Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

A folha de excel do FMI

Pela segunda vez, uma folha de excel é notícia. O que indica que a política não é mais digna desse nome – foi reduzida a simples gestão. Mas só aparentemente. A política agora é feita de outro modo. Dadas as opções A e B, quando se deseja seguir em frente com a A, o melhor é gerar todo o debate em torno da má fundamentação da opção A. Ora, dada a necessidade de recolocar a economia a crescer, a única solução apontada é baixar salários. São discutidos os erros técnicos na fundamentação dessa opção, mas não as alternativas. A conclusão é inevitável: pese aos factos, there is no alternative.

Às vezes aparece uma alternativa B. Alguém diz que os custos de contexto são menos competitivos que os custos salariais; se o objetivo é fazer a economia crescer, o melhor é atuar aí.  (E eu lembro de uma certa prioridade do FMI e da CIP em reduzir os custos da energia elétrica, cujo preço é definido pelo governo, esquecida depois da terceira visita da troika). No Facebook, alguém me disse que as condições do empréstimo da troika à Grécia, cujos juros foram definidos a 1%, permitiriam um corte na despesa do Estado igual aos 4 mil milhões de euros previstos pelo Estado. Ao contrário do despedimento dos funcionários públicos, o corte por esta via não implica a redução das vendas dos cafés, das papelarias e dos centros comerciais, isto é, não implicaria o agravar do decrescimento.

Mas para aplicar a opção A devemos só debater as suas virtudes e, principalmente, os seus defeitos. O debate há-de gerar suficiente ruído para esconder a hipótese B, C e, porque não, talvez uma D!

30 de Agosto de 2013 Posted by | Economia, Portugal | , , , | 1 Comentário

A briga da troika

Na véspera da greve geral, a troika reuniu com a banca. À saída da reunião, Ricardo Salgado lamentou a notável descoordenação da troika. A crise interna da troika não se limita a Portugal; ela está igualmente dividida acerca do que fazer com a Grécia. Costuma-se associar o FMI aos interesses da Goldman Sachs, um banco de investimento que tem tudo a ganhar com as privatizações das empresas públicas. Sendo verdade não é suficiente. Os interesses da Goldman Sachs estão mais do que satisfeitos, tendo a Comissão Europeia (leia-se banca franco-alemã) mais do que espaço para impor os seus.

Uma outra leitura é que o FMI representa o ponto de vista norte-americano e a troika faz eco do debate entre CE e EUA no G20. Enquanto que a Europa centra a resolução da crise na redução do défice público; os EUA e agora o G20 e o FMI colocam o tónica no crescimento económico. A recente discussão acerca dos “multiplicadores” é apenas o atual ponto quente deste debate (ver aqui as posições do FMI e da CE). Outro ponto é relativo ao perdão da dívida pública grega. O Presidente do Bundesbank afirmou que a recomendação feita, nesse sentido, pela troika é de objetividade duvidosa. As opções são mutuamente exclusivas, pois, as políticas que visam a redução do défice geram decrescimento e, por outro lado, não há melhor forma de promover o crescimento que aumentar o défice público. Com uma boa gestão de moeda, a dívida interna não é um problema (até porque se faz dinheiro a partir do nada, nos bancos com a alavancagem financeira). A dívida externa, pelo contrário, é difícil de gerir. E, ao mesmo tempo, indica que o país importa boa parte do que consome. Portanto, é bem provável que o défice público esteja a gerar crescimento… em outro país.

