Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Sobre Carvalho da Silva

Li agora a recente entrevista de Carvalho da Silva ao Sol, cuja manchete é «PCP terá se de adaptar para um novo ciclo». Sei que o desejo de uma aproximação dos comunistas ao PS levou o Carvalho da Silva para um lugar ambíguo em que já não está cá, mas tampouco está lá. Quer dizer, tampouco pode tornar-se socialista sem aceitar o PS tal como ele é, um partido de direita que te muito mais a ver com o PSD e com o CDS do que com o BE e o PCP. Por isso, ficar a meio caminho permite conservar a utopia – mais difícil de realizar que o socialismo – de, um dia, trazer o PS para a esquerda.

De todos os modos, (falando como os brasileiros:) Carvalho da Silva chutou a bola que Jerónimo de Sousa deixou quicando na área. Quais são as consequencias de uma frase como: «Temos que impedir que o PS e o PSD juntem os trapinhos»? (Pelo menos é isto que o Observador coloca, entre aspas, no título da entrevista e foi esta a mensagem que passou para o público. Sendo facto que não se encontra esta ideia no texto.) Enfim, fica no ar que não há alternativa pela esquerda sem o PS. Sem que a coligação entre comunistas e «socialistas», com todas as aspas, (assumindo a derrota deste governo e uma vitória sem maioria absoluta do PS) somente a coligação PCP-PS é alternativa ao bloco central. Uma ideia que, de resto, é explicitada também por Carlos Brito.

O erro fundamental deste tipo de análises, para a quais a política começa nas disputas eleitoras e acaba na distribuição de cargos do governo, é esquecer que nenhuma boa política pode chegar a bom porto sem um lobby comprometido com ela (sendo isto a tradução, em termos liberais, da máxima de Marx segundo a qual «toda a história é a história da luta de classes»). Veja-se, por exemplo, que o PSD não conseguiu, a despeito da vontade de Passos Coelho e  do apoio de Soares dos Santos e Belmiro de Azevedo, desalojar os interesses dos banqueiros da mesa do Orçamento de Estado. Salgado caiu; mas Ulrich e Mira Amaral já disputam o seu lugar. Mais do que isso, tendo desalojado parcialmente os contrutores, tudo ameaça voltar ao mesmo. É verdade que o Grupo Lena quase faliu e a Mota Engil sobreviveu à custa da internacionalização, quer dizer, acusaram a falta de apoio do governo, apesar de não terem perdido nenhum «direito adquirido». Mas eis que o ex-CEO da Mota Engil, Jorge Coelho, se tornou o melhor amigo de António Costa provando que a banca e as construtoras são realmente quem manda no país. (Sobre a derrota de Passos Coelho e o significado de Jorge Coelho aqui.)

Donde a atuação política da esquerda devia, em primeiro lugar, ser medida pelo seu impacto nas relações de força na sociedade civil, quer dizer, no crescimento do peso político da CGTP e no descrescimo da banca. A partir daqui estou disposto a falar de coligações até com o diabo… sendo mais provável até o PCP encontrar disponibilidade para dialogar sobre o assunto no diabo que no PS.

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11 de Junho de 2015 Posted by | Economia, Partidos, Portugal | , , , , | Comentários Desativados em Sobre Carvalho da Silva

Os “independentes”

O João Vilela disse quase tudo o que havia para dizer. Quase todos os “independentes” vêm da área do PSD. Contra candidatos impostos pela direção nacional, os líderes locais candidataram-se em listas independentes. Assim foi claramente em Gaia! Mas também é assim no Porto, onde o sucessor designado de Rui Rio se candidatou para impedir a vitória do candidato oficial do PSD (aqui também). Logo, há uma coisa que deve ser notada: sem a participação de notáveis de um dos dois grandes partidos, as listas de “independentes” teriam sido inviáveis, ou teriam uma votação sem qualquer expressão. As listas “independentes” só contam para o totobola quando líderes partidários arrastam o seu séquito para elas. Os comentadores políticos que dizem o contrário não analisam; expressam desejos – o desejo proto-fascista de uma sociedade sem partidos.

