como indispensáveis às ciências humanas. Não obstante, o bom cientista estar disposto a prescindir do seu ponto de partida, qualquer que ele seja.

Esta oposição, posta assim, explica a preferência dos marxistas que fazem política pelo método dogmático. A tarefa do político é muito mais semelhante à do juiz que à do cientista. O juiz, quando toma uma decisão de acordo com a lei, faz realidade! Essa decisão deve ser cumprida. O político pretende fazer realidade. Quando os comunistas afirmaram, por volta de 1920, que a revolução socialista mundial estava para breve não se enganaram. Apenas foram derrotados!

Numa leitura mais atenta, não obstante, essa opção leva os marxistas para mais próximo do socialismo utópico que do socialismo científico. Nas palavras de Engels: “Para todos eles [socialistas utópicos], o socialismo é a expressão da verdade absoluta, da razão e da justiça, e é bastante revelá-lo para, graças à sua virtude, conquistar o mundo”. À medida que os fracassos se foram acumulando, tornou-se imprescindível corrigir as certezas canónicas: dar um passo atrás,  como fazem os cientistas, de modo a ter uma vista panorâmica sobre a realidade. Com a divulgação do discurso “secreto” de Krushchev, a esquerda deu um passo atrás. Os intelectuais marxistas que, desde a década de 1930, vinham, de forma professoral, criticando os partidos comunistas, surgiram à luz do dia. Até aí, com a exceção da França de Sartre, os partidos tiveram mais audiência que os intelectuais. A partir dos anos 60, os partidos comunistas perdem a sua audiência para os intelectuais de esquerda e, posteriormente, para os partidos movimentistas que estes criaram.

Foi, igualmente, um passo atrás em termos políticos. A década de 1970 marca o início do declínio político do marxismo. A Primavera de Praga constituiu outro rombo; e a queda do Muro de Berlim a machadada quase final nas aspirações políticas do marxismo. Mas também não podemos esquecer que a opção do marxismo pelo método empírico torna-o politicamente ineficaz. Em última análise, o cientista explica porque as coisas são como são; tem pouco a dizer sobre o que fazer para que elas sejam de outra forma. Eu próprio vivi esta angustia todo o ano passado, pois, apesar de entender, desde muito cedo, como o governo atual se escora nas massas (ver aqui e aqui), só muito recentemente pude extrair daí recomendações concretas para a esquerda (ver aqui também). Também por isto, os partidos marxistas tinham todas as razões para rejeitar o marxismo empírico. Ele é politicamente ineficaz.

A solução para esta armadilha, que nos obriga a optar entre um marxismo utópico e um marxismo inoperante, encontra-se, não na busca do meio termo, mas na necessidade de compensar aquele passo atrás por um passo em frente. As bases para esse passo em frente foram ditadas, incrivelmente em 1844, pela crítica de Marx a Hegel. “A teoria é capaz de se apoderar das massas ao demonstrar-se ad hominem” (aqui, p.14; a tradução é substancialmente diferente desta). Isto é: a crítica teórica torna-se crítica prática quando se torna crítica pessoal.

Enfim, se a apreensão teórica da realidade torna o marxismo científico, a tradução desse diagnóstico da realidade em uma política de aliança de classes e numa forma de organização política torna torna a teoria uma teoria prática. Esta implica, por sua vez, a crítica – a tal Ad hominem – de todas as propostas de aliança de classe e formas de organização alternativas em debate. Foi essa a sagaz leitura que Lukács fez daquela afirmação de Marx que eu já tinha notado aqui, e que levei em consideração aqui. Por outras palavras, a realidade coloca os marxistas na ratoeira de optar entre o método dogmático (eu não fiz aqui outra coisa) e o método empírico. Quando, na realidade, a verdadeira opção é o uso dialético dos dois. O método empírico, isto é, a apreciação científica da realidade, opõe-se a ação política como sua antítese. É o passo atrás necessário para fortalecer a prática política. Mas sem o passo à frente, sem a síntese imediata dos dois termos, o marxismo torna-se inoperante.