Assim sendo, só quem tem défices externos sigificativos tem interesse em dar mais atenção às contas públicas que ao crescimento. Não obstante, estamos na situação inversa. Não havendo défice externo no conjunto da Zona Euro, o BCE e a CE tornaram-se os falcões da austeridade. De modo inverso, os EUA investem tudo o que podem no crescimento pese o seu défice externo. O que explica isto? Em parte, a ideologia (no sentido estrito e técnico do termo); em parte o papel do dólar no mundo. Nos desequilíbrios externos dos EUA são geridos pela política monetária; os internos pela política fiscal (por exemplo, Estados ricos como o Texas financiam estados pobres como Nevada). Mas, na Zona Euro, o desequilíbrios internos aparecem como externos e se, por um lado, é inviável usar a política monetária para geri-los, por outro, parece impensável usar a política fiscal (por exemplo, os impostos da Alemanha para financiar o sul da Europa). Em outras palavras, impedidos de usar quer a política monetária, quer a política fiscal para resolver o seu défice comercial, os países do sul da Europa são obrigados a recorrer a uma dura austeridade pouco ou nada eficaz. Por seu turno, a existência de um défice comercial nos EUA não é problema. O resto dos países do mundo financiam, querendo ou não querendo, esse défice porque precisam de ter dólares na mão para comprar petróleo. E a melhor forma de “ter dólares” é comprar títulos de dívida pública norte-americana.

Ou seja, a realidade concreta inverte o que era teoricamente esperado. De qualquer modo, isto não explica a posição do FMI. Podemos resumi-la na seguinte fórmula: do ponto de vista do “mundo” não há défice da balança comercial (pelo menos teoricamente). Portanto, todo o problema é o crescimento económico. E, neste momento, a Zona Euro em nada está a contribuir para o esforço de retoma iniciado pelos EUA (a quem devemos boa parte do ténue crescimento dos últimos anos). E, obviamente, o lobby norte-americano, desejoso de dividir o fardo do crescimento económico, reforça as convicções do FMI.

26 de Novembro de 2012 Posted by | Economia, Mundo | , , , , | Comentários Desativados em A briga da troika

A banca é sempre o primeiro interesse da fila

Quando li as notícias acerca da sexta revisão da troika, até pensei que Victor Gaspar tinha ressuscitado o programa eleitoral de Passos Coelho: cortar o Estado social para reduzir a carga de impostos. É certo que os impostos estão a asfixiar a economia portuguesa – como os números do desemprego provam. Mas não é disso que se trata. Pois apenas 15% dos nossos impostos irão, em 2013, para o Estado Social. A grande fatia do bolo vai para a gestão da dívida pública, isto é, para os bancos. E nem vale a pena pensar em resultados a médio prazo enquanto o crescimento económico (-3% em 2012) não superar a taxa de juro da dívida pública (5% em média para o mesmo ano). Vê-se por aqui que a estratégia de Passos Coelho não é lógica, mas ideológica.

Se algum benefício pode encontrar-se na redução do Estado social (um benefício quase 7 vezes maior se encontra na renegociação da dívida pública), está em estimular o crescimento económico. Não obstante, o Estado português continua a dar aos mesmos. Depois de semanas a falar na redução da despesa do Estado, Passos Coelho vai a Bruxelas propor um corte nos juros dos empréstimos que o Estado cedeu à banca. Com a justificação de que é preciso ceder crédito às PME’s (então para que serve o suposto banco de fomento a ser criado?), o governo prepara-se para perdoar 380 milhões de euros à banca em 2013. Eis o destino do dinheiro a ser poupado pelos cortes em saúde, educação e pensões de reforma.

De qualquer modo, aqueles que esperavam ver os impostos sobre a classe média baixar o próximo ano… desenganem-se. Há outros interesses na fila.

20 de Novembro de 2012 Posted by | Economia, Portugal | , , , , | 3 comentários

O miserável PS II

Ontem, não sei porquê, passei o dia convencido que a reunião da Comissão Política Nacional do Partido Socialista era hoje. Mas não, foi segunda-feira passada. Os resultados são absolutamente contraditórios. Por um lado, o PS diz que está preparado para governar. Por outro, volta a trás, e mostra-se disponível para dialogar com o PSD acerca dos cortes no Estado Social. Um verdadeiro ‘vamos a ver’ (uma quase abstenção violenta) substituiu o redondo não da véspera.

Se, como eu sonhei ontem, a reunião fosse hoje, as declarações de segunda-feira seriam preparatórias! Sendo, na verdade, conclusões da reunião, então a montanha pariu um rato. Ao preparar-se para dar o dito por não dito acerca do Estado social, mais uma vez, Seguro é o arame que ainda segura o governo. Ou, como parece ter dito João Salgueiro na Sic Noticias, “este governo só não cai porque ninguém quer ir para lá!”.