Mas não se pode ignorar que há algo de novo na política portuguesa: expresso no crescimento das listas de independentes; expresso no crescimento da abstenção; expresso nos votos em branco e nulos, e no crescimento dos partidos pequenos; expresso no crescimento, em votos da CDU; etc. Há um declínio do centro; uma PASOKização do PSD e, embora menor porque não está no governo, do PS. Se estou certo, o BE que não desespere; para ser Syriza, necessita apenas que o PS seja governo. Aqui não haverá a criação de um partido de Esquerda Democrática que rache o PS em dois; assim como nestas eleições o PSD não deu lugar a um novo partido. Esse será o lugar das listas “independentes”: enquadrar legalmente as cisões dos dois maiores partidos portugueses.

1 de Outubro de 2013 Posted by | Partidos, Portugal | , , , , | Comentários Desativados em Os “independentes”

Cavaco vs Soares

É curioso como a cena política destes dias foi dominada por uma geração que parecia ter deixado a política. Cavaco quase não falou; Soares reclamou um pouco mais. Mas o que disseram Passos, Seguro e Portas foi muito menos importante.

Cavaco passa a vida calado; mas quando fala cai o Carmo e a Trindade. Santana Lopes e José Sócrates que o digam. Passos Coelho também não deve andar feliz. No entanto, como disse alguém, ele não fala para os cidadãos comuns; é necessário que venham os “cavacólogos” às televisões explicar o que Cavaco quer. E quem melhor esclareceu o que Cavaco quis foi Joaquim Aguiar: Cavaco queria os votos favoráveis do PS para o OE de 2014. Assim, conseguindo dois terços dos votos, o Orçamento de Estado ultrapassa a Constituição da República Portuguesa. (A própria Constituição prevê que uma lei anti-constitucional possa entrar em vigor se alcançar tantos votos quantos aqueles necessários para alterar a Constituição. [Adendo: Uma vez declarada a inconstitucionalidade, a lei, ou o OE, poderá entrar em vigor se confirmada – votada novamente – por 2/3 dos deputados presentes na sessão – CRP Art. 279 § 2]). Em troca do apoio do PS, o governo aceitava fazer as malas um ano mais cedo.

Do ponto de vista do curto prazo, isto é, para garantir a estabilidade do compromisso com a troika até ao final do programa, Cavaco encontrou a saída mais inteligente. O Tribunal Constitucional deixaria de ter voto na matéria. O risco seria o de levar, a médio prazo, à PASOKização (isto é, a uma fragmentação do PS como aconteceu com o PASOK) do PS (ver aqui também). E Soares sabe muito bem que é  o PS que impede o crescimento do PCP. Assinar o acordo com o governo seria entregar a liderança da oposição a Jerónimo de Sousa – algo que van Zeller já tinha dito, na noite eleitoral de 2011, ser demasiado perigoso.

E claro, o PCP mostrou-se capaz, com a ajuda dos Verdes, de liderar essa oposição. Primeiro, os Verdes tiraram a moção de censura da cartola. Depois, o PCP pediu um conjunto de reuniões que opondo-se aquelas apadrinhadas por Cavaco, tinham tudo para redefinir a divisão comumente aceite entre direita e esquerda. O PCP tomou tanto a dianteira na oposição ao governo de salvação nacional que obrigou o BE a meter duas vezes os pés pelas mãos. Primeiro, pedindo uma reunião com o PS (ver aqui também) e depois escrevendo um vários de textos sectários contra o “sectarismo” do PCP.

Soares venceu Cavaco – fracassou o acordo de “salvação nacional”. A elite portuguesa continua com problemas de curto prazo para resolver. Vem aí, talvez, mais um Orçamento de Estado inconstitucional. Mas Soares e Cavaco vão dormir ambos tranquilos: a alterne do sistema político em Portugal foi preservado.

