Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

É! Sou vaidoso.

E fico muito vaidoso ao ver como os comentadores políticos estão surpresos com a vitória da coligação. Relembro o que publiquei aqui a 29 de junho (escrito uns dias antes):

O recuo nos avanços tímidos do keynesianismo na Comissão Europeia obrigou António Costa a dar o dito pelo não dito. Foi obrigado a recuar, mas nem ele mesmo entendeu até onde recuar. Ele necessita de mostrar que há alternativa a Passos Coelho, seja para se justificar, seja para abrir espaço para o relançamento das obras públicas. Mas não muito. Costa não se quer arriscar a uma crise como a da TSU, nem está disposto a ir além daquilo que a Comissão Europeia permite. E o espaço de incerteza que parecia haver no final de 2014 parece revelar-se esguio à medida que ele é tacteado por um Syriza, sem as mesmas objecções para mobilizar as massas. Assim, Costa vacila nas suas incertezas e perde votos. Consequentemente, as últimas sondagens já colocavam o PS atrás da coligação de governo nas intenções de voto.

Não é bola de cristal; é materialismo dialéctico.

5 de Outubro de 2015 Posted by | Partidos, Portugal | , , , | Comentários Desativados em É! Sou vaidoso.

Contradição e conflito

No  vídeo, Jerónimo de Sousa afirma: “Fazem todos eles declarações patrióticas e moralistas, apelando aos sacrifícios em nome do país, mas nunca estão com o país, apenas com os seus interesses de classe”. Mas tanto na legenda que a SIC colocou no vídeo, como a mesma notícia dada no Jornal de Negócios, os jornalistas substituem ‘interesses de classe’ por ‘interesses egoístas’. A diferença é, tanto para o idealismo burguês quanto para o “socialismo espontâneo”, demasiado pequena para ser relevante. Pois para uns e para outros a luta de classes é uma guerra de eleitos contra hereges. Assim, classe burguesa e corja de egoístas são uma e a mesma coisa. A única diferença é que essa conceção do mundo é falsa para uns; e verdadeira para os outros.

Para o marxismo ortodoxo, a diferença é demasiado relevante.  O conflito de classes é a expressão, no plano político – portanto, no plano das ideias – de uma contradição material. É preciso não confundir plano material com economia. A noção de economia de Marx era muito mais ampla que aquela que empregamos hoje e umas das razões porque Marx é mal interpretado está aqui. Digamos que um conflito no plano das ideias é resultado de uma contradição na organização da sociedade. Assim, dado que a taxa de lucro tende a reduzir-se à medida que a economia cresce, a única maneira de mantê-la em níveis favoráveis aos investidores é aumentando a exploração da mão-de-obra. É situações extremas, esta contradição irrompe na política sobre a forma de conflito entre trabalhadores e capitalistas.

Isto fica mais claro se identificarmos dois erros na “compreensão” de Marx. O primeiro erro é querer dividir as duas partes em conflito no plano material: determinar, a maioria das vezes por análise de estatísticas económicas, onde começa a classe operária e termina a classe burguesa. Pelo paragrafo anterior esta operação é impossível: o conflito, a polarização dos indivíduos, não está dada na esfera material da sociedade. Ela dá-se na esfera política, isto é, na esfera ideal. A única coisa que podemos encontrar na esfera material é a contradição entre capital e trabalho ou a lei do decréscimo da taxa de lucro. Podemos também analisar a forma como a contradição geral se desenvolveu num conflito. Ela adquire, em cada momento histórico, uma configuração particular. Por outras palavras, podemos – e devemos – analisar as mediações entre os planos material e ideal. Mas tentar encontrar o conflito no plano material leva sempre a malabarismos que terminam aceitando como material o que é ideal e, portanto, a permanecer no plano ideal.

Mas os malabarismos a que obriga este erro não seriam tão preocupantes senão encontrassem eco naquilo que eu chamo ‘socialismo espontâneo’. Muito anterior a Marx, o ‘socialismo espontâneo’ reordena o pensamento dominante de inspiração católica para pensar as classes. A dicotomia entre trabalhadores e capitalistas é nada mais que um eco daquela entre eleitos e hereges. As ações do trabalhadores e dos capitalistas devem-se, no socialismo espontâneo, à sua “natureza” de classe, uma “natureza” humana bipartida. Isto é, desta análise desapareceu (ou ainda não apareceu) qualquer rasto de materialismo. E o epíteto “natureza” está lá para fazer parecer material aquilo que é ideal: a ética. E de facto, basta ler a Formação da classe operária inglesa – parte I, de E. P. Thompson, para ver que, antes de Marx, era assim. Infelizmente, quando não se estuda o Marx devidamente, continua a ser assim. Esta é aliás a “compreensão” mais vulgar de Marx: não só assumida pelos marxistas espontâneos, mas também pelos anti-marxistas. É por isso que para muita gente, substituir ‘interesses de classe’ por ‘interesses egoístas’ é algo normal.