De qualquer modo, a afirmação de que o PS está preparado para governar, é igualmente sinal que a direção do Partido “Socialista” têm cada vez menos capacidade de segurar as suas hostes que desejam derrubar o governo. Aqui a bancada parlamentar, escolhida por José Sócrates, tem sido a fonte de oposição interna às manobras conciliadoras da direção. (Vale sempre lembrar que, depois de um mês de setembro de dura contestação ao governo, José Seguro lançou a ideia de reduzir o número de deputados. Uma isca para que a esquerda atacasse o PS e desse uma folga ao governo. Mas, logo de seguida, o líder da bancada parlamentar veio sabotar a estratégia). Por quanto mais tempo Seguro pode segurar esta situação?

É óbvio que não convém ao PS ir a eleições agora. Nada pior que ser eleito contra a troika (isto é, no bojo da contestação social de uma manifestação com o lema “Que se lixe a troika! Queremos as nossas vidas de volta”) e depois ter de governar com a troika. Nada pior que um partido que se “distingue” pela defesa do Estado social (na teoria, não na prática) ter que implementar a destruição do Estado social (a troika acaba de chegar a Portugal para fazer os seus estudos, mas o calendário de cortes, segundo este vídeo, será apresentado apenas em fevereiro). De qualquer modo, o PS tem de cumprir a sua função como partido: não pode assistir à degradação do PSD impávido e sereno sem ver igualmente deteriorada a sua credibilidade. Tem – e as suas hostes começam a exigi-lo – de fazer qualquer coisa!

Também é óbvio que às elites não interessa eleições. Uma campanha eleitoral tem sempre custos e de dois tipos: o financiamento dado pelas empresas aos partidos e, mais importante, a instabilidade social gerada pela campanha eleitoral. Por estas razões, na noite de 6 de junho de 2011, Van Zeller afirmou que seria bom para Portugal que o governo durasse os quatro anos devidos. (Carvalho da Silva riu-se). Não obstante, a política do governo está a gerar uma instabilidade social muito grande. Está na hora de medir os “custo de oportunidade”. Espero que a greve geral daqui a uma semana dê um empurranzinho.

7 de Novembro de 2012 Posted by | Partidos, Portugal | , , , , | Comentários Desativados em O miserável PS II

O miserável PS

Venho defendendo que sem o PS não se deita o governo de Passos Coelho abaixo. Não se vaga a cadeira do trono sem que o pretendente mostre nela interesse. Não obstante, tampouco se derruba este governo com este PS. Por outro lado, também acredito que a queda do governo agora meteria o Partido Socialista numa camisa de onze varas. Eleito agora, José Seguro seria o representante de um momento que foi aberto por um “Que se lixe a troika!”. O líder do PS, uma vez no governo, teria de optar entre abandonar o memorando ou abandonar os seus eleitores. Sendo inevitável a segunda opção, Seguro arriscava-se a destruir e PS e, com ele, o sistema de alternância no poder com que a elite entretém a povão.

Por esta razão interessava à esquerda a sério que o governo caísse. Obviamente, o principal interessado em não deixar cair o governo é o PS. Por isso buscaram formas de levar o PS ao governo sem passar por eleições: seja por iniciativa presidencial, como propôs Soares; seja por iniciativa do próprio Passos Coelho, como propôs Jardim Gonçalves; ou mesmo com a criação de uma estrutura de coordenação informal (fora do governo) com PS, PSD e CDS, como propôs Sampaio. Não obstante, no momento em que este governo esteve há beira do precipício, Seguro afirmou que só iria para o governo com eleições. No momento em que Passos deu um passo atrás (com o recuo da TSU), e que o PS se viu na situação que apontei no primeiro parágrafo, Seguro foi obrigado a defender o governo. Primeiro recusando eleições antecipadas, depois pondo-se a jeito das críticas da esquerda (de modo a que elas não se dirigissem a Passos Coelho), e finalmente postergando a queda de Passos para depois das eleições autárquicas. E o João Proença, com os seus avanços e recuos em torno das greves gerais, fez até a proeza de arrancar elogios ao lambe-botas do Camilo Lourenço.