( Neste sentido, fixar um modelo de organização política é cortar o elo que liga a teoria à prática. Decidir um modelo de organização em função de uma leitura teórica da realidade, como fez Lénin em 1919 com as “21 condições” da Internacional Comunista, é ligar a teoria à prática. Manter esse modelo durante 70 anos é, pelo contrário, impedir que as atualizações teóricas se transformem em prática. Obviamente, a solução não é opor, como fizeram recentemente, o centralismo democrático ao modelo democrático burguês. Isso é opor, consciente ou inconscientemente, de qualquer modo sem tornar explícito, um partido predominantemente voltado para a luta sindical a um partido predominantemente voltado para eleições. Isto é, a questão organizacional colocou-se a despeito das suas implicações teóricas, certamente mais pela a adesão ao modelo forma de democracia burguesa que por uma atualização de facto da teoria marxista. Obviamente, a maioria de sindicalistas que são os militantes do PCP derrotou a minoria de intelectuais que vêm o partido reduzido aquilo que dele espera o Estado burguês.

Pior solução é falar de modelos auto-geridos como faz o Fórum Social Mundial. Se todos os modelos de organização são potencialmente possíveis, nenhuma teoria se torna prática. Como Lukács apontou, foi porque as suas resoluções não tinham quaisquer consequências organizacionais que a II Internacional pode decidir tudo e o seu contrário. Trata-se, realmente, de colocar à discussão quaisquer 21 condições; de, portanto, abri-las a debate… como, de resto, o fez Cunhal em 2001 ).

Lénin conseguiu fazer este movimento dialético sozinho – nisso foi mais marxista que Marx. Não é por acaso que o seu livro de teoria do conhecimento, Materialismo ou empiriocriticismo seja reclamado pelos stalinistas, enquanto os eurocomunistas veem no seu caderno de notas, Cadernos de filosofia, o ponto de partida para o marxismo ocidental. Na verdade, mais do que uma questão de conteúdo, trata-se de uma questão de forma. Os “Cadernos de filosofia” são anotações pessoais de Lénin quando este estudava a “Enciclopédia das ciências filosóficas” de Hegel – o tal passo atrás. “Materialismo ou empiriocriticismo” é um livro publicado contra aqueles que opunham ao marxismo a impossibilidade de explicar o mundo de forma objetiva – o passo em frente. (Embora neste caso, “Materialismo ou empiriocriticismo” tenha sido escrito em primeiro lugar).

A esperança é que, neste tempo de crise, consigamos societariamente fazer o mesmo que Lénin conseguiu fazer individualmente. Entre 1920 e 1960, reinou o marxismo dogmático sob a forma de stalinismo. Entre 1960 até agora, os partidos perderam espaço para os intelectuais dando azo à antítese do stalinismo: o marxismo ocidental. Chegou o momento de alcançar a síntese!!!

12 de Agosto de 2012 Posted by | Ideologia, Metodologia | , , , , | Comentários Desativados em Segunda nota sobre o stalinismo

Teoria revolucionária

Depois de 1917, a Revolução Russa colocou-se como modelo de qualquer revolução. Ainda recentemente, uma tese de doutoramento que se tornou livro, argumentava que Álvaro Cunhal se opôs a uma Revolução em Portugal porque ele se opôs a criação de estruturas de duplo poder, isto é, de sovietes à portuguesa. Um amigo do PCTP/MRPP afirmava que o PCP traiu a possibilidade de uma revolução ao afastar os camponeses dela. E fê-lo de duas maneiras: priorizou a aliança por a classe média, isto é, os militares (o povo-MFA); e concebeu o país dividido entre norte e sul, declarando os camponeses do norte contra-revolucionários. De facto, boa parte dos debates entre Trotsky e Stálin e, posteriormente, entre as várias esquerdas tomam a Revolução Russa como modelo – apenas discordam acerca do que se passou na Rússia por volta do ano de 1917.

