Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Dilma abandonada pelo PT

Supreendeu muita gente, mas facilmente se explica: o Partido dos Trabalhadores abandonou Dilma Rousseff neste processo de impeachment. Evidentemente, os senadores continuaram a lutar tenazmente pela reversão do processo. No entanto, a mobilização prometida nas ruas nunca surgiu. Em parte, isso ocorre porque era difícil mobilizar os brasileiros em apoio à Presidenta, não apenas porque Dilma Rousseff não sabe falar para as massas, mas sobretudo pela estratégia com que se elegeu. Radicalizou à esquerda para ganhar votos e radicalizou à direita para formar o governo; criou “inimigos” nos dois lados, e, para governar, somente encontrou apoio na estrutura burocrática do seu partido. (É também por isso que o seu mandato é cassado. Sem apoios políticos, tornou-se incapaz de emplacar, com Joaquim Levi, o mesmo programa macroeconómico que Temer irá aplicar com Henrique Meirelles. Dilma teve, pois, de ser substituída.) Mas a ausência de mobilizações populares em apoio à Presidenta Dilma é também parte da estratégia do PT.

Segundo as últimas sondagens do DataFolha, Lula da Silva é o mais provável vencendor das eleições presidenciais de 2018. No entanto, as sondagens de agora não contam, nem podem contar, com dois efeitos: 1) da campanha eleitoral de 2018 e 2) a desorganização do PT decorrente da perda de cargos não apenas no governo federal, mas também nos governos municipais. Particularmente em relação ao último, vale acrescentar que isolamento do PT, tanto à esquerda quanto à direita, tem como consequência uma previsível grande derrota do Partido dos Trabalhadores, que será traduzida em perda de mandatos e cargos comissionados – com consequências nefastas para a sua estrutura partidária que, tendo perdido a mIlitância ao longo dos últimos 14 anos, depende tanto dos empregos que ela garante no Estado. Por isso, não deve estranhar que o PT não tenha abdicado da sua coligação com o PMDB em mais de 1400 municípios.

Ora, a conta que o PT está fazendo é como assegurar, em 2018, uma boa campanha se se mantiver isolado da forma como está hoje. Será possível manter a “competitividade eleitoral” (não encontrei melhor expressão) de Lula da Silva sem sair deste isolamento? Particularmente porque este isolamento têm consequências tanto no tempo de televisão do candidato, como no número de caciques eleitorais que ele vai dispor. E, mais importante, o conjunto de tudo isto – a que se somarão os efeitos da Lava-Jato – terão consequências na capacidade da legenda em captar recursos. É tudo isso que passa pela cabeça do PT; é por isso que abandona Dilma. A eleição de Lula da Silva somente será viável se, até 2018, a nível federal, puder refazer a sua aliança com o PMDB. Para isso é necessário não só necessário que Michel Temer governe, mas também que governe mal. Lula surgirá então como salvador não apenas do Brasil, mas também do PMDB.

26 de Agosto de 2016 Posted by | Brasil, Economia, Partidos | , , , | Comentários Desativados em Dilma abandonada pelo PT

O impeachment imparável

O processo contra Dilma Roussef está a ocorrer à margem do direito. O chumbo das contas do orçamento de 2014, pelo Tribunal de Contas da União sob pressão das ruas, serve de base ao impeachment. No entanto, as pedaladas fiscais não foram consideradas crime excepto nesse julgamento em 2015, muito embora sejam utilizadas de forma recorrente pelos governos. Tampouco foram consideradas crime quando utilizadas recentemente pelo Vice-Presidente Michel Temer, sucessor de Dilma em caso de impeachment. Vale notar que nenhuma das provas desveladas pela Lava Jato implica diretamente a Presidente e, como tal, não pode sustentar a sua destituição. Exceto o financiamento ilegal de campanha que, a provar-se, provocaria a cassação da legenda e, portanto, a destituição da Presidente e do seu Vice. Contudo, esta segunda opção interessa pouco à elite política por duas razões: 1. é lenta (depois da decisão do Tribunal Supremo Eleitoral, cabe ainda recurso ao Supremo Tribunal de Justiça) e 2. implica o PMDB, partido com mais deputados, senadores, governadores estaduais, etc., quer dizer, implica quem realmente manda no país.