Isto tudo me levou a defender que a esquerda devia ignorar o PS, e criticar o PSD. Isto não implicava, de modo nenhum, passar uma borracha sobre a responsabilidade dos socialistas na crise – erro no qual escorregaram o BE e o Congresso das Alternativas (ver aqui também). Ignorar a sua existência seria o suficiente. Bloquistas e comunistas deviam empenhar-se em oferecer um presente envenenado ao PS: um governo antes do Natal.

Mas hoje tudo muda. Depois da dupla machadada que Passos deu no governo, somente Seguro segura o PSD no governo. Primeiro, se Passos Coelho afirma que é necessário refundar o memorando de entendimento com a troika, então ninguém hoje em Portugal acredita que o memorando atual funciona. Consequentemente, a proposta de Orçamento de Estado que dele deriva tampouco vai funcionar. Passos Coelho dá assim argumentos à oposição para rejeitar o OE. Segundo, depois de Paulo Portas ter preterido o partido em função do governo, o PSD pretere um governo em função do partido. Antevê-se abalos na coligação já nos próximos dias. Obviamente, o bombeiro Seguro tinha de vir em socorro do governo. Em vez que exigir de Passos consequências políticas, exigiu explicações semânticas. Em vez de obrigar o Primeiro-Ministro a explicar se pretende igualmente refundar o Orçamento de Estado – o qual o PS já afirmou estar contra – , veio perguntar o que ele entende por refundação.

Neste momento é urgente dizer: Passos fez tudo para o governo cair; só José Seguro é que não deixou.

28 de Outubro de 2012 Posted by | Economia, Partidos, Portugal | , , , , , | 4 comentários

A direita acantonada

O Conselho de Estado confirma o acantonamento de burguesia para evitar uma crise política. É preciso, não obstante, ter claro: a burguesia está longe de ter resolvido os seus problemas. O défice deste ano deve-se menos ao descontrolo da despesa do que à péssima performance da economia nacional. Assim, os malabarismos da TSU eram uma forma de financiar o crescimento económico à custa de um salário dos trabalhadores.

O recuo na TSU é só aparente – ou uma manobra, como afirmou o PCP (ver aqui também). O financiamento do crescimento económico é, para os credores internacionais, indispensável. Se os empresários até gostariam de ver essa medida aplicada, preocupa-os o modo como ela é financiada. No fim de contas, será sempre exigido, pela troika, uma medida de financiamento ao crescimento à custa dos trabalhadores. Se por um lado parece indispensável, por outro poderá sair pior a emenda que o soneto com a quebra esperada no consumo. De qualquer modo, é previsível que a descida da TSU para as empresas não seja posta em discussão. O que será discutido é como financiar essa perda de receita do Estado. (Merece ser lembrada a proposta da troika: aumentar o IVA, colocando tudo a 23%, o que certamente será insuficiente, e exigirá ainda outro aumento do IRS).

O recuo da TSU é uma não-solução. O governo deixa tudo em aberto sobre como vai financiar o crescimento económico. O PS canta de galo e sai de cena. Agora, o corte equivalente (do salário dos trabalhadores?), que exige a troika, será discutido por debaixo dos panos – em “concertação social”, como diz o comunicado do Conselho de Estado. O recuo na TSU é apenas uma solução para acalmar as massas. A UGT, que há uma semana atrás defendia uma greve, hoje parece contentar-se com o humilde recuo de Passos Coelho. E até Carvalho da Silva se arrisca a cantar vitória antes do tempo e a, sem o desejar, distrair as massas.

Tudo foi feito para baixarmos os braços!
Esconderam o pau que daqui a um mês nos cairá nas costas.

