Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Advertência

Depois de dois debates acerca deste post no Facebook, resolvi escrever esta ADVERTÊNCIA METODOLÓGICA. Quero aqui explicar como monto os meus argumentos, pois, ao fim de muitas leituras sociológicas, é inevitável que alguns textos exijam algum conhecimento de sociologia para a sua compreensão. Mesmo que sempre tente evitar essa exigência, a verdade é que pensar sociológicamente fica tão entranhado que nem dou conta que aquilo que para mim parece óbvio só se tornou óbvio depois de uma longa lista de leituras.

Não tem muito sentido aqui explicitar essas leituras, mas um sociólogo que passe por aqui ficará curioso. Assim que direi que se trata de uma sobre-simplificação da teoria dos campos de Pierre Bourdieu, ajudada pela leitura que faço do Il risorgimento de António Gramsci. Essa sobre-simplificação foi sistematizada em duas folhas a que chamei o método do blog.

Seja comentando os protestos de massas, seja as decisões do governo, parto sempre da análise das contradições internas daquilo que analiso. Essa  contradição interna deve-se sempre à existência de dois ou mais discursos, isto é, duas ou mais formas de dar sentido, no duplo sentido, enquanto significado e direção, respetivamente ao protesto e à política nacional. Mas estes discursos nunca aparecem claramente separados na fala e na prática das pessoas e organizações envolvidas. É o meu trabalho isolar os elementos de cada um dos discurso, num trabalho que pode ser mal chamado de “purificação”. A tarefa seguinte é batizar cada um desses discursos para que, uma vez apresentados, os possa emprega na análise apenas chamado-os pelo nome.

“Purificar” e batizar induzem em dois erros. Ora sou criticado porque esses discursos não existem e me perguntam: “afinal, estás a falar de fulano, de sicrano ou de beltrano?”. Ora sou mal interpretado por uma infeliz escolha de palavras para nomear um discurso. Como se entende do parágrafo precedente, os discursos não existem em si. Voltando ao post que me motivou a escrever este texto, onde trabalho com a oposição entre um “discurso moralista” e um “discurso sócio-económico”, reafirmo que não existem organizações que façam o discurso moralista puro-e-duro, mas sempre combinado com elementos do outro discurso, a que chamei de “discurso sócio-económico” e vice-versa. Por outro lado, o termo moralista não pode ser interpretado no seu sentido corrente, de um discurso amarrado aos bons costumes no mau sentido. Quando falo de um “discurso moralista” no post refiro-me sempre ao modo como o defini: “um discurso (…) que vê no movimento um movimento contra os políticos que, segundo o seu diagnóstico, são os culpados da crise”.

Para quê então dar estes dois passos que induzem em dois erros? Ora, porque ao “purificar” os discursos torno evidente a sua contradição. Mas não só: ela torna também evidente as suas consequências. Somente quando o discurso é “purificado” a relação entre sentido/significado e sentido/direção se explicita. Onde consegui realizar melhor esse trabalho foi num texto sobre a legalização da prostituição (ver a Figura 1 e sua explicação). O modelo, este sistema de discursos, está para o meu trabalho de análise política como o metro está para o carpinteiro. É uma ferramenta de análise. Brincando, depois deste trabalho todo, é agora que o trabalho começa.

Dotado deste modelo, desta ferramenta, posso:

  • Comentar uma notícia, a opinião de um político ou de organização, mostrando 1) o modo como ali se está a promover um discurso e se afasta o outro e 2) o quanto a escolha de um discurso se deve aos interesses de quem dá a notícia ou emite a opinião. Eis a importância da relação entre sentido/significado e sentido/direção.
  • Observar como um político, uma organização ou aquilo que estou a analisar – as manifestações, as decisões do governo, etc. – evoluem convergindo na direção ora de um ora de outro “discurso puro”. A partir daqui posso ir em busca dos motivos de cada viragem, identificar tendências e – muito raramente – fazer previsões de curto prazo.

Não será preciso dizer que cada caso é um caso e o mesmo modelo não serve para tudo. O modelo ou sistema de discursos com que analiso as mobilizações contra o FMI em Portugal, à primeira vista, parecem-me util para analisar as mobilizações em Espanha ou na Grécia. Mas, apesar de todas a semelhanças, tenho muitas dúvidas que o mesmo modelo possa ser aplicado para explicar as mobilizações de jovens no Norte de África. Neste documento, por exemplo, apliquei o mesmo modelo para ver como o G20, a União Europeia e os governantes de Portugal lideram com a crise económica durante o ano de 2010. Tenho dúvidas que possa manter esse modelo para analisar o governo de Passos Coelho – pelo menos, por nestes primeiros meses.

Em geral, os textos deste blog fazem uma ou outra destas análise. Este e este post exemplificam cada um desses dois tipos de análise. Mas nem sempre sigo o método que construí para o blog. Às vezes sou panfletário; outras vezes uso outros métodos de análise; às  vezes mando recados; outras vezes apenas tomo apontamentos. Tudo depende.

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