O erro oposto é querer buscar a contradição no plano material sem a intermediação do plano ideal. A recusa pelo conflito, produto de um ethos de classe média, elimina o papel e o interesse pelo plano ideal. As contradições são para ser achadas através da ciência, isto é, a despeito de todas os conflitos que possam produzir. Não se entende o que a Comuna de Paris, o primeiro conflito entre trabalhadores e capitalistas, representou na teoria de Marx: a porta de entrada para encontrar a contradição entre capital e trabalho, cujo o estudo viria a ser desenvolvido em O capital.  Procurar a contradição diretamente, sem a prévia identificação do conflito, leva a uma de duas coisas. (Penso aqui na suposta contradição entre o crescimento ilimitado e os recursos naturais limitados). Ou a perder-se na imaginação de contradições que realmente não existem. Ou, na sorte de encontrar uma verdadeira contradição, ser incapaz de resolvê-la, pois tudo se fez deixar de lado tanto os interessados em resolvê-la – o sujeito histórico – como os interessados em mantê-la. Aqueles que cometem este erro querem resolver a contradição sem entrar no conflito. No melhor dos casos, passa-se a geri-la: a usar todas as ferramentas técnicas para atenuar essa contradição de modo a que o conflito nunca se expresse. Porque, por exemplo, resolver a contradição entre o capital e o trabalho implica, necessariamente, abolir a propriedade privada dos meios de produção. E, obviamente, os donos do capital vão estar contra.

Se os primeiros, se empenham na luta sem saber muito bem porquê lutar (penso aqui no conflito entre trabalhadores pobres e trabalhadores de classe média), os segundos não conseguem resolver as contradições porque contornam o conflito.

7 de Janeiro de 2012 Posted by | Metodologia | , , , , | Comentários Desativados em Contradição e conflito

Desabafo

Estou cansado de ver divulgado um certo vídeo que tem o título Esta merda precisa de acabar. Trata-se de uma simples resenha do que o senso comum sabe da história do século XX, arrematado com aquela frase populista: “esta merda tem de acabar”. Um discurso que se esquiva a definir culpas e culpados, num momento em que está em curso uma aberta luta ideológica sobre os motivos que nos levaram à crise.

É preciso recuperar o materialismo-dialético enquanto método de análise da realidade concreta (quem são os indignados? como podemos analisá-los desde uma abordagem marxista? porque estamos em crise? por causa dos políticos corruptos ou de um sistema que para crescer tem de criar, inevitavelmente, situações de crise?). Porque é preciso deixar bem clara a distância que temos da direita mais radical. E, ao mesmo tempo, não deixar que outros cresçam às nossas custas.

9 de Dezembro de 2011 Posted by | Ideologia, Metodologia | , | 2 comentários

Materialismo dialético?

Investir a teoria nos ‘dados’, ao invés de resenhar o senso comum contemplando a teoria, não é sem consequências, nem para a ‘teoria’ nem para os ‘dados’ e muito menos para a maneira do pesquisador mostrar a sua ‘teoria’ e os seus ‘dados’. (…) O capítulo II é um justo exemplo dessa utilização da teoria: não se trata de ilustrar as teses de Marx a respeito da jornada de trabalho, mas entender a partir do conhecimento produzido por Marx e do conhecimento do modo de Marx produzir conhecimento, o significado de uma situação histórica concreta em que as dimensões e a manipulação da jornada de trabalho se colocavam para o observador e para os próprios operários com a mesma força com que se colocavam nas páginas do Capital ou nos relatórios dos inspetores de fábricas da Inglaterra do século XIX.

Moacir Palmeira, “Prefácio”. In: José Sérgio Lopes Leite, O vapor do diabo. Rio de Janeiro: Terra e Paz, 1978.

7 de Dezembro de 2011 Posted by | Metodologia | , , , | Comentários Desativados em Materialismo dialético?