Numa das mais interessantes análises de conjuntura, Rodrigo Nunes, professor de filosofia na PUC-Rio, afirma: “(…) importa apenas uma coisa: os votos do PMDB no Congresso. Sérgio Moro poderia vir a público atestar a inocência de Dilma agora que, sem estes votos, o Governo cairia igual.” A questão do impeachment só em teoria é uma questão jurídica, quer dizer, só formalmente os deputados e senadores vão julgar o carácter legal dos atos de Dilma Russef. Na prática estarão tomando uma decisão política. É por isso que Eduardo Cunha, contra o qual a Lava Jato já reuniu provas e já existe uma acusação formal, pode comandar o julgamento de Dilma Russef. (A justificação que FHC deu para o facto só confirma o carácter político, contra a Constituição, do impeachment.)

Ou seja, o PMDB é o fiel da balança e a pergunta-chave só pode ser o que quer o PMDB? Ele quer, por um lado, um plano de ajuste estrutural/austeridade para fazer face à crise económica e, por outro, barrar a as investigações da Lava Jato para poupar ao máximo os seus dirigentes. O PT tem alguns trunfos para atirar água na fervura da Lava Jato; um artigo de Sylvia Moretzon (professora de Ética na faculdade de jornalismo da UFF, bastante conceituada no Brasil e que deve ter cobrado a um ex-aluno para publicar em Portugal um artigo capaz de contrabalançar a repetição do discurso anti-petista da Globo) mostra bem como os juízes se transformaram em justiceiros contra o PT, em clara violação da lei e da imparcialidade do sistema judiciário. Mas mobilizar todos estes factos não chega; é preciso também disputar nas ruas o clima político anti-petista decorrente da mobilização da classe média. Para isso é preciso crer que a CUT e o MST ainda são capazes de ocupar as ruas.

A questão é que o PT não pode resolver a outra metade do problema sem minar a solução necessária para resolver a metade anterior. Há um consenso de que, para fazer face à crise, é necessário austeridade ou, como se dizia há umas décadas, um ajuste estrutural. Dilma aceitou esse programa quando apelou ao diálogo na noite eleitoral e quando, logo depois, chamou Joaquim Levy para Ministro da Fazenda. Marina Silva assinalou essa adesão de Dilma Russef ao neoliberalismo apelidando-a de “choque de realidade”; o PT também, mobilizando-se contra as medidas que a Presidente cogitou tomar. E Dilma somente não aplicou a receita neoliberal porque a crise política tem o governo paralisado desde o dia das eleições. Receita essa que, ao invés de ser revertida, acaba de ser confirmada. Ora, é inegável que a adopção desta política económica irá desmobilizar as bases da CUT e do MST. O governo não pode (como se diz em Portugal) querer sol na eira e chuva nos nabal, isto é, pedir à esquerda que defenda o seu governo e governar à direita.

Mas o problema é que o PMDB continua a ser o fiel da balança e, para ele, uma aliança com o PSDB – capaz de sustentar o governo de Temer – é muito mais eficaz. Por um lado, o programa neoliberal pode ser aplicado com o consentimento ou mesmo apoio das suas bases partidárias. E, por outro lado, o fuel que alimenta a Lava Jato é o ódio fascista ao PT – não só porque os juízes estão a correr atrás de aplausos (independentemente das suas ligações ao PSDB), mas também porque fazem parte dessa classe média anti-petista. Com o PT fora do governo, a classe média e o sistema judiciário desmobilizado, será mais fácil jogar água na fervura.