20 de Julho de 2013 Posted by | Partidos, Portugal | , , , , | 1 Comentário

O discurso de Cavaco

Propositadamente ou não, o discurso de Cavaco Silva no 25 de Abril está a ter efeitos mais severos sobre a oposição interna a José Seguro e sobre os partidos à esquerda do PS que sobre José Seguro e a atual direção do PS. Os avisos do Presidente da República, a sua colagem ao governo, tem por efeito descolar definitivamente José Seguro e o PS da política em curso. Se, à primeira vista, ele parece ter o efeito oposto ao que está expresso em seu conteúdo, num olhar mais cuidadoso – sobretudo depois do congresso do PS – ele parece cumprir os objetivos a que se propunha.

O discurso de Cavaco Silva permitiu que José Seguro, que nunca quis rasgar definitivamente o memorando da troika (apenas renegociar os compromissos), se tornasse o “verdadeiro” líder da oposição, uma alternativa de jure ao governo. E faz isto em um momento em que ele não é alternativa de facto. Um momento em que o governo está já a implementar os poucos pontos em que  a direção do PS tinha se mostrado em desacordo com a política seguida: a renegociação das maturidades da dívida; um plano para o crescimento económico e o fim de mais austeridade (o “conflito” no seio do governo não é um conflito de fato, mas uma forma de fazer parecer que as parcas medidas de austeridade a apresentar hoje pareçam maior do que o que são. Sem dúvida, os cortes do TC já eram esperados e ficaram dentro da margem de manobra do governo).

Consciente ou inconscientemente, o Presidente da República colocou a disputa política onde ela não existe. Mas fez pior: ao tornar José Seguro o “líder” da oposição de jure, Cavaco abriu caminho a que o PS fosse disputar votos na oposição de facto e não na base eleitoral e social do PSD. Basta ouvir as conclusões do congresso do Partido Socialista cujo mote está, antes de mais nada, nestas declarações de António Arnaut. A exigência de uma maioria absoluta associada à vontade de um governo de coligação – certamente à esquerda, mas desnecessária – não passa de uma forma de atrair o voto à esquerda. Mas quem fala de votos fala de forças sociais: tenderá assim a cair sob a “liderança” de José Seguro o empenho de grandes e pequenos empresários, trabalhadores e desempregados capazes de frear na rua as políticas em curso.

Intencionalmente ou não, Cavaco e Silva agrava a dificuldade da esquerda a sério fazer política. Como eu tinha afirmado, as mudanças na estratégia do governo aquando da visita da troika de fevereiro já tornavam mais difícil fazer oposição ao governo. Mas agora, com o discurso do Presidente da República, a oposição de jure irá crescer para cima da oposição de facto – o que, naturalmente, ainda complica mais as coisas.

É certo que o PCP já deu a resposta necessária. É preciso, no entanto, que a mensagem passe.

29 de Abril de 2013 Posted by | Partidos, Portugal | , , , | Comentários Desativados em O discurso de Cavaco

A (in)estabilidade do governo

A moção de censura do PS foi fogo de vista. Ou melhor, como disse aqui, o PS foi obrigado “dar um murro na mesa” não fosse o Tribunal Constitucional deitar o governo abaixo. Assim que ficou claro que o rombo não era um estrago, antes pelo contrário (acelerou a marcha de medidas já previstas), a moção de censura virou fogo de artifício. Luís Amado deu-lhe o tiro de morte, quando ao próprio PS interessava que ela morresse. Em pouco tempo voltámos ao mesmo.

O ponto da situação só pode ser entendido a partir das contradições internas da burguesia. A certa altura defendi que havia uma oposição entre banca e construção civil contra os exportadores. Hoje está claro que eram as grandes superfícies de comércio a retalho que lideravam o segundo bloco, embora apresentassem os exportadores como modelo a seguir (ver aqui). Neste momento, parece-me existir entre as duas frações da burguesia um certo consenso acerca do futuro de Portugal. Esse programa está muito claro nas palavras de Rui Vilar à Antena 1. (Note-se que Rui Vilar é mais próximo do PS e de Cavaco e Silva do que do atual governo).