22 de Setembro de 2012 Posted by | Economia, Portugal | , , , , | Comentários Desativados em A direita acantonada

O discurso (esclarecedor) de Portas

Ainda muita água vai rolar. E só poderemos entender o que está por detrás desta disputa em torno da TSU depois de vermos todas as suas consequências. O  contexto é claro: se, com o supressão dos subsídios de natal e de férias dos funcionários públicos, Victor Gaspar conseguiu controlar a despesa do Estado, o crescimento económico pífio – com impacto nos impostos arrecadados – abriu o buraco no défice. De repente, o problema voltou-se para o crescimento económico e desemprego.

As medidas em cima da mesa foram três. Por parte do FMI defendeu-se a desvalorização dos salários que, entre outras coisas, incluía a redução da TSU (ver aqui também) para as empresas. Segundo esta notícia (ver PDF incluso), a redução da TSU foi, em outros casos, compensada pelo aumento do IVA. A CGTP e a CIP defenderam a simples redução da austeridade. Na medida em que há uma relação entre défice público e crescimento, a redução excessiva do défice seria a principal causa do descrescimento. Abrandando essa redução, poderiamos, em teoria, voltar a crescer. Mais radicais foram o PCP e António Costa que defenderam mesmo a ajuda do Estado á contrução civil. De facto, foi posto em marcha, por este governo, a transição de uma economia puxada pela contrução civil para uma economia assente nas exportações. No entanto, os exportadores, apesar dos seu bons resultados, partem de um patamar muito baixo para ocupar imediatamente a posição do setor da construção e imobiliário. Consequentemente, é preciso suavizar a “retirada” do deste setor.

Independentemente do grau de acerto destas três posições, estamos de facto frente a uma dicotomia. Para os credores de Portugal, os trabalhadores podem custear o crescimento económico. Para os empresários portugueses – Belmiro de Azevedo expôs isso claramente – os trabalhadores são também consumidores. Portanto, a quebra do consumo esperada elimina o benefício da poupança com a redução da TSU. Melhor seria o Estado aceitar um défice mais elevado. Enfim, melhor seria o Estado – e não os trabalhadores – a arcar com os custos do estímulo ao crescimento. Portanto, a elite económica portuguesa polariza-se entre retirar salarios aos consumidores versus permitir o crescimento do défice. (Falarei das PPPs no próximo post).

O discurso de Paulo Portas confirma a minha hipótese. Ao mesmo tempo que afirma que não ter bloqueado a proposta da TSU para não abrir uma crise nas negociações com a troika, espera agora que o governo (e a troika?) volte(m) atrás. Do mesmo modo, Maria João Rodrigues (no Público de 16-9-11, p. 6) afirma que a alternativa ao aumento da TSU para os trabalhadores é “tirar partido das mudanças que ocorreram recentemente no quadro europeu”, isto é, negociar com a CE e o governo alemão menos austeridade.

Entretanto multiplicam-se as cedências e exigencias dos dois lados (ver a mudança de opinião do Banco de Portugal aqui e aqui). A CE e a troika parecem estar disponíveis para encontrar alternativas à subida da TSU para os trabalhadores. Mas parecem não querer voltar atrás na redução da TSU para as empresas (ver aqui e aqui também). E não é muito claro como o governo pode encontrar soluções para cubir a redução da TSU para as empresas sem afetar o consumo (ver aqui também; aqui a posição da CIP contra o aumento do IVA).

18 de Setembro de 2012 Posted by | Economia, Partidos, Portugal | , , , , , , | Comentários Desativados em O discurso (esclarecedor) de Portas

15s, primeiro comentário

Está cada vez mais claro para mim que a relação dinâmica entre as classes sociais depende da relação igualmente dinâmica entre as frações de cada classe. Assim, se hoje temos centenas de milhares de pessoas protestando (ver aqui e aqui também) contra o governo, isso deve-se ao fato de a classe burguesa ter-se cindido (com consequências nas declarações do PS e do CDS), e as classes trabalhadoras estarem temporariamente unidas. Essa divisão intra-elitária funciona hoje, de modo mais ou menos semelhante à divisão do mundo entre os EUA e a URSS durante as décadas de 1950 a 1980. Independentemente da realidade concreta existente do outro lado do Muro, a existência de dois polos de poder é o melhor antídoto para qualquer teoria das inevitabilidades. Assim, rompido o consenso entre as elites política e económica portuguesa, era evidente que a teoria da inevitabilidade com que Passos Coelho tem governado naufragaria.