***

Como seria de esperar, a esquerda está divida entre os críticos do impeachment, que sublinham a sua ilegalidade, e os críticos da política económica de Dilma. De todos os modos é, pela sua pequenez, um jogador incapaz de fazer a diferença neste jogo onde as cartas estão dadas. O que mais espanta, não obstante, que apesar do consenso existente acerca do esgotamento do projeto petista de conciliação de classes, não consiga ver na impossibilidade do PT para sair do atoleiro onde se enfiou, a prova concreta dessa tese teórica. O impeachment jamais será resolvido favoravelmente aos trabalhadores porque não será resolvido sem o PMDB, isto é, sem o aval da burguesia em um momento de crise, quer dizer, que não à conciliação de classes possível.

O futuro será negro. A passagem de Dilma para Temer custará aos trabalhadores o mesmo que custou, na Argentina, a eleição de Macri. A esquerda ficará reduzida, de um lado, aos burocratas sindicais do PT e, de outro, às universidades de ciências humanas onde afloram o PSOL, o PSTU e o PCB. Em ambos os casos, o ponto de partida da esquerda é o seu real afastamento das massas fustigadas pela política neoliberal que se aprofunda. É triste. É difícil. Mas é o preço a pagar pelo que anos de política de conciliação de classes fizeram com as organizações dos trabalhadores como o MST e a CUT, bem como da incapacidade dos intelectuais críticos do PT para sair dos muros da academia.

22 de Março de 2016 Posted by | Brasil, Economia, Partidos | , , , , , , | Comentários Desativados em O impeachment imparável

O PT e Marco Feliciano

Sabe-se que o sistema político brasileiro obriga o partido vencedor a dividir cargos no governo com outros partidos da sua base aliada. Sabe-se também que, no primeiro ano de governo, o partido vencedor tenta ficar com o maior número possível de cargos para ir cedendo ao longo do mandato. E, finalmente, que a maioria das cedências se dão no ano pré-eleitoral.

O que é curioso (e indicador de uma tendência societária mais profunda) é comparar dois escândalos: um no primeiro ano de governo; outro recente. No primeiro, o PT açambarcou mais um ministério. No segundo cedeu, por omissão, uma comissão da Câmara dos Deputados. No primeiro foi o Ministério do Desporto, surripiado ao PC do B depois de denuncias de corrupção. O segundo foi a Comissão de Direitos Humanos (os deputados do PT, que então presidiam à comissão, faltaram a reunião onde se elegeria o novo presidente da comissão) que foi engolida por um partido da “bancada evangélica”, elegendo como seu presidente um pastor racista e homofóbico (ver aqui também).

Como se vê por aqui, esse deslocamento social conservador da política brasileira está bem encaminhado. Até porque, na minha opinião, ele apenas acompanha o mesmo deslocamento na sociedade.

Nota 02/4: no mesmo sentido deste último parágrafo, foi publicado hoje um texto de Vladimir Safatle na Folha de S. Paulo. Curioso é a omissão de qualquer referência ao seu partido, o PT.

1 de Abril de 2013 Posted by | Brasil, Ideologia | , | Comentários Desativados em O PT e Marco Feliciano

A ascensão conservadora

Há um interessante conjunto de vídeos no youtube, resultado de um seminário feito na USP. Apesar da qualidade das palestras,  o conteúdo tem limitações devido, por um lado, ao preconceito acerca da  classe média (aliás, classe média não é uma gaveta onde se colocam todos os insultos?) e, por outro lado, à necessidade de defender do PT como se nota tanto na intervenção de Vladimir Safatle quanto no debate final. De qualquer modo, existem diversos pontos interessantes a reter do debate.