Mas o problema central tem a ver com o papel do sistema eleitoral. É fácil ouvir, como diziam os Russos, que a Revolução não se faz pelas eleições. Mas Lénin tinha claro que a alternativa era a guerra civil. Até porque a Revolução Russa não se reduz aos golpes de Estado de Fevereiro e Outubro de 1917. É produto de uma guerra civil que começou na viragem do séc. XIX para o XX e terminou em 1920.

Não obstante, duas condições fizeram desaparecer a alternativa da guerra civil. Primeiro, a universalização do valor Iluminista da paz. Segundo, a luta do movimento comunista pela paz mundial a partir de 1945 – a forma que Stálin encontrou para defender a URSS da eminência (real ou imaginada) de uma invasão dos EUA foi impor aos PC’s do ocidente a vocação de apóstolos da paz.  No séc. XVI, na sua origem, o valor da paz era um valor da burguesia que então ocupava o lugar intermédio da sociedade feudal declinante. Mercadores, tinham tudo a perder com a guerra entre famílias aristocratas (na época as nações ainda não estavam formadas). Hoje, a paz é um valor genérico mas, sobretudo, defendido pela classe trabalhadora – como mostram as recentes manifestações nas Filipinas.

Assim, o séc. XX não nos permite vislumbrar no sistema eleitoral uma janela, mas fechou-nos a porta da guerra civil. Então, se as eleições não servem, se a guerra civil passou de moda, como se faz uma Revolução?

24 de Julho de 2012 Posted by | Ideologia | , , | 2 comentários

Capital em Marx

Há uma ideia errada acerca da ideia de capital. A noção de capital, em Trabalho assalariado e capital, tem uma definição muito precisa: é uma relação social. Citemos:

Um negro é um negro. Só em determinadas relações é que se torna escravo. Uma máquina de fiar algodão é uma máquina para fiar algodão. Apenas em determinadas relações ela se torna capital. Arrancada a estas relações, ela é tão pouco capital como o ouro em si e para si é dinheiro, ou como o açúcar é o preço do açúcar.

Vejamos isto de outra maneira. O homem mais rico de Portugal é Américo Amorim; o homem mais poderoso é Ricardo Salgado. Tanto que, em crise, financia-se bancos e aumenta-se o IVA – o que leva as pessoas a comprar menos, com prejuízo para todos os empresários que vendem. Quer dizer que o valor do seu património, a medida quantitativa do seu capital, dá apenas uma ideia aproximada da realidade. É preciso considerar igualmente a qualidade do seu capital. Assim, sendo verdade que X supermercados podem comprar um banco e, portanto, equivalerem-se, um banco é sempre um capital maior todos os supermercados que permitem compra-lo.

A razão é simples: é prática dos supermercados, assim como de todas as outras empresas, e até do Estado, não se preocuparem em guardar dinheiro para pagar a fornecedores. É mais prático obter uma linha de crédito junto de um banco e usá-la para as compras. Quando se vende algo, pagam-se dividas. É como viver no cartão de crédito e usar o salário para pagar o cartão. No caso do Estado temos números que demonstram isso mesmo. Em 2004, com uma despesa de 70,5 mil milhões de euros, tomou de empréstimo 36,5 mil milhões de euros e pagou 28 mil milhões de euros. Ou seja, para metade do “volume de negócios” (se podemos usar a terminologia da contabilidade privada) o Estado viveu no “cartão de crédito”.

Assim, capital não é apenas ter , é ter algo que o faça mais importante do que os outros. Ter um banco é mais importante que ter X+1 supermercados – ainda que X+1 supermercados possam ser mais caros que um banco.  Assim como não é por ser rico que o burguês é protegido pelo Estado. É por que o burguês é o dono das máquinas que permitem ao trabalhador trabalhar. Por isso é que o marxismo não se preocupa com a moral (egoísta ou solidária) dos homens. O marxismo é uma crítica despudorada da forma como a sociedade está organizada e faz com que uns já nasçam privilegiados.