  • O ajuste das contas públicas é necessário. Não obstante, não pode com isso matar a economia. O que implica uma renegociação do memorando com a troika.
  • A política monetária deve ser expansiva para compensar o ajuste das contas públicas e permitir a economia crescer. Mas ela só pode ser expansiva se for europeia (abaixamento da taxa de juros; mutualização da dívida; emissão de moeda pelo BCE; abaixamento da taxa de juro; etc.).

O problema é que os sinais que vêm da Europa vão no sentido inverso. O ministro das finanças alemão está preocupado com o excesso de liquidez na Zona Euro. Por outras palavras, quer uma política monetária ainda mais restritiva.

Assim, hoje a grande oposição é entre aqueles que exigem que o governo português dê um murro na mesa e aqueles que preferem que vá com pezinhos de lã. Ou talvez, entre aqueles que desesperam com os resultados e aqueles que acompanham o processo negocial. Curiosamente, porque a banca vive obrigatoriamente articulada com o Estado devido à necessidade de coordenação na gestão da moeda, esta oposição é praticamente a anterior. A banca e amigos (as empresas ligadas às PPPs, rendas da energia e afins) jogam pela calada porque certamente estão a par do processo negocial. Os outros protestam. Basta lembrar o papel de Belmiro de Azevedo em setembro do ano passado.

A conciliação entre o o governo e o PS (ver aqui, aqui e aqui também) nada mais é do que a resignação daqueles que queriam ter dado um murro na mesa na última avaliação da troika. Nada mais é que a prova de que a crise política foi causada por um joker que se meteu no baralho na pior altura – o Tribunal Constitucional. Mas trata-se de uma paz podre, um equilíbrio frágil dado a que os resultados obtidos pelo governo nas negociações com a Comissão Europeia ficam sempre muito aquém do desejável. Não são soluções; apenas balões de oxigénio.

Além disto, o PS tem uma contradição que lhe é própria. Basta conhecer um pouco da história de Portugal para saber que o PS, partido da classe média, só se manteve graças a alianças com a burguesia financeira (o apoio de Soares à família Espírito Santo, quer na fuga de Portugal, quer na “recompra” do BES, está bem contado aqui). Neste momento, como já escrevi, há uma volta de 75º no programa de austeridade que coloca a demissão de funcionários públicos como forma de controlo da despesa. Ora, a base do PS é a classe média; e classe média em Portugal são os funcionários públicos. Mas a direção está completamente comprometida com os interesses da burguesia financeira e amigos. (Não por acaso, o ex-CEO da Mota Engil regressou à política). O movimento feito por António Costa foi fruto desta contradição entre base que deseja precipitar a queda do governo e direção que tudo faz para mantê-lo. Provocou um congresso que podia derrubar o governo; e desapareceu transformando-o num pobre comício. Afinal, Costa entendeu que o melhor lugar para o PS enquanto se demitem funcionário público é a oposição.

Assim, nos próximos tempos a elite enfrentará três desafios. 1) A negociação do segundo empréstimo com a troika. 2) A elaboração do Orçamento de Estado para 2014. E 3) as eleições autárquicas. Estas duas tensões que descrevi irão condicionar o modo como cada um destes momentos se resolve. E José Seguro será o principal protagonista já que é ele que terá de resolver ambas. Agirá certamente como um cata-vento. Mas um cata-vento indica a  todo o momento de que lado está o vento… isto é, o estado do equilíbrio de forças entre bancos e amigos vs outras empresas; e base do PS/funcionários público vs sua direção/banca.

22 de Abril de 2013 Posted by | Partidos | , , , , | Comentários Desativados em A (in)estabilidade do governo

A moção de censura

Confesso que me equivoquei quando aqui afirmei que a moção de censura (ver aqui também) de José Seguro e a decisão de derrubar o governo representavam mais um passo em falso do seu PS. Aliás, o regresso de Jorge Coelho e José Sócrates à política (ainda não vi a entrevista de Sócrates, mas parece que foi-lhe favorávelaqui também) mostravam, desde logo, que algo está a mudar. Mas, porque ignorei um importante ator, não fui capaz de descortinar o quê. Em poucas palavras, esse ator é o Tribunal Constitucional. A decisão do TC sobre a constitucionalidade do Orçamento de Estado está para breve. E com o previsível chumbo, o governo não terá outra solução senão demitir-se. Nesse sentido, o PS prepara-se para chutar um cão morto, isto é, um “cão” que o TC ainda há-de matar.