Portanto é necessário pensar como as elites política e económica se dividiram. Pode dizer-se, referindo-se, às aparências que o PS se aproximou do PSD nas sondagens. Mas isto é apenas o outro lado da questão: porque os portugueses começam a desconfiar da teoria das inevitabilidades de Passos Coelho, e continuando amarrados ao sistema bipartidário das democracias ocidentais, voltam-se para José Seguro.

Para entender porque a elite se dividiu é preciso voltar às razões da queda de José Sócrates. Como expliquei aqui, a aliança banca + construção civil governou os destinos do país desde o primeiro governo de Cavaco e Silva. Eles fizeram crescer o país até, mais ou menos, o ano de 2004 e, depois, apenas se puderam manter no poder à custa do endividamento do Estado. A crise deu um golpe fatal e os outros capitalistas não estiveram dispostos a sustentá-los através de seus impostos. Com apoio da banca europeia (bem representada pela Comissão Europeia e pelo governo alemão) impuseram um governo novo, mais afim aos interesses dos capitalistas voltados para as exportações, mas também inexperiente.

Em resumo: banca nac. + construção vs. exportadores + banca int.

Não obstante, os exportadores nunca estiveram propriamente no governo. Elegeram um governo ideologicamente afim, mas – como se depreende deste debate – continuaram apenas ocupados com alguns setores do governo (em especial a AICEP e o Ministério dos Negócios Estrangeiros), e não com a sua estratégia como um todo. Pelo contrário, a banca internacional, representada pela troika, esteve bastante próxima do governo. Embora com a atitude peculiar de lavar as mãos das decisões tomadas. (Depois de pressionar o governo a baixar a TSU para as empresas e a reduzir salários, afirmou descaradamente que nunca propôs ao governo fazê-lo). A troika obrigou o governo a controlar a despesa do Estado e propôs algumas medidas experimentais e ineficazes para promover o crescimento. Por outras palavras, ignorando as brincadeiras da troika, a banca internacional só serviu para “garantir” que o Estado português pagava as contas.

A banca nacional, curiosamente, tornou-se o principal aliado da troika. Como comentei aqui, isto deveu-se ao facto de que nenhuma economia sobrevive sem crédito. Por isso, os governos são obrigados a fazer o que os bancos querem. O processo de apoio estatal à recapitalização da banca foi transformado de modo a ser-lhe altamente favorável, o que mostra a evolução da influencia do setor no governo entre meados de 2011 e meados de 2012. A construção civil quase desapareceu sem o apoio do Estado. Ficaram aquelas grandes negociatas (as PPPs) que, por serem uma fonte de rendimento seguro da banca, foram protegidas. (Um empresário, no Facebook, perguntava: como se corta num rendimento da banca que já andamos a subsidiar? Para aumentar nos subsídios o que se poupou nas PPPs?).

Assim, o governo chegou ao poder ideologicamente alinhado com os exportadores, mas não organicamente controlado por eles. Liberalizou o mercado de trabalho; rompeu, até onde pode, o vínculo orgânico entre o Estado e a construção civil + banca (o caso das obras do parque escolar); e passou a fatura do défice para os funcionários públicos. O governo parecia ir no bom caminho. A primeira medida era ideologicamente correta, embora se pudesse duvidar da sua eficácia. A segunda era exatamente a medida necessária – o que prova que a luta se configurava, na subjetividade concreta daqueles que o propunham, como uma disputa intra-elitista. E a terceira transitória mas aparentemente inevitável. Esta inevitabilidade, por seu turno, mostra bem que a luta era objetivamente de facto entre classes, apesar da convicção subjetiva das classes dominantes. Por outro lado, a divisão orgânica das classes trabalhadoras tampouco favoreceu a perceção subjetiva desta luta objetiva: as medidas de austeridade impunham-se a uma fração das classes trabalhadoras incapaz de arrastar atrás de si as outras.

