Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Trump e a geopolítica

Não é fácil resumir o que penso sobre Trump, antes pelo contrário. Poderia dizer que ele não vai mudar nada e, ao mesmo tempo, vai mudar tudo. Não vai mudar nada por três razões. Primeiro, como marxista, sei bem que um Presidente tem os seus poderes muito limitados. O seu papel é colocar os pontos nos iis (como dizia Hegel). Isto é, as verdadeiras decisões surgem na luta de classes ou – em termos liberais – como compromissos possíveis entre os diferentes grupos de interesse, tendo em conta o poder relativo de cada grupo. No entanto, tais decisões são executadas com menos resistência dos perdedores quando escondem a sua verdadeira natureza, isto é, quando surgem não como resultado desse confronto na sociedade civil, mas antes enquanto decisão arbitrária de um indivíduo legitimado para tomá-la. Logo, uma mudança de Presidente no hegemon da ordem mundial existente não implica, imediatamente, mudanças geopolíticas de fundo, dado a capacidade limitada de um indivíduo, seja quem for.

Em segundo lugar, como muita gente lembrou após a sua vitória eleitoral, os EUA têm (em teoria) uma Constituição forte e feita para limitar os poderes do seu Presidente. Boa parte do poder de Estado está em cada um dos Estados da federação e no Congresso. Trump terá pouco espaço para grandes mudanças. Em terceiro lugar, as propostas radicais de Trump, afinal não o são. Obama foi o Presidente que mais deportou e o muro na fronteira com o México está em construção há muito tempo. Não se trata apenas de considerar que o governo de Trump está amarrando a constrangimentos sociais e institucionais, mas também notar que (como afirmou Zizek) a sua linguagem ordinária serviu apenas para mascarar um programa que nada trouxe de extraordinário e novo.

Se Trump pode mudar tudo, apesar do pouca margem de decisão que o presidente eleito, enquanto indivíduo, tem é porque Obama soube usar a sua para mudar radicalmente o tabuleiro geopolítico. Os seus efeitos podem parecer parcos; no entanto, ele inverteu uma tendência com quase 20 anos. Essa tendência foi o tema de um livro de Giovanni Arrighi. Segundo ele, o boom econômico da década de 1990, causado pela especulação imobiliária, escondeu o abrandamento do dinamismo da maior economia do mundo. E essa performance econômica decepcionante deu origem a uma tendência de perda gradual da sua influência geopolítica a partir do ano 2000.

W. Bush quis recuperar a economia e o status do país tirando partido do seu papel de polícia do mundo. Para explicar o que está em jogo, Arrighi contrapõe a guerra do Golfo à invasão do Iraque. Em ambos os casos, os EUA colocaram tropas no Iraque e, cerca de um ano depois, promoveram uma ronda de negociação com países amigos para pedir apoio financeiro à empreitada. Mas o significado dessa ronda de captação de recursos foi inteiramente distinta de um caso para o outro. No primeiro caso, a intervenção militar foi uma ação decidida por todos os parceiros: o mais forte, isto é, com mais capacidade militar, agiu e, depois, dividiu a conta pelos sócios. No segundo caso os EUA atuaram como literalmente como polícia: não apenas decidindo unilateralmente onde e quando intervir, mas também procurando instituir a obrigatoriedade da contribuição (uma espécie de imposto) para os países ricos. Ou seja, a saída encontrada por W. Bush para o declínio econômico passava, portanto, por colocar tropas ao redor do mundo e cobrar aos demais países pela segurança que isso garantia – claro, com enormes proveitos para a sua indústria bélica.

O resultado da segunda guerra do Iraque, herdado por Obama, foi desastroso. O apoio dos países ocidentais à guerra foi pouco mais que formal; a contribuição financeira ficou muito abaixo das expectativas. Assim, em vez de se apresentar como uma solução para o declínio econômico do hegemon mundial, a guerra do Iraque, com seus custos exorbitantes, acelerou-o. Prova disso foi o aumento dos preços de todas as matérias-primas no mercado mundial a partir de 2004, puxado pela elevação do preço do petróleo. No período, surgiram muitas explicações para esse crescimento do preço do crude, como, por exemplo, o aumento da demanda chinesa, a instabilidade política no Oriente Médio e o famosos pico de Hubbert. Recordo, no entanto, de ter lido uma explicação alternativa. Não era o petróleo que valorizou, mas o dólar que desvalorizou. A eclosão da crise em 2008 só veio acelerar uma tendência de desvalorização das economias ocidentais, patente na valorização das suas importações (matérias-primas), que não pode ser desligada da desvalorização correlativa das suas exportações.