21 de Julho de 2012 Posted by | Economia, Ideologia | , , | Comentários Desativados em Capital em Marx

A terceira traição a Marx

Li duas primeiras páginas da “Apresentação” de Slavoj Žižek é coletânea de textos de Mao Tsé-Tung recém-publicada no Brasil. Segundo o esloveno, o marxismo foi traído duas vezes. Uma por Lénin, que fez a revolução num país semi-periférico. Outra por Mao, que fez a revolução com o campesinato e não com o proletariado.

Isto tem dado azo a tentativas de identificar onde o marxismo se desviou do caminho e produziu um regime violento. Terá sido Lénin o culpado? Ou Mao? Ou até o velho Engels, não suficientemente inteligente para entender o seu amigo falecido? Ou um Stálin radicalizado? A resposta de Žižek é surpreendente. A semente do “mal” está certamente no próprio Marx. É por isso o marxismo hoje necessita de um terceiro traidor. De, por um lado, ser assumido pelos marxistas por inteiro – com os seus erros e suas virtudes. E, por outro, ser corrigido e libertado desse passado terrorista.

Achei curioso Žižek ter também preparado um livro de textos sobre Trotsky. E dado o meu interesse recente nesse autor, pesquisei no “Em defesa das causas perdidas” (que aguarda ali na estante que eu tenha tempo para lê-lo) o que diz sobre Trotsky. Muito curioso. De um lado, que Trotsky talvez não fosse melhor que Stálin. Concordando com os gramscianos, pode identificar-se uma aproximação de Stálin a Trotsky. E o livro de Trotsky “Terrorismo e comunismo” parece mesmo ter sido o livro de cabeceira de Stálin. Do outro lado, é impossível dizer que Trotsky faria o mesmo que fez Stálin. A única coisa que é possível dizer – o curioso argumento de Žižek  – é que o trotskismo se apresenta falsamente como a alternativa pronta à violência stalinista e maoista. E que, por isso, impede a reflexão necessária para a “terceira traição”. Não é por acaso que Žižek publicou o texto de Trotsky que Stálin adorava. (A tradução para português, no Brasil, foi prometida para breve).

8 de Julho de 2012 Posted by | Ideologia | , , , , | Comentários Desativados em A terceira traição a Marx

Marxismo e corrupção

Para um marxista, falar de corrupção coloca um problema. A economia é a infra-estrutura da política. O que isto quer dizer? Que um político só toma decisões olhando para a economia. Tendo em conta para a crise actual, os políticos olham para os diferentes sectores económicos a ver qual oferece o melhor caminho para sair do buraco. Portanto, a forma da economia – no feudalismo, no capitalismo ou no socialismo – dita a forma do debate político.

Se existir apenas um sector forte na economia, o debate político é acerca de pequenos fait divers. Se existirem dois ou mais sectores fortes, capazes de parecer uma luz ao fundo do túnel, então dão-se duas coisas. Por um lado, os políticos dividem-se sobre qual o sector deve ir à cabeça da solução. As divisões entre os políticos, portanto, duplicam as divisões da economia em sectores. É neste sentido que a economia dá a forma ao debate político.

Por outro, os sectores económicos entram em concorrência pelo apoio político. Fazem-no por meios legais e por meios ilegais. Só nestes últimos falamos de corrupção. Mas antes que a corrupção se estabeleça a economia já influencia a política de muitas maneiras: pelo simples facto de existir até à formação da opinião pública. Vejamos um exemplo! O governo de Passos Coelho assumiu, pela sua formação, que a única saída para  a crise são as exportações. A primeira medida de um governo racional é perguntar aos exportadores como ajudá-los. Essa resposta influenciará a política do governo. E não se pode falar ainda de corrupção.

Na realidade – e essa foi a grande descoberta de Marx – política e economia são as duas faces de uma mesma moeda. Por isso, falar de corrupção como se política pudesse ser posta de um lado e economia do outro, como faz a burguesia, é um erro.

