Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Notas sobre a morte do Santigo Ilídio

O que acontece hoje no Brasil é gritante. Se a vida pessoal me tinha atirado para o sofá, os acontecimentos exigem que vá para a rua. O cinegrafista Santiago Ilídio morreu depois de ter sido atingido por um foguete (rojão de vara) lançado por um manifestante. Duas pessoas foram presas (aqui e aqui).

Sobre este assunto quero fazer algumas notas:

1.° Nenhuma morte de um ser humano nos deve deixar indiferentes; nenhuma morte deve ficar impune. Não posso subscrever a posição de alguns partidos de esquerda que buscam isentar os dois responsáveis pelo acidente (ver aqui). Quem brinca com o fogo queima-se. E estes brincaram com fogo e pólvora no meio de uma multidão. Que seja feita justiça!!!

2.º Vários setores conservadores aproveitaram o acontecimento para fazer a mais suja campanha contra as manifestações e os partidos à esquerda do governo. O editoral de hoje da Globo é a vitrine desta campanha. Por todos os meios se busca ligar os dois acusados ao deputado do PSOL Marcelo Freixo. Também o advogado do primeiro preso, de proveniência duvidosa, afirmou que o seu cliente recebia dinheiro de partidos para ir nas manifestações provocar tumultos. O Estadão, como bom aluno, aceita vergonhosamente a propaganda da Globo como facto.

3.º Sobre o anterior tenho duas coisas a dizer. A) Não é a primeira morte (e aqui) desde que as manifestações do Movimento Passe Livre tomaram parte da agenda política (aqui e aqui também). Onde tem estado o jornalismo empenhado da Globo? B) Conheço bem demais a forma como estas manifestações são organizadas, bem como o tipo de pessoas que as organizam. Não há nem logística nem dinheiro para pagar 150 reais a cada membro dos Black Blocs. Pior, os Black Blocs tendem a isolar-se do grupo principal com sua agenda própria.

4.º Há uma justiça para ricos e outra para pobres. Será que Caio Silva vai ser condenado a “serviços à comunidade” como Thor Batista? Obviamente que não. Essa “violência”, de se saber menos humano que outros perante a justiça, deveria servir de atenuante para Caio Silva e justificar, em parte, a sua fúria perante o mundo e a manifestação.

5.º A elite age com as duas mãos. Ao mesmo tempo que avança com esta propaganda contra as manifestações, restringe os direitos democráticos dos manifestantes (aqui e aqui também). O que está em marcha, sob a liderança de um governo dito de esquerda, cheira a fascismo.

6.º Em resumo, a elite está como sempre: a provocar uma guerra entre as favelas e a classe média para manter-se no poder.

Para que a morte de Santiago Idílio não sirva ao espírito de porco da burguesia, e por estas seis razões, voltaremos para as ruas quinta-feira.

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12 de Fevereiro de 2014 Posted by | Imprensa, Segurança Rio, Sociedade Brasileira | , , , | Comentários Desativados em Notas sobre a morte do Santigo Ilídio

Indignados à brasileira

Não vi com bons olhos a chegada do movimento global dos indignados ao Brasil. Assisti a tudo isso com dois pés atrás. Por um lado, a crise não é global. O Brasil, como a China ou a Índia, estão num momento expansivo do capitalismo. Ao contrário da Europa e Norte de África que vivem um momento de contração. As características do movimento seriam (e foram) dadas pelas características do momento: sem nenhum aperto claro, incapazes de juntar-se àqueles que vivem permanentemente apertados, o movimento tornar-se-ia e tornou-se um espaço para estudantes divagarem acerca de um mundo sem Estado, sem líderes e sem poder, glosando Negri, Deleuze ou, no melhor dos casos, Foucault.