Obama pareceu mais preocupado com a política interna do que externa, aceitando as regras do jogo pelo menos entre 2009 e 2014 (isto é, até aos dois últimos anos do seu mandato). Iniciou a retirada do seu exército do Iraque. Não me parece que a sua intervenção tenha sido determinante para iniciar os golpes palacianos que ocorreram na América Latina durante os seus governos nas Honduras; no Paraguai e no Brasil. (Devo reconhecer que não conheço bem os acontecimentos ocorridos no Paraguai e que, nas Honduras, o desfecho teria sido outro sem a intervenção da Casa Branca. Quanto ao Brasil, embora não duvide do financiamento norte-americano aos movimentos pró-impeachment, não o considero relevante para explicar o curso dos acontecimentos.) Como tal, viu crescer dois adversários geopolíticos sentados em cima de reservas energéticas: Hugo Chavez, Vladimir Putin e Kadafi.

As relações de Moscow com Berlim tornaram-se perigosas para o futuro da União Europeia e para os interesses da Casa Branca. Putin contruíu dois gaseodutos entre o Oriente Médio e a Europa, fazendo da empresa estatal russa Gazprom o principal fornecedor de gás natural à Europa; mais, ofereceu parte do capital da empresa a um grupo de investidores alemães para estimular o interesse dos europeus no negócio. Um site de esquerda, dedicado à geopolítica, anteviu o fim da União Europeia. A Alemanha, cada vez mais voltada para Moscow, tarde ou cedo, entraria em rota de colizão com os interesses atlânticos da França e Inglaterra.

Nesse contexto, Obama agiu! E fê-lo de forma inteligente e inesperada. Primeiro, aproveitou os protestos dos jovens egípcios, em 2011, e estendeu-os a outros países como a Síria e a Ucrânia, por forma a atrasar os negócios de Putin. Assim, os serviços secretos norte-americanos garantiram dois anos à Casa Branca para mostrar a sua maestria político-econômica. Primeiro, reduziu a quase zero as importações de petróleo, graças à duplicação da produção doméstica de petróleo e de energia a partir de xistos betuminosos; depois, pôs fim ao embargo ao Irão, aumentando drasticamente a produção mundial. Assim, esta redução importante da procura (os EUA continuam sendo o maior importador mundial de petróleo) e aumento espetacular da oferta fez cair o preço do barril de mais de 100 dólares para menos de 40. De uma só paulada, Obama matou dois coelhos. Por um lado, passou boa parte da crise econômica do capitalismo do centro para a periferia. A tímida recuperação de Portugal em 2015 (aqui também), bem como o caos econômico que se vive no Brasil, pode ser atribuída a isso. Por outro, deu um rude golpe na economia de dois adversários geopolíticos: a Venezuela e a Rússia.

As declarações do candidato Trump acerca da NATO mostram um regresso à estrategia de W. Bush, quer dizer, à pressão sobre a Europa para pagar os custos do policiamento do mundo. Mostram que ele não entendeu a estratégia de Obama (mas , à primeira vista, Hillary tampouco). E isto ocorre em um momento que a Rússia dá passos firmes para voltar a elevar o preço do petróleo. Por isso, tudo me leva a crer que o novo presidente dos EUA irá desfazer tudo o que o seu antecessor fez e recolocar a hegemonia do país sobre o resto do mundo na trajetória descendente que conhece desde os anos 2000.

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Algumas notícias sobre pontos a verificar no futuro:

Trump could send a shockwave through natural gas markets

The largest oil deposit ever found in America was just discovered in Texas

Merkel oferece a Trump colaboração e mais gasto militar

13 de Novembro de 2016 Posted by | Economia, Mundo | , , , , | Comentários Desativados em Trump e a geopolítica

Porque a Europa não resolve a crise na Síria?