Isto leva a uma alteração da conjuntura bastante significativa. Em dois pontos. Por um lado, o PS ficará com a batata quente do corte dos 6,5 mil milhões de euros na despesa pública nas mãos. O que implica a demissão de cerca de 20 mil funcionários públicos em dois anos. Ao contrário do PSD, o PS conta com muitos funcionários públicos na sua base eleitoral. Deste modo, o novo governo poderá estar a engrossar as fileira do BE e, em menor grau, do PCP. Por outro lado, existe um movimento das grandes empresas de construção civil para ganharem o peso político que sempre tiveram no governo entre 1985 e 2010. A prová-lo está a ideia peregrina de adaptar o porto da Trafaria (sem ligação ferroviária) a navios de grande porte. Uma obra que tresanda a PPP.

Estas duas mudanças na conjuntura tem duas consequências. Em primeiro lugar, vão facilitar o trabalho aos sindicatos. Os desempregados, que desde meados de 2011 têm representado o cerne da crise, isto é, a destruição da economia real para tapar os buracos da economia financeira. Se, como propus aqui, se tivesse avançado em junho de 2012 para a criação de uma organização de desempregados com um discurso simples, entre setembro e fevereiro teríamos podido velejar nos discursos da comunicação social dominante para construir essa organização. Mas pouco se fez! De repente, a conjuntura traz o cerne da crise para os funcionários públicos. Não apenas porque vão ser demitidos, mas sobretudo porque vão ser demitido pelo PS (que depende do seu voto). Ora, estes já são a base da CGTP e outros sindicatos existentes, que são, por sua vez, a base dos partidos à esquerda do PS. Enfim, se nos últimos dois anos a esquerda não soube colocar-se no olho do furação; agora o olho do furação se deslocou para onde está a esquerda.

O outro aspeto implica o regresso da política contra a qual o PSD de Passos Coelho se fez. Parece que, em Portugal, ou manda a construção civil ou não manda ninguém. Como afirmei aqui, isso assinala também a incompetência de outros setores da economia, em especial o setor da metalomecânica, para criar emprego e riqueza na mesma dimensão que a construção e, sobretudo, para saber usar o emprego e a riqueza que criam como arma de lobby. De qualquer modo, se a troika permitir o regresso das PPPs – como instrumento de promoção do crescimento – estará dando ao PSD, então na oposição, um flanco do governo para bater à vontade.

Enfim, se o primeiro fator concorre em favor da esquerda; o segundo em favor da bipolaridade a que a política portuguesa nos habituou.

28 de Março de 2013 Posted by | Partidos, Portugal | , , , , | Comentários Desativados em A moção de censura

Primeiro a farsa, depois a tragédia

No final de fevereiro, a troika virá na sua missão ordinária em Portugal. Como em fevereiro do ano passado, irá descobrir o que toda a gente já sabe (ver aqui também): as “previsões” (que merecem todas as aspas do mundo) do governo saíram furadas. Serão necessárias novas medidas de austeridade. Como em setembro passado, o grupo Que se lixe a troika! já marcou a sua manifestação para 2 de março. A CGTP, ocupada com greves e manifestações locais e setorais, ganhará tempo para ver!

É necessário lembrar que os Indignados convocam toda a sociedade portuguesa menos a eles mesmos. Sem organização própria (sem existência para-si), uma manifestação como a de 15 de setembro só tem sucesso quando a elite se divide. Essa divisão das elites mostra que existem pelos menos dois caminhos e impele os Indignados a sairem à rua. Enfim, a divisão das elites é quem mobiliza os Indignados. Em setembro passado, a fúria das massas foi tanta que o governo teve a ponto de cair. Mas a Comissão Europeia veio em socorro do governo e, numa grande farsa, a elite tudo fez para colocar àgua na fervura. Empresários e políticos acantonaram-se e o PS jogou, como pode, para desviar a fúria da esquerda. A oportunidade foi perdida.