Um ano depois, isto é, em março passado, a política do governo começa a fraquejar. O programa de Passos já não convence por si mesmo, e foi obrigado a apelar à boa imagem de Salazar. Apesar do aumento espetacular das exportações, o aumento do desemprego mostra que a transição de uma economia puxada pela especulação imobiliária para uma economia puxada pelas exportações era inviável… pelo menos de forma tão acelerada. Não obstante, a banca internacional e nacional, neste momento, já estavam organicamente articuladas ao governo. E, apesar de ter permitido a derrapagem atual, manteve os objetivos estritos para os próximos anos. Os empresários que ficaram fora do governo, mais uma vez os exportadores mas não só, já vieram dizer que não há espaço para mais austeridade. Colocar os trabalhadores a pagar a dívida, como o FMI e o governo fizeram, é também tirar clientes aos empresários. Por outro lado, os comentadores na periferia da elite (ver aqui, aqui e aqui), mais ideologicamente que organicamente vinculados com ela, defendem que sim há espaço para mais austeridade, mantém ao pé da letra o programa original de Passos Coelho. Por isso vêm um espaço para mais “austeridade”: a destruição do que resta da antiga aliança entre a Estado/construção civil/banca, isto é, renegociando as PPPs… a despeito do interesse e do poder da banca.

A divisão intra-elitista, e os ataques ao governo que os dois últimos grupos vêm fazendo, abriu a porta à contestação social: colocou meio milhão de pessoas nas ruas. A paz social só pode ser conseguida de dois modos. Ou um dos lados cede, ou vamos a eleições. Mas a banca parece pouco disponível para ceder. Paulo Portas já confessou que a questão da TSU pode conduzir a uma crise entre o governo e a troika. A troika dá uma no cravo e outra na ferradura. Por um lado, alerta para as consequências sociais da medida; por outro, diz que só liberta o dinheiro quando ela for aprovada. Outro dos elementos do discurso de Paulo Portas é a indicação de que o empresariado português ainda tem a esperança que o governo e a troika recuem. Daí que eu prevejo que eles irão atiçar a contestação popular pelo menos no curto prazo. Podem ceder; mas o mais certo é terem brincado com o fogo e as manifestações só terminarem com eleições.

16 de Setembro de 2012 Posted by | Economia, Portugal | , , , , , | Comentários Desativados em 15s, primeiro comentário

Portugal no caminho da Grécia?

A declaração de inconstitucionalidade da suspensão dos subsídios de férias e natal dos funcionários públicos tornar-se-á, inevitavelmente, o ponto nevrálgico do debate político dos próximos tempos. Mas existem condições particulares da conjuntura. Como já afirmei aqui, e atualizei aqui, os efeitos da austeridade retiraram a Passos Coelho o apoio político que ele gozou entre os empresários portugueses. As falências e o desemprego e a consequente quebra do consumo estão a deixar empresários em pânico. Só a banca, que está a ser recapitalizada pela troika, defende a austeridade (à, exceção do BES que se recapitalizou com capitais próprios). Em suma, Passos Coelho está praticamente como Sócrates há um ano: apoiado na banca, contra o resto da elite económica portuguesa. Apenas mantém, ao contrário de Sócrates, o apoio de Bruxelas.

Existem duas opções em cima da mesa sem quaisquer possibilidades de ser realizadas: devolver os salários aos trabalhadores relaxando a austeridade (como defendem os sindicatos); ou cortar nas PPPs (como defendem certos comentadores políticos). O primeiro vai contra a lógica do sistema; o segundo vai contra os grupos mais fortes deste sistema. Lembro-me que, na questão das rendas das energias, a troika aceitou que a renegociação por mútuo acordo, isto é, só até ao ponto em que as empresas aceitaram! O mesmo vai acontecer nas PPPs.