1. Da palestra da Marilena Chauí, merece ser retida a oposição entre a cordialidade na esfera doméstica e o autoritarismo da esfera pública. O problema, para Chauí, está no funcionamento das instituições que privatiza a ética pública: reduz-a a um lista de conformidades corporativamente definidas. (Como um manual de boas práticas de uma qualquer empresa). Garantida essa conformidade mínima, tudo é possível – até o egoísmo mais bárbaro. Não obstante, por que razão esse autoritarismo totalitário (parece-me que no sentido de Arendt) tende a decantar-se na classe média? Creio que a definição pobre e preconceituosa de “classe média” leva a uma má resposta!

2. André Singer (estou a ordenar as palestras da que gostei mais para a que gostei menos) fala de fenómenos de longo, médio e curto prazo. A) No longo prazo, ele apresenta a onda neoliberal: um fenómeno global que teria entrado tarde no Brasil, mas que se teria instalado a partir do ano 2000. B) No médio prazo, está o modelo de inserção social “brasileiro” (digo eu: do governo Lula): pelo consumo e não pela luta de classes. C) No curto prazo, ele vê uma certa inveja da classe média pela ascensão recente das classes baixas. Haveria que analisar cada um destes pontos, mas alongaria demais este texto. Como o segundo me parece claro e o primeiro demasiado complexo, fico-me pelo último. Sobretudo porque repete o preconceito de Chauí! Em parte, ambos têm razão. Certo dia ouvi: “Os ricos ganham sempre. O Lula leva dois governos ajudando os pobres. Está na hora de trabalhar para a classe média”. Parece-me, no entanto, que a dimensão simbólica (o exemplo dado por Singer é o de um homem que se queixa que o aeroporto está parecendo uma estação de ônibus) não justifica tudo; talvez seja reflexo de uma dimensão material. O aumento do consumo dos pobres gerou inflação comprimindo o poder de compra da classe média. As greves de polícia, bombeiros e funcionários públicos que eclodiram o ano passado foram por reajuste do salário à inflação.

3. Por fim, Vladimir Safatle denota o crescimento de uma nova direita. Ela surfará na onda deste “ascensão conservadora” e, na minha opinião, Safatle fez a única intervenção que permite antever o futuro. A direita tradicional tem dificuldade em aproveitar-se da nova onda conservadora porque os governos do PT têm melhorado a vida das pessoas, tem-nas inserido na sociedade ainda que pela via do consumo. Ao criticar o PT, a velha direita é obrigada a engolir sapos e a dar o dito por não dito – pense-se no PSDB e DEM. Mas o PMDB está numa situação completamente diferente: é de direita e faz parte do governo. Pode ter um discurso adequado ao novo conservadorismo e, ao mesmo tempo, reclamar para si os avanços do governo Lula. Só faltou que Vladimir Safatle pusesse a hipótese de que, em alguns anos, o PMDB tomasse o lugar do PT como líder da coligação.

Enfim, estas três palestras identificam o deslocamento para a direita da sociedade brasileira. Mas, devido a tomarem como evidente o que é “classe média” (eu não sei o que é ) não são capazes de compreender efetivamente as causas daquilo que observam!

27 de Fevereiro de 2013 Posted by | Brasil, Ideologia | , , | Comentários Desativados em A ascensão conservadora

Sobre o PT

Muito se tem falado no PT. Mas eu sinto que não se tem posto os pontos nos is. No momento atual do Brasil, os petistas têm razão: só é possível gerir o capitalismo. A pergunta então é: não será a direita mais competente para fazê-lo? O PT crê que não, e segue embalado pelo seu sonho rooseveltiano. Aí têm razão: a longo prazo, o melhor método de salvar o capitalismo dele mesmo é combater a desigualdade. “Pobreza não é mercado”, disse lúcidamente Carlos Slim.

Não obstante, combater a desigualdade a longo prazo tem custos e que só podem ser pagos pelo crescimento económico de curto prazo. Este crescimento têm, por assim dizer, dois motores: (1) o saldo da balança comercial e (2) o défice primário do governo. No Brasil, o crescimento económico de curto prazo só tem um motor. Quem questionar a política errada de superávites primário é tratado como extra-terreste.