Por outro lado, a direita não há muito tempo, tinha iniciado uma campanha contra a corrupção. Uma campanha bem paga e sem símbolos, o que levou algumas pessoas perspicazes a dizer: uma campanha paga por aqueles que não querem pagar impostos. O risco do movimento jogar lenha nesta fogueira era elevado. E o movimento jogou. A Veja (revista brasileira que faz o Correio da Manhã parecer um jornal imparcial), publicou um número com o título de capa Dez motivos para se indignar com a corrupção, associando o movimento global àquela campanha de direita.

Obviamente, o movimento já divulgou uma carta de protesto. Mas, como diz um amigo, não será fácil explicar que tomada não é focinho de porco.

30 de Outubro de 2011 Posted by | Imprensa, Sociedade Brasileira | , | 1 Comentário

O perfeito disparate jornalístico

O Economist publicou hoje aqui um perfeito disparate: um gráfico onde compara a idade média da população com o idade do seu presidente. E dele conclui que nos países democráticos os presidentes têm uma idade mais próxima da média. Claro está que os maus da fita (Cuba, Coreia do Norte…) e as ditaduras da moda (Egipto) encaixam-se perfeitamente na análise.

Mas o melhor foi um comentário que a notícia recebeu via facebook:

O Economist está a gozar. Isto é pior do que estatística, é lixo. Sugiro, nessa linha, comparar a existência de ditaduras com a temperatura média. Verão que as ditaduras prevalecem nos países com uma temperatura média mais elevada. Então, poderemos concluir que o aquecimento global irá contribuir para piorar a situação. Mas (esperemos) a próxima era do gelo irá resolvê-la.

Não conheço o autor deste comentário, mas está muito bem sacado!!!

15 de Fevereiro de 2011 Posted by | Imprensa, Mundo | , | Comentários Desativados em O perfeito disparate jornalístico

Jornalismo, violencia e economia

Nestas disputas entre esquerda e direita, meios de comunicação alternativa e meios de comunicação hegemónicos, Carta Maior e Globo, vale reparar que o que os distingue – entre todas as coisas – é a temporalidade com que trabalham. As perguntas que os jornalistas colocam, por estarem colocados (posicionados) numa temporalidade diferente, não são as mesmas. A temporalidade da esquerda é mais ampla que a da direita. Por isso, uns esquecem que há urgências, outros que há importâncias!

A cobertura que a imprensa fez da ocupação do Complexo do Alemão é elucidativa nesse sentido. Enquanto a Globo contava cada rajada de balas, entrava de urgência em directo sempre que um tiro era disparado e ainda que fosse por engano; os blogs alternativos fizeram textos analises de tempo longo, mostrando que o narcotráfico e a violência no Rio é resultado da debilidade institucional da polícia e da exclusão social das áreas violentas. Enquanto uns deixavam de perguntar-se como as armas chegaram à favela, outros esqueciam que elas já lá chegaram.  Enquanto uns procuravam resolver o problema com remendos por não reflectirem por as suas causas; outros, tão dedicados à análise das causas, postergavam a solução de tudo aquilo que devia ser solucionado de imediato.

Outro exemplo, é a recente medida do governo em aumentar a reserva compulsória dos Bancos com o objectivo de controlar a inflação. Infelizmente, e pese ao ponto de vista ideológico, o Estadão é o melhor jornal para quem está preocupado com assuntos económicos. Basta comparar o artigo publicado na Carta Maior com aquele publicado no Estadão: enquanto o primeiro foge do problema para o longo prazo – e, pelo caminho, elogia o PT – , o segundo oferece-nos mais a velha tese ideológica do menos Estado é melhor Estado. Se os problemas económicos que Dilma Russeff vai enfrentar são escondidos no primeiro texto; o segundo, apontando o problema das contas do Estado, esconde que a despesa do Estado inclui igualmente o custo de manter as tropas brasileiras no Haiti e o programa Fome Zero.

O jornalismo de direita é míope; o de esquerda sofre de hipermetropia.