Assim, a questão coloca-se neste termos: Estes cortes salariais vão servir para o ajuste das contas do Estado e para a tentativa (sublinho, tentativa – porque não acredito que seja possível) de cumprir o défice? Ou, pelo contrário, levaram em conta as preocupações dos empresários portugueses com o excesso de austeridade? Eu esperei que a CIP se posicionasse em favor desta última via. Acreditei que os patrões viessem defender a suspensão dos subsídios no sector privado, a favor dos patrões e não do Estado, de modo a substituir o eterno retorno da redução da TSU. Mas não! Parece que essa opção não está em cima da mesa.

De qualquer modo, em termos genéricos, as opções do governo são duas: ou insistir na impossível meta do défice para “agradar aos mercados“; ou aliviar a austeridade para permitir a Portugal crescer. Trata-se, sem dúvida, de um braço de ferro entre os credores do país e os seus empresários. É bastante provável que ganhem os primeiros. Mas neste caso iremos no caminho da Grécia. Senão na esfera económica, pelo menos a esfera política: A própria direita, isto é, os empresários e opinion makers acusaram Bruxelas de levar a cabo uma experiência económica com o seu país e as suas vidas. Um apelo ao nacionalismo que se enraizará facilmente na população… estendendo o tapete vermelho à esquerda… ao Bloco de Esquerda (qual Syriza!).

9 de Julho de 2012 Posted by | Economia, Portugal | , , , , , | Comentários Desativados em Portugal no caminho da Grécia?

Da fuga em frente à marcha atrás

A vinda de Krugman a Portugal coincide com o PS a divorciar-se do acordo com a troika. O tom é dado por Mário Soares, que ora se cala,  mandando um recado ao PS para se calar, ora vem afirmar que a austeridade não leva a lugar nenhum. De facto, e como já disse aqui, a Europa divide-se entre a opção uma economia voltada para o mercado interno – dinamizado pela construção civil e endividamento do Estado e das famílias – e a opção por uma economia voltada para a exportação. O primeiro modelo (um keynesianismo empobrecido) está esgotado. O segundo está longe de dar resultados: a banca está hoje a soro (ver aqui e aqui também). Exportar para onde? Com o decrescimento da economia, a dívida soberana torna-se impagável. Depois de um ano de governação pelo segundo modelo, é significativo que três universidades portuguesas tenham concedido um doutoramento Honoris Causa a um keynesiano. Sinais do tempos.

Sinais dos tempos que refletem uma marcha atrás na austeridade europeia. Apesar das declarações recentes de Merkel e Barroso, a verdade é que, desde janeiro, o crescimento económico começou a ombrear com o equilíbrio orçamental na agenda dos Conselhos Europeus. Acordos europeus que, há uns meses, eram inquestionáveis, hoje são alterados. O G20 coloca a possibilidade de abrir os cordões à bolsa. E o Spigel, jornal alemão que há dois anos atrás pintava os europeus do sul de preguiçosos, questiona agora abertamente a eficácia das políticas de austeridade (ver aqui também). E a Grécia? A possibilidade de uma vitória à esquerda não terá obrigado os líderes europeus a refletir? Não! As mudanças começaram antes do surgimento das sondagens que davam a maioria aos três países à esquerda do PSOK. Mas essas sondagens parecem ter vindo a acelerar essas mudanças. O melhor indicador dessa mudança são as notícias nos jornais e na televisão. Até há pouco, toda a gente falava de austeridade; de há umas semanas para cá, o (des)emprego tornou-se mais importante!

Assumindo que tive razão e foi Bruxelas que colocou Passos Coelho no governo, pode repetir-se em 2012 o mesmo descompasso entre a Europa e o governo português que esteve na origem do calamitoso ano político de 2010. Desta vez a Europa será mais keynesiana de trazer por casa e Portugal mais liberal (ao contrário de há dois anos atrás). O PS, como o PSD há dois anos atrás, já se desalinhou da austeridade para alinhar-se com possíveis novos ventos.

27 de Fevereiro de 2012 Posted by | Economia, Partidos, Portugal | , , , , , , | 5 comentários