O preço a pagar por isto é grande. Com a crise na Europa, o setor industrial brasileiro estagnou. O motor do crescimento fraco crescimento económico foram as exportações de comodities (alimentos) para a Ásia. Neste contexto, o PT de Dilma teve de ceder ao agronegócio e oferecer um ministério a Kátia Abreu. Consequentemente, esta aliança arrastou o PT para a direita de forma impensável há alguns anos atrás. O governo de Dilma, para ter dinheiro para prosseguir o sonho rooseveltiano, é obrigado a aliar-se a um parceiro – o agronegócio – que se opõe a esse sonho.

Depois de ler todos os desejos da Articulação de Esquerda para 2013, vejo que falham no essencial. Todas as medidas são positivas, mas ignoram as condições objetivas que têm levado o PT da social-democracia lulista para a direita liberal. Das duas uma: ou a esquerda do PT põe em causa o mito do superavite primário e cria condições objetivas para romper a aliança com o agronegócio; ou os desejos de um novo ano irão esbarrar sempre nos interesses dos novos aliados.

30 de Dezembro de 2012 Posted by | Brasil, Economia | , , , | Comentários Desativados em Sobre o PT

Partidos e democracia participativa

Ao ler os comentários no Fórum das Gerações, não paro de pensar num livro que tenho ali na estante A disputa pela construção democrática na América Latina (2004). Ele é uma revisão de outro chamado Cultura e política nos movimentos sociais latino-americanos (1999). Ambos tentam escapa-se de um equivoco que hoje pesa sobre a cabeça de muitos portugueses: o equivoco de que a democracia participativa constrói-se contra os partidos.

As pesquisas dos professores da Universidade de Campinas que levaram a estes livros concluem o contrário. Sem um partido empenhado, que transforma por dentro os Estados, espaços como o Orçamento Participativo nunca teria sido criados. Vão mais longe, a qualidade do funcionamento desses espaços depende do empenho dos políticos tradicionais.

Alias, neste sentido parece um erro opor democracia representativa a democracia participativa. Gosto mais do termo de Boaventura Sousa Santos quando se refere a estes temas: inovação democrática. Isto é, não se trata de fazer uma coisa diferente abandonando o que se faz agora. Trata-se pelo contrário, de pegar no que se faz e modificar para fazer melhor.

O que leva os partidos a partilharem o seu poder com a sociedade civil? Os autores são escassos em argumentos, mas isto parece estar ligado à história de um partido específico: o Partido dos Trabalhadores. Os autores apontam de forma pouco trabalhada dois argumentos. Primeiro, uma determinada cultura interna do PT; segundo o facto do partido estar muito vinculado aos sindicatos e dos seus líderes circularem entre os cargos políticos e os cargos na sociedade civil (dirigentes sindicais). Um facto está relacionado com o outro.

Poderá este modelo aplicar-se à Islândia, o caso que tem sido tomado como exemplo a transpor para Portugal? É difícil dizer, mas tendo em conta o que é dito aqui, aqui e aqui parece-me ser acertado afirmar que o Partido Verde foi fundamental para a sua revolução pacífica. Sem um partido interessado em abrir portas à sociedade civil realizando referendos, tudo o que se passou teria sido impossível!

28 de Março de 2011 Posted by | Ideologia, Partidos | , , | 2 comentários

A Dilma e a comunicação social

A relação dos governos petistas com a comunicação é complexa. Já se sabe que os principais meios de comunicação social estão contra o PT. Chegou-se ao ponto do jornal Estado de São Paulo assumir publicamente, e durante a campanha eleitoral, uma posição pró PSDB. TV Globo, o jornal A Folha, etc. fizeram o mesmo, embora sem o tornarem oficial. Tudo isto lhe valeu o apelido de PIG – Partido da Imprensa Golpista – um apelido (em Portugal, alcunha) criado pela esquerda Brasileiro.