7 de Dezembro de 2010 Posted by | Ideologia, Imprensa | , , | Comentários Desativados em Jornalismo, violencia e economia

A Dilma e a comunicação social

A relação dos governos petistas com a comunicação é complexa. Já se sabe que os principais meios de comunicação social estão contra o PT. Chegou-se ao ponto do jornal Estado de São Paulo assumir publicamente, e durante a campanha eleitoral, uma posição pró PSDB. TV Globo, o jornal A Folha, etc. fizeram o mesmo, embora sem o tornarem oficial. Tudo isto lhe valeu o apelido de PIG – Partido da Imprensa Golpista – um apelido (em Portugal, alcunha) criado pela esquerda Brasileiro.

No ano passado, foi organizado um conjunto de conferências que culminaram na Conferencia Nacional de Comunicação. Esta conferencia propôs pouco mais do que aquilo que já está estipulado no Titulo VIII capítulo V da Constituição Federal do Brasil. Dada a impossibilidade de analisar as centenas de propostas aprovadas na conferencia, vale a pena citar as mais polémicas e demonstrar que pretendem apenas fazer cumprir as disposições da constituição.

  • Criar um concelho federal e concelhos estaduais de comunicação social. O concelho federal está previsto no artigo 228º da Constituição de 1988 e, não sendo jurista, parece-me racional que os concelhos estaduais se justifiquem como desdobramento do primeiro.
  • Regulamentar os conteúdos emitidos através de radiodifusão, dando carácter obrigatório a programas educativos e outros pertinentes e impedido programas racistas, ou discriminatórias de outro tipo. Trata-se aqui de passar a lei o previsto no inciso 3º do artigo 220º da Constituição e  também do artigo 221.
  • Impor limites a concentração económica da propriedade dos meios de comunicação, isto é, legislar o previsto no inciso 5 do artigo 221.

Posto isto, a Conferência propôs aquilo que está constitucionalmente “previsto”. Pode, é certo, ter sido mais exigente que o necessário nas suas propostas, pode até discutir-se os mais o menos xis-por-cento de uma cota, de um limite, de um financiamento. Mas não há dúvidas: o que está aqui em causa é passar do texto fundamental à lei ordinária.

Vale a pena considerar que a Constituição possa estar equivocada? É um questão legítima. Mas a resposta é dada pela realidade. Sem controlo social, estatal ou burocrático, a comunicação social vira-se para o que dá dinheiro, o que assegura a publicidade, como uma bússola para o norte. Poucos jornais dando as mesmas notícias da mesma forma; eis o resultado da “liberdade” de expressão. Isto é resultado de serem poucos os jornais (como acontece com qualquer outra empresa) que, em livre concorrência podem sobreviver; e para fazê-lo, esses pequeno número de grandes empresas utiliza a mesma estratégia. Portanto, as notícias e o entretimento são enfadonhamente homogéneos.

A liberdade de expressão enferma de falta de diversidade de expressão!!!

No início da campanha, o PT chegou a cogitar avançar com as propostas de Conferência. Lula afirmou, quase um ano antes das eleições, que as propostas da conferência iram ser transformadas em lei. E consta que o programa eleitoral de Dilma Russef chegou a comprometer-se com elas. Mas logo, a Veja liderou uma campanha contra a conferência e o PT deu um passo atrás. A referência à Conferência Nacional de Comunicação foi retirada do programa de Dilma Russeff, e na última semana de campanha eleitora a candidata obrigou-se a repetir o seu compromisso com a “liberdade de imprensa”. E, quando não precisava de ganhar mais votos, no seu discurso de agradecimento ao receber a confirmação da sua eleição, Dilma Russeff repetiu, mais uma vez, o compromisso que agradou às grandes meios de comunicação social.

O sonho ficou ferido de morte nesta campanha eleitoral pela própria Dilma Russeff. Há dois dias, a ala esquerda do PT tentou ressuscitá-lo. Esperança para muitos ou devaneio de alguns? Aguardo desenvolvimentos!

9 de Novembro de 2010 Posted by | Brasil, Imprensa, Sociedade Brasileira | , , | Comentários Desativados em A Dilma e a comunicação social