De qualquer modo, desde os malabares da TSU que o governo não tem o apoio da elite portuguesa. A sua queda é iminente – sobretudo depois de uma importante derrota eleitoral de Merkel. O representante da oposição ao governo, Cavaco e Silva (que já fez cair dois governos), já veio dar a sua sentença. O sucesso do governo, com a emissão de divída pública, foi logo atacado de todos os lados (aqui e aqui também). António Borges, surpreendentemente (ou nem por isso), veio até dizer que já basta de austeridade. E José Seguro, pelo seu oportunismo uma autêntica bússola da conjuntura, até já fala em eleições (ver aqui também). Portanto, a esquerda pode contar com a divisão das elites agora em março. Aliás, a esquerda arrisca-se mesmo a ser a banda da festa em que a “nossa” elite quer fazer dançar Passos Coelho.

Eis que aparece um problema. Os socialistas não querem ver Seguro como Primeiro-Ministro (ver aqui também). Não tendo força social e eleitoral para formar governo, a esquerda – o PCP, o BE, o PEV e, porque não, o PCTP juntos – arrica-se à tragicomédia de ficar a ver navios. Passos Coelho ganhará uns meses no governo – talvez para demitir-se (ou ser demitido), como Guterrez, com os resultados das eleições autárquica – porque o PS ainda não tem candidato a umas eleições legislativas. (Entretanto, desde setembro, o PSD desgastou-se mais e o FMI parece ter recuperado algo da sua má imagem. Nesse sentido, a hipótese de PASOKização do PS, inevitável se tivesse formado governo na conjuntura de há 3 meses, vai sendo mitigada… mas nunca eliminada!).

Nota final: um “beco sem saída” oportuno para a chegada de um tecnocrata apoiado num governo PSD/PS sem Passos Coelho. Não obstante, numa situação distinta de Monti, pois a conjutura já não é tão favorável à austeridade.

25 de Janeiro de 2013 Posted by | Partidos, Portugal | , , , | Comentários Desativados em Primeiro a farsa, depois a tragédia

Previsões para 2013

Disse Marx “toda a história é a história da luta de classes”. Ele quis dizer que os conflitos sociais são o motor da história. Já, por diversas vezes, tentei escrever neste blog a “natureza” desses conflitos. Mas ainda não consegui fazê-lo de modo satisfatório. Não passei ainda além deste texto incompleto. Não obstante, o objetivo aqui é apontar os nós do desenrolar político do próximo ano, ou seja, os seus conflitos essenciais.

1. O contexto nacional não sofrerá alterações estruturais. Mas a atual correlação de forças poderá encaminhar-se par o ponto de rutura. O Estado continuará a sugar a economia real para manter uma banca ligada às máquinas. Enquanto isso, os empresários (industriais e comerciais) dividem-se entre o protesto e a certeza que nada mudará sem apoio da Comissão Europeia. Como este último grupo – até pela aliança ténue com a banca – é mais poderoso, teremos uma elite à espera… Que discute com base em suposto falsos (ver aqui também) para ganhar tempo. E que toma medidas que não são para cumprir. À espera que a “Europa” mude de opinião.

Este lugar em falso da elite nacional ficou claro recentemente, quando o governo deu o dito por não dito, depois de ter visto o Eurogrupo recusar a Portugal as condições de empréstimo que ofereceu à Grécia. E poderemos ter uma certeza: manobras em falso deste tipo vão continuar a aparecer. A consequência óbvia será o agravar da desmoralização – e da distância – entre o governo e os eleitores. Mas não só: na medida em que não aparecem alternativas políticas (na medida em que a elite não tem alternativas reais), a descrença se estenderá do governo a toda a elite. Já aqui se disse como o PS se tornou o melhor amigo do governo ante os ataques dos partidos de esquerda e do protesto popular. A direção de José Seguro continua a defender o governo (ver aqui também) até dos ataques liderados por Mário Soares.

