Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Trotsky e a escolástica

Terminei o meu segundo investimento no pensamento trotskista. Li A revolução permanente da editora Sundermann. O livro inclui não só a obra que lhe dá o nome, mas também Balanço e prespetivas, o artigo de Trotsky sobre A revolução espanhola e quatro cartas, da correspondência entre Trotky e Preobrazhensy acerca da revolução chinesa.

A leitura foi proveitosa. Não encontrei o que esperava: outro instrumentos para pensar o quanto a revolução socialista é mundial. Trotsky afirma-o; mas não dá detalhes que eu já não tivesse lido em Lenin. Por outro lado, fui surpreendido pelo que talvez seja a origem do erro da esquerda no séc. XX. Páginas tantas, Trotsky lamenta “tão miserável escolástica no órgão central do partido de Lenin!” (p. 140). Mas ao opor-se a Stalin e a Bukharin entra no mesmo terreno. Uns e outros, dissertavam acerca de qual das teorias – a “Revolução permanente” ou o “Socialismo num só país” – era mais fiel às palavras de Lenin. Stalin retirou do debate a questão de qual, dos dois, era mais pertinente para a realidade onde era aplicada. Trotsky, aceitando o terreno da disputa, não a recolocou.

Quando analisa a situação das revoluções espanhola e chinesa, Trotsky fica a meio caminho entre a análise marxista e o “marxismo” escolástico de Bukharin. Tal é a vontade de tomar a Revolução Russa como modelo que os acertos e os fracassos dos comunistas espanhóis e chineses se medem contra a dissertação escolástica de como foi a Revolução Russa.

Este “erro” pode ser só aparente – Trotsky faz as devidas adaptações e a China e a Espanha comungavam de traços sociais semelhantes à Rússia. Não obstante, o erro de Stalin e Bukharin – transformar o marxismo num exercicio escolástico – estendeu-se ao trotskismo ao longo do século XX. Emanuele Saccarelli afirma que Trotsky é mais atual que Gramsci porque se opôs a Stalin com mais acutilância. A LIC-QI acusa Cuba de ter abandonado o socialismo no momento em que desapareceram os três princípios que, segundo Trotsky, caraterizam um país socialista. Mesmo a Corrente Internacional Comunista – o movimento trotskista que mais prezo – veio afirmar que o problema dos partidos comunistas é tomar Marx pela metade.

Enfim, a disputa entre Stalin e Trotsky acerca de quem compreendia melhor Lenin tornou-se a disputa entre os partidos de esquerda de todo o século XX. Tanto que é fácil encontra do lado do PCP ou do lado do MRPP estes debates escolásticos bem distantes da realidade. Uns acusam os outros de tomar Lenin e Marx pela metade. Nenhum vê que, mais importante que isso, é tomar a realidade por inteiro.

(continua…)

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6 de Julho de 2012 - Posted by | Ideologia | , ,

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