Além disso, – seguindo as descobertas de Marx – uma crise nunca se deve à corrupção mas sim à tendência decrescente da taxa de mais-valia. Sabemos que no momento em que as empresas entram em crise, os seus gestores socorrer-se-ão de todos os meios legais e ilegais para salvaguardar o seu património. É por isso que em crise se viola demasiadas vezes a lei. Mas dizer que foi a corrupção que causou a crise não é só um equívoco profundo. É esquecer que a economia capitalista é cíclica e que, mesmo com os gestores e políticos mais honestos, termina em crise.

Isto não quer dizer que um marxista não deva falar de corrupção. O momento da crise é um momento de luta em todos os sentidos. É uma luta entre os diferentes sectores da burguesia e, sobretudo, de luta entre a burguesia e o trabalhadores para ver quem paga as favas da crise. Da revisão do Código de Trabalho à questão das rendas da energia, tudo são disputas pela distribuição da riqueza minguante. É preciso portanto opor-nos ao uso de meios ilegais pela burguesia – à corrupção – nesta disputa. Mas é igualmente necessário opor-nos às tácticas legais usadas pela burguesia.

Mas neste sentido é necessário separar os casos de política dos casos de polícia. Saber se tal ou tal políticos é corrupto é um caso de polícia. Saber se a polícia funciona ou não é um caso de política. Saber se este ou aquele boy foi contratado por um preço absurdo é um caso de polícia. Saber se o Tribunal de Contas agiu em conformidade é um caso de política.

Não transformemos os homens em bodes expiatórios do sistema!

30 de Abril de 2012 Posted by | Ideologia | , , | Comentários Desativados em Marxismo e corrupção

Materialismo dialético?

Investir a teoria nos ‘dados’, ao invés de resenhar o senso comum contemplando a teoria, não é sem consequências, nem para a ‘teoria’ nem para os ‘dados’ e muito menos para a maneira do pesquisador mostrar a sua ‘teoria’ e os seus ‘dados’. (…) O capítulo II é um justo exemplo dessa utilização da teoria: não se trata de ilustrar as teses de Marx a respeito da jornada de trabalho, mas entender a partir do conhecimento produzido por Marx e do conhecimento do modo de Marx produzir conhecimento, o significado de uma situação histórica concreta em que as dimensões e a manipulação da jornada de trabalho se colocavam para o observador e para os próprios operários com a mesma força com que se colocavam nas páginas do Capital ou nos relatórios dos inspetores de fábricas da Inglaterra do século XIX.

Moacir Palmeira, “Prefácio”. In: José Sérgio Lopes Leite, O vapor do diabo. Rio de Janeiro: Terra e Paz, 1978.

7 de Dezembro de 2011 Posted by | Metodologia | , , , | Comentários Desativados em Materialismo dialético?

Morte e vida das classes

Já não acredito que o mundo se divide em classes. Ou melhor, nunca poderemos nunca dizer onde uma classe começa ou acaba. Se pudéssemos alinhar os homens, do mais pobre ao mais rico, verificávamos que os ricos pensam de uma maneira bem distinta dos pobres (como dizem os marxistas). Isso é um facto cientifico! O problema é onde por a faca; onde começa uma classe e acaba a outra. Uns falam em proletários e capitalistas; outros em classes baixas, classes médias e classes altas. Terá algum razão?

Apreender a desigualdade por meio de uma divisão da sociedade em classes – como faz o político e o senso comum – é um acto político. A divisão da sociedade em dois grupos torna-se revolucionária: os de baixo olham os de cima como parasitas. A divisão da sociedade em 3 grupos é reaccionária: como a virtude está no meio, todos os de baixo são incentivados a esforçarem-se (individualmente) para chegar ao grupo do meio. Neste caso, os parasitas de cima serão alvo de críticas mordazes, mas nunca de acções concretas.

Fica assim resolvido, para mim, o problema da relação entre o objectivo e o subjectivo. Objectivamente, as classes estão mortas, substituídas por uma leitura contínua da desigualdade. Subjectivamente, as classes estão bem vivas: as classificações simplificadores da realidade têm o poder de fazer revoluções ou acabar com elas!

18 de Abril de 2010 Posted by | Metodologia | , | 2 comentários