As eleições autárquicas abrem múltiplos cenários. 1) Poderá reduzir a contestação social na medida em que pulverizará as massas pelos diferentes partidos. Ou 2) poderá ter o efeito contrário na medida em que as massas são politicamente ativadas pelos partidos. Ou, finalmente, e como resultado do anterior, 3) criará uma espécie de energia política (2) que não se pode empregar nos canais políticos tradicionais (1)… e a violência será usada como escape. O que é certo é que depois das eleições autárquicas existirá bastante “energia política” no ar para retirar Passos e Gaspar do governo. Lembremos que a manifestação de 12 de Março foi organizada no bojo de uma campanha para eleições presidenciais.

Às consequências económicas do aumento brutal de impostos (que vai falhar), vem somar-se a incerteza política. Num clima assim, a incerteza irá desaconselhar o investimento. E como o investimento chega, numa economia normalizado, a representar 50% do consumo (bens intermédios) pode prever-se o efeito que a falta de investimento terá sobre as vendas das empresas já existentes. Será um ano ainda mais desastroso do que o governo espera, seguido de outro de eleições legislativas!

– continua –

10 de Dezembro de 2012 Posted by | Economia, Portugal | , , , | Comentários Desativados em Previsões para 2013

O miserável PS II

Ontem, não sei porquê, passei o dia convencido que a reunião da Comissão Política Nacional do Partido Socialista era hoje. Mas não, foi segunda-feira passada. Os resultados são absolutamente contraditórios. Por um lado, o PS diz que está preparado para governar. Por outro, volta a trás, e mostra-se disponível para dialogar com o PSD acerca dos cortes no Estado Social. Um verdadeiro ‘vamos a ver’ (uma quase abstenção violenta) substituiu o redondo não da véspera.

Se, como eu sonhei ontem, a reunião fosse hoje, as declarações de segunda-feira seriam preparatórias! Sendo, na verdade, conclusões da reunião, então a montanha pariu um rato. Ao preparar-se para dar o dito por não dito acerca do Estado social, mais uma vez, Seguro é o arame que ainda segura o governo. Ou, como parece ter dito João Salgueiro na Sic Noticias, “este governo só não cai porque ninguém quer ir para lá!”.

De qualquer modo, a afirmação de que o PS está preparado para governar, é igualmente sinal que a direção do Partido “Socialista” têm cada vez menos capacidade de segurar as suas hostes que desejam derrubar o governo. Aqui a bancada parlamentar, escolhida por José Sócrates, tem sido a fonte de oposição interna às manobras conciliadoras da direção. (Vale sempre lembrar que, depois de um mês de setembro de dura contestação ao governo, José Seguro lançou a ideia de reduzir o número de deputados. Uma isca para que a esquerda atacasse o PS e desse uma folga ao governo. Mas, logo de seguida, o líder da bancada parlamentar veio sabotar a estratégia). Por quanto mais tempo Seguro pode segurar esta situação?

É óbvio que não convém ao PS ir a eleições agora. Nada pior que ser eleito contra a troika (isto é, no bojo da contestação social de uma manifestação com o lema “Que se lixe a troika! Queremos as nossas vidas de volta”) e depois ter de governar com a troika. Nada pior que um partido que se “distingue” pela defesa do Estado social (na teoria, não na prática) ter que implementar a destruição do Estado social (a troika acaba de chegar a Portugal para fazer os seus estudos, mas o calendário de cortes, segundo este vídeo, será apresentado apenas em fevereiro). De qualquer modo, o PS tem de cumprir a sua função como partido: não pode assistir à degradação do PSD impávido e sereno sem ver igualmente deteriorada a sua credibilidade. Tem – e as suas hostes começam a exigi-lo – de fazer qualquer coisa!