No ano passado, foi organizado um conjunto de conferências que culminaram na Conferencia Nacional de Comunicação. Esta conferencia propôs pouco mais do que aquilo que já está estipulado no Titulo VIII capítulo V da Constituição Federal do Brasil. Dada a impossibilidade de analisar as centenas de propostas aprovadas na conferencia, vale a pena citar as mais polémicas e demonstrar que pretendem apenas fazer cumprir as disposições da constituição.

  • Criar um concelho federal e concelhos estaduais de comunicação social. O concelho federal está previsto no artigo 228º da Constituição de 1988 e, não sendo jurista, parece-me racional que os concelhos estaduais se justifiquem como desdobramento do primeiro.
  • Regulamentar os conteúdos emitidos através de radiodifusão, dando carácter obrigatório a programas educativos e outros pertinentes e impedido programas racistas, ou discriminatórias de outro tipo. Trata-se aqui de passar a lei o previsto no inciso 3º do artigo 220º da Constituição e  também do artigo 221.
  • Impor limites a concentração económica da propriedade dos meios de comunicação, isto é, legislar o previsto no inciso 5 do artigo 221.

Posto isto, a Conferência propôs aquilo que está constitucionalmente “previsto”. Pode, é certo, ter sido mais exigente que o necessário nas suas propostas, pode até discutir-se os mais o menos xis-por-cento de uma cota, de um limite, de um financiamento. Mas não há dúvidas: o que está aqui em causa é passar do texto fundamental à lei ordinária.

Vale a pena considerar que a Constituição possa estar equivocada? É um questão legítima. Mas a resposta é dada pela realidade. Sem controlo social, estatal ou burocrático, a comunicação social vira-se para o que dá dinheiro, o que assegura a publicidade, como uma bússola para o norte. Poucos jornais dando as mesmas notícias da mesma forma; eis o resultado da “liberdade” de expressão. Isto é resultado de serem poucos os jornais (como acontece com qualquer outra empresa) que, em livre concorrência podem sobreviver; e para fazê-lo, esses pequeno número de grandes empresas utiliza a mesma estratégia. Portanto, as notícias e o entretimento são enfadonhamente homogéneos.

A liberdade de expressão enferma de falta de diversidade de expressão!!!

No início da campanha, o PT chegou a cogitar avançar com as propostas de Conferência. Lula afirmou, quase um ano antes das eleições, que as propostas da conferência iram ser transformadas em lei. E consta que o programa eleitoral de Dilma Russef chegou a comprometer-se com elas. Mas logo, a Veja liderou uma campanha contra a conferência e o PT deu um passo atrás. A referência à Conferência Nacional de Comunicação foi retirada do programa de Dilma Russeff, e na última semana de campanha eleitora a candidata obrigou-se a repetir o seu compromisso com a “liberdade de imprensa”. E, quando não precisava de ganhar mais votos, no seu discurso de agradecimento ao receber a confirmação da sua eleição, Dilma Russeff repetiu, mais uma vez, o compromisso que agradou às grandes meios de comunicação social.

O sonho ficou ferido de morte nesta campanha eleitoral pela própria Dilma Russeff. Há dois dias, a ala esquerda do PT tentou ressuscitá-lo. Esperança para muitos ou devaneio de alguns? Aguardo desenvolvimentos!

9 de Novembro de 2010 Posted by | Brasil, Imprensa, Sociedade Brasileira | , , | Comentários Desativados em A Dilma e a comunicação social

O PIG contra-ataca

Enquanto a esquerda petista continua em campanha, arremessando argumentos contra os partidos à esquerda do PT que passaram à oposição no dia seguinte às eleições, o Partido da Imprensa Golpista (nome que o PT inventou para os principais jornais do país que fazem política com se fizessem parte da coligação de direita) já passou a outra fase. A bem dizer, somente o PT continua – infelizmente – em campanha eleitoral.