Não se entende o que se passou ontem em Paris sem falar da guerra civil síria. O clima anti-democrático que se vive no Médio Oriente, e também na Síria, explica alguma coisa. Mas muito pouco, porque a Síria é (ou era) o país mais secular e democrático da região. Quando a Primavera Árabe, em 2011, chegou à Síria, muitos foram surpreendidos e alguns apontaram o dedo à CIA. A evolução da guerra civil síria, em 2012, deixou clara a mão norte-americana no processo. Obama chegou a propor ajuda militar às guerrilhas que combatiam Al Assad; mas o Congresso recusou-se a aprovar o envio de armas a xiitas que haviam pertencido à Al Qaeda. (A Al Qaeda desapareceu com a invasão do Afeganistão; mas as suas unidades subsistem de forma desarticulada.)

A oposição síria não contou com a ajuda direita dos EUA; mas a indirecta, através de Israel e da Arábia Saudita, não faltou. Sabe-se que a denúncia do uso de gás sarin, pelas tropas de Al Assad, em julho de 2012 foi plantada pela Mossad numa estação de rádio alemã. (Eu, fica a nota, estou convencido que foram os rebeldes a disparar o míssil. Por duas razões. Primeiro, porque já o tinham feito em março; a ONU denunciou-o, mas não encontrou eco na imprensa. Depois porque os supostos que levaram os comentadores encomendados pela CNN para atribuir a autoria do atentado ao governo foram todos desmentidos pelas análises balísticas do MIT. O MIT, contudo, chegou apenas à conclusão de que não podia atribuir a autoria a ninguém.)

Os interesses dos EUA na região vão além do controlo da energia. Isso ficou claro com o golpe de Estado na Ucrânia. Putin estava a usar o negócio do gás natural para atrair a Alemanha para o seu lado no xadrez geopolítico. Aproximou-se de Gerhard Schröder e vendeu uma parte da GazProm a investidores alemães para que os interesses russos passassem a coincidir, pelo menos em parte, com os alemães. Além disso, problemas técnicos na Turquia levaram ao abandono do gasoduto franco-americano, deixando a Europa dependente da GazProm para o seu abastecimento em gás natural. Criar problema e até mudar os regimes nesses países de passagem do gás e do petróleo do Médio Oriente para a Europa, então amigos de quem lhe pagava mais (Putin), foi a estratégia dos EUA para evitar o casamento entre Berlim e Moscovo.

Entretanto, uma jogada mais fundamental se preparava em Washington: o desenvolvimento de tecnologias e políticas de subsídios para produzir energia a partir de xistos betuminosos. Com isto, os EUA deixaram de importar petróleo no final de 2014, produzindo uma quebra no preço do barril de crude de 120 dólares (em junho de 2014) para 40 (em março de 2015), deixando a Rússia e, muito em particular, a GazProm, em maus lençois. Os capangas, arregimentados pelos EUA, foram dispensados. Os ucranianos tinha chegado ao poder e Merkel encarregou-se de os proteger. Os sírios ficaram soltos e transformaram-se no ISIS. Ficaram, não obstante, dominando um território com recursos suficientes para se manter sem apoio daqueles que, até há pouco tempo, os financiaram. O resto ainda está na memória e foi muito mais publicitado: destruição, assassinatos, etc. Não apenas entre a Síria e o Iraque, mas também fora. Agora em França.

Daí a dificuldade do Ocidente em atacar o ISIS. Derrotar o ISIS será fácil como apoio do exército sírio… Mas isso seria reforçar a posição geopolítica da Rússia. Outra solução complementar é apoiar o exército curdo. No entanto, isso seria fortalecer a sua luta pela conformação do Curdistão (promessa de Roosevelt, Churchill e Stálin no final da II Guerra Mundial), subtraindo territórios ao Iraque e (eis o problema:) à Turquia. Vale notar que PKK (Partido Comunista Curdo cujo braço armado é o exército curdo), até há poucos anos, era considerado uma organização terrorista pela Casa Branca. Mais: para escândalo de vários países da Coligação contra o Estado Islâmico, a Turquia bombardeou posições do exército curdo, a quem os EUA lançam armas do céu, dizendo que também eles são terroristas.

Ou seja, vencer o antigo capanga dos EUA é fortalecer inimigos geopolíticos do ocidente.

14 de Novembro de 2015 Posted by | Mundo | , , , | 1 Comentário