Também é óbvio que às elites não interessa eleições. Uma campanha eleitoral tem sempre custos e de dois tipos: o financiamento dado pelas empresas aos partidos e, mais importante, a instabilidade social gerada pela campanha eleitoral. Por estas razões, na noite de 6 de junho de 2011, Van Zeller afirmou que seria bom para Portugal que o governo durasse os quatro anos devidos. (Carvalho da Silva riu-se). Não obstante, a política do governo está a gerar uma instabilidade social muito grande. Está na hora de medir os “custo de oportunidade”. Espero que a greve geral daqui a uma semana dê um empurranzinho.

7 de Novembro de 2012 Posted by | Partidos, Portugal | , , , , | Comentários Desativados em O miserável PS II

O miserável PS

Venho defendendo que sem o PS não se deita o governo de Passos Coelho abaixo. Não se vaga a cadeira do trono sem que o pretendente mostre nela interesse. Não obstante, tampouco se derruba este governo com este PS. Por outro lado, também acredito que a queda do governo agora meteria o Partido Socialista numa camisa de onze varas. Eleito agora, José Seguro seria o representante de um momento que foi aberto por um “Que se lixe a troika!”. O líder do PS, uma vez no governo, teria de optar entre abandonar o memorando ou abandonar os seus eleitores. Sendo inevitável a segunda opção, Seguro arriscava-se a destruir e PS e, com ele, o sistema de alternância no poder com que a elite entretém a povão.

Por esta razão interessava à esquerda a sério que o governo caísse. Obviamente, o principal interessado em não deixar cair o governo é o PS. Por isso buscaram formas de levar o PS ao governo sem passar por eleições: seja por iniciativa presidencial, como propôs Soares; seja por iniciativa do próprio Passos Coelho, como propôs Jardim Gonçalves; ou mesmo com a criação de uma estrutura de coordenação informal (fora do governo) com PS, PSD e CDS, como propôs Sampaio. Não obstante, no momento em que este governo esteve há beira do precipício, Seguro afirmou que só iria para o governo com eleições. No momento em que Passos deu um passo atrás (com o recuo da TSU), e que o PS se viu na situação que apontei no primeiro parágrafo, Seguro foi obrigado a defender o governo. Primeiro recusando eleições antecipadas, depois pondo-se a jeito das críticas da esquerda (de modo a que elas não se dirigissem a Passos Coelho), e finalmente postergando a queda de Passos para depois das eleições autárquicas. E o João Proença, com os seus avanços e recuos em torno das greves gerais, fez até a proeza de arrancar elogios ao lambe-botas do Camilo Lourenço.

Isto tudo me levou a defender que a esquerda devia ignorar o PS, e criticar o PSD. Isto não implicava, de modo nenhum, passar uma borracha sobre a responsabilidade dos socialistas na crise – erro no qual escorregaram o BE e o Congresso das Alternativas (ver aqui também). Ignorar a sua existência seria o suficiente. Bloquistas e comunistas deviam empenhar-se em oferecer um presente envenenado ao PS: um governo antes do Natal.

Mas hoje tudo muda. Depois da dupla machadada que Passos deu no governo, somente Seguro segura o PSD no governo. Primeiro, se Passos Coelho afirma que é necessário refundar o memorando de entendimento com a troika, então ninguém hoje em Portugal acredita que o memorando atual funciona. Consequentemente, a proposta de Orçamento de Estado que dele deriva tampouco vai funcionar. Passos Coelho dá assim argumentos à oposição para rejeitar o OE. Segundo, depois de Paulo Portas ter preterido o partido em função do governo, o PSD pretere um governo em função do partido. Antevê-se abalos na coligação já nos próximos dias. Obviamente, o bombeiro Seguro tinha de vir em socorro do governo. Em vez que exigir de Passos consequências políticas, exigiu explicações semânticas. Em vez de obrigar o Primeiro-Ministro a explicar se pretende igualmente refundar o Orçamento de Estado – o qual o PS já afirmou estar contra – , veio perguntar o que ele entende por refundação.

Neste momento é urgente dizer: Passos fez tudo para o governo cair; só José Seguro é que não deixou.

28 de Outubro de 2012 Posted by | Economia, Partidos, Portugal | , , , , , | 4 comentários