Li hoje num blog da Folha, de um tal de Gilberto Dimenstein, o seguinte: “Passamos toda a campanha ouvindo os candidatos prometerem baixar os impostos. As urnas fecharam e imediatamente vemos os governantes – PT e PSDB – falarem na volta do imposto do cheque para financiar a saúde. Se é para fazer palhaçada, melhor chamar o Tiririca.

Parece que o blogueiro viu uma campanha diferente daquela a que eu assisti. No último debate televisionado, um dos cidadãos brasileiros convidados a colocar perguntas no debate perguntou aos candidatos o que pretendiam fazer acerca de tão elevados impostos. Serra respondeu que nada poderia ser feito sem tomar em conta os compromissos com a despesa. Dilma, por sua vez, falou de um abaixamento de impostos com um vistas a estimular aqueles que continuam na economia informal a formalizarem a sua actividade. Desse modo, [e de acordo com um modelo que presumo que seja econométrico] aumentar a receita com o crescimento do número daqueles que pagam impostos.

Mas o blogueiro segue: “Um dos males de baixa escolaridade brasileira é que o cidadão não faz ideia quanto paga de imposto nem como o dinheiro é gasto. Estamos pagando cada vez mais para bancar a elite do Brasil, composta de funcionários públicos. Com isso, sobra menos dinheiro para os pobres, aqueles que usam o SUS.

O ataque aos funcionários públicos, a defesa da ideia de que o Estado apenas deve garantir direitos aos pobrezinhos, é a defesa da caridade e não da justiça social. É uma postura ideológica de quem não aceita um Estado activo na promoção dos Direitos Humanos e o relega à função de gestor dos problemas do capitalismo. Como ouvi um dia, os direitos sociais têm de ser garantidos pelo Estado para todos. Justiça social não é o rico pagando pela sua saúde; justiça social é o rico pagando impostos para que o sistema de saúde, educação, etc. promovido pelo Estado funcione bem.

Enquanto o PT continua celebrando a vitória, o PIG vai ditando a agenda dos primeiros meses do governo de Dilma…

7 de Novembro de 2010 Posted by | Brasil, Ideologia | , , , | Comentários Desativados em O PIG contra-ataca

Luta de classes no Brasil

Após a eleição de Dilma Russeff, está na hora de passar à oposição. Sem nunca deixar de reconhecer o empenho do Partido dos Trabalhadores, durante os 8 anos de governo de Lula da Silva, em fazer política social, devo reconhecer também que fê-lo sem beliscar os lucros das elites económica e agrária do país. Como o próprio Lula disse, os ricos foram os que mais dinheiro ganharam no seu governo. De facto, Lula pôde juntar sindicalistas e latifundiários no seu governo.

Isso só pôde acontecer porque o seu governo se aproveitou de uma maior demanda de produtos agrícolas (cujo valor cresceu de forma sustentada de 2004) e ao saneamento das contas públicas levado a cabo pelo governo de Fernando Henrique Cardoso. Mas longe de mim afirmar que FCH fez as reformas e Lula surfou na onda porque a onde foi soprada por ventos fora do Brasil: o crescimento económico da China, a transformação de açúcar em gasolina, o desmantelamento das políticas agrícolas na União Europeia e EUA, e a alteração dos mecanismos de formação de preços da soja (particularmente), do milho e do trigo… Sem demérito para a capacidade de reinvestimento do governo de Lula, é um erro crasso não ver a importância que a conjuntura internacional teve para o seu sucesso.

A crise na Europa coloca as coisas em outros carris. E não adianta nem insinuar que a crise já passou, a crise não é coisa do passado. Ora, embora a crise não afecte directamente o Brasil  – até porque as exportações brasileiras têm crescido à custa da Ásia e dos países vizinhos da América do Sul – ela abranda a competitividade das exportações pela valorização do real. Neste sentido, Dilma chega ao governo em condições totalmente distintas de Lula (agravadas pela falta de talento da nova presidente para falar em público). E, mais, ela não se poderá esquivar a tomar medidas para fazer face a esta situação logo nos seus primeiros meses de governo. As opções são simples

  • Basear o crescimento da economia brasileira no mercado interno, como pretende Lula, levando a sério suas declarações, tendo para isso que enfrentar-se às relações de poder existentes no país. Ou seja, o PT terá de tomar partido e abandonar a sua estratégia de coligação ampla.

Sem dúvida estamos perante uma luta de classes que vale a pena acompanhar. Até porque o debate eleitoral nos deixou no escuro nesta e noutras questões.

1 de Novembro de 2010 Posted by | Brasil, Economia | , , | Comentários Desativados em Luta de classes no Brasil

Silêncios do PT de Dilma

“A Dilma pode não ser o governo dos nossos sonhos; mas o Serra é certamente o governo dos nossos pesadelos”. Com esta frase se resume tudo o que há a dizer sobre a campanha eleitoral brasileira. Os candidatos disputam quem vai construir mais estradas, escolas técnicas e hospitais (pré-fabricados). É uma guerra de números que se esquiva ao debate de questões fundamentais do país. Logo, não é possível distinguir os candidatos senão pelos políticos da ditadura que ressuscitaram para apoiar José Serra. Somente por essa razão, a Dilma tem o voto de muita gente.

Os feitos do governo Lula são de fato notáveis. Em parte foi sorte. O preço internacional dos produtos agrícolas, que o Brasil exporta, subiram sustentadamente desde 2004. Devido ao crescimento económico da China; devido à alteração das políticas agrícolas nos EUA e na Europa; devido ao seu emprego (em particular do açúcar) na fabricação de combustíveis; e, finalmente, devido a alterações nos mecanismos de formação de preços de alguns produtos. Hoje o preço internacional da soja, do trigo e do milho dependem mais de jogos na bolsa do que da quantidade produzida naquele ano.

Em parte foi mérito. Se Lula teve sorte com a conjuntura económica internacional e com a herança (um Estado com as contas organizadas) que recebeu de Fernando Henrique Cardoso, teve o mérito de saber investir o dinheiro. Reunindo em torno de si os melhores especialistas do país, criou programas de distribuição de riqueza que representaram um combate à pobreza sem precedentes. Catorze novas universidades democratizaram o acesso a educação.  De fato o PT fez muito pelo país!

Mas como seria um governo PT à frente de um Brasil com dificuldades para exportar?

Isso é o que esperamos ver nos próximos quatro anos. A crise na Europa está a ter as suas consequências. As exportações desvalorizaram-se em 30% somente devido à alteração do cambio do real em relação ao dólar e ao euro. Com a redução do consumo nos países “desenvolvidos” o impacto nas exportações brasileiras será ainda maior. E, como todos as projecções apontam, espera-se no próximo ano uma nova recessão na europa.

Como irá Dilma (ou Serra) almofadar tal quebra de recursos?

Existe uma tendência maioritária – que coincide em parte com a base da candidatura de José Serra – que afirma que o governo deve tomar medidas para impedir a “valorização excessiva” do real. Percebo pouco de economia, mas que fazer quando o problema não está no Brasil? Será possível fazer outra coisa que não absorver parte do desastre económico da Europa?

A outra tendência, marginal, afirma que a solução está em estimular o consumo interno. Esta tem dificuldade em mostrar-se, mas fica a impressão que é liderada por pessoas ligadas ao governo de Lula (uma hipótese a confirmar). A redução da desigualdade interna é o meio para manter o crescimento económico. Aliás, como Merkel recomendou há meses atrás.

Entretanto as duas campanhas evitam falar sobre estes assuntos. É impossível saber o que esperar destes dois candidatos em relação a esta matéria.

27 de Outubro de 2010 Posted by | Brasil, Economia | , , | Comentários Desativados em Silêncios